3. O DESENHO DE PRODUÇÃO (PERCURSO METODOLÓGICO)
5.2 ILPI: uma alternativa escolhida pelo outro
O que leva alguém a optar por viver em uma ILPI ou deixar um familiar viver ali? As razões são inúmeras, mas o impacto inicial parece ser um choque e, na maioria das vezes, essa opção é escolhida pelo outro.
Um choque. Uma mudança brutal na vida cotidiana. As razões de entrada em uma instituição se devem, em geral, à perda do cônjuge ou de um ente próximo, à perda de autonomia, à impossibilidade de ser cuidada pela família, seja porque ela não pode, seja porque não quer (Peixoto, 2011, p.345).
As nossas colaboradoras também narram esse contexto. Alegria, Afeto e Tranquilidade foram levadas à ILPI por familiares.
Fiquei viúva. Se eu tivesse com marido, não estava aqui.
Não houve família, tive útero “infantil” e meu marido era estéril, aí me trouxeram pra aqui (a família do marido) (Alegria).
Porque minha filha não tinha aonde me colocar, ela pagava uma pessoa, a pessoa pegou o dinheiro todinho de
um mês, raptou, foi se embora, não tem quem soubesse nem notícias dela. Ai ela disse: mãe, a senhora não vai mais
ficar não (Afeto).
Morava só. E eu só não moro ainda lá porque eles (o tio)
não querem que eu more só. Eu moro, agora aqui, eu moro
com uma pessoa que trouxeram, que é doente (Tranquilidade).
A decisão da família em deixar seu idoso em uma ILPI é carregada de preconceitos e conotação negativa. Porém, Alcântara (2004) alerta que é inadequado julgar sempre a família pela infelicidade de seus idosos, como muitos o fazem. É importante considerar que as pessoas não mudam em função da idade, em outras palavras, os idosos podem também ser tiranos, chatos e indiscretos. O avançar da idade cronológica não é garantia para um comportamento adequado. Aliado a isso, há circunstâncias em que a família está
completamente impossibilitada de cuidar do idoso e sem opções, vê-se obrigada a decidir pelo internamento, o que não exclui o sentimento de remorso.
Já Sinceridade foi levada por um pastor da igreja que, segundo ela, viu sua situação e sugeriu que ela fosse amparada em um lugar que pudesse lhe oferecer mais cuidados, diante da situação em que ela se encontrava com um problema de pele.
Eu não me lembro, eu não sabia nem que isso aqui existia, eu nunca que vim aqui, não sabia que aqui existia esse abrigo. Isso foi através do pastor que ele agora é pastor lá da igreja que eu frequentava e então ele perguntou a mim
se eu queria vir pra aqui, eu disse: é pastor do jeito que eu tô é o jeito eu querer ir porque na situação que eu tô, eu não tenho possibilidade de fazer nada (Sinceridade).
Apesar de todas alegarem que foi a decisão do outro que impulsionou a ida delas para a ILPI, percebemos nas falas de Alegria e Sinceridade que essa alternativa foi o melhor para elas.
Segundo Debert (1999), a entrada, em um asilo, pode ser uma opção capaz de incitar a independência e o resgate de uma multiplicidade de papéis sociais e de uma vida que poderia estar ameaçada ou em franco declínio fora do asilo.
Alegria tem muita gratidão pelo pastor, tio do seu marido, que a colocou na ILPI, como expressa em sua fala,
Diga a ele que mandei um abraço bem grande e que estou
muito feliz aqui, que ele me botou aqui, para mim ele foi
o melhor pai.
O sentimento de gratidão também é expresso por Sinceridade, ao pastor que a levou para ILPI.
Fez esse favor que eu não pago nunca a ele, porque isso é uma benção, a pessoa está no maior sufoco na vida e
Acerca disso, Varella (2003) relata que também podem haver aspectos positivos na institucionalização do idoso, evidenciando que não é só na família que se encontra possibilidades de crescimento.
Tranquilidade refere-se à ILPI como uma casa que seu tio alugou para ela ficar. Em nenhum momento, ela se refere à palavra “abrigo” ou “asilo”. Ela menciona cada quarto da ILPI como uma casa que é dividida com outra pessoa.
Essa casa foi ele (o tio) que alugou pra eu ficar aqui, ai aquela outra
(idosa que fica no quarto com ela), tem outra porque quando eu cheguei tava a cama e tava a mulher dormindo ai, mas disseram que foi que botaram porque pra ficar duas pessoas.
Apesar do pouco tempo na ILPI (1mês), Tranquilidade refere-se à instituição como “casa”, revelando, a partir dessa denominação, o seu bem-estar com o local, que ela sente-se, de verdade, em casa. No momento da entrevista, é mencionado e indagado a ela como se sente naquela Instituição – naquele abrigo, e essas definições não parecem estranhas para ela, nem tampouco são refutadas. Por tal motivo, acreditamos que se referir àquele local como sua casa é, de fato, como ela se sente; ou outra possibilidade é ela evitar os termos “asilo” ou “abrigo” pelo caráter negativo que eles possuem.
É importante destacar que, apesar de os relatos das colaboradoras evidenciarem a ILPI como um lugar agradável, demonstrando gratidão e até satisfação em estar ali, conforme discorreremos a seguir, o asilamento ainda pode ser considerado um “depósito de velhos”.
Mas tudo leva a crer que a institucionalização da velhice permanece invisível aos olhos públicos. É preciso uma vigilância sistemática para coibir certos maus-tratos que se instalam em cada espaço das instituições asilares públicas ou privadas; é imperativo quebrar o silêncio e mudar a imagem do asilamento como “depósito de velhos” e lugar de exclusão (Peixoto, 2011, p. 354). Araújo (2012) corrobora com essa ideia trazendo a reflexão de que o Brasil envelhece em ritmo acelerado, revelando transformações sociais, urbanas e familiares e,
por isso, são imprescindíveis mudanças nas formas de atendimento e tratamento dos idosos que possibilitarão uma vida institucional digna e humanizada.
E o que pensam nossas idosas entrevistadas sobre morar em uma ILPI? Elas continuam em cena, dialogando sobre os ganhos e perdas nessa experiência. Discussão que será abordada nos próximos tópicos.