PARTE I: UM PERFIL LITERÁRIO
2. Imagens e representações contemporâneas
2.2. Um percurso a sós: o desejo de renovação literária
2.2.2. iii Preparando o surgimento do monólogo interior
65 Sempre que nos referirmos ao "monólogo interior" em Júlio Dinis ficam implícitas as
reservas a que a utilização do termo, nesta altura, obriga. Debruçar-nos-emos sobre o assunto posteriormente, no estudo sobre a categoria da personagem.
Foi de facto Jacinto do Prado Coelho66 quem primeiro chamou a
atenção, de forma sistematizada, para a importância, no âmbito da ficção dinisiana, da sondagem psicológica e da intervenção do subconsciente na caracterização das personagens. Este recurso, que atribuiu a uma vocação pessoal do romancista, veio inaugurar, a par de outros já referidos, uma nova etapa do romance português. Para além de consistir num processo realista, permitia um melhor e mais profundo conhecimento das figuras de ficção, que um tratamento das aparências exteriores por si só não possibilitaria de forma tão completa.
Muito embora já anteriormente se tivesse verificado a existência deste particular tipo de monólogo - Camilo e Herculano também o utilizaram - há diferenças que, segundo aquele estudioso, merecem ser devidamente assinaladas. Antes de mais, deve destacar-se a frequência com que ocorrem e o grau da sua elaboração - sempre relativamente aos que o antecederam, pois que, em comparação com o verdadeiro monólogo interior (o joyciano, por exemplo), o de Júlio Dinis não apresenta qualquer tipo de afinidade, a não ser talvez uma acentuada intuição, por parte do romancista de As Pupilas, no sentido da modernização do romance e das suas técnicas discursivas.
Apesar de rigorosamente disciplinado e de responder a uma intenção específica por parte do romancista, estes aspectos permitem deduzir a profunda consciência literária que possuía, empenhado no desenvolvimento de um aspecto da escrita que sabia ser inovador e, que além disso servia à viabilização dos ideais estéticos e doutrinários que perfilhava. Pensamos concretamente no romance de tempo lento e de tratamento do quotidiano social e humano. Por outro lado, as experiências da escrita ficcional, neste campo, não estão de todo isentas de ingenuidade e de algum esquematismo, como salientou Prado Coelho;
em nossa opinião elas são legítimas porque relevam precisamente do seu carácter experimental e pioneiro.
Esta forma de contar em discurso directo os pensamentos que vagueiam na mente da personagem assume muitas vezes, no caso de Júlio Dinis, a forma de discurso efectivamente pronunciado, aspecto que também o aparta do verdadeiro discurso imediato, mais vulgarmente denominado de monólogo interior. Este último, como teremos ocasião de referir, antecede qualquer organização lógica do pensamento, confundindo-se a sua ocorrência com a própria simultaneidade do pensamento.
Deve nesta altura acrescentar-se que nem todas as deambulações mentais ou pensamentos das personagens dinisianas relevam de uma organização lógica e intrínseca. O exemplo de indisciplina no diálogo, ou seja de alguma anarquia que mais se assemelha à que verificamos suceder com frequência no verdadeiro monólogo interior do tipo joyciano vai buscá-lo Prado Coelho ao acesso de loucura que experimentou a velha criada inglesa de Uma Família. As palavras que Kate profere parecem verdadeiramente ter origem no seu subconsciente, e a representação tecnico-formal que Júlio Dinis delas dá parece-nos absolutamente inovadora. O monólogo transmite efectivamente neste caso, tanto quanto podemos percebê-lo, o processo do devir mental da personagem em foco.67
A novidade do romance dinisiano reside justamente no papel que já é atribuído ao subconsciente pelo romancista. Egas Moniz chega mesmo a admitir a possibilidade de o romancista, pela sua formação médica, ter tido conhecimento de certas teorias então na moda, que o teriam alertado para esta questão.
67 Veja-se a este propósito Uma Família, pp. 267 e segs.. Repare-se no entanto que é o
É também bastante frequente a utilização destes solilóquios mentais (ou mesmo pronunciados), nos romances de Júlio Dinis, quando as personagens se encontram em situação de debate interior, numa espécie de semiconsciência, em que de algum modo percepcionam o limite entre o bem e o mal.
O recurso a um tipo de linguagem dinâmica e coloquial, para a qual com frequência se tem afirmado que Júlio Dinis terá buscado inspiração em Garrett, fez que muitos dos momentos de reflexão que envolvem determinadas personagens traduzam extrema verosimilhança. Conquanto a maioria desses momentos de reflexão interior mais não pareça do que simples pensamentos em voz alta ou, como se lhes referiu Oscar Lopes, segredos que se trocam do 'eu' para o 'eu' e que pouco revelam da dinâmica do subconsciente, a realidade é que, em Uma Família, Carlos pensa efectivamente como se falasse, numa linguagem simples e informal:
É sabido que Egas Moniz reivindica para Júlio Dinis as honras de precursor da psicanálise, mas, efectivamente, aquilo que [...] vamos surpreender [...] não [é] propriamente a dinâmica profunda do inconsciente no sentido técnico freudiano do termo, mas algo daquela génese pré - consciente dos nossos actos[...]68.
Uma Família é deveras o romance em que Júlio Dinis dá mais
largas às suas capacidades de análise psicológica. É por isso que também se apresenta com características tão particularmente individualizantes. Foi talvez o romance mais longamente amadurecido. Contudo, também na sua restante ficção narrativa encontramos personagens que procedem em termos comportamentais de forma idêntica. Assim, temos Henrique de A Morgadinha, Daniel de As Pupilas e, ainda, Jorge em Os Fidalgos. Deles nos ocuparemos com mais
pormenor no próximo capítulo, a propósito da personagem e do seu discurso, enquanto elemento caracterizador daquela categoria.
Julgamos que o facto de Júlio Dinis ter exercitado a escrita e, mais concretamente, os diálogos, no contexto da sua produção dramática, onde em boa verdade é muito frequente o uso do solilóquio, explique, de algum modo, a recorrência com que a ele voltou ao longo dos quatro romances que escreveu. Por este motivo, os solilóquios dinisianos foram já rotulados de teatrais69, precisamente pelas características intrínsecas
que apresentam: a sua estrutura traduz uma organização lógica e sintáctica, à semelhança do que sucedeu com muitos autores clássicos oitocentistas e ao inverso do que verificamos suceder no monólogo joyciano, caótico do ponto de vista da sintaxe, fragmentário e de percepção complicada no plano do conteúdo70.
Sucede frequentemente, no caso de certos narradores dinisianos, utilizarem eles próprios um tipo de pensamento em voz alta, indagando a si mesmos razões que justifiquem o modo de escrita que instituem. Por vezes, chega a entabular-se um tipo de diálogo com o leitor, ao qual se revelam em toda a sua transparência. O caso que a seguir transcrevemos retrata bem essa cumplicidade do narrador relativamente à história narrada, de tal forma que sobre ela exterioriza os seus pensamentos e procedimentos estetico-ideológicos, que são afinal os do próprio romancista, mas de um romancista que se encontra ainda em princípio de carreira, a avaliar pela forma como se deixa arrebatar por motivos sugestionáveis:
69 M. L. Marchon, A arte de contar em Júlio Dinis, 1980, pp. 213 e segs.
70 Veja-se D. Cohn, ”La vie intérieure dans le récit à la troisième personne”, In La
Transparence Intérieure, Paris, 1981, pp. 15-164. O autor corrobora a opinião de que era
prática comum os romancistas do século XIX criarem situações em que as personagens pensavam em voz alta sobre elas próprias, como se estivessem a falar em linguagem corrente. Trata-se de um facto que afinal traduz uma característica do diálogo teatral. Cf. ainda M. L. Marchon sobre a teatralidade do monólogo dinisiano, cf. Op. Cit., pp. 213 e segs.
Ó pobre tia Filomela, que tiveste a desventura de, [...] te revestires de aparências românticas, és minha presa! já te não livras das garras do romancista, ávido de assuntos, sequioso de situações, guloso de tipos! Tens a imprudência de seres um tipo e julgas que hás-de ficar assim ignorada esquecida nas quatro paredes dessa miserável habitação; cá
estou eu para te ir procurar, como o naturalista, arrancando da concha
bivalve o inofensivo molusco e sujeitando-o à sua classificação [...].
Isto pensava eu comigo mesmo, [...] (Serões da Província, pp. 145 -146,
sublinhados nossos).
Note-se que este é um tipo de situação narrativa, muito frequentemente instituída no caso da ficção de Júlio Dinis, como teremos ocasião ainda de referir. Tais procedimentos, que numa perspectiva teórica se enquadram numa concepção de escrita mimética e realista, servem adequadamente a intenção de Júlio Dinis de sondar a alma humana através das suas variantes comportamentais, bem como de justificar a intervenção de alguns procedimentos do foro do subconsciente.
Para que o romance ou drama produzam profundo e duradouro interesse é indispensável desenhar bem as feições características das personagens e dar-lhes um colorido de carnação que simule a vida. A não ser assim, a alma assiste indiferente à leitura ou à representação (Serões da Província, II, p. 115).
Assim, pudemos verificar que efectivamente não existe na ficção dinisiana personagem alguma que não tenha sido, senão previamente pensada e concebida, pelo menos cuidadosamente caracterizada, tanto através de diálogos efectivamente pronunciados, como de pensamentos claramente verbalizados, que supostamente relevam de uma actividade do subconsciente. Uma vez mais e de forma discreta, Júlio Dinis deu 'um passo importantíssimo ' a caminho do realismo71.
71 J. Prado Coelho, Introdução ao estudo da novela camiliana, 2ª. ed., vol. 2, Lisboa,
Retomando as ideias estetico-literárias a propósito da concepção de romance, o que verdadeiramente importava a Júlio Dinis era ‘ver’ e acompanhar as personagens nas suas deambulações quotidianas, que uma vida perfeitamente trivial enformava. Verifica-se na realidade que o entrecho que constitui a maioria dos contos e dos romances se apresenta bastante simplificado, excepção única feita talvez no caso do conto
Justiça de Sua Majestade72, o qual, do ponto de vista do conteúdo,
apresenta um enredo ‘complicado’ pela relativa quantidade de peripécias e elevado número de personagens que envolve.
A preocupação do romancista centrou-se, de um modo geral, no traçado de atmosferas verosímeis; a própria contextualização dos romances em épocas particulares, o período do pós – Liberalismo e da Regeneração, ilustram a preocupação que teve na autentificação da sua escrita ficcional; a idealização da realidade por meio da imaginação não repugnava à sua estética doutrinária. Na verdade, o interesse que sempre manifestou na tentativa de explicação da sociedade em que vivia, bem assim como as mudanças sociais e as novas medidas económicas cuja implementação presenciou de forma bastante directa, é uma constante ao longo da sua obra, principalmente no caso da de ficção. Neste sentido podemos afirmar que os romances de Júlio Dinis são efectivamente do seu tempo e ilustram a estreita conexão entre a história e a literatura.