Liberdade à Luz das Teorias Feministas
2.3. Igualdade e Liberdade no contexto feminista
Por igualdade entende-se não a abolição de sexos dominantes ou dominados, mas sim a implementação da paridade entre ambos. De facto, nas palavras de Maria de Loreto Paiva Couceiro, "a igualdade foi - continuando aliás a ser - um conceito normativo central nos movimentos feministas. Funda- -se no facto de que as mulheres, tendo as mesmas capacidades que os homens, deverão ter os mesmos direitos, desempenhar os mesmos papéis e exercer funções similares, nos vários contextos sócio-políticos" (Couceiro 2000: 102). De acordo com The Dictionary of Feminist Theory, o termo igualdade engloba vários significados. Igualdade baséia-se na ideia de que nenhum
indivíduo deve ser menos igual em termos de oportunidade e em direitos humanos do que qualquer outro (cf. Humm 1995: 79). Essa igualdade de direitos entre as pessoas de sexos diferentes é desejo premente dos movimentos feministas. Na opinião de Maria de Loreto Conceição, o objectivo desses movimentos é minar a preponderância masculina, pelo que procuram obter uma igualdade de oportunidades alicerçada nas suas capacidades profissionais, levantando-se, por exemplo, nesse sentido, as vozes de Simone de Beauvoir e Elisabeth Badinter. A igualdade a alcançar reflecte a imagem do modelo masculino, caracterizado por um profundo investimento profissional e pela lei da competição (cf. Couceiro 2000: 102-3). O que se constatou e constata, na realidade, é uma contínua desigualdade de tarefas domésticas que conduzem à sobrecarga de trabalho por parte das mulheres que, para além de exercerem as suas funções profissionais no âmbito da esfera pública, têm de desempenhar toda e qualquer tarefa relacionada com o domínio privado. Assim sendo, o papel tradicional, outrora outorgado à mulher, prevalece, tendo a mesma de assumir um outro papel - o profissional. Por um lado, as mulheres devem continuar a manter o trabalho ao nível do privado, desempenhando os papéis tradicionais que lhes cabiam e, por outro lado, desempenhar uma outra função na esfera pública, adaptando-se a uma lógica que, de algum modo, lhes é estranha (cf. Couceiro 2000: 102-3). Mas a realidade é que a sociedade está em contínua mudança e, tal como Helen Fisher sublinha, é imprescindível que ambos os sexos se apresentem a pari e
passu:
Ao dirigirmo-nos para uma época que trará problemas mais complexos e possivelmente mais perigosos do que qualquer outra por que a humanidade tenha passado, precisamos da força de ambos os sexos. O êxito dependerá
da participação total das mulheres e dos homens. O sucesso dependerá do trabalho em equipa dos dois sexos (Fisher 2001: 310).
Ana Vicente sublinha o facto de igualdade não ser sinónimo de as mulheres quererem ser homens e vice-versa:
Igualdade significa respeito mútuo, reconhecimento da identidade de cada pessoa, respeitada porque é um ser humano. Igualdade de oportunidades não significa igualizar as pessoas, ou seja apagar as diferenças e as identidades mas antes proporcionar condições para que cada pessoa possa desenvolver o seu talento e as suas capacidades (Vicente 2000:12).
Ana Vicente reitera ainda esta ideia ao referir que "se somos iguais, em natureza e essência, teremos que ser iguais em direitos, em deveres, em responsabilidades, em liberdade. Mulheres e homens são iguais porque ambos partilham uma condição - a humana - , porque ambos pertencem ao género humano, porque são capazes de se relacionarem entre si, como iguais" (Vicente 2000: 13). A luta pela igualdade entre homens e mulheres não tem por pressuposto a substituição do sistema patriarcal pelo matriarcal, que até nunca existiu. Além disso, constata-se algum receio, por parte de algumas pessoas, de que se proceda a uma inversão de papéis e as mulheres fiquem mais "masculinas" e os homens mais "femininos" (Vicente 2000: 13). Ana Vicente vai ainda mais longe na questão da igualdade referindo que "as mulheres e os homens são tão iguais na sua essência e na sua natureza que não são só concebidos e nascem da mesma maneira como morrem muitas vezes da mesma maneira, com doenças iguais (...) A não-igualdade (...) prejudica tanto as mulheres como os homens, pelo que o fim do patriarcado e o advento da paridade é meta que ambos os sexos procuram" (Vicente 2000: 14).
O respeito pela igualdade de todos os seres humanos emerge na Declaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada e proclamada pela Assembleia Geral da ONU a 10 de Dezembro de 1948. Existem direitos humanos especificamente femininos e masculinos tendo por base as diferenças sexuais (Vicente 2000: 66). No âmbito dos direitos humanos, a luta do século XXI será a procura e o estabelecimento de uma sociedade baseada em princípios como a tolerância, respeito pela diferença, aceitação da diversidade, integração da alteridade no quotidiano, responsabilidade ética, individual e colectiva (Vicente 2000: 67). Isto parece-me ser uma sociedade igual, utópica, mas é a sociedade que Gilman implementa na sua obra Herland, em 1915. Na realidade, estamos nos primórdios do século XXI e continua-se a reivindicar pelos mesmos direitos, particularmente o direito à igualdade.
Pronunciando-se sobre o direito à igualdade, Manuela Silva considera que ele não erradica o reconhecimento das diferenças naturalmente inerentes ao género, mas valoriza-as, não se inferiorizando ou superiorizando as pessoas. Na sua perspectiva, a igualdade de género leva a que seja atribuído às mulheres poder suficiente ("empowerment") para que tenham capacidades para, juntamente com os homens, afirmarem os seus verdadeiros valores em plena sociedade, dando, desse modo, o seu contributo para o desenvolvimento humano e social (Silva 1999: 16). A investigação genética tem evidenciado as profundas diferenças que existem entre os dois seres. Essas diferenças são utilizadas para justificar a discriminação, pois o homem é considerado a norma e a mulher o desvio à norma. Assim, um desenvolvimento significativo será viver a individualidade, respeitar a diferença e a igualdade e criar as condições
necessárias a um sistema aberto, alheio a hierarquias masculinas ou a subjugações femininas (Vicente 2000: 9).
Neste contexto, torna-se pertinente focar a questão da alteridade ("otherness"). Rosi Braidotti realça esta questão ao sublinhar o facto de o masculino ser considerado universal e o feminino ser relegado para segundo plano ou para a posição de "outro". Braidotti acrescenta que "o corolário desta definição é que o fardo da diferença sexual recai nas mulheres, marcando-as como o segundo sexo ou o 'outro', enquanto que os homens são definidos pelo imperativo de simbolizarem o universal" (Braidotti 2002: 151). Luce Irigaray também se pronuncia sobre a questão de alteridade sublinhando o facto de existir verdadeiramente alteridade entre homem e mulher em termos biológicos, morfológicos e relacionais. O facto de se nascer homem ou mulher constitui a diferença entre ambos os sexos (Irigaray 1996: 310).
Seyla Benhabib descreve duas concepções de relação com os outros que definem as perspectivas morais e as estruturas interaccionais - geral e concreto (Benhabib 1992: 213). Tal como a própria autora refere:
The standpoint of the generalized other requires us to view each and every individual as a rational being entitled to the same rights and duties we would want to ascribe to ourselves. (...) The standpoint of the concrete other, by contrast, requires us to view each and every rational being as an individual with a concrete history, identity and affective-emotional constitution. In assuming this standpoint, we abstract from what constitutes our commonality, and focus on individuality (Benhabib 1992: 213).
Já na opinião de Cynthia Cockbum, o que se procura não é de facto a igualdade ("equality"), mas equivalência ("equivalence"): "What we are seeking is not in fact equality, but equivalence, not sameness for individual women and men, but parity for women as a sex, or for groups of women in their specificity"
(Cockburn 1994:10-1). O que Cynthia Cocburn pretende sublinhar com esta afirmação é, precisamente, o facto de sermos todos iguais, mas, ao mesmo tempo, diferentes. Há que respeitar a individualidade de cada um. Desde a Declaração dos Direitos do Homem, em 1789, até à Declaração dos Direitos Humanos de 1948 e o Concílio da Convenção da Europa dos Direitos do Homem de 1950 (Council of Europe's Convention on the Rights of Man) que os direitos de igualdade foram concebidos relativamente à noção de "o cidadão", sem especificação do sexo. Não há lugar para as mulheres neste contrato social (Cockburn 1994: 21).
Carol Pateman, teorizadora política feminista, explora, em The Sexual
Contract (1988), a mudança nas relações sociais que ocorreram com o fim do
feudalismo e o advento do capitalismo na Europa Ocidental. Pateman sublinha em particular as teorias que os homens enunciaram no século XVIII para explicar a natureza da sociedade coeva, concedendo atenção especial à noção de "contrato". O contrato, explica ela, tal como é definido pelos filósofos liberais como Rousseau e Locke, é um princípio de associação social, uma forma de criação de relações sociais estáveis e consensuais (apud Cockburn 1994:19- 20).
Como Conceição Nogueira escreve, "através dos discursos da ideologia dominante, construídos, partilhados e difundidos, a nível disciplinar e político, é possível a manutenção de uma ordem social, que perpetua as desigualdades e o sexismo. Apenas tendo por base a construção social do género através da linguagem utilizada nos discursos com os quais é construída a realidade social, é possível compreender como, apesar da entrada da mulher no mundo de trabalho, e das revoltas sociais em favor da igualdade social, a discriminação
sexual da mulher continua" (Nogueira 2001: 10). Isto induz-me a concluir que, apesar de os seres femininos possuírem os mesmos direitos que os homens no campo legal, certos estereótipos machistas mantêm-se uma realidade viva e o poder que detêm em termos sociais, culturais, morais, políticos e, até mesmo, familiares, encontra-se muito aquém do que deveria ser no dealbar do século XXI14.
A luta feminista, embora vise particularmente abolir as desigualdades vigentes entre homens e mulheres, abrange no seu campo de manobra diversas áreas sociais. A este propósito, conclui Maria João Sousa:
A luta feminista (política e académica) é também um combate contra outros males e injustiças sociais, como o racismo e a xenofobia, a intolerância, a pobreza e o analfabetismo, etc. Mas para que as mulheres tivessem atingido este estádio foi necessário, em primeiro lugar, terem tomado consciência da sua situação e, em segundo lugar, terem conseguido os meios para se poderem transformar em agentes sociais activos, nomeadamente através de iguais oportunidades educativas e profissionais (Sousa 2002:171).
É óbvio que as mulheres serão iguais ou, pelo menos, obterão alguns direitos nesse sentido se lhes for concedida a oportunidade de participarem activamente na esfera pública. Contudo, para isso, necessitam de se libertar da esfera privada a que sempre se encontraram confinadas e que sempre as asfixiou. Daí que, subjacente à ideia de igualdade, se encontre o termo
liberdade, pois a primeira não será conseguida se a segunda não existir. De 14 Victoria Camps sublinha esta questão quando fala de "igualdade desigual": "Não há dúvida
de que o feminismo é o movimento social do século XX, com resultados indiscutivelmente positivos. Está cego - ou cega - quem se atreva a negá-lo. Conseguiu-se a igualdade formal entre homens e mulheres nas sociedades avançadas. Ninguém, com um mínimo de lucidez e senso comum, se atreve a dizer - como disseram notáveis filósofos e pensadores de todos os tempos - que a mulher é inferior ao homem. Juridicamente, a igualdade da mulher deu um importante passo em frente.
Mas também é indiscutível que a igualdade alcançada é insuficiente. Mudaram as leis, mas não mudam os costumes. Ou mudam tão lentamente que nem prestamos atenção. Estamos longe daquela igualdade paritária que seria o razoável numa democracia" (Camps 2001:15).
facto, a luta das mulheres por uma posição paritária é o traço constante do feminismo. Explica Ana Gabriela Macedo: "muitos têm sido os espectros com que se têm deparado as mulheres na sua conquista do direito à partilha do espaço público, na inscrição da sua voz, da sua identidade e da sua diferença no território espácio-temporal ocupado. Reclamar esse espaço, redesenhar-lhe as fronteiras e questionar-lhe a memória dominante tem sido, historicamente, a tarefa do feminismo" (Macedo 2002: 7-8). O feminismo, na perspectiva de Maggie Humm, descreve três áreas de liberdade: política, económica e sexual, embora as teorias feministas não sejam unânimes em considerar qual a área mais importante. Ann Ferguson argumenta que a liberdade sexual é a mais significativa porque as mulheres precisam de se definir como sujeitos e não como objectos sexuais (Humm 1995: 101). Apesar de concordar vivamente com a opinião de Ann Ferguson, não posso deixar de ressalvar o facto de todos os tipos de liberdade serem extremamente importantes. Talvez por isso seja tão difícil para as teorias feministas chegarem a um consenso.
Tendo como pressuposto básico os ideais evidenciados por Gilman, tal como teremos oportunidade de constatar aprofundadamente no capítulo que se segue, a mulher necessita desses tipos de liberdade porque uns implicam os outros. Se, por exemplo, a mulher não possuir liberdade económica, tomar-se- -á dependente e escrava do homem, funcionando o casamento como contrato explícito. Gilman veicula esta ideia na sua obra teórica The Man Made World: "When women became the property of men; sold and bartered; 'given away' by their paternal owner to their marital owner; they lost this prerogative of the female, this primal duty of selection" (MMW: 31).
Nos capítulos que se seguem, proponho-me a analisar as duas obras de Gilman à luz das teorias feministas aqui retratadas tendo por base os ideais desta autora veiculados nos seus textos teóricos.