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Capítulo 5 – Partido dos Trabalhadores: Surgimento, Definições Programáticas sobre a Dívida

5.2.2 II Congresso do Partido dos Trabalhadores – 1999

A realização do II Congresso do PT vai ocorrer numa conjuntura econômica de aprofundamento da agenda neoliberal no país. O governo FHC já está no segundo mandato e os efeitos da ofensiva neoliberal são visíveis, além disso, as seguidas derrotas que o Partido já enfrentou para a Presidência da República (1989 e 1994) e as disputas eleitorais para governos estaduais e municipais têm afastado cada vez mais o partido da independência de classe como principio norteador de suas ações.

Como pode ser exemplificado com o que ocorreu nas eleições para governo do estado de São Paulo em 1994, quando José Dirceu foi candidato. O recebimento de financiamento para campanha de empresas privadas, o que por si só já demonstra o abandono da independência de classe, é acrescido de um complicador, a empresa doadora, a empreiteira Odebrecht92 havia sido denunciada na CPI sobre fraudes no Orçamento da União por parlamentares do próprio PT. A empreiteira, junto com uma subsidiária, fez uma doação de R$ 478 mil. Esses dados ilustram o distanciamento do PT de princípios que nortearam a sua conduta nos anos 80: a independência de classe. Esse episódio recebeu críticas severas de parte do PT, inclusive da Articulação, como registra Coelho (2005)

Receber recursos de empresas, com transparência, fornecendo bônus e

declarando, nada tem de imoral ou anti-ético. (...) O que houve foi umerro político de receber da Odebrecht, uma empreiteira que acusamos na CPI do Orçamento de práticas ilícitas. (RELATÓRIO E RESUMO DAS DISCUSSÕES. O FUTURO DO PT: SEMINÁRIO NACIONAL DA ARTICULAÇÃO UNIDADE NA LUTA. 1995. p.55 apud COELHO, 2005 p. 235)

Embora tenha sido alvo de crítica, o que ocorreu evidencia uma mudança de rota significativa para um partido que em sua origem se posicionava contrário a qualquer aproximação com a “classe dominante” e que nas eleições de 1994 já considera que não havia “nada de imoral ou anti-ético” receber financiamento empresarial, quando as evidências demonstram quais são os interesses que motivam as doações de empresas, especialmente as empreiteiras, que frequentemente se envolvem, e esta já havia sido denunciada em casos de corrupção, seja através de fraudes nas licitações, obras inacabadas, superfaturamento. Essa atitude vai abrindo espaço para que as bandeiras históricas do Partido sejam relativizadas, frente à disposição cada vez maior de abrir mão de seus princípios éticos para ganhar as eleições.

Essa década vai ser marcada aqui no Brasil como assinala Coelho (2005) pela posta em marcha do projeto hegemônico da burguesia que faltou nos anos 80, tendo sua expressão por excelência no neoliberalismo, que como vimos no capítulo 4, foi em relação aos outros países da América Latina, “tardiamente” adotado aqui no Brasil.

Essa investida neoliberal, expressão da etapa financeirizada do capitalismo, tem início no governo Collor, em função da rearticulação das forças conservadoras em torno de um projeto, que representava, naquele momento, a possibilidade real, dentre os demais candidatos, de no segundo turno das eleições derrotar o projeto do PT.

Em 1992, com a renúncia de Collor frente ao iminente processo de impeachment, assume o Vice-Presidente Itamar Franco, que nomeia FHC como Ministro da Fazenda e em 1994 ao implantar o Plano Real, consolida o projeto hegemônico, que vai nas duas disputas seguintes à Presidência da República impor derrotas ao PT, o que contribui, em conjunto para acelerar as transformações internas que o PT já vinha passando.

O II Congresso do Partido dos Trabalhadores ocorreu em 199993 e teve como tônica central a crise econômica enfrentada pelo país e o avanço da implantação da agenda neoliberal pelo governo de FHC. O partido continua sendo oposição ao governo federal, mas já tem começado a gerir a máquina pública em alguns estados e municípios e experimentado

um crescimento eleitoral significativo.

Pomar (2015) considera que esse Congresso foi um momento fundamental para o processo de hegemonização do Partido pela articulação, que ele denomina maioria moderada. Para ele a adoção de eleição direta para direções partidárias esvaziou o debate político no seio do partido e estimulou as filiações em massa. Isso contribui para que o debate de ideias e as disputas internas, que caracterizavam o PT, fossem substituídos por acordos firmados “basicamente no dia de votação,” o que favoreceu os setores do partido que tinham um maior número de filiados e/ou que conseguiam levar mais filiados no dia da votação, como segue:

A capacidade de convencimento e o enraizamento social perdiam espaço, frente à logística e a capacidade de mobilizar recursos financeiros, inclusive para realizar pagamentos coletivos das contribuições partidárias. Nos encontros, diminuiu muito o número de delegados/as sem alinhamento prévio, dispostos a formar sua opinião e a votar de acordo com o que ouvisse nos debates. (POMAR, 2015 n,p)

Em função da conjuntura econômica nacional, as análises feitas no II Congresso enfatizaram a necessidade de mudanças na economia e a complexidade que tais mudanças ensejariam, em função da reorganização dos interesses do capital internacional e dos Organismos Multilaterais que lhe dão sustentação, como segue: “As novas prioridades provocarão enfrentamentos com os interesses do capital financeiro nacional e internacional que condicionam hoje as grandes decisões econômicas nacionais” (RESOLUÇÕES DO II CONGRESSO DO PT. Uma nova política econômica, 1999 p. 5).

Em relação à dívida pública externa, ela é considerada como o principal fator de desestabilização da economia brasileira nos anos 80 em função do aumento dos juros e do processo de estatização. Também são enfatizadas as consequências da adoção do Plano Brady e o crescimento da dívida em função do alongamento dos prazos, como segue:

A dívida externa bruta passou de US$ 145,7 bilhões, em 1993, para US$ 229,3 bilhões, em agosto de 1999. Diferentemente dos anos 80, o endividamento atual é essencialmente privado. Saltou de US$ 43,1 bilhões, em 1993, para US$ 126,2 bilhões, em 1999. Esse endividamento foi promovido por grandes bancos, grupos multinacionais e nacionais que disputaram as empresas privatizadas ou se beneficiaram das taxas de juros internacionais, em torno de 6%, enquanto as taxas internas nunca estiveram abaixo de 15% e o crédito ao consumidor chegava a 300% ao ano. (ibid. p. 7)

O documento também chama a atenção para a necessidade de denunciar o acordo vigente com o FMI, considerado como o mais “humilhante acordo que se tem notícia”, como forma de retomada do crescimento econômico e da defesa comercial do país. Essa denuncia requer uma renegociação da dívida externa e, caso houvesse uma postura intransigente dos credores, poderia haver uma suspensão do pagamento da dívida, visto que o endividamento do Estado é considerado pelo Partido como insustentável, como segue:

Isso supõe uma renegociação soberana, imediata e abrangente da dívida externa, pois o atual endividamento do Estado é insustentável. A intransigência dos credores e o contexto de crise cambial poderão levar a uma suspensão do pagamento da dívida externa pública. (ibidem. p. 8)

Em relação ao I Congresso, esse segundo avança nas discussões sobre a dívida ao propor não apenas a renegociação em patamares de soberania, mas também da necessidade do país ter uma posição ativa no cenário internacional sobre este tema, articulando-se com outros países para uma renegociação conjunta, a realização de uma auditoria e propõe também o fortalecimento de iniciativas como a defesa da Taxa Tobin94 sobre o movimento diário do capital financeiro. Cabe ressaltar ainda a manifestação de apoio a proposta de cancelamento da dívida e a realização do plebiscito proposta pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para o ano de 2000, como expresso no seguinte trecho: “Manifestamos nosso irrestrito apoio às iniciativas defendidas pela CNBB sobre o cancelamento da dívida dos países pobres e realização de um plebiscito sobre a dívida no ano 2000.” (ibidem. p. 8)

Essas resoluções destoam do contexto geral que o Partido vivencia naquele momento, de uma aproximação cada vez maior com a burguesia, o que nos permite considerar que a etapa de transição foi superada e agora a Articulação impõe suas pautas ao Partido. Podemos exemplificar essa hegemonia pelas alianças que já foram firmadas para as eleições de governador em 1994. O caso da Bahia, relatado por Coelho (2005) é exemplar.

94 Essa é uma proposta da Associação pela Tributação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos (ATTAC) cujo objetivo seria a tributação do capital financeiro internacional para a criação de um fundo mundial de apoio a pobreza

O PT baiano havia decidido lançar candidatura própria ao governo do Estado, mas a Articulação que era majoritária no estado decidiu retirar a candidatura de Zezeu Ribeiro que havia sido escolhido por aclamação no Encontro Estadual e convocar um encontro extraordinário para aprovar a aliança e o apoio do PT ao candidato do PSDB Jutahi Magalhães Coelho encerra esse relato com um depoimento que é digno de reprodução:

Eu participei deste encontro. Após a aprovação da aliança com o PSDB quase a metade dos delegados abandonou a sala, rasgando seus crachás e jogando sobre a mesa. Encontrei pessoas que choravam convulsivamente e que mencionavam as relações da família e do grupo político de Jutahy Magalhães com casos de violência e assassinatos no campo. (COELHO, 2005 p.230)

Além dessas alianças e apoio a partidos de centro e de direita, ocorre também o recebimento de doações para campanha ao governo do estado de São Paulo de empresas privadas e as filiações em massa. Porque consideramos que existe uma dissonância, entre as posições que o partido está assumindo e as resoluções definidas pelo Congresso em relação à dívida pública? Porque, para nós, a dívida é um dos principais instrumentos utilizados pela fração rentista do capital para a sua reprodução, e o PT nesse momento estava aproximando- se cada vez mais dos partidos que representam e defendem esses interesses. Nesse sentido, há um contrassenso entre o que se decide no Congresso, que representa o resultado das intensas disputas que são travadas nas discussões e votações, e o que na prática é realizado pela Articulação, que nesse momento já estabeleceu a sua hegemonia dentro do PT.

A medida que o PT define como objetivo do Partido ganhar as eleições presidenciais, vai abandonando de maneira sistemática seus princípios e bandeiras históricas, aproximando- se cada vez mais da burguesia. A possibilidade de construção de um projeto contra- hegemônico torna-se mais remota, e essa abordagem crítica sobre a dívida externa e seus impactos danosos sobre a economia brasileira perde a razão de ser. Nos anos 90, como já registrado no capítulo 4, ocorre sistematicamente uma modificação no perfil da dívida pública brasileira, de majoritariamente externa parte dela é transformada por mecanismos meramente financeiros, em dívida interna e as resoluções desse II Congresso registram essa modificação, mas não abordam enquanto parte dos mecanismos de atuação do sistema da dívida, mas em termos de necessidade da renegociação e do alongamento do seu perfil, após o equacionamento da situação patrimonial do sistema financeiro nacional. O questionamento feito é sobre os processos de privatização e o uso dos recursos para o pagamento dos serviços da dívida, visto que “[ ...] entre julho de 1998 e julho de 1999 o total de gastos com juros da

dívida pública foi de US$ 66 bilhões. Em apenas um ano foi gasto com juros cerca de 80% do arrecadado em oito anos de privatizações.” (RESOLUÇÕES DO II CONGRESSO DO PT. 1999. p. 8)

Esse foi o último Congresso do Partido antes das eleições presidenciais que ocorreram em 2002 e que elegeu Lula Presidente, numa ampla aliança partidária em que não havia mais nenhuma preocupação com a vinculação ideológica e de classe dos membros do Partido, tendo inclusive um grande industrial do setor têxtil como candidato a vice-presidente. A justificativa era de que com essa aliança o PT conseguiria romper a rejeição do segmento empresarial e de outros segmentos capitalistas que se opunham historicamente à “radicalidade do partido”. Essa análise será retomada adiante, quando do aprofundamento da discussão sobre o “transformismo” do PT.

As resoluções finais do III Congresso sobre a dívida pública não irão destoar das opções programáticas e ideológicas que o Partido realizou quando assumiu a Presidência da República, como será apresentado na seção seguinte.