A que Lukács se refere quando afirma ser o mundo dos
homens umcomplexo de complexos?
Já nos referimos ao caráter unitário do ser, segundo Lukács. No Capítulo I, vimos como a gênese e o desenvolvi-mento das esferas ontológicas não rompem a unitariedade originária do ser; antes, pelo contrário, a reafirmam de modo mais rico e mediado, dotando-a de uma riqueza e articulação inexistentes antes do desenvolvimento das três esferas onto-lógicas. Essa situação ontológica de fundo perpassa todo a argumentação de Lukács acerca do caráter de complexo de complexos do mundo dos homens.
O ser, segundo Lukács, exibe um caráter de complexo de complexos. Os distintos processos que caracterizam cada uma das esferas ontológicas (por exemplo, o mero devir-outro inor-gânico, a reprodução do mesmo na vida, e a reprodução social no mundo dos homens) se articulam enquanto complexos parciais de um complexo maior, o próprio ser em sua máxima universalidade. A totalidade consubstanciada pelo ser se ma-nifesta, concretamente, pelas inelimináveis articulações das esferas ontológicas entre si. Já argumentamos que sem o ser inorgânico não há vida, e que sem vida não há ser social: o universo, que é o ser em sua máxima universalidade, é uma
totalidade composta por distintos processos que, de uma forma ou de outra, são articulados entre si.10
A articulação primária, originária, das três esferas ontoló-gicas não significa, no contexto da ontologia lukácsiana, que elas não sejamrelativamente autônomas, isto é, que elas não
possuam uma independência relativa tanto entre si como em
relação ao ser em geral. Que a processualidade inorgânica é, ao mesmo tempo, a base ineliminável da vida, mas que a evolução das processualidades biológicas decorrem predomi-nantemente da própria reprodução da vida muito mais que das
categorias inorgânicas, é algo que já sabemos. Mutatis
mu-tandis, o ser social sequer poderia existir sem ter por base a natureza. Todavia, a reprodução social tem por momento pre-dominante uma categoria que nada tem de natural, que é pu-ramente social: a categoria do trabalho.
Portanto, o ser em geral é composto por diferentes com-plexos ontológicos que operam, ao mesmo tempo, de modo articulado e relativamente autônomo. A evolução biológica não é determinada pelo devir-outro do ser inorgânico, embora de-penda dele. A reprodução social não é determinada pela re-produção biológica, embora não possa ocorrer sem ela.
Por sua vez, o desenvolvimento no interior de cada uma das esferas ontológicas termina por ter uma ação de retorno sobre o ser em geral. De algum modo — ainda que de uma maneira muito pouco intensa nos padrões atuais —, o surgi-mento da vida e dos homens na Terra modificou a totalidade que é o universo. O quanto esta modificação foi ou não impor-tante para o destino do universo, apenas o tempo poderá di-zer.
Algo análogo ocorre no interior de cada uma das esferas ontológicas. Para não fugir ao nosso tema, nos deteremos
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apenas na análise do ser social, embora a situação a ser dis-cutida caiba perfeitamente para as outras esferas.
Com o primeiro ato de trabalho, constitui-se o ser social. Já nesse momento ele exibe dois traços ontológicos funda-mentais: é unitário e internamente contraditório. Mesmo na-quele primeiro ato, o mais simples possível, de troca orgânica do homem com a natureza, já está presente a contradição tre meio e finalidade posta, entre a consciência e o objeto, en-tre o indivíduo e a totalidade das relações sociais, enen-tre a
intentio recta e a intentio obliqua, etc. Todavia, os traços de homogeneidade eram obviamente predominantes, dado o baixo grau de desenvolvimento da sociabilidade, da divisão do trabalho, do pouco desenvolvimento das individualidades e da pequena complexidade das relações sociais.
O que agora nos interessa é o processo pelo qual, par-tindo de uma situação primeira onde os traços de homogenei-dade e identihomogenei-dade eram marcantes, o devir-humano dos homens deu origem a formações sociais nas quais as diferen-ças, os momentos de não-identidade, ganham em intensidade sem, com isto, colocar em causa a unitariedade originária do mundo dos homens. Não apenas as formações sociais apre-sentam diferenças muito mais acentuadas entre si, não ape-nas os complexos sociais parciais são entre si crescentemente heterogêneos, mas, também, as próprias individualidades se
diferenciam cada vez mais fortemente. Ainda mais: esse
pro-cesso de diferenciação intensiva e extensiva não é apenas o resultado do processo do devir-humano dos homens, mas é uma necessidade para a sua continuidade.11
Não é difícil perceber que, sem este processo de diferen-ciação, a heterogeneidade das tarefas postas pelas novas ne-cessidades surgidas no desenvolvimento da sociabilidade não
poderia ser enfrentada com sucesso. A crescente complexi-dade dos atos sociais, necessária à continuicomplexi-dade da reprodu-ção social, não poderia ser enfrentada sem que a substância social passasse por esse processo de diferenciação.
Lukács salienta fortemente que, nesse processo de dife-renciação, é o desenvolvimento social global o momento pre-dominante. É o processo de sociabilização que coloca as necessidades, e delineia o horizonte de respostas a elas pos-síveis, que está na base do desenvolvimento de tal diferencia-ção social.12
Pense um pouco: nas sociedades mais primitivas, o pro-cesso de diferenciação ainda estava nos seus estágios inici-ais. Os momentos de identidade eram ainda marcantes. Os indivíduos, assim como suas atividades cotidianas, seus dese-jos e aspirações, seus padrões estéticos, etc. eram muito pouco diferenciados. A partir dessa situação, pela generaliza-ção desencadeada pelo fluxo da praxis social, se originou uma nova situação, qualitativamente distinta. O devir-humano dos homens fundou e exigiu uma crescente diferenciação das tare-fas cotidianas e, conseqüentemente (mas nunca mecanica-mente), das individualidades e dos complexos sociais parciais. Mesmo complexos sociais sempre presentes no mundo dos homens (como a fala e o trabalho) passam por um processo intrínseco de crescente complexificação e enriquecimento.
Tal como nos primeiros momentos do gênero humano, nas sociedades mais evoluídas o processo de diferenciação é uma resposta aos novos e mais diversificados desafios postos pelo processo de reprodução social em cada momento histó-rico. Ou seja, o processo de diferenciação, de
desenvolvi-mento dos momentos de não-identidade, tem, como
fundamento último, uma necessidade em si unitária: a
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dução da vida humana tornada crescentemente social.
Por isso, o desenvolvimento posterior da sociabilidade não rompe com o caráter unitário das formações sociais, nem com a unitariedade última da história humana enquanto devir-humano dos homens. A manutenção da unitariedade se ex-pressa no momento em que, quanto mais desenvolvida for a sociabilidade, mais numerosas e intensas serão as mediações sociais que articulam a vida dos indivíduos, com a trajetória humano-genérica.13
Sublinhamos: para Lukács, a unidade original, nitida-mente perceptível nas sociedade primitivas, não é rompida pelo desenvolvimento social.14 Pelo contrário, esta unidade se enriquece e se complexifica, se realiza através de mediações sociais cada vez mais numerosas, diversificadas e
comple-xas.15 O desenvolvimento do ser social não dá origem a uma
crescente fragmentação do gênero, mas sim a um gênero cada vez mais socialmente articulado e, por isso, portador de uma unidade social cada vez mais rica e articulada. Por esse processo, o ser social se expressa, enquanto gênero, de forma cada vez mais complexa, rica e mediada — humana, enfim.
A forma genérico-abstrata pela qual a unitariedade do ser social se desdobra por meio da crescente heterogeneidade dos seus elementos constitutivos, após Hegel e Marx, Lukács denominou identidade da identidade e da não-identidade.16
Algo análogo ocorre em se tratando da esfera biológica ou do ser inorgânico. O desenvolvimento no interior de cada uma delas (por exemplo, o surgimento de novas substâncias
13Lukács, G., op. cit., vol I, p. 327-8. Tradução Carlos N. Coutinho, “Os prin-cípios Ontológicos...”, op. cit., p. 84-5.
14Lukács, G., op. cit., vol II*, 183/LXII. 15Lukács, G., op. cit., vol II*, p. 26-8.
na esfera inorgânica, ou de novas formas de vida no ser bio-lógico) não rompe, apenas torna mais complexa, a unitarie-dade última de cada uma delas. Tal como no mundo dos homens, a identidade da identidade e da não-identidade é, aqui também, a forma genérica do seu desenvolvimento.
Por fim, o mesmo podemos dizer acerca do ser em geral. A explicitação das distintas esferas ontológicas não rompeu, apenas tornou mais mediada e rica, a sua unitariedade última. O ser em geral, portanto, no seu movimento de explicitação categorial, manifesta a mesma forma genérica da identidade da identidade e da não-identidade.
Em poucas palavras, tanto o ser em geral, como cada uma das distintas esferas ontológicas, são processualidades cujo desenvolvimento exibe a forma de complexo de comple-xos. São complexos globais constituídos por complexos parci-ais que surgem e se desenvolvem no seu interior. A forma genérico-abstrata do desenvolvimento dessa situação ontoló-gica, segundo Lukács, é a identidade da identidade e da não-identidade.