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Igarassu da Cidade e do Campo: parte do caso em estudo

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3.3 CONTEXTO DA PESQUISA

3.3.3 Igarassu da Cidade e do Campo: parte do caso em estudo

Localizado na macrorregião da capital do Estado (Recife) e na microrregião de Itamaracá – com divisas, ao Norte, com Goiana e Itapissuma; ao Sul, com Paulista e Abreu e Lima; a Leste, com a Ilha de Itamaracá, Itapissuma e o Oceano Atlântico; e a Oeste, com Nazaré da Mata, Carpina, Paudalho e Tracunhaém –, o Município de Igarassu, com trezentos e seis quilômetros de área, ganha contornos, como já afirmado, por seu campo, por suas praias e manguezais, por seu sítio histórico, por seu centro comercial e por sua área industrial.

Figura 8: Faixa litorânea do Estado de Pernambuco, com destaque para o Município de Igarassu Fonte: PEREIRA, 2012, 46.

89 “Observa-se o descompasso entre a realidade e as definições legais; áreas de preservação rigorosa ocupadas por assentamentos irregulares, ocupação construtiva em áreas ribeirinhas, culminando em descrença das ações do poder público no cumprimento das determinações legais. A reduzida incorporação da sociedade civil nas decisões, ou mesmo a ausência de garantia de atendimento às normatizações já elaboradas e em vigor, interferem, inclusive, na ocupação desordenada do território e na formação educacional dos moradores de Igarassu. É gerada, então, a ideia de que não há planejamento nem regulação da ocupação urbana”. (PEREIRA, 2012, p. 145)

127 Não são, no entanto, apenas esses contornos que traduzem sua história e suas memórias90. Sua gente – de acordo com o último censo (2010), a população do Município

é de 102.02191 pessoas, sendo 49.316 homens (48,3%) e 52.705 mulheres (51,7%) – tem

papel muito importante na construção dos espaços urbano e campesino e nas leituras que se podem deles fazer. Dessa população, conforme dados das tabelas abaixo92, 93.931

residem na zona urbana e 8.090, na zona rural.

Tabela 5: População por situação de domicílio e por unidade geográfica (1991, 2000 e 2010).

90 Ainda que não tenhamos explorado os possíveis sentidos de “memória”, nossa compreensão dela remete aos estudos de Le Goff (1996; 1998), com destaque para o fato de que memória diz respeito tanto à ordenação do passado (e de seus vestígios) quanto a uma releitura atual dele e atrela-se a uma forma narrativa que, diante de uma ausência, se torna o modo de reviver algo. Entendemos, ainda, que (i) a memória individual não se “desprega” de seu contexto social; (ii) que, na evocação de seu passado, o sujeito preenche lacunas de suas lembranças, ao reportar-se a elementos instituídos não apenas por si, mas também pela sociedade da qual toma parte (convenções sociais), o que evidencia a interposição de valores externos a ele na construção de suas memórias; e que (iii) a produção narrativa da identidade (no caso desta pesquisa, a da identidade profissional/de educadora do campo das entrevistadas) demanda a construção da memória (uma identidade já transformada pelo momento presente no qual o sujeito se insere).

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Trad. Irene Ferreira, Bernardo Leitão e Carmello Côrrea de Moraes. 4ª ed. São Paulo: UNICAMP, 1996.

_____. A História Nova. Trad. Eduardo Brandão. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

91 Disponível em: https://censo2010.ibge.gov.br/sinopse/index.php?dados=29&uf=26. Acesso em 27 de novembro de 2018.

92 Dados disponíveis em https://www.bnb.gov.br/documents/80223/3022339/Igarassu.pdf/cef6fdda-e4ca- 6ebd-84c6-2d725f9f09ce. Acesso em 27 de novembro de 2018.

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Tabela 6: Distribuição percentual da população por faixa etária e por situação de domicílio (2010).

Respaldados por essas informações, podemos afirmar que Igarassu se caracteriza como “aglomerado urbano”, com aglutinação de trabalhadores – residentes ou não, mas todos em fluxos determinados pela mobilidade urbana –, participativos d[n]as expansões local e regional. A presença de indústrias – em polos vidreiro, fármaco e automotivo – na Região Metropolitana Norte (RMN), da qual faz parte o Município, tem determinado esse fluxo e a dinâmica econômica dessa nucleação. Isso nos parece relevante, pois questionamos o quanto esses fluxo e dinâmica têm contribuído para que as/os jovens do campo recebam, em escolas do campo de Igarassu, uma formação pautada menos pela realidade que vivenciam e mais pela preparação técnico-prática para conquistar uma vaga de trabalho em um desses polos – o que, certamente, não desmerece a formação em si, mas põe em xeque, em nosso ponto de vista, os currículos e as especificidades da Educação do Campo no Município e a permanência futura dessas/desses jovens no território campesino.

Sabemos que as atividades de urbanização promovem intensos movimentos populacionais, financeiros e de mercadorias, em um mercado já afetado diretamente por elas, imprimindo feições próprias ao tecido urbano e, de certa maneira, instituindo um alargamento das desigualdades ou desagregações urbano-rural. É também nesse sentido que os indicadores do Atlas da Vulnerabilidade Social do IPEA93 sinalizam a ocorrência

93 IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas da Vulnerabilidade Social nas Regiões Metropolitanas Brasileiras. Editores Marco Aurélio Costa; Bárbara Oliveira Marguti. Brasília: IPEA, 2015 (p. 157-170).

129 na RMN de três faixas do Índice de Vulnerabilidade Social (IVS)94 que reiteram a

necessidade de um aprofundamento dos conhecimentos sobre elas em perspectiva cada vez mais localizada.

0,799-0,750 0, 749-0,650 0,549-0550 0,549-0,450

Figura 9: Índice de Desenvolvimento Humano Municipal do Estado de Pernambuco – IDH-M, 2010 (Melo, 2014, p. 69)95

Em análise do IDH-M de Pernambuco dos anos de 2000 e 2010, percebemos nítido avanço dos índices de municípios que, em 2000, se encontravam abaixo de 0,449 e, em 2010, passaram a compor a faixa de 0,649 a 0,550, com índices de baixo a médio desenvolvimento humano (é possível observar, também, que os municípios com maiores PIBs, em sua quase totalidade, possuem IDHs mais elevados). No caso de Igarassu, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) passou de 0,536 em 2000 para 0,665 em 2010, ainda que alguns indicadores de vulnerabilidade social sejam latentes, como o da renda per

capita dos vulneráveis à pobreza (indivíduos de renda domiciliar, em reais de agosto de 2010, a meio salário mínimo) ou como o do número de estabelecimentos e empregos formais, com queda de 20.789 e remuneração média de R$1.894,00, em 2014, para 19.073 e remuneração média de R$1.777,00, em 2015 (reflexo, possivelmente, das crises econômica e institucional experienciadas por brasileiras/-os de todas as regiões/todos os municípios do país).

94 O IVS, que complementa o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), constitui-se de dezesseis indicadores socioeconômicos em três áreas e dimensões como: infraestrutura urbana (saneamento básico e mobilidade urbana), renda e trabalho (ocupação remunerada, informalidade do trabalho e trabalho infantil) e capital humano (serviços de saúde e educação). Por sua vez, o IDH-M compõe-se de três dimensões – longevidade, educação e renda – e, embora mostre dados da realidade socioeconômica dos municípios, é insuficiente para lidar com a vulnerabilidade social estrutural, considerando-se que uma cidade pode possuir um IDH-M bom e, ainda assim, registrar vulnerabilidade social alta.

95 MELO, Maria das Neves Medeiros. Migração de Retorno: distribuição espacial e dinâmica econômica no Estado de Pernambuco. Dissertação (Mestrado em Geografia). Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Ciência de Ciências Geográficas, Recife, p. 117. 2014.

130 Ainda uma vez, retomamos, com esses indicadores de vulnerabilidade e em aparente paradoxo a eles, a questão dos fluxos e dinâmicas econômicas do Município, uma vez que, a despeito de não ser nosso propósito discutir questões relacionadas à mobilidade urbana, nos chama a atenção a complexificação da rede urbana, a partir da qual [inter]relações e sentidos de/entre cidade e região são redefinidos não mais necessariamente a partir da metrópole, mas de cidades de portes médio ou pequeno. Isso tem ocorrido com os deslocamentos cotidianos horizontais – entre trabalhadores de Igarassu que seguem para Goiana, por exemplo – e com a pluralidade de destinos que sugerem novos movimentos (e possibilidades) no urbano não metropolitano. Há processos novos na RMN que difundem o tecido urbano regional e que, mesmo que não desconectados das redes e sistemas que organizam o tecido urbano da metrópole (Recife), têm implicações sobre a mobilidade espacial e a dispersão urbana. É preciso, então, considerar que o desenvolvimento sem limites das grandes cidades e a migração como saída para o acesso a bens, serviços e ao próprio mercado de trabalho passa por mudanças e os deslocamentos horizontais começam a integrar as possibilidades das famílias e a alterar as relações entre urbano e regional. Não há, portanto, como ignorar os reflexos disso sobre as populações campesinas, visto que eles poderão tanto abreviar quanto alargar as formas históricas de desigualdade entre o trabalhador urbano e o trabalhador do campo.

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