Figura 12: Fachada do órgão do Convento de Santo Antônio – lateral direita
No convento de Sto. Antonio cultivava-se com esmero e dedicação a arte musical. Attestam-no o antigo órgão, desmontado nas ultimas reformas, como também os livros manuscriptos de côro, ainda conservadas (RÖWER, 1937, p.
384).
Como se pode ver no primeiro capítulo deste trabalho, o Convento de Santo Antônio logo tratou de pôr em prática a determinação do Revmo. P. Geral, de 2 de dezembro de 1758, que introduzia o canto-chão com órgão em todos os conventos103. O órgão comprado nesta época, que já não mais existe, estava localizado no coro, e
a sua caixa era uma bella peça de estilo barroco. Na face da frente viam-se os tubos de metal. O outro lado, olhando para o fundo do côro, apresentava um
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espaldar com um crucifixo que tinha aos lados as imagens de N. Senhora e de S. João, pintadas por Dominicano Pereira Barreto sobre a face interior de duas portas que, fechadas, cobriam tambem o crucifixo (RÖWER, 1937, p.
328).
Não se sabe a origem deste primeiro órgão que o Convento adquiriu. Acredita-se que, devido ao relacionamento econômico exclusivo com Portugal durante o período colonial, este seja um instrumento português, assim como todos os órgãos que chegaram ao Brasil nesta mesma época.
Somente após 50 anos de construção, entre 1802 e 1805, tem-se notícias de uma grande reforma no órgão, cujo responsável foi o Frei Antônio Agostinho de Sant’Anna. Nesta reforma foram acrescentados “dois registros em vozes e dois para flautar com os pés” (RÖWER, 1937, p. 328). Sobre o termo ‘flautar com os pés’, Frei Röwer comenta:
Que negocio era este? Conhecemos perfeitamente o orgão velho e examinamo-lo por fóra e por dentro. Não tinha pedaleira, nem vestigio siquer de que ella tivesse sido removida. O que descobrimos em lugar de pedaleira foram duas peças a serem batidas com os pés. E para que fim? Para – horribili dictu – tocar um grande bombo dentro da caixa e mais um triangulo e pratos. Experimentámos o effeito, um barulho infernal. Que decadencia da musica de igreja no principio do seculo passado. E isto chamava-se “flautar com os pés”? (ídem)
O organista deste período era Frei Elias de Santo Antônio104, que “manejando com fabulosa habilidade o órgão, fazia-o comunicar aos ouvintes os sentimentos e os arroubos que se apoderavam de sua alma. Foi um dos mais procurados organistas para tocar na capela real” (MARCINISZYN, 1982, p. 22). Frei Röwer também não poupa elogios ao frade músico:
Era Frei Sto. Elias aquelle cujo nome foi mais celebrado dentro e fora do Convento, Valeu-lhe isso sua rara habilidade e maestria no manejo do órgão. Era um encanto ouvi-lo tocar: por toda a parte se falava com enthusiasmo do artista no burel franciscano. Não admira que Frei Sto. Elias fizesse amizade com o não menos festejado musico padre José Mauricio. Não regateou este elogios a seu amigo e não hesitou em chamá-lo “rei dos organistas” (1937, p.
386).
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Marciniszyn (1982) usa o nome Frei Elias de Santo Antônio, enquanto Röwer (1937) o chama de Frei Antonio de Sto. Elias. Pelas descrições, acredita-se que seja o mesmo organista. Frei Elias entrou na Ordem em 1802, mas secularizou-se posteriormente.
Outra reforma fez-se necessária no órgão em 1823/1824. Neste período o Guardião da Ordem era o Frei José de S. João Chrysostomo. O custo da reforma foi de 300$000. Segundo Frei Lauro Both, o órgão foi desmontado em 1914 por não ter mais condições de ser usado nas missas, nem de ser novamente reformado105.
Apenas em 1931 resolveu-se comprar um novo órgão para o templo da igreja do Convento. Foi então feito um contrato com os construtores alemães Möhrle e Berner:
Compromettem-se os constructores Moehrle & Berner, Rio de Janeiro, rua Senador Furtado nºs. 135, a construirem para o Convento de Sant’Antonio, da mesma capital, um orgão moderno, solido, correspondendo ás justas exigencias da arte e collocal-o dentro do menor prazo possivel, de preferencia até a festa de Sant’Antonio, 13 de Junho de 1931, na dita igreja106.
O contrato foi assinado no dia 11 de fevereiro de 1931, ou seja, os construtores teriam apenas quatro meses para entregar o instrumento107. Obviamente o órgão não ficou pronto até a festa de Santo Antônio daquele mesmo ano, e foi inaugurado apenas em 6 de março de 1932 (RÖWER, 1937, p. 340). Segundo Sinzig, Möhrle e Berner foram “auxiliados pelos srs. A. Diemer, G. Gruhl, G. Weissenrieder e L. Lebert” (1931, p. 185).
Este foi o primeiro órgão construído por Möhrle e Berner no Brasil e desde o início esses construtores valorizavam a utilização de madeiras nacionais, conforme escreveram: “Applicar-se-a no orgão apenas madeiras de cedro e de jacarandá ou outra, de accordo e com approvação expressa do Convento de S. Antonio, preparada ainda especialmente, para protege-la contra o cupim108”.
A fachada do órgão foi montada nas duas paredes laterais da nave da igreja, “ficando o manual I do lado do Evangelho, o manual II do [lado] da Epistola, em
105 Anexo 6, p. 217. 106 Cd anexo, fotos 011. 107
Segundo Röwer (1937), o contrato para a construção do órgão foi assinado no dia 17 de fevereiro de 1931, mas esta data não corresponde àquela do contrato original encontrado no acervo de Berner (cd anexo, foto 013).
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estrado ao longo das paredes, na altura do coro dos religiosos109”. Segundo Röwer, “as caixas foram desenhadas e fabricadas pelo Irmão marceneiro Frei Roque Vieira ou sob a sua direcção. Obedecendo ellas ao puro estilo barroco, por si só constituem um bello ornato da igreja” (1937, p. 340). Os anjinhos que compõe esta fachada foram aproveitados do órgão antigo, assim como a maior parte das flautas, que foram fundidas e aproveitadas (SINZIG, 1931, p. 184).
O Grandioso Órgão–Duplo, como Berner o chamou em seu catálogo (BERNER, 1933, p. 6), possuía sistema elétrico e duas consolas – uma no coro e outra no corpo da igreja (na parte de baixo do templo). De acordo com o contrato, o órgão, que possuía 15 registros sonoros, custaria Rs. 17:400$000 (dezessete contos e quatrocentos mil réis), mas no catálogo de Berner consta que o valor foi de Rs. 90:000$000 (noventa contos de réis). Não se sabe a razão da diferença de quantias.
Möhrle e Berner também davam “garantia plena por 10 annos, durante os quaes, de graça, afinarão o orgão e o conservarão limpo e sempre prompto para ser tocado, impeccavelmente, em todos os registros110”. Mas parece que, após o fim da sociedade entre os dois, esta cláusula não foi mais cumprida. Em 23 de agosto de 1935, apenas três anos após a inauguração do órgão, Berner assinou um contrato para uma reforma no órgão do Convento. Röwer assim comentou o fato:
Dizem com razão que o orgão, principalmente o electrico, é como uma criança porque exige constantes cuidados. De facto, nos primeiros tres annos o nosso orgão necessitou de frequentes reparos e afinações. Tornou-se, por isso, preciso reformá-lo depois de tão curto tempo de serviço e aproveitou-se a occasião para introduzir alguns melhoramentos(1937, p. 340, 341).
Na Chronica do Convento de S. Antonio observa-se a indignação pela necessidade de reforma em um instrumento ainda tão novo: “Completou-se a renovação do órgão que esteve em conserto durante dois meses. Dispendeu-se a quantia de
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Cd anexo, foto 012.
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12:500$000 e isto num órgão que funciona apenas três annos e pouco!!!” (1935, p. 176)111.
Berner ainda fez a conservação do órgão durante cinco anos. Em agosto de 1943 o órgão passou por novas reformas:
O nosso órgão é o ai de Jesus dos Guardiães. Ultimamente não prestava mais, de modo que tornou-se preciso colocar de novo o harmônio na igreja. O construtor do órgão exigia para o conserto uma soma exorbitante. O nosso P. Guardião então meteu as mãos na obra, ajudado por um oficial, e conseguiu de fato pô-lo em melhores condições do que estava antes. Nesses trabalhos apareceu com quão pouco escrúpulo o órgão fora construído (Chronica do Convento de S. Antonio, 1943, p. 233).
Frei Lauto Both afirma que “não era um órgão estável. Havia goteiras, e aquele vento forte que entrava na igreja fazia com que o órgão não tivesse estabilidade no funcionamento112”. Também atenta para o fato de que Berner e Möhrle eram jovens, e estavam construindo ali seu primeiro órgão – ou seja, sujeito a ‘falhas’ de iniciantes.
Em 1960 foi feita outra grande reforma pelo organeiro Siegfried Schürle, tendo sido construídos dois someiros novos para o I e II manuais. Nesta reforma, a disposição dos registros foi alterada de forma a melhorar o acesso ao órgão (que fica suspenso nas paredes laterais da nave da igreja). Both continua:
O Schürle me falou que cada vez que vinha pra afinar este instrumento ele tinha que desmontar uma boa parte pra chegar até as flautas. Aí foi feito um pequeno enxugamento. Ele com o Provincial na época acharam por bem que o instrumento deveria ser de fácil manutenção, que tivesse um corredor dentro do órgão113.
Com a diminuição dos registros, “ficou um órgão mais para liturgia114”, com registros, sobretudo, de 8’. Segundo a Crónica do Convento115, “a melhor e maior reforma foi, sem dúvida, o órgão que ficou novo pelos trabalhos conscienciosos do
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As Crônicas do Convento de Santo Antônio são anotações manuscritas e encadernadas em livro, escritas por frades. As crônicas não são disponíveis para acesso público, sendo somente para uso interno. As citações utilizadas nesta pesquisa foram fornecidas à pesquisadora por Frei Lauro Both. A utilização das mesmas foi autorizada por Frei Roger, do Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro. Segundo ele, não foi possível encontrar nos livros os autores das respectivas citações.
112 Anexo 6, p. 217. 113 Idem, p. 219. 114 Idem, p. 220. 115
organeiro Sr. Siegfried Schürle sob a orientação generosa do Revmo. Padre Provincial Frei Heliodoro Müller” (1960, p. 79).
Atualmente o órgão precisa passar por nova reforma. Apesar de estar quase parado, sem funcionar, o órgão é tocado em duas ou três missas por semana. Um projeto feito pelo organeiro alemão Georg Jann, residente em Blumenau, está sendo estudado pelo Convento. De acordo com o novo projeto, serão acrescentados novos registros: o I manual seguirá numa disposição barroca e o II manual numa disposição romântica116. “Mas a especialidade do Georg Jann é a entonação, de modo que para a comunidade de organistas vai ser um bom órgão117”.
Também será feita uma nova consola, ou restaurada a consola antiga – a consola que ficava na parte inferior do templo foi retirada, por estar bastante deteriorada, e enviada ao Seminário Santo Antônio de Agudos. A segunda consola será móvel e ficará na parte inferior do templo.
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Anexo 6, p. 220.
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Figura 13: Consola do órgão do Convento de Santo Antônio118