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3.2. A IGREJA

3.2.4 A IGREJA , LUGAR DA ALTERIDADE : A MANDO AO PRÓXIMO COMO A SI MESMA

comunidade, localizada distante de sua casa e igreja, onde seu marido havia sido convidado a trabalhar. Para A.M. a concretização de seu relocamento, que a princípio se apresentava difícil, foi possível somente através da intervenção divina. Contudo, assim como destacou Willaime ao se referir ao clérigo protestante (2000: 128), para todas as mulheres entrevistadas o caráter de “missão”, presente na profissão de seus maridos, faz com que a mobilidade espacial adquira o grau da mais alta importância, tornando assim a ruptura com seus grupos de origem menos traumática.

Porém, passado estes primeiros momentos que são embebidos por sensações de privações, adaptações, e, de certa forma, de obrigações, essas mulheres adentram numa outra dimensão.

É no espaço da igreja que as esposas de pastores se apropriam de privilégios reservados apenas a elas. Estas vantagens que lhes são concedidas de um lado possibilitam uma mobilidade única no contexto da igreja, mas de outro lado privações que da mesma maneira lhes são exclusivas.

escolhido para a homenagem do “Dia da Esposa do Pastor” – data comemorativa do calendário Batista - com as respostas que as esposas de pastores dão na convivência cotidiana de suas igrejas à estas mesmas presentes no texto. Segundo a poesia, a idealização do perfil dessas mulheres pode ser desenhada da seguinte maneira,

“Acompanhando o esposo em suas lides, Aqui, ali, além, onde Deus quer,

A esposa do pastor é a mulher forte, O verdadeiro exemplo de mulher!

Ser esposa, meu Deus, é tão difícil!

Quanto mais ser esposa de pastor!

Ele, em seu ministério, o que seria, Sem esse misto de mulher e flor?

Ela é quem ora, canta, vive

Espalhando entre os crentes a esperança;

Tem mãos para servir, serve contente, É a heroína do lar que não se cansa!

Pois, neste dia de alegria tanta, Entre orações e cânticos, e flores,

Roguemos ao Senhor que abençoes muito As esposas de todos os pastores.”91

Como já vimos anteriormente as esposas de pastores têm empregado esforços para que sua presença nas atividades de seus maridos seja constante. Independente de qual for a necessidade do número de dias da semana, da localidade geográfica que a profissão do marido os fixem domiciliarmente ou de seus compromissos profissionais92, elas buscam atender a estas expectativas e cumprir com as atribuições que lhes são dadas pela membresia de suas igrejas. As esposas de pastores também são conscientes do lugar que ocupam no imaginário dos fiéis, elas percebem que são vistas como um “verdadeiro exemplo de mulher”. Vejamos os seguintes depoimentos:

“Acontece várias vezes com várias pessoas, tipo... o seu tipo de vestido, o teu tipo de andar, o teu tipo de agir, as pessoas da igreja estão sempre te olhando, infelizmente.. ou felizmente. Vai depender de quem é a esposa de pastor. Ela é um referencial e muitas vezes é copiada.” J.S.

“Tem uma irmã que veio pra igreja. Tudo o que ela vai fazer ela vai falar primeiro comigo, pra depois falar com a união feminina, a primeira que fez isso... A consideração que ela tem comigo... não porque eu sou ... mas ela

91 Poesia de Antonieta Borges Alves .

92 Como é o caso de seis das sete esposas de pastores entrevistadas. Discutiremos isto mais a seguir.

acha que eu sou... então ela vem primeiro conversar comigo. Eu não faço parte (...) da liderança, mas ela sempre.... um dinheiro que ela tem que dar, ela vem dar primeiro pra mim ‘olha, pra comprar alguma coisa.’.” A.M.

“Sou.. sou...[um modelo para] as outras esposas daqui... Porque elas decidiram ser livres, aquilo que elas realmente são porque elas dizem que eu sou livre....” S.E.

“[as mulheres da igreja dizem a respeito da esposa do pastor]. “‘Foi trabalhar! Estudou, fez faculdade e ta ai!’. Eu fui um exemplo, e muitas delas foram fazer isso... foram estudar, foram trabalhar, entendeu? C.D.

As dificuldades enfrentadas pelas esposas de pastores não são somente reconhecidas pela própria membresia das igrejas, como indica a segunda estrofe da poesia, mas pelas próprias esposas e também por seus maridos, os pastores. No quadro abaixo verificamos como ambos encaram as experiências das esposas de pastores numa tradição em que sua dedicação ao trabalho eclesiástico caminha paralelamente às experiências de privações e cobranças:

Esposa Pastor

“Se vc senta sempre com uma pessoa, sua amiga, as outra ficam te olhando e ficam com ciúmes, seria uma privação social. Vc não pode dar mais atenção pra uma pessoa.

Eu já tive esse problema aqui na igreja, de dar muita atenção pra uma pessoa porque era nova convertida e você ter que estar ali incentivando e falando de Cristo e tentando trazer, firmar a pessoa e os outros não te entendem. Mesmo vc dando atenção também para os outros”. J.S.

“A esposa do pastor ela... ela é requisitada e por ser preparada e experiente como ela é ela é muito requisitada. Então dentro da igreja existe até ciúmes, então tem algumas irmãs da igreja que querem ser amigas dela e não quer que outras sejam amigas dela...”

S.D.

Mas o lado negativo que eu vejo é assim...

só porque é esposa de pastor então tem que seguir este padrão, tem que fazer isso, isso, isso, entendeu? Então acaba que a esposa do pastor não tem o seu espaço, ela é só ‘a mulher do pastor’”. C.D.

“É... a expectativa eu acho que sim... só que a expectativa que eles têm, na maioria das vezes, não só aqui, é que a esposa do pastor ela... ela anule até a própria vocação assim pra... pra ser aquela pessoa que faz tudo junto com o pastor, não é?” C.E.

“No primeiro ano foi bem complicado... eu não podia estar em todas as atividades, mas a gente tem conquistado este espaço nesta igreja. Então a igreja, de pouquinho em pouquinho ela está entendendo melhor que a esposa de pastor não é aquela que sai prontinha do seminário, que tem que estar aqui, de plantão 24 horas, igual ao pastor”

C.J.

“Quando o pastor chega com a sua esposa na igreja, a igreja tem expectativas pra ela... aos poucos a igreja vai descobrir quem ela é, quais são as suas habilidades, quais são os seus pontos forte e aí, em alguns casos, essas expectativas não serão atendidas. E o que a igreja vai fazer? Vai pedir outra esposa pro pastor?” C.R.

Os dois primeiros versos da terceira estrofe - 1º “Ela é quem ora, canta, vive” e 2º

“Espalhando entre os crentes a esperança”, retrata de uma forma singular a representação social das esposas de pastores construída a partir da coletividade e materializada por elas mesmas por meio das tarefas que desempenham dentro de suas igrejas. Nos questionários aplicados, a primeira característica mais votada pelos homens e a segunda pelas mulheres, é a da esposa do pastor como uma “mulher de oração”93. E isto elas são. Para C.J a oração foi a responsável pela resposta positiva quanto ao apoio à decisão que seu marido havia tomado de se tornar pastor: “eu disse: ‘Senhor, eu já estou casada, o Senhor sabe do meu futuro e do futuro do meu marido, se for pra eu atrapalhar, eu não quero, mas se eu for pra ser benção na vida dele, na dos meus filhos, na minha vida também, permitas que isso aconteça.’”. No caso de C.D. é através da oração que ela dá manutenção à permanência de sua situação como esposa de pastor: “Eu até já falei com o Senhor isso. Eu vou ficar como esposa de pastor até quando Deus quiser (...). Então eu quero servir ao Senhor assim até quando Ele quiser, ne?”.

A oração para A.M. foi fundamental para que ela assumisse as exigências que a comunidade religiosa tinha a seu respeito. Se antes relutava e resistia, hoje, segundo ela “encara numa boa”, isto porque “eu acho que Deus trabalhou muito isso comigo. Eu acho não, eu tenho certeza que Deus trabalhou muito comigo.”.

Como vimos no capítulo II, um dos cursos voltados às mulheres batistas nas instituições de formação teológica ou ministerial é de Musica Sacra. Isto vem ao encontro de uma das atribuições às esposas de pastores descrita na poesia, “É ela quem (...), canta.”. Nada menos que cinco das sete esposas de pastores entrevistadas estão envolvidas com o departamento de música de suas igrejas. J.S é regente de coro há 8 anos; K.L. é membro efetiva do grupo de louvor94, participa de todos os ensaios e também é quem dirige os cânticos nos cultos; S.E. se recorda durante a entrevista que logo quando chego u na igreja assumiu o “ministério de música”, e até hoje, após 20 anos, ainda faz parte dele. Será visto mais a frente o caso de C.D., que além de participar das escalas dos músicos e das musicistas que tocam nos cultos da igreja é também a responsável por uma importante escola de música do bairro que está localizada em sua igreja. É através das próprias canções que aparentemente a concordância e a satisfação das esposas de pastores com suas situações pode ser demonstrada, como nos mostra um trecho do Hino Oficial das Esposas de pastores do estado de São Paulo e do Brasil95: “Deus já nos tem abençoado nesse grande mister. E por isso louvamos nosso Pai,

93 Característica também relacionada à mulher cristã, como descrito no Capítulo I.

94 Um grupo de músicos e musicistas responsável pela gerência da performance pública quando junto com a congregação entoam cânticos espirituais.

95 Por Maria Cristina R. Correa. S.P. – 1987.

Deus de amor.”

Como já visto anteriormente, as esposas de pastores exercem múltiplas funções, durante muitas horas semanais, em suas comunidades religiosas (3º verso da 3ª estrofe). Porém, a questão do trabalho doméstico destas mulheres não se mostra diferente da sociedade mais ampla e das próprias famílias das igrejas batistas; ainda permanece sob responsabilidade delas a manutenção da ordem do espaço doméstico. Segundo pesquisa feita por Santos (2006) entre os batistas da cidade de São Paulo, esta polijornada resulta em “sobrecarga de trabalho, de modo que as mulheres encontram dificuldade de conciliar suas responsabilidades domésticas, familiares e profissionais” (2006: 88). E no caso das esposas de pastores podemos ainda incluir as responsabilidades eclesiásticas. Assim, a afirmação de que as esposas de pastores são incansáveis é, no mínimo, equivocada.

Finalizaremos esta abordagem mostrando que apesar de existirem privações decorrentes das atribuições que a membresia das igrejas direciona às esposas de pastores, existem também os privilégios que, como dito anteriormente, lhes são exclusivos, resultados também do lugar que ocupam diante destas mesmas comunidades. O primeiro aspecto a ser considerado é a própria elaboração de um dia específico para serem homenageadas. Se por um lado esta preocupação institucional é interpretada como uma maneira de dar manutenç ão às representações sociais destas mulheres, por outro, são as próprias esposas de pastores que se sentem prestigiadas por esta mesma preocupação:

“Eu achei assim, incrível porque daí eles deram presentes para nós, pra todas, naquela época nós éramos só duas... e achei engraçado, curioso, mas não entendi muito... Mas depois, claro não é? É que tem umas [esposas de pastores] que se sentem de lado mesmo, principalmente aquelas que são tímidas, que não participam muito do ministério elas se sentem... ‘ah, eu não sou nada, só sou a esposa do pastor...’.” S.E.

“Semana passada foi o dia da esposa do pastor, me fizeram homenagem....

mas assim, não tinha esse dia, tanto que tem aquele livro ‘A mulher sem nome’, porque ninguém te chama pelo nome, é esposa de pasto r, tal... Mas assim, é o contexto, a forma, é o jeito que a igreja vinha.... (...) mas tem mudado, né? E a gente está pegando justamente essa transição, que pra mim tem sido boa!” C.J.

Sensações de prestígio podem também ser vivenciadas a partir da importância que possuem entre os membros das igrejas. Se em determinados aspectos são elas as mais cobradas, em outros também são elas as mais privilegiadas. Quando perguntamos às esposas de pastores se

conseguiam identificar situações que lhes proporcionaram prestígios, elas disseram que:

“Eu acho que sim a gente é.. paparicada, pelo menos comigo acontece isso.

As pessoas aqui da igreja tem especialmente um carinho especial por mim, oram por mim, vêm e me dizem isto, que ao orando por mim. Porque sabem que a minha tarefa como esposa, na questão do apoio, do suporte pra ele exercer o ministério é muito importante.” S.E.

“Tem as pessoas na igreja que tem aquele visão da esposa do pastor, que endeusa... é... idolatram e tudo mais.” C.K.

“Ah sim, tem! Não adianta falar que ‘não’! Ser esposa de pastor é muito cômodo.... Por exemplo, eu sou uma pessoa mais reservada, não sou muito de chegar nas pessoas pra conversar, pra falar, ao contrário do pastor que, nossa, é super dado com as pessoas! Como esposa de pastor isso é diferente, as pessoas vêm até mim! Por isso sou poupada desse esforço!

(risos) Olha, acho que tem privações sim, mas no meu caso, são mais privilégios! Risos” K.L.

Isto sem falarmos das melhores roupas, dos melhores cabeleireiros, dos melhores manjares e das melhores festas que as esposas de pastores não somente possuem acesso garantido, mas também preferencial. Essas mulheres, assim como seus maridos, ocupam continuamente os topos das listas de benefícios que os membros de suas igrejas podem lhes proporcionar. Prova deste status privilegiado é que, de acordo com os resultados da pesquisa quantitativa, 56% das mulheres e 57% dos homens afirmaram que os membros de suas igrejas dão o justo valor à esposa de seu pastor. Os contrários, ou seja, aqueles que acreditam que a esposa do pastor recebe mais valor do que possa merecer, totalizam o número de apenas 2% das mulheres e de 2% dos homens.

Estes prestígios ainda estendem-se; não é raro que as esposas de pastores, assim como seus maridos, também façam uso privado daquilo que é de propriedade pública. Os quilômetros que separam a esposa do pastor de sua mãe são amenizados pelos interurbanos feitos do gabinete pastoral; a faxina que é imprescindível para aquela semana é realizada pela zeladora da igreja em troca de ninharias; a necessidade de levar e buscar as crianças na escola é suprida pelos favores do seminarista que faz plantão de aconselhamento às tardes nas igrejas.

Assim, apesar de todos os conflitos que engendram a prática da alteridade, seu exercício também é recompensatório. Além do esforço exigido para exercê-la, as esposas de pastores ainda podem, por meio dela, comprovar a obediência do mais importante mandamento

bíblico: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.” 96. Tanto as atitudes sacrificiais demonstradas na dedicação excessiva ao trabalho eclesiástico – de forma não remunerada - quanto o cumprimento das expectativas que os fiéis de suas igrejas possuem delas e a secundarização de suas prioridades em favor das de seus ma ridos, são provas de que o exercício da alteridade, que ameniza o contraste, a distinção e a diferença mostra-se capaz de proporcionar experiências de privação, mas muitas vezes de prestígio. Por isso, reduzir a vivência destas mulheres somente às privações ou somente aos privilégios é ignorar que, como mulheres ideais que são, ambas as experiências de fundem em seus cotidianos.