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1.4. O pentecostalismo que se insere no Brasil: características – práticas e representações

1.4.6. Segunda Onda Pentecostal

1.4.6.1. Igreja do Evangelho Quadrangular

Essa igreja é a pioneira do movimento pentecostal de cura divina no Brasil. Sua fundadora foi a canadense metodista AymeeSempleMcPherson, que também teve contato com o pastor pentecostal de Chicago W. H. Durham. Sua fundação se dá em Los Angeles sob o nome de “Foursquare Gospel Church”. Apesar disso só chega no Brasil, através de pregadores de lá enviados, em 1951 com a “Cruzada Nacional de Evangelização”, um ambicioso movimento de caráter evangelizador que trazia novas formas de evangelização. Utilizando-se de lonas assemelhadas às de circo, instaladas em terrenos baldios ou sem

ocupação das cidades, esse movimento pregava o evangelho como tendo quatro principais pontos (daí o nome Quadrangular), quais sejam, Jesus Salva; batiza com o Espírito Santo; Jesus cura; e Jesus voltará. Dentro destas lonas aconteciam os cultos de maneira muito menos hermética do que em um templo pentecostal tradicional, e com contornos de espetáculo midiático, como programas de rádio com apresentadores carismáticos, e etc. Os pregadores enfatizavam as curas divinas e estas ocorriam em frente à multidão de expectadores.

[…] a novidade metodológica da IEQ: locais “seculares”, novo estilo de comunicação e maior arrojo no planejamento. A cura divina em si não era novidade, mas a sua massificação e práticas em locais públicos, sim. A apresentação visual dos pregadores era mais moderna e urbana do que a de um pastor da AD. (FRESTON, 1993, p. 84).

Essa estratégia de evangelização através das lonas levou as igrejas mais perto da população, principalmente em bairros periféricos, além de desmistificar o local de culto como templo sagrado levando a religião mais perto do cotidiano das pessoas. A estratégia foi muito bem-sucedida; já em 1964 a igreja contava com mais de 25 mil membros no Brasil (CAMPOS JR., 1995, p. 37). Após o uso das tendas, ocorria a construção de templos específicos, com características diversas.

Houve também maior oportunidade para as mulheres no que diz respeito à pregação [em sendo a fundadora da seita uma mulher]. […] Isso não acontece nos outros grupos pentecostais. O número de pregadoras ou missionárias que atuam nesse ramo do pentecostalismo é notável, pois em geral a orientação doutrinária ou mesmo a pregação são consideradas tarefas exclusivas dos homens (CAMPOS JR., 1995, p. 37).

A grande novidade trazida pela Igreja do Evangelho Quadrangular foi a dinamicidade de suas estratégias de evangelização. A modernização das estratégias e do estilo de pregação foi a marca premente desta segunda onda e a grande ruptura com o pentecostalismo primevo. Outra questão além desta espetacularização da mensagem, foi o abrandamento de algumas questões relacionadas aos usos e costumes e a indicação incisiva do mundo pecaminoso até então vivido pelo neófito. Não se apontava mais com tanta insistência para as práticas pecaminosas e a iminência do fogo castigador do inferno, mas antes introduzia-se uma mensagem moderna de religião que atenderia as necessidades básicas e urgentes das pessoas, para depois introduzir as diferenciações e os usos e costumes. Não obstante a mensagem ainda mantinha um caráter sectário; o mundo ainda estava perdido em pecado e condenado à destruição, por isso essa igreja não incentivava a entrada para a política

de seus membros; nem o engajamento social, mas sim a separação santificadora.

1.4.6.1.1. Igreja do Evangelho Quadrangular em Curitiba

Assim como as fontes trazidas pela Assembleia de Deus, no que diz respeito à IEQ a problemática é a mesma: as informações são produzidas pela própria igreja e este lugar de produção deve ser tido em conta na análise. Neste sentido, em 2015 quando completou sessenta anos de presença em Curitiba esta igreja produziu um vídeo em que os membros mais antigos da instituição deram seus testemunhos acerca do início dos trabalhos religiosos da IEQ na Cidade (IEQ, 2015).

Como dito acima, a dinamização dos meios de evangelização foi a marca da igreja também na capital paranaense. Em 1955, em uma movimentada avenida do Bairro Bachaceri armou-se uma tenda assemelhada a um circo. Uma fotografia disponibilizada no vídeo nos mostra uma faixa propagandística em frente a tenda com os dizeres: “Tenda: Conferência sobre cura divina com o missionário Rev. Harold Williams”. Note-se que não há menção a “culto” ou a uma denominação especial; mas sim uma “conferência” sobre cura divina com um conferencista que parece ser estrangeiro (de fato, se tratava de um estadunidense).

Mais uma foto é exposta no vídeo, desta vez em um galpão de madeira. Nesta foto já aparecem os dizeres “Cruzada Nacional de Evangelização” e logo abaixo “Igreja do Evangelho Quadrangular”. Mais abaixo veem-se os dizeres: “Pregação do Evangelho e oração pelos enfermos todos os dias às 20h. Entrada Franca”. Esta parece ser a foto de um templo que já havia ganhado certa estabilidade e ainda assim continuava com práticas de evangelização não comuns a igrejas pentecostais de primeira onda.

Aílton Araújo, pastor desta igreja, vereador e deputado estadual, relata sua primeira visita a esta tenda.

Quando se instalou a tenda na [Avenida] Erasto Gaertner, aquele circo chamou a atenção e nós viemos do bairro para assistir a programação. Viemos porque achávamos que era circo. Ali a gente via coisas extraordinárias, e também pelos cânticos que eram entoados (IEQ, 2015).

A fala do pastor, rememorando a tenda, remete à novidade e mesmo à astúcia da estratégia de evangelização. Se entrar em um templo era algo mais dificultoso do ponto de vista do proselitismo, ir a um “circo” era muito mais tranquilo; e o espetáculo que lá se via era o da cura e o da conversão. As músicas entusiastas concorriam para a novidade alcançar

grandes levas de pessoas.

Esta dinamização da pregação produziu resultados. A IEQ se tornou a segunda maior denominação evangélica em Curitiba. Atualmente possui mais de 64.000 membros, ou seja, quase o mesmo número da IEAD, apesar de ser uma igreja muito mais jovem. As duas denominações pentecostais trariam grandes mudanças aos quadros políticos da cidade. E por serem as únicas igrejas pentecostais que elegeram vereadores em Curitiba, nos detivemos mais detidamente sobre elas. As demais igrejas de primeira e segunda onda não obtiveram em Curitiba um êxito semelhante a estas duas denominações.

Porém estas estratégias geraram alguma confusão na cidade quando de sua instalação. O depoimento da pastora Orotildes Rosa, no mesmo vídeo institucional é bastante interessante: “Nos jornais, falavam tudo contra. Que estava pedindo dinheiro; perseguição, né? Perseguição” (IEQ, 2015). O relato, se verdadeiro (o que não seria descabido), mostra que até mesmo a imprensa local destinou espaço às tendas; negativo, como visto. Porém as dificuldades não pararam por aí. A sra. Edith Zahorcak, membro da igreja, relatou: “Na época da tenda os pastores até foram presos, foram levados pra delegacia. Foi o pastor Júlio Rosa e o pastor Manoel de Mello” (IEQ, 2015). A pastora Orotildes dá mais detalhes do caso:

Numa tarde da benção ele estava pregando, daí chegou o delegado, sei lá, uma autoridade lá, colocou a mão no ombro dele e disse: “o senhor tá detido. O senhor vai parar com essa reunião agora”. Ele levou um susto né? Então ele disse assim: “então o senhor me dá licença que eu vou fazer uma oração pra terminar a reunião”. Ele fez a oração, e fez o povo se levantar e cartar “Glória, glória, aleluia! Vencendo vem Jesus”. E ele com os obreiros entraram no carro da polícia e ia a sirene tocando e lá levou os pastores pra delegacia [risos]. […] Até o Manoel de Mello, que era o missionário foi também (IEQ, 2015).

O relato da pastora Orotildes termina com o encerramento do caso em que os pastores prestaram explicações à polícia e foram liberados. De todas esses relatos vê-se que a grande novidade da igreja na cidade foi a tenda e as novas estratégias de evangelização e mesmo de culto. Como dito, tais estratégias surtiram grandes resultados.