3. AÇÕES AFIRMATIVAS COMO POLÍTICAS PÚBLICAS
3.2 ARGUMENTOS PRÓS E CONTRAS AS COTAS (AÇÕES AFIRMATIVAS)
3.2.1 Ilegalidade x Legalidade do Sistema de Cotas
A discussão apresentada neste tópico envolve o embasamento legal do sistema de cotas, com diferentes interpretações sobre alguns dispositivos, principalmente sobre a Constituição Federal do Brasil de 1988 e o princípio da igualdade por ela previsto.
3.2.1.1 Argumento contrário - inconstitucionalidade/ilegalidade do sistema de cotas
Bonadiman (2013) afirma em seu estudo que o sistema de cotas é inconstitucional, não encontrando respaldo no ordenamento jurídico brasileiro. O autor justifica seu ponto de vista por meio dos seguintes argumentos: a) fere o princípio da igualdade garantido pelo ordenamento jurídico; b) fere o objetivo fundamental da República Federativa do Brasil de reduzir as desigualdades sociais e regionais, visto que representa uma discriminação ao contrário, igualmente odiosa, da mesma forma que qualquer outra discriminação; c) contraria o art. 5º da Constituição Federal (todos são iguais perante a lei); d) afronta o inciso III do artigo 19º da Constituição Federal, que veda a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios de criarem distinções entre brasileiros ou preferências entre si, sendo justamente isso que o sistema de cotas faz; e d) atinge o inciso V do artigo 208º da Constituição Federal, que determina como dever do Estado garantir a educação mediante “acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um” (BRASIL, 1988, [n.p.]), ao não possibilitar tal garantia, em virtude de que, por vezes, um aluno branco é preterido a um cotista (mesmo com notas superiores), apenas em razão de sua cor.
Na interpretação de Bonadiman (2013), a Carta Magna brasileira proíbe a utilização da raça ou cor dos indivíduos sem que exista uma justificativa a cerca da discriminação. No caso do sistema de cotas, a autora pondera que não existe “correlação lógica entre a desequiparação e o fator discrímen, até porque os alunos negros são privilegiados com base
em um fator (raça) que não guarda correspondência com as aptidões exigidas dos demais candidatos, quais sejam o conhecimento e a capacitação técnica” (Idem, [n.p.]), uma vez que os indivíduos “que prestam o vestibular são submetidos a uma avaliação do conhecimento adquirido no ensino fundamental e médio, independentemente da raça ou cor. Logo, não há qualquer relação entre a raça dos alunos e o que se mede no vestibular” (Idem, [n.p.]). A ideia que um determinado grupo (como negros e pardos, por exemplo) estaria sendo privilegiado, em detrimento de outras pessoas, corrobora com a quebra do princípio da igualdade.
3.2.1.2 Argumento pró - as ações afirmativas/cotas são legais, respaldadas por Diplomas Normativos
A defesa de que as cotas são políticas legais se sustenta nos dispositivos presentes na legislação nacional, e até mesmo internacional, como é o caso da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (Adotada pela Resolução 2.106-A (XX) da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 21/12/1965 e ratificada pelo Brasil em 27/03/1968). Nos termos de seu artigo 1º, discriminação racial significa, preliminarmente,
qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objeto ou resultado anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício em um mesmo plano (em igualdade de condição) de direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida pública (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1965, [n.p.]).
No artigo 2º da referida resolução, frisa-se que “os Estados-partes condenam a discriminação racial e comprometem-se a adotar [...] uma política destinada a eliminar a discriminação racial em todas as suas formas e a encorajar a promoção de entendimento entre todas as raças” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1965, [n.p.]).
Nesse caso, se as circunstâncias exigirem, os Estados têm a liberdade/competência para tomarem medidas concretas para assegurar o desenvolvimento e a proteção de determinados grupos e indivíduos, nos campos social, cultural, econômico e outros. Ainda, de acordo com o §4, do art. 1º da mesma resolução, essas medidas não serão consideradas medidas de discriminação racial, desde que não conduzam a manutenção de direitos separados e não prossigam depois de terem seus objetivos alcançados (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1965).
Sendo assim, as cotas representam uma dessas medidas especiais (uma discriminação positiva), prevista na Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, pois são caracterizadas pela adoção de meios de proteção e/ou incentivo para determinados grupos, para promover seu desenvolvimento e equipará-los aos demais (PIOVESAN, 2006).
Ainda, a Carta Magna brasileira (BRASIL, 1988), conhecida como “Constituição Cidadã” estabelece, como objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional;
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (BRASIL, 1988, [n.p.], grifo da autora). O objetivo destacado (inciso III, art. 3º da CF/1988) ampara a busca pela igualdade material pretendida com as ações afirmativas (PIOVESAN, 2008). Isso porque, segundo a autora, “ao lado do direito à igualdade surge também, como direito fundamental, o direito à diferença. Importa o respeito à diferença e à diversidade, o que lhes assegura um tratamento especial” (PIOVESAN, 2006, p. 39).
Prosseguindo com a Constituição Federal (CF), vale destacar que um dos princípios constitucionais é o da igualdade (art. 5º da CF/1988), que, como ressalta Piovesan (2008), é muito utilizado pelos opositores, sob o argumento de que as ações afirmativas atentam a esse princípio, instituindo medidas discriminatórias. Contudo, na concepção da autora, as ações afirmativas não são orientadas pelo princípio da igualdade formal (“todos são iguais perante a lei”), mas sim da igualdade material, substantiva, que “corresponde ao ideal de justiça enquanto reconhecimento de identidades (igualdade orientada pelos critérios de gênero, orientação sexual, idade, raça, etnia e demais critérios)” (Idem, p. 888).
Gaspar e Barbosa (2013, p. 2) colaboram defendendo que é preciso evoluir do modelo de igualdade formal para o de igualdade material devido à necessidade de serem oferecidas “condições desiguais de acesso àqueles que são tratados historicamente e, portanto, estruturalmente, de forma desigual, com o propósito de corrigir décadas de falta de oportunidades”. Nesse caso, os autores compartilham do entendimento de que as ações afirmativas representam uma discriminação positiva, onde há diferenciação para que haja a inclusão.
Ainda em relação à temática igualdade, é preciso ressaltar as ideias de John Rawls (2003), principalmente no que se refere à formulação dos seus princípios de justiça social. O autor perpassa pela seguinte indagação - supondo que as desigualdades econômicas e sociais
fundamentais sejam as diferenças de oportunidades ao longo de toda vida dos cidadãos e, tendo em vista que são afetadas, por exemplo, pela classe social, oportunidades de educação, dons naturais, má ou boa sorte, pergunta-se: quais seriam os princípios que legitimam essas diferenças, tornando-as congruentes com o ideal de cidadania igual e livre na sociedade, num sistema de equidade de cooperação?
Como possível resposta, Rawls (2003, p. 60) apresenta os seguintes princípios: a) cada pessoa tem o mesmo direito irrevogável a um esquema plenamente adequado de liberdades básicas iguais que seja compatível com o mesmo esquema de liberdades para todos; e b) as desigualdades sociais e econômicas devem satisfazer duas condições: primeiro, devem estar vinculadas a cargos e posições acessíveis a todos em condições de igualdade equitativa de oportunidades; e, em segundo lugar, têm de beneficiar ao máximo os membros menos favorecidos da sociedade (o princípio da diferença).
Destaca-se o segundo princípio apresentado por Rawls (2003), que prevê tanto condições de igualdade equitativa de oportunidades, quanto questões de diferenças na sociedade. O autor discorre sobre tal princípio:
a ideia aqui é que as posições não devem estar abertas apenas de um modo formal, mas que todos devem ter uma oportunidade equitativa de atingi-las. À primeira vista, não fica claro o que isso significa, mas podemos dizer que aqueles com habilidades e talentos semelhantes devem ter chances semelhantes na vida. Mas especificamente, supondo que haja uma distribuição de dotes naturais, aqueles que estão no mesmo nível de talento e habilidade, e têm a mesma disposição para utilizá- los, devem ter as mesmas perspectivas de sucesso, independentemente de seu lugar inicial no sistema social. Em todos os setores da sociedade deveria haver, de forma geral, iguais perspectivas de cultura e realização para todos os que são dotados e motivados de forma semelhante. As expectativas daqueles com as mesmas habilidades e aspirações não devem ser afetadas por sua classe social (Idem, p. 77). Outro Diploma Normativo que expressa uma condição de legalidade às ações afirmativas é a “Lei das Cotas” (Lei nº 12.711/2012), que dispõe sobre a reserva de vagas para o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio (BRASIL, 2012a). Mais do que prever tal reserva, a lei obriga as instituições federais de ensino a destinarem, em cada processo seletivo de ingresso, percentuais de vagas para estudantes oriundos de escolas públicas, pretos, pardos e indígenas e portadores de deficiências (BRASIL, 2012a).