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III SISTEMAS TRADICIONAIS DE SECAGEM, ARMAZENAMENTO E

CONSERVAÇÃO DE CEREAIS NA REGIÃO DO LIMA: origens, evolução e

caracterização

O cereal, seja ele qual for, constitui hoje, tal como no passado a base da dieta alimentar humana. Por isso, semeado no Inverno ou na Primavera, consoante o tipo e o género, é depois colhido no Verão ou nos meses do Outono e acondicionado em estruturas apropriadas capazes de garantir o seu bom estado de conservação ao longo de todo o ano ou pelo menos até ao momento em que o mesmo é moído. Ora, isto é o que se verifica um pouco por todo o lado e no caso vertente do nosso estudo também na região do Lima. Por isso, abundam aqui no registo arqueoetnográfico vários tipos e géneros de estruturas que grosso modo se relacionam com a debulha, secagem e armazenamento de cereais, sendo que as mesmas, tal como as suas práticas, variaram ao longo dos tempos em função da época, dos costumes vigentes e do tipo de cereal, pois que estes requerem por vezes estratégias diferenciadas.

O local de receção do cereal, logo que o mesmo é colhido nos campos, é a eira. Esta estrutura, que pode ser em terra batida, em laje de pedra ou simplesmente aproveitar os afloramentos rochosos sempre existiu uma vez que a debulha inerente a qualquer cereal assim o exige. Apesar deste facto pouco se sabe sobre a eira em épocas anteriores ao período histórico. É o que se passa sobretudo para o Período Calcolítico e para a Idade do Bronze, épocas que sabemos já se dedicarem ao cultivo de cereais. A ausência da eira do registo arqueológico destes períodos não significa contudo que a

mesma não existisse, pelo contrário, o mais curial é até que a mesma fosse em terra batida ou que simplesmente aproveitasse um qualquer afloramento rochoso plano existente nas imediações do povoado para aí se realizarem os trabalhos de debulha do cereal46. Mais evidente é a sua presença na Idade do Ferro e no Período Romano. Para a Idade do Ferro, sobretudo pela altura do câmbio da Era, a eira fixar-se-ia no pátio central de cada núcleo habitacional castrejo. Era nele, segundo Brochado de Almeida, que se secavam os frutos e os cereais (Almeida CAB 2003, 130). No Período Romano, segundo Jorge Dias, a eira, relacionada sobretudo com a debulha de cereais como o trigo e o centeio, seria um amplo espaço térreo aberto e com contornos algo irregulares (Dias et alii 1961, 22). Nos dias de hoje a eira, fundamentalmente em pedra, é um espaço privilegiado de receção do cereal o qual aí fica durante algum tempo a secar, sendo depois, no caso do milho-maís, malhado e guardado em estruturas de secagem e armazenamento apropriadas como são por exemplo os sequeiros, os varandões e os espigueiros (Moura 1995, 23).

Independentemente destas questões, origens e cronologias, na região do rio Lima abundam essencialmente três tipos de eiras as quais resultam obviamente de conhecimentos bebidos em épocas anteriores. O primeiro é o que aproveita os afloramentos rochosos da região. Sem prejuízo de outros locais é o que se constata por exemplo nas localidades do Soajo e do Lindoso, onde estas eiras são até de carácter comunitário (Fig. 46) (Dias et alii 1961, 24)47. Diferentes são as do segundo tipo. Embora existam também no Lindoso e no Soajo, a verdade é que este tipo de eira encontra-se disseminado por toda a região e as mesmas são maioritariamente de carácter individual (Dias et alii 1961, 24; Moura 1995, 23)48. Bem definidas fisicamente, são

46 Foi precisamente isto que Brochado de Almeida encontrou em Carlão, Alijó, e que

passamos a citar: “Os vestígios, neste tipo de estruturas, reduzem-se a um número

variável de buracos circulares (…) e no seu interior, o lageado, natural ou intencionalmente preparado está mais ou menos aplanado. A função de tais buracos (…) seria a de receber postes de madeira destinados a servirem de apoio a uma vedação feita em madeira ou arbustos (…). A ser como acabamos de descrever, estaremos perante um tipo de eira cuja a cercadura, ao contrário daquelas que usam as fiadas de pedra, era feita com os materiais perecíveis. Tal função, apesar de discutível, em face dos parcos elementos conservados, terá uma certa lógica, apesar de não resolver o problema cronológico” (Almeida CAB, 1992-

1993, 237-239).

47 Tidas normalmente como comunitárias, o melhor conceito que se poderá aplicar é

contudo o de espaço público. Na verdade, trata-se sobretudo de uma reunião de arquiteturas privadas que têm em comum a partilha de um espaço público, a eira propriamente dita.

48 De referir que embora associadas a um carácter individualista também as há

coletivas. É o que se passa na pequena e rustica aldeia da Parada, junto a Lindoso, em Ponte da Barca. Aqui, a eira, situada à entrada da aldeia, é constituída por lajes de granito e o seu espaço – retangular – é delimitado por pequenos muretes de

estruturas de planta quadrangular ou retangular delimitada quase sempre por pequenos muretes que evitam que o cereal se espalhe. Apresentam dimensões médias, fixam-se por norma junto à casa de habitação do lavrador e ostentam pavimento lajeado o qual utiliza os materiais próprios da região, isto é, o granito ou a lousa, esta onde a há (Dias

et alii 1961, 24). Por último, o terceiro tipo, a eira em terra batida. Apesar de escasso

hoje este tipo de eira ainda é possível ver-se na paisagem da região. Foi o que constatamos em Santa Leocádia de Geraz do Lima, em Viana do Castelo. Situada no terreiro da casa da Maria Rites, no lugar do Coval, esta eira, em terra batida, apresenta contornos deveras irregulares e de acordo com testemunho oral colhido no local durante os meses do Inverno era coberta com ramos de caruma verde para evitar que a geada levantasse a crosta do terreno, sendo as fendas tapadas com bosta49. Esta prática de resto não era exclusiva do local pois já Jorge Dias a refere para outras partes desta região (Dias et alii 1961, 24)50.

O terceiro tipo de eira, que sumariamente aqui descrevemos, é, muito provavelmente, o mais antigo dos modelos enunciados e as suas origens deverão relacionar-se com o tempo em que o cereal aqui debulhado era o trigo, o centeio e o milho-miúdo, pois que estes requerem processos completamente distintos daqueles que se aplicam ao milho-maís. Como se sabe, o milho-maís é, fundamentalmente, um cereal de regadio que depois de colhido tem de ser convenientemente secado antes de ser armazenado. Assim, no caso deste cereal, a primeira secagem é feita ainda na eira, mesmo antes da malha, razão pela qual é a mesma em pedra. Esta é de resto a evidência maior que permite inclusivamente dividir a eira em duas tipologias de acordo com a sua função: a eira de debulha, circunscrita sobretudo ao trigo e ao centeio, e a eira de debulha e secagem, própria para o milho grosso (Dias et alii 1961, 22). Em suma, com a introdução do milho-maís, no século XVI e XVII, as eiras de terra batida foram lentamente desaparecendo da paisagem da região, tendo sido substituídas pelas eiras de pedra que são mais propícias ao tratamento do milho-maís (Dias et alii 1961, 24)51.

pedra. A circundar a eira encontram-se os respetivos espigueiros, alguns dos quais datáveis do século XVIII.

49 Agradecemos as informações prestadas pelo senhor Albano, hoje o proprietário.

No que respeita à dita eira, a mesma não é hoje utilizada.

50 Igual tipo de eira encontramos em Fornelos, freguesia do concelho de Cinfães. 51 Segundo Jorge Dias, que estudou o tema a fundo, havia eiras térreas temporárias

que depois de algum tempo de utilização eram pura e simplesmente abandonadas. Assim, com o advento da eira formada por lajes de pedra pode dizer-se que estas tornam-se doravante permanentes (Dias et alii 1961, 24).

A transformação da eira térrea em eira pétrea, em virtude da introdução do milho-maís, foi acompanhada em muitos casos pelo surgimento de certas estruturas de apoio, as quais se relacionam fundamentalmente com a secagem e armazenamento do cereal. É o que se passa por exemplo em várias freguesias do concelho de Ponte da Barca onde abundam sequeiros e varandões. Estes são aqui em geral estruturas de planta quadrangular com quatro águas, apresentam normalmente dois pisos alteados suportados por pilares e ostentam amplas portadas e ripados de madeira na fachada orientada ao sol os quais arejam o interior e lhe fornecem a luminosidade necessária. O acesso ao interior faz-se por norma através de um escadório móvel, quase sempre de madeira. No interior, resguardado da pluviosidade, há várias estruturas de armação ripada que delimitadas por um corredor central permitem o acondicionamento das espigas. É no rés-do-chão e no próprio andar sobradado que tem lugar a malha do milho, a qual pode ser feita em qualquer altura, mesmo em dias de chuva pois toda a estrutura é fechada (Dias et alii 1961, 117; Moura 1995, 23).

Estas estruturas, os sequeiros e os varandões, deveras especializados, abundam não só no concelho de Ponte da Barca como também em vastas áreas da região do Lima, ainda que em menor número (Fig. 47). Em geral, na bacia do rio Lima o sistema de secagem e armazenamento de cereal que hoje domina na paisagem é o espigueiro, sendo que o mesmo apresenta especificidades muito próprias e que variam de região para região.

De um modo geral, o espigueiro mais não é do que uma pequena construção granítica sobrelevada de planta retangular que se destina ao armazenamento e secagem do milho-maís. Apresenta estreitas frestas nas fachadas que têm como função arejar e iluminar o interior por um lado e por outro impedir o acesso das aves granívoras, as quais como se sabe apreciam e muito o cereal. Outro aspeto importante nesta estrutura é o facto de a mesma se situar sempre acima da cota do terreno. A estrutura principal, o corpo retangular propriamente dito, apoia-se, grosso modo, em pequenos pilares encimados por mesas ou mós e o pavimento é por norma em madeira. Este pormenor arquitetónico é de suma importância uma vez que impossibilita o contacto da humidade do solo com o cereal, assim como impede o acesso dos roedores ao interior. De relevo neste tipo de estruturas é também o alinhamento do telhado. Este varia entre as duas e as quatro águas, pode ser em telha ou em pedra, e ostenta normalmente beirais que excedem os limites físicos do corpo principal o que permite um fácil e cómodo escorrimento das águas das chuvas. O acesso ao interior é na maioria das vezes feito

através de uma escada de madeira móvel que se coloca na parte mais alongada do corpo ou na parte mais estreita (Moura 1995, 24).

O espigueiro como sistema de secagem e armazenamento relacionado com o milho-maís encontra-se, como atrás se disse, disseminado um pouco por toda a região e o mesmo mereceu atenção especial no século XX, graças sobretudo à sua riqueza arquitetónica e etnográfica. Estas estruturas foram estudadas pela primeira vez por Abel Viana nos anos trinta, depois, nos inícios da década de 1960, por Jorge Dias e, mais recentemente, nos anos 90 por Armando Reis Moura, tendo-lhes sido atribuídas tipologias em função dos tamanhos, dos corpos edificados, dos materiais empregues na construção e até na forma dos telhados. Assim, como facilmente se constata há uma multiplicidade de tipologias de espigueiros na região as quais grosso modo se distribuem nos seguintes termos: os espigueiros estreitos, os espigueiros de paredes verticais, os espigueiros que são todos em pedra e aqui incluem-se naturalmente os espigueiros do Lindoso e do Soajo por exemplo, os espigueiros do tipo da serra D` Arga (Caminha), os espigueiros do tipo Cidadelhe (Ponte da Barca), os espigueiros de pedra e madeira, os espigueiros só de madeira, os espigueiros com cápeas e guarda-ventos, os espigueiros sem cápeas e guarda-ventos, os espigueiros de ripado horizontal e, entre outros, os espigueiros de ripado vertical. Independentemente destas tipologias52, pode dizer-se que na região do rio Lima abundam essencialmente três tipos de espigueiros, isto se tivermos em conta os materiais utilizados na elaboração do corpo principal, a saber: os espigueiros que são totalmente em pedra, os espigueiros em pedra e madeira e os espigueiros só em madeira.

O primeiro tipo encontra-se fundamentalmente sediado em várias freguesias dos concelhos de Ponte da Barca e de Arcos de Valdevez, sobretudo, nos casos mais conhecidos, no Soajo, Lindoso, e nos lugares de Parada e Cidadelhe. São normalmente construções sobrelevadas por pequenos pés encimados por mesas, umas vezes circulares e outras retangulares, enquanto vários balaústres biselados dão origem a sucessivas e estreitas frestas de pendor vertical53 que arejam e iluminam o interior do espigueiro e que no seu conjunto dão forma a um corpo retangular alongado totalmente pétreo e que

52 Reservamo-nos aqui ao direito de não descrevermos todas estas tipologias com o

intuito de não tornar o tema demasiado longo. Nesse sentido remetemos o aprofundamento do tema para obras especializada, sobretudo para as que foram assinadas por Jorge Dias e Armando Reis Moura, as quais constam da nossa bibliografia geral.

53 Na região o espigueiro de frestas horizontais é bastante raro. A exceção encontra-

se em Cidadelhe e Parada, ambas em Ponte da Barca, onde de facto pontuam alguns espigueiros deste género. (Dias et alii 1961, 67).

pode apresentar mais do que um vão. A cobertura, quase sempre em duas águas e provida de guarda-ventos, faz-se, na esmagadora maioria dos casos, com lajes graníticas que excedem os limites físicos do edificado formando assim beirais (Fig. 48 e 49). Na parte superior da cobertura fixam-se por vezes relógios de sol ou pequenas peanhas que recebem no seu topo cruzes. A entrada, acompanhada por vezes por arco abatido e cartela com a data da sua construção, fixa-se por norma na fachada frontal, sendo a mesma enquadrada pelas colunas e padieiras do esqueleto do edificado. Porém, casos há, em que a entrada se fixa na fachada lateral, como acontece por exemplo em alguns espigueiros do Lindoso e do Soajo. O acesso ao interior faz-se normalmente através de uma escada de madeira móvel e a porta, quase sempre no mesmo material, ostenta por vezes requintes decorativos deveras impressionantes. Foi o que encontramos por exemplo num espigueiro que se encontra na freguesia de Parada, em Ponte da Barca. Aqui, mais do que o espigueiro em si merece certamente destaque os elementos decorativos gravados na porta de entrada os quais compreendem lateralmente elementos geométricos concêntricos e, na parte central, a figuração de uma custódia de base triangular encimada por um fuste estreito que remata a nível superior com circunferência raiada e no seu interior com a representação de uma lúnula, isto é, com o espaço onde se guardava a Hóstia Sagrada o que em termos simbólicos nos remete para o carácter sacro do pão.

O segundo tipo de espigueiro, aqueles que são feitos em pedra e madeira, encontram-se disseminados um pouco por todo o Lima. Em geral, este tipo de espigueiro pontua de forma isolada na paisagem54, normalmente junto da habitação rural, mas casos há em que os mesmos se fixam em núcleos significativos e em torno de eiras comunitárias como acontece por exemplo em Santo Adrão55, Arcos de Valdevez. São, no geral, construções de esqueleto granítico e ostentam ripados de madeira os quais variam entre o tipo horizontal e o tipo vertical, embora o mais frequente seja mesmo o segundo género. Apoiam-se, como é habitual, em pequenos pés encimados por mesas circulares ou retangulares e a cobertura, quase sempre de duas águas, é telhada. O acesso ao interior, cuja porta se encontra normalmente na parte mais estreita do corpo,

54 Em geral, podem ser encontrados na faixa litoral do concelho de Viana do Castelo,

sobretudo a sul do Lima, assim como em algumas zonas interiores da Ribeira Lima. Em Ponte da Barca por exemplo podemo-lo ver em Paço Vedro de Magalhães.

55 Estes espigueiros aqui, em Santo Adrão, eram em pedra e apresentavam nas

fachadas ripados de madeira, porém, nos dias de hoje o ripado de madeira foi substituído por pequenos tijolos de formato retangular com orifícios circulares pequenos.

faz-se habitualmente, como em tantos outros casos e situações, através de uma escada de madeira móvel (Fig. 50, 51 e 52).

Por último, o espigueiro inteiramente em madeira. Este tipo pontua em vários pontos da bacia hidrográfica do rio Lima, sobretudo a poente do centro da vila de Ponte de Barca, em Ponte de Lima, aqui, por exemplo em Beiral do Lima e Bertiandos, e em várias partes do concelho de Viana do Castelo. De planta retangular têm como elemento característico a caixilharia que forma o corpo propriamente dito e que é toda em armação de madeira. Apresentam ainda como característica dominante a prevalência do ripado horizontal, sendo a cobertura telhada e hoje em muitos casos em folha zincada.

O espigueiro, tal qual hoje o concebemos, está longe de ter sido o único sistema de armazenamento e secagem do cereal na região do rio Lima. Antes da sua aparição, tenha-se ela dado no século XVI/ XVII56, ou no início da Alta Idade Média por influência dos Suevos como defende Jorge Dias57, já por aqui pululavam estruturas que tinham como finalidade armazenar e secar o cereal. É o caso dos caniços e dos celeiros, estes frequentemente mencionados na documentação medieval, mas também dos dolia da Época Romana e, por exemplo, dos silos cavados no substrato rochoso e que a Arqueologia vem documentando em vários partes do Entre-Douro-e-Minho para o Calcolítico, para a Idade do Bronze e para a Idade Média.

56 São várias as teorias sobre as origens do espigueiro. Entre outras, releve-se a

posição assumida por Frankowski que vê a sua origem na cultura palafítica local, bem como a tese preconizada por Juan Lopes Soler e que grosso modo relaciona o seu aparecimento apenas com o momento em que o milho americano foi introduzido na Europa. Balbas por sua vez coloca as origens do espigueiro nos tempos pré-romanos, relacionando-o com a casa regional asturiana enquanto para Walter Carlé o seu desenvolvimento deverá ter-se dado a partir da existência de um modelo primitivo de varas entrelaçadas, redondo ou quadrangular (Carlé 1948, 275- 293; Dias et alii 1961, 203-204; Moura 1995, 26). Por sua vez, Bustamante Álvarez coloca as suas origens mais elementares no século V a.C., as quais evoluíram depois para a forma romana (Bustamante Álvarez 2013, 4).

57 Jorge Dias defende que o espigueiro galaico-português, comum no Minho e na

Galiza, é anterior à introdução do milho-maís baseando-se fundamentalmente em duas evidências. A primeira diz respeito ao códice escurialense datado do século XIII e que representa iconograficamente dois espigueiros do género. A segunda tem a ver com uma pequena urna funerária da Idade do Bronze que foi encontrada na Alemanha, precisamente onde viviam os Suevos. Por estes factos, Jorge Dias coloca a hipótese do espigueiro galaico-português ser anterior à Fundação da Nacionalidade e ter sido introduzido pelos Suevos (Dias et alii 1961, 209). Ainda a este respeito, uma nota mais. A Arqueologia tem encontrado no espaço Ibérico, nomeadamente na parte sul do nosso país, alguns horreum de Época Romana (Bustamante Álvarez 2013, 4). Mais próximo da região do Lima documenta-se um

Os caniços, frequentes até há uns anos atrás no Soajo (Arcos de Valdevez) e nas freguesias de Entre-Ambos-os-Rios e Britelo (Ponte da Barca)58, são uma espécie de cestos encanastrados59 de formato circular e dimensões razoáveis60 que repousam, normalmente, sobre uma mesa ou estrado61 cuja grade, formada por quatro ou mais pranchas de madeira ligadas entre si por entalhes resultando com isso o soalho propriamente dito, assentam sobre blocos de pedra, os quais são por norma toscos e irregulares mas que isolam a estrutura principal da humidade existente no solo (Fig. 53). Possuem, a nível inferior, abertura para descarga do cereal, e, na parte superior, cobertura cónica que excede o diâmetro do cesto, formando com isso um beiral. Esta cobertura, designada normalmente por carucho, é armada com varas e revestida com palha de centeio a qual remata no topo com entrelaçados que lhes dão um certo requinte62. Suportado por forqueiras colocadas no interior do cesto, o carucho é peça móvel e independente do corpo principal e permite que o cereal seja depositado a partir dele63.

A origem do caniço é do ponto de vista histórico dúbia e incerta uma vez que o mesmo é feito com recurso a materiais perecíveis e que logicamente desaparecem do registo arqueológico com o tempo. Ainda assim, Jorge Dias coloca as suas origens

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