• Nenhum resultado encontrado

Filho de mãe e pai alemães que emigraram para a cidade argentina de Buenos Aires no pós-Primeira Guerra Mundial, Gunter Rodolfo Kusch (1922-1979) é testemunha e partícipe da forte efervescência cultural que animou os arredores da Facultad de Filosofía

y Letras da Universidad Nacional de Buenos Aires, entre as décadas de 1940 e 1950 –

período em que gradua-se no curso de Filosofia. A irrupção de setores e movimentos populares com força de decisão na vida política do país exerce significativa influência neste processo, fomentando reflexões e produções diversas, ancoradas em discussões acerca de temas como identidade nacional e participação social/popular, estimulando neste então o revisionismo histórico24. Este processo se dá muito influenciado,

inicialmente, pela chegada da Unión Cívica Radical (UCR) ao governo, através da eleição do presidente Hipólito Yrigoyen (que governou nos períodos de 1916-1922 e de 1928- 1930), representando, tal acontecimento, a emergência de novos setores sociais na dinâmica política de uma sociedade em franco processo de transformação – decorrente esta de fatores como a imigração transatlântica e de uma economia crescente e desigual. Estas mudanças deram lugar a uma agenda de reclames e demandas socioculturais e econômicas, com as quais boa parte da elite conservadora que havia comandado a política até então não estava preparada para lidar. A Reforma Universitária ocorrida em Córdoba, em 1918, sob o governo de Yrigoyen, nesse sentido, marcou significativamente dito cenário, manifestando-se como um movimento universitário que logo se conectou a outros movimentos que lhe eram contemporâneos, como o modernismo literário e o anti- imperialismo. Sua repercussão foi continental: num primeiro momento em países como Peru, Chile, Colômbia, Guatemala e Uruguai; e, em seguida, no pós-1930, em países como Brasil, Paraguai, Bolívia, Equador, Venezuela e México. Tudo isso trazia à tona a inquietude de uma geração em relação à democratização das instituições nacionais (ESPASANDE, 2017, p.122)25.

Em 1943 ocorre um golpe de Estado no país, levando ao poder o general Edelmiro Farrel, participando deste processo o dirigente do Grupo de Oficiales del Ejército (GOU), Juan Domingo Perón. Com a adoção de uma logia militar simpática ao fascismo europeu,

24 MUCHIUT, M.; ROMANO, G. & LANGON, M. (1980). Datos biograficos de Rodolfo Kusch. In: KUSCH, R. Obras Completas. Tomo I. Fundación A. Ross: Rosario, 2007.

25 Este movimento e as transformações que ensejou, em alguns casos, limitou-se ao mundo universitário. Em outro, todavia – como no caso do Peru de Mariátegui ou de Cuba –, foi incorporado nos postulados das lutas estudantis ou de outras de maior alcance, políticas e sociais nacionais (ESPASANDE, 2017).

em particular o italiano, na disputa por um desenvolvimento independente do país, Perón exerce os cargos de Secretario de Trabajo y Previsión, de Ministro de Guerra e de vice- presidente do país, quando em 1944 promove uma série de reformas trabalhistas, no cenário de formação de uma nova classe trabalhadora argentina, com o crescimento da indústria no pós-Segunda Guerra Mundial. Em 04 de junho de 1946 é eleito presidente do país pelo Partido Laborista, dando início a um longo período, caracterizado pela presença do peronismo na vida política nacional26. Em meio às agitadas ocorrências políticas deste

contexto em que viveu, pois, é que Kusch se confronta com a necessidade de um retorno às bases, seja para a compreensão dos problemas sociopolíticos, econômicos e culturais então manifestos no presente em que vivia (não obstante todos os avanços humanos em matéria de conhecimento e tecnologia) ou para o encontro com o significado mesmo do seu existir em Buenos Aires, e, por extensão, à existência “do homem” - tal como tratada pela filosofia ocidental –, especificamente, este “homem” na América:

Sus actividades, investigaciones y trabajos fueron consagrados a la búsqueda, primordialmente, en la base, aquí: el porteño, el hombre de barrio, el campesino, el indígena, lo que es hoy, lo que fue, su lenguaje, sus creencias, sus pensamientos y tratar de llegar a los resortes más profundos que dan sentido a su vida27.

Como destaca Mignolo (2008), é a consciência mestiça que vai disparar a trajetória que conduz o filósofo argentino filho de imigrantes ao estabelecimento de uma distinção entre “ser” e “estar”, enquanto categorias e posições ontológicas distintas para o sujeito filosófico que emerge em suas obras:

a consciência mestiça para um filósofo argentino de descendência alemã, bem versado em Kant, Hegel, Niestzche, Husserl, Heidegger, não é uma questão de sangue, mas uma questão de sentir a fratura entre ser e estar; uma sensação de estar fora do lugar, de sentir quando irá teorizar durante os anos cinquenta como a força natural da América e, nos anos sessenta e 26 Este período pode ser compreendido em etapas: “La primera abarcó desde 1946 hasta 1974: es el

peronismo con Perón. La segunda, el peronismo sin Perón, y se prolongó hasta entrado el siglo XXI. La primera etapa abarcó las dos primeras presidencias de Perón (1946-1955), sus años de exilio, su regreso y tercera presidencia desde 1973 hasta su muerte en 1974. La segunda abarcó el gobierno peronista de su viuda, Isabel Perón (1974-1976); el peronismo en el llano entre 1976 y 1989; el menemismo (1989-1999) y, por último, el gobierno de Eduardo Alberto Duhalde (2002) y de Néstor Kirchner (2003-2007) y su esposa Cristina Kirchner (2007-2015)”. Ver: SEOANE, M. Peronismo. In: Enciclopédia Latino-Americana.

Boitempo: São Paulo, 2017. Disponível em: <http://latinoamericana.wiki.br/es/entradas/p/peronismo>. Último acesso em 30 de março de 2019.

setenta, se mover para um entendimento da filosofia aymara ou do pensamento aymara. Mas também ligando ambos, a correlação entre espaço e a densidade da vida orgânica (pampas, montanhas, selvas, florestas, rios, etc.) com cidades espalhadas e baixa densidade demográfica. Em outras palavras, Grécia e Roma (ou Jerusalém para Levinas) estão longe, muito longe, para a consciência mestiça da América. Ao contrário, a vida orgânica exuberante (alguns diriam “natureza”) e a densa memória das civilizações e cosmologias indígenas (ao invés de gregas, romanas ou hebraicas) e línguas (aymara e quechua, ao invés de grego, latim e hebraico) ofereceram na América o lugar e a memória de

quem se é (ser) e onde se está (estar). Assim, consciência mestiça é um

conceito filosófico e não biológico. Um conceito filosófico que é impensável na história da filosofia europeia, de Tales de Mileto a Heidegger da Floresta Negra em Messkirch (MIGNOLO, 2008, p. 303).

Trata-se, para Mignolo, de reflexões levadas a cabo por Kusch justamente num momento social-histórico onde, primeiro, o progresso e o desenvolvimento justificaram na Argentina projetos e processos de organização nacional, em meados do século XIX, orientados por capitais ingleses e ideologias francesas e, segundo, quando a modernização e o desenvolvimento, passam, em meados do século XX, a ocorrer sob os auspícios das políticas estadunidenses para a América Latina – processo para o qual é emblemático o discurso do presidente Harry Truman à nação norte-americana em 194928:

“La reflexión de Kusch es una extensa y agónica meditación de la conciencia de

inmigrante que a la vez rechaza el querer ser del progreso y del desarrollo” (MIGNOLO,

2013, p. 85). Daí a sua guinada epistemológica, realizada na direção de uma antropologia filosófica, a qual, segundo defende, não se pode dar num ambiente de total assepsia, sendo fundamental, nesta construção, portanto, a tomada em consideração desse “estar” na América como uma circunstância especial do sujeito filosófico; como um dado que assume no processo de investigação, relevância e significação próprias: “Nuestro

momento supone un lugar especial” (KUSCH, 2000, p. 381)29. Ao mesmo tempo, explica o

28 Ver: PORTAL TRUMAN LIBRARY. Truman’s Inaugural Address – 20 de janeiro de 1949. Disponível em: <https://www.trumanlibrary.org/whistlestop/50yr_archive/inagural20jan1949.htm>. Último acesso em 30 de março de 2019.

29 “Las de Kusch son reflexiones que solo se pudieron dar del modo en que se dieron en el momento en

que el desobedece, en el momento en que su vuelca en una total desobediencia epistémica y ontológica y reflexiona a partir de la experiencia en vez de sujetar la experiencia a los dictados de las disciplinas. (…) Kusch invierte de esta manera la larga e imperial historia de la epistemología moderna, europea por cierto, afincada en la teología durante el renacimiento y en la filosofía secular y la ciencia a partir de la ilustración.

filósofo:

asumir el lugar filosófico en América no significa tomar en cuenta ingenuamente la ubicación geográfica, porque esto de nada vale, ya que ella desaparece en la reflexión y se desvanece en su propria universalidad. En cierta manera se trata de ubicar mi reflexión en mi total residualidad, o mejor en mi defección de no contar más que con mi conciencia natural en torno a la estufa, en un lugar donde incide toda mi duda sobre cuál es realmente el eje de la universalidad que pasa por esa degradación existencial, o esta caída que supone estar calentándose junto a la estufa. En esto, mal que nos pese, la filosofía asume apenas un simple papel metodológico, la ancilla30 de mi propria universalidad (KUSCH, 2000, p. 383).

Neste processo de investigação, recorrer ao recurso próprio ao campo da antropologia, como é o caso do trabalho de campo31, como ferramenta metodológica,

implica (i) um problema gnosiológico – na medida em que, para o(a) pesquisador(a), se trata da tarefa de conhecer um objeto –, e (ii) supõe uma relação básica, entre observador(a) e observado(a) – o que, no caso de uma antropologia filosófica, significa uma relação entre sujeitos distintos (um do outro) e, portanto, de uma questão de interculturalidade. Como afirma:

El problema de la investigación no radica tanto en un procedimiento que consiste en encontrar la racionalidad en los objetos investigados, sino también, y eso mucho más en América, en ver hasta qué punto se logra tolerar una racionalidad diferente, propuesta, en cierta medida por el objeto. Esto se advierte especialmente en todo lo que hace al estudio de grupos humanos diferentes a la cultura urbana. En esto cabe incluir la Antropología, en tanto hace investigación de campo, lo cual implica metafóricamente la salida del cerco que pone la civilización. (…) Esto mismo convierte la investigación de una simple reiteración de una racionalidad prevista, en un problema de comunicación. Recuperar la racionalidad del sujeto observado, significa frustrar la propuesta inicial de la investigación para subordinarla a

Una necesidad, en definitiva – puesto que Kusch no lo dice pero está implícito en su análisis –, la fundación del saber en Europa, del Renacimiento a la Ilustración, fue la fundación de un saber que respondió a su propria existencia, un saber que se construyó para ahuyentar el hedor de brujas y alquimistas, de sarracenos y paganos, de indios y negros africanos” (MIGNOLO, 2013, p. 85; 86-87).

30 Serva, escrava. Sentido de dependente.

31 “El concepto de trabajo de campo pertenece al ámbito proprio de la Antropología. Supone varios

componentes: por un lado el observador o investigador y por el otro el observado. Ambos mantienen una relación que consiste en el conocimiento que debe realizar el observador del observado” (KUSCH, 2000, p.

la posibilidad de una comunicación (KUSCH, 2000b, p. 204; 205).

No que se refere ao primeiro aspecto, Kusch considera enquanto supostos metodológicos três áreas ou camadas a serem atingidas no processo de conhecimento de um dado fenômeno, que indicam também as dificuldades na tarefa de se chegar ao conhecimento antropológico. Estas seriam as áreas: 1) fenomênica (coleta de dados), 2) teórica (exploração de causalidades; interdisciplinaridade) e 3) genética (hipóteses; filosofia)32. Desde a perspectiva do segundo aspecto, da relação entre observador(a) e

observado(a), Kusch considera que ser um sujeito existente implica ser um ente pensante. E o pensamento, por sua vez, move-se dentro de uma linguagem, que implica a vigência de um horizonte simbólico. Este horizonte é alimentado por tradições que funcionam dentro de um presente, facilitando o projeto de criação em direção a um futuro. Esta compreensão abre espaço para a percepção de que cada sujeito integra um cosmos, ou seja, um mundo de significação, um mundo também conhecido e habitável, chamado

cultura – aquilo que é cultivado pelo sujeito; habitabilidade33 ou domicílio existencial:

Contamina con sus símbolos su habitat, hace que la piedra, el árbol, la casa, el prójimo, tengan sentido. Crea así su propria economía, organiza sus instituciones, mantiene su lengua, a los efectos de mantener la constitución de su existir: lo que decimos o sea, su domicilio en el mundo. A partir de aquí es donde la situación del sujeto investigador y del sujeto observado se complica dado que tanto uno como otro se encierran en su propria cultura (KUSCH, 2000, p. 211).

Para o processo de investigação ou de realização do trabalho de campo, esta compreensão cria um problema de comunicação, estabelecido entre a cultura do sujeito observador e a cultura do sujeito observado. Trata-se do reconhecimento de um limite

32 Na área de coleta de dados, o sujeito observado é reduzido às formas que assume quando da sua manifestação, susceptíveis à descrição, como se se tratasse de um objeto. Na área teórica, são exploradas possíveis causas e possíveis motivações não expostas na área fenomênica. A terceira área, seria a de abertura de uma hipótese após realizadas as duas outras duas etapas, supondo, para tanto, a existência de um ponto central a ser considerado.

33 “En realidad, tanto uno como otro no viven un habitat sino que habitan un paisaje. Aun cuando el sujeto

observador sea un investigador, ha sometido el habitat a un horizonte simbólico sostenido en este caso por la ciencia. Esta también es en cierta medida una estructura simbólica, pero no cabe duda que un habitat como ecología o como economía, sometido a un horizonte simbólico, aun así está organizado por una ciencia, es en el fondo siempre, no un habitat real sino un paisaje. Entendemos como paisaje el habitat interpretado, sometido a un horizonte simbólico, aun cuando si trate de la ciencia” (KUSCH, 2000, p. 211).

entre ambos, uma espécie de “terra de ninguém” que interfere diretamente na proposta que se faz o(a) observador(a), qual seja a de acercar-se e comunicar-se com o(a) observado(a). Outro aspecto consequente é a possibilidade de transcendência desse “vazio cultural” pelo(a) investigador(a), o que supõe, de algum modo, a superação da figura ou do modelo forjado pela tradição ocidental europeia:

porque comunicarse con el otro implica una reflexión a partir de la propria falta de domicilio angustiante sobre los proprios principios culturales que llevaran, por ejemplo, a investigar al observador. (…) Por este motivo se plantea la posibilidad de una Antropología Filosófica Americana. La situación de observador-observante es propria de América dada su pluriculturalidad (KUSCH, 2000, p. 213).

PARTE 1