Capítulo 2. Políticas multiculturais: entre a universalidade e o reconhecimento da
2.1 Diversidade e reconhecimento
2.1.1 Igualdade, equidade e diferença
Segundo Taylor (1992), as políticas universalistas estão centradas no conceito de igualdade na lei, na ideia de que todos os cidadãos são igualmente dignos e, portanto, devem ter acesso aos mesmos direitos e serem tratados da mesma forma pelo Estado. Mesmo que percebam a existência da diversidade nas populações, entendem que o Estado deve ignorá-las, agindo de forma neutra em relação a elas. Tratando os diversos grupos sociais da mesma maneira, o Estado garantiria que os próprios grupos estivessem em condições de igualdade necessárias para que pudessem se reproduzir ao longo do tempo. Dessa forma, se esses grupos tivessem habilidade para se reproduzir, a diversidade floresceria naturalmente. Essa “boa negligência” com relação às diferenças culturais teria a mesma forma neutra com que os Estados Democráticos Liberais tratam a religião, e a prova de que ela funciona seria, então, a diversidade religiosa existente nas sociedades liberais (TAYLOR, 1992; KYMLICKA, 1995).
20 Atualmente, no Brasil, as mulheres representam apenas 8,67% dos deputados federais e 14,81% dos
senadores federais. Fonte: Levantamento da ONG Centro Feminista de Estudos e Assessoria
www.cfemea.org.br Acesso em: 14/12/2011
21 O Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006 mostrou que a porcentagem de
negros nas universidades brasileiras é de 30%. Em 1996 esse número era 18%. Esse crescimento foi resultado da expansão de vagas no ensino superior brasileira, de 174% no período comparado e da implantação de ações afirmativas, como cotas ou prioridade nas bolsas do Prouni. Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u19110.shtml Acesso: 14/12/2011
22 O IBGE divulgou no ultimo dia 25/05/11 que as mulheres ganharam em média 20% menos que os
homens, no ano de 2009. Fonte: http://economia.uol.com.br/ultimas- noticias/redacao/2011/05/25/mulheres-ganham-20-menos-que-homens. Acesso: 14/12/2011
No entanto, como afirmamos acima, inúmeras pesquisas apontam que as instituições estatais, especialmente aquelas ligadas diretamente ao público, não são cegas às diferenças sociais. Implicitamente essas instituições promovem as necessidades, interesses e identidades do grupo majoritário, e ao mesmo tempo, criam inúmeras barreiras, estigmas, e excluem os membros dos grupos minoritários. Foi a partir desta constatação que começaram a surgir demandas por equidade em alguns casos e políticas de diferença em outros (TAYLOR, 1992; KYMLICKA, 1995).
Primeiramente, desejava-se políticas de equidade23. Essas políticas entendem que, apesar de termos que tratar todas as pessoas como iguais, as pessoas não são iguais, nem nascem em sociedades que as colocam em patamares iguais, seja eles de classe econômica ou status social. Nesse sentido, não bastaria que elas tivessem igualdade de oportunidades - a garantia de direitos igualitários a partir do qual poderiam se diferenciar por mérito próprio - mas teria que se criar igualdade de condições, que propiciaria que todos partissem de um mesmo nível. Isso quer dizer que, apesar de ter como base e fim o princípio da igualdade, aceita-se que se trate alguns de forma diferente com o objetivo de atingir a igualdade de forma mais eficiente, nos casos em que ela ainda não existe. Exemplos dessas políticas são as cotas para empregos ou universidades, que têm como objetivo equalizar direitos, mas em geral são medidas temporárias, que permitiriam colocar todos na mesma linha de partida.
Já as políticas de diferença, conforme afirma Taylor (1992), apesar de ligadas às políticas universalistas, já que acreditam no potencial de dignidade de cada cidadão, buscam reconhecer a unicidade das identidades que cada indivíduo ou grupo possui, o que o distingue de todos os outros. Nesse sentido, elas buscam reforçar a diversidade de identidades existentes, reconhecendo as particularidades das pessoas e/ou grupos, ao contrário do que se propõem as políticas universalistas. Para o autor, o “objetivo das políticas de diferença não é voltar a ter uma sociedade na qual exista, eventualmente, um espaço social em que as diferenças não apareçam, mas ao contrário, o objetivo é manter e celebrar a diversidade sempre” (TAYLOR, 1992: 40).
Enquanto os defensores das políticas universalistas acreditam que as políticas de diferença violam o princípio da não discriminação, os defensores das políticas da diferença acreditam que as políticas universalistas tentam “forçar as pessoas dentro de
23 Para Nogueira (2004), o conceito de equidade contém, intrinsecamente, um princípio de diferença e
também, de forma oblíqua, o de eficiência. A autora entende que este princípio está ligado à noção de justiça social, tal qual colocado por Ralws (1971).
um molde que não é verdadeiro para elas e, o que é pior, um molde que não é nada neutro como se defende, mas que reflete a cultura hegemônica” (TAYLOR, 1992: 43).
Nesta mesma linha de argumento, Kymlicka (2002) considera que a legitimidade dos direitos diferenciados está no fato de o Estado ter ao seu dispor inúmeros instrumentos para impor uma cultura oficial: em todas as instituições públicas utiliza-se uma língua oficial, os feriados oficiais muitas vezes expressam uma religião específica (por mais que essa religião não seja considerada oficial), os valores expressos na maior parte das leis também são da cultura majoritária. Nesse sentido, é legítimo que os grupos minoritários tenham alguns direitos diferenciados, já que não é justo que apenas eles carreguem essa “carga pesada” de ter que se enquadrar o tempo todo na cultura e valores do grupo majoritário. Esses direitos diferenciados “diminuiriam o peso desta carga”. A figura 1 sintetiza esse pensamento.
Figura 1: A dialética da construção da nação e direitos das minorias
Fonte: KYMLICKA, 2002 p.364
Para Kymlicka (2002), deve-se olhar esse diagrama de forma completa, e não apenas a parte dos direitos diferenciados que, isoladamente, podem parecer injustos. Quando visto de forma holística, percebe-se que esses direitos são necessários.
Os teóricos que defendem os direitos diferenciados, seja com o objetivo final de equidade, seja com o objetivo final de reconhecer e acomodar na “identidade e cultura oficial do Estado” as diferenças “naturais” a ele, conseguiram influenciar inúmeras políticas concretas em muitas democracias liberais. No entanto, algumas críticas têm
surgido em torno das questões do reconhecimento24. Neste trabalho focaremos apenas em uma, que nos ajuda a pensar o tema desta dissertação: o enquadramento do debate sobre justiça social.
Fraser (2000) questiona o enquadramento do debate sobre justiça social utilizado pela maior parte dos autores que se dedicaram ao assunto, o que ela chama de enquadramento Keynesiano-westphaliano25. Esses autores limitaram suas análises às fronteiras estatais e aos cidadãos da respectiva comunidade política, como aqueles que deveriam se beneficiar das conquistas obtidas nas lutas por maior justiça social. Discutia-se o “o que” deveria ser feito, ou seja, as formas de se alcançar a justiça social, mas nunca esteve em discussão “quem” deveria se beneficiar, ou seja, o público dessas políticas. Por muito tempo assumiu-se que esse público era constituído de cidadãos.
Contudo, como ficariam aqueles que não são cidadãos, mas vivem em território nacional? Não deveriam possuir direito à justiça social, que inclua distribuição, reconhecimento e participação política? Neste momento entramos mais especificamente no debate sobre multiculturalismo e sobre o direito dos imigrantes. Se grupos minoritários cidadãos conseguiram, de certa forma, políticas diferenciadas, no caso dos imigrantes – não cidadãos – ainda existe uma grande dificuldade para se legitimar suas demandas por políticas que possibilitem uma integração mais justa e fácil à sociedade receptora. Em muitos países ainda se insiste num discurso assimilacionista, que busca forçar os imigrantes no molde da cultura do país receptor, em alguns casos negando direitos básicos já assegurados aos cidadãos nacionais.