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1.3 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E OS SABERES AMBIENTAIS PARA A

1.3.2 Saberes constituídos e possíveis: um diálogo entre gêneros e gerações

1.3.2.2 Idosos e idosas, entre o passado e o futuro

O crescente aumento da população idosa deixou de ser uma característica demográfica própria de países desenvolvidos, tornando-se uma realidade em países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil. Entre os fatores que explicam tal transformação está o aumento da expectativa de vida e a redução das taxas de natalidade. As atuais características demográficas resultam da evolução nos campos da medicina e da indústria farmacêutica, dos investimentos em saneamento básico e das melhorias nas condições de vida. O aparecimento do anticoncepcional, seguido pelos métodos contraceptivos que trouxeram às mulheres a possibilidade de programar uma gravidez e a quantidade de filhos que teriam ao longo da vida, assim como as vacinas, os antibióticos e a evolução nos tratamentos médicos também contribuíram para o aumento da expectativa de vida (VECCHIA et al., 2005; CLOSS & SCHWANKE, 2012).

Segundo dados do IBGE23, o Índice de Envelhecimento24 (IE) do Brasil e do Paraná está em progressão. No ano 2000 o IE do Brasil era de 18,66, e o do Paraná, de 18,82. Em 2014

23 http://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/. Acesso em 01/03/2016. 24 IE=

os valores nacionais correspondiam a 32,28, e o valor do Paraná, a 37,13. Projeções para 2020 indicam que esses valores estarão próximos a 50%, sendo que o Brasil ficará com 42,62 pessoas, e o Paraná com 49,92. Em 2030 a razão de dependentes será proporcional entre os idosos, as idosas e a população de zero a 14 anos, no Paraná e no Brasil. No Paraná o crescimento da população idosa será maior que o da população nacional, por apresentar uma taxa de crescimento menor que a do Brasil. Estimativas apontam que a maioria desses idosos serão mulheres, por apresentarem maior expectativa de vida em relação aos homens. As transformações no perfil demográfico do país, a redução progressiva das taxas de fecundidade e do aumento da expectativa de vida levantam um importante debate, já enfrentado em outros países: como será o Brasil quando a maior parte da sua população for majoritariamente de idosos e idosas? Quais serão as condições de vida dessa população? E o mercado de trabalho? Quem manterá o sistema previdenciário? Apesar da importância dessas questões, não são elas que nortearam esta discussão. O que se tem discutido nessa recente área de conhecimento é a situação dos idosos e das idosas no atual contexto social e econômico.

É diante desse contexto que os estudos sobre o envelhecimento têm buscado uma transformação paradigmática em sua maneira de considerar esse fato. O envelhecer ainda carrega uma visão “negativa e deficitária do envelhecimento, que contabiliza exclusivamente as perdas do processo”. No entanto, a influência das políticas públicas e das pesquisas na área tem contribuído para que essa visão depreciativa venha a ser substituída “pela noção de que a velhice é uma fase do ciclo vital marcada por perdas e ganhos concorrentes”. Entre as contribuições destacadas pela autora está a valorização das experiências pessoais dos idosos e das idosas, que geralmente são partilhadas por meio de suas memórias. Nessa perspectiva, a da psicologia positiva do envelhecimento, busca-se reconhecer as possibilidades e capacidades de florescimento de indivíduos e grupos sociais, fortalecidos pela sua “capacidade de enfrentar os desafios físicos, sociais e intrapsíquicos da velhice e pela luta pela auto-realização e pela felicidade”. Essa perspectiva não é compensatória ou de autoajuda, mas sim uma nova interpretação sobre as formas de enfrentar o processo de envelhecimento (NERI, 2009, p. 9).

No entanto, as condições necessárias para que os idosos e as idosas tenham boa qualidade de vida excedem “os limites da responsabilidade pessoal e devem ser vistas como um empreendimento de caráter sociocultural” (NERI, 1993, p. 9). Deps (1993, p. 59) ressalta que nessa fase da vida é comum os idosos e as idosas sentirem-se ameaçados diante das principais fontes de significado que compõem a vida, dentre as quais estão o trabalho, o status social e os novos investimentos, sejam eles pessoais, sociais ou afetivos. Isso porque na cultura ocidental, capitalista, a força de trabalho e a capacidade produtiva constituem-se em indicadores de

reconhecimento social, associados à juventude. A visão negativa do processo de envelhecimento “reflete-se nas oportunidades que lhe são oferecidas: por padrões de produtividade atual, o investimento no idoso ou para o idoso é subestimado, uma vez que não se acredita na possibilidade de retorno” (DEPS, 1993, p. 73).

Todavia, sua condição de consumidores, influenciada pela mídia, coloca as pessoas idosas diante da urgência de viver. A liberdade é ressignificada pelo consumo ao ser posta como uma possibilidade de viver e experimentar o que não se fez na juventude em detrimento do trabalho ou das responsabilidades familiares. Para Lipovetsky (2007, p. 70), o consumo “mantém relações íntimas com a questão do tempo existencial”, movido pela emoção. O consumo em nossos dias não se satisfaz pelo acúmulo, mas “na intensificação do presente vivido”. Na busca pelo bem-estar e por novas sensações, o idoso “é antes de tudo aterrorizado pelo ‘envelhecimento’ do já sentido, procura menos ocultar a morte que lutar contra os tempos mortos da vida”. Imprimindo sobre os idosos e as idosas o individualismo e o egocentrismo tão característico do capitalismo, contrapondo o que circula no imaginário coletivo de que o envelhecimento é degeneração, a posição de consumidores dos idosos e das idosas, condição humana da sociedade de consumo à qual estamos postos, os reinsere na discussão da questão ambiental, instigando-os quanto a sua posição de sujeitos produtores de conhecimentos e portadores de saberes. “Em cada fase de nossa vida, da infância à velhice, fazemos parte de um contexto que influencia as ações sociais dos outros sobre nós e de nós sobre os outros” (GÜNTHER, 2009, p. 14).

Pela memória, os velhos, as mulheres, ou seja, todos os que foram excluídos “da história ensinada na escola, tomam as palavras” (BOSI, 2003, p. 15). Além de ser um dos principais aspectos da psicologia do desenvolvimento, a memória é um elemento básico da cognição. A memória permite a interação do indivíduo com o meio, também fundamenta outros processos cognitivos, pois em nossa memória registramos as imagens que “recebemos, as novas informações apreendidas recentemente e, além disso, utilizamos nossos conhecimentos prévios para compreender novos conceitos, bem como para desenvolver problemas e raciocinar” (MADRUGA et al., 2014, p. 41). Segundo (BOSI, 2003, p. 15), a memória das pessoas idosas

[...] pode ser trabalhada como um mediador entre a nossa geração e as testemunhas do passado. Ela é o intermediário informal da cultura, visto que existem mediadores formalizados constituídos pelas instituições (a escola, a igreja, o partido político etc.) e que existe a transmissão de valores, de conteúdos, de atitudes, enfim, os constituintes da cultura.

A memória de longo prazo, a memória secundária, é de fundamental importância para a educação, pois ela é fruto das nossas experiências, em que “a recordação tem um caráter mais reconstrutivo do que reprodutivo” (MADRUGA et al., 2014, p. 46). A memória é socialização, é afetividade, pois “a criança recebe do passado não só os dados da história escrita; mergulha suas raízes na história vivida, ou melhor, sobrevivida, das pessoas de idade que tomaram parte na sua socialização” (BOSI, 1994, p. 73), tornando o aprender significativo (FREIRE, 1996). Entretanto, hoje “não há mais conselhos, nem para nós nem para os outros. Na época da informação, a busca da sabedoria perde as forças, foi substituída pela opinião” (BOSI, 1994, p. 85).