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Igrejas pentecostais e as redes de poder paralelo

3.3. Redes sociais entre migrantes pentecostais

3.3.1. Igrejas pentecostais e as redes de poder paralelo

Em locais onde o Estado está menos presente, outros agentes ganham um papel de importância na inclusão socioeconômica de populações segregadas. Estudo realizado na favela carioca da Rocinha (LEEDS, 2006) apontou como as estruturas criadas pelo poder do narcotráfico estabelecem uma relação de interação com a população local. Em troca da “segurança” provida pelos líderes do tráfico, como a violenta punição de crimes menores no interior da favela, os chefes do tráfico, bem como a complexa estrutura hierárquica da qual fazem parte, criam um poder paralelo ao poder do Estado.

Edson Mendes, o ex-traficante Tocha, hoje pastor responsável pela AD das Missões Primitivas no Recanto dos Humildes, comandou o tráfico de drogas na região nas décadas de 1980/90. Converteu-se no ano de 1995, quando “com duas armas na cinta”, participou de um culto a convite de um amigo:

durante o culto, ouviu a história do profeta Oséias, a quem foi ordenado que se casasse com uma prostituta. Achou que a mensagem era para ele e que Deus aceitaria um traficante arrependido em suas fileiras. "Decidi mudar naquela noite. Nunca dormi tão bem. Eu estava cego e com os dias contados. A violência não me levaria a lugar nenhum. Mas Deus tinha um plano para mim", diz. Com outros religiosos, ex-traficantes e ex-matadores espalhados em igrejas de bairros pobres, o pastor hoje luta para converter aqueles que permanecem no mundo do crime. "Eu sei a língua deles", resume. (Jornal O Estado de São Paulo, 3.ago.2008)

O pastor Edson contou-nos104 que antes de ser traficante teve uma rápida passagem pela IURD, onde não se firmou. Entrou para o mundo do tráfico após ver uma pequena empresa de materiais para construção ir à falência. Após atuar com compra e venda de drogas no Jardim do Russo, mudou-se para o Recanto assim que os primeiros terrenos foram loteados e participou da “invasão” da área, vendendo lotes para os novos moradores que chegavam de bairros e cidades vizinhas. “O Recanto dos Humildes quem ajudou a fundar fui eu. Na época eu não era evangélico ainda e começamos a invadir as terras”, diz Edson.

Edson afirma que várias pessoas participaram de sua conversão, embora tenha encontrado algumas resistências por parte de alguns membros da igreja.

eu acho que o povo hoje tem um respeito grande por mim, mas no começo foi mais difícil [porque] o cara fica ali duvidoso...Você sabe quem está na sua frente, quem você vai pôr dentro da sua casa? São ex-ladrões. São ex-isso,

ex-aquilo. E se o cara tem uma recaída? É difícil! Você tem que confiar em Deus! Já pensou você colocar uma pessoa assim para desfrutar da comunhão da sua igreja, da sua família? O cara tem que ser curado e muito bem curado. [...] Mas eu creio que o povo me vê hoje com os olhos diferentes.

Em regiões com altos índices de violência, as igrejas pentecostais muitas vezes se tornam um “recurso de contra-poder” ao narcotráfico, bloqueando explosões de violência e intermediando situações criadas pela venda de entorpecentes. (SILVA; LEITE, 2007 apud MESQUITA, 2009). O pastor Edson diz já ter intermediado vários problemas que ex-traficantes e “ex-aviõezinhos”, hoje membros de sua igreja, tiveram com traficantes. O pastor reconhece que goza de certa liberdade entre eles:

Se o Estado falha, o crime organizado toma conta. [...] mas eu não posso ter

rabo-preso com ele, eu sou pastor, eu sou do lado do Estado. [...]Se o cara não tem disciplina na igreja, no mundo do crime é diferente. Existe um respeito muito grande por que eu vim de lá, porque eu tive um encontro com Deus. Hoje eu prego no tráfico a qualquer hora. [...] Se a sua conversão for genuína e você sair de lá sem dever nada pra ninguém, você saiu de lá como um “sujeito homem”. Pra você ter uma idéia eu sou mais respeitado pelo traficante que pelo próprio crente. O traficante te respeita mesmo, ele reconhece os que são de Deus e os que não são.[...] Se o cara tiver fingindo na igreja...um abraço!

Durante a entrevista o pastor se orgulha em afirmar que já conseguiu converter, segundo suas contas, pelo menos 66 traficantes ou intermediadores, alguns dos quais trabalham hoje como obreiros em regiões vizinhas.

Na participação da igreja na resolução de conflitos como os relatados pelo pastor Edson,

coloca-se em questão a coexistência de uma tensão entre o bem e o mal nas práticas dos pentecostais.[...] E assim sendo, domínios de valores e princípios de pertencimento diferenciados e situacionais pressupõem o engajamento de batalha espiritual, colocando em questão a superação da ordem violenta imposta pelos traficantes. Para tanto investe em um proselitismo associado a uma rede de interação cotidiana, abrindo espaços de mediação a adesão e a conversão religiosas (MESQUITA, 2009: 101)

A idéia de que o tráfico é resultado da ação maligna no coração e na mente do homem é uma das motivações do pastor Edson de ter como foco de sua igreja “alcançar

dúvida, a presença das igrejas pentecostais em áreas de alta vulnerabilidade social atua sobre as relações sociais estabelecidas em seu entorno.

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