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MOTRICIDADE E IMAGEM CORPORAL 6.1 Motricidade

FLEXIBILIDADE DETERMINADAS PELA INTERAÇÃO DE DOIS OU MAIS ELEMENTOS, SENDO DIFÍCIL

6.2 Imagem Corporal

A noção de esquema ou imagem corporal foi formatada a partir de estudos neurológicos sobre conseqüências de lesões no sistema nervoso na década de 40 e 50. Entre as pesquisas mais importantes estão as relacionadas a amputações e a membros fantasmas.

Em relação a estas experiências Schilder (1994, p.13) afirma que:

Quando uma perna é amputada, aparece um fantasma; o próprio indivíduo ainda sente a perna e tem uma vívida impressão de que ela continua ali. Também pode esquecer sua perna e cair. Esse fantasma, essa imagem animada da perna, é a expressão do esquema do corpo.

Aludindo a respeito de imagem corporal e membro fantasma, Damásio (1996, p.182), afirma que:

A par dos mapas dinâmicos do corpo de acesso imediato (on-line), existem mapas um pouco mais estáveis da estrutura geral do corpo que representam a propriocepção (sensação articular e muscular) e a interocepção (sensação visceral), e que constituem a base de nossa noção de imagem do corpo. Essas representações são de acesso não imediato (off-line), ou dispositivas, mas é possível ativá-las nos córtices somatossensoriais topograficamente organizados, lado a lado com a representação on-line dos estados corporais do agora, a fim de permitir uma idéia do que nossos corpos tendem a ser e não do que são no momento presente. A melhor prova desse tipo de representação é o fenômeno do membro fantasma.

O corpo é um sistema no qual aspectos interoceptivos, exteroceptivos e proprioceptivos se integram. Os exteroceptivos estão vinculados ao funcionamento dos órgãos sensoriais, além de estimulações externas. MENEGATTI (1995).

... O cérebro é de alguna maneira um resumo do corpo: pensamos com imagens de origen sensorial, inclusive por meio da sensibilidade muscular que identifica o grau de tensão da musculatura, portanto pensamos com a presença do corpo. Trata-se do pensamento mesmo, da consciência imersa

no esquema corporal e da harmonia entre as partes. Esta harmonia depende das estruturas unificativas do corpo e do cérebro nos centros da base. Deshimaru & Chauchard (1994, p.113).

Existe ao menos um ponto em comum entre as várias metodologias de trabalho corporal em Psicologia, independentemente de sua abordagem teórica.

Todas elas pressupõem a existência de alguma espécie de representação internalizada do corpo, em relação ao indivíduo que nele vive. Podemos [...] nos referir a essa representação interna do próprio corpo de uma pessoa como sua imagem corporal. Farah (1995, p.81)

Shilder (1981, p.11) assim descreve imagem corporal:

Entende-se por imagem do corpo humano a figuração de nosso corpo, formada em nossa mente, ou seja, o modo pelo qual o corpo se apresenta para nós. O esquema do corpo é a imagem tridimensional que todos têm de si mesmos. Podemos chamá-la de imagem corporal. ...Existe uma

apercepção do corpo não é uma mera representação.

Foram desenvolvidos instrumentos projetivos para o entendimento e mensuração da relação estabelecida entre o indivíduo e sua imagem ou esquema corporal, estes podem ser utilizados individualmente ou em grupos como instrumento diagnóstico e também como balizadores para o acompanhamento do desenvolvimento de um indivíduo ou grupo.

Lowen (1979, p.21), após extensos estudos clínicos sobre aplicação de testes projetivos afirma que: “Desenhos de figuras e outras técnicas projetivas acrescentam importantes informações sobre quem a pessoa é”.

ALEXANDER (1983) pressupõe que com o nascimento nos é dada nossa imagem corporal em forma de sensibilidade para sentir o todo de nossa constituição corporal. Se acontecerem dificuldades no desenvolvimento, inconscientemente criam-se representações de formas e proporções que estão em desacordo com a realidade concreta. O reflexo postural pode ser prejudicado por tensões musculares inadequadas, que conduzem a representações das estruturas do corpo.

Estudando a etiologia da imagem corporal LOWEN (1979) concluiu que ela se forma através dos inúmeros contatos físicos entre a criança e os pais.

Wallon (apud RENNÓ, 1979) acredita que o esquema corporal é o conhecimento do próprio corpo, de suas partes, dos movimentos, das posturas e das atitudes. Este esquema não é só representado mentalmente, mas integrado e em contínua modificação pelas relações com o exterior, através das expressões de espaço e

tempo, e na conexão com outras pessoas, através do contato corporal, da evolução do gesto e da linguagem.

Refletindo sobre imagem mental e saúde LOWEN (1979) assegura que o indivíduo sadio possui uma imagem mental clara de seu corpo, imagem esta que ele é capaz de reproduzir verbal e graficamente. É também capaz de desenhar uma figura razoavelmente igual ao corpo humano.

Freire (2001, p.23) diz que “O corpo é o porta-voz de verdades inconscientes que buscam revelação na realidade”.

Para KURTZ & PRESTERA (1989), o corpo não mente. Seu tom, cor, postura, proporções, movimentos, tensões e vitalidade expressam o interior da pessoa.

Os desenhos da figura humana contam o grau de integração, o estado de harmonia entre as várias partes do corpo, o sentimento em relação à superfície do corpo, a aceitação das características sexuais, o estado de espírito básico que o corpo revela, e a atitude geral em relação ao corpo.

LOWEN (1979) percebeu em seu trabalho clínico que se uma pessoa é destituída de prazer físico, ela ficará atrapalhada ao ter que desenhar uma figura humana, e muitos detalhes serão omitidos.

Sobre as representações corporais em modelagens, pinturas e desenhos Alexander (1983, p.87-88), observa que na figura representada a pessoa manifesta sua personalidade integralmente. E exemplifica:

Uma pessoa que do ponto de vista psíquico, ainda não é capaz de se manter sobre seus próprios pés, representará figuras cujas pernas não tem pés. Os que apresentam dificuldades de comunicação e contato farão sua representação sem as mãos.[...] Formas de compensação ou realização de desejos aparecem quando, por exemplo, um homem magro faz uma representação superdimensionada ou uma mulher desproporcional represente uma figura graciosa e elegante. [...] Pessoas intelectualizadas também podem representar figuras cindindo cabeça e corpo, etc.

Distorções na formação da imagem corporal encontram sustentação na teoria de desenvolvimento das neuroses, que trata da fixação de padrões de comportamento relacionados a zonas erógenas específicas. O foco no corpo e na sua capacidade de simbolização remete a um olhar não só sobre em sua capacidade de abstração simbólica, mas também como objeto auto-expressivo. Dolto; Laban (apud SERRA, 1993).

Segundo Fowler (apud VASCONCELOS, 1997), a imagem corporal é o desenho mental do próprio corpo. É o produto das percepções consciente e inconsciente, das atitudes e dos sentimentos que o indivíduo elabora face ao seu corpo e ao longo da vida.

ALEXANDER (1983), utilizando desenhos projetivos de esqueletos encontrou representações de deformações da imagem corporal que estavam relacionados a desvios concretos da postura e dos movimentos dos seus autores.

A imagem corporal se baseia em transformações contínuas a partir do modelo postural da criança até o modelo postural do adulto.

LOWEN (1979) entende que a imagem corporal desempenha duas funções importantes na vida do adulto. Serve como modelo de execução da atividade motora consciente e também para localizar sensações.

Segundo Volkwein & Mcconatha (apud BECKER 1999), a imagem corporal pode ser vista como a relação entre o corpo de uma pessoa e seus processos cognitivos. Daí deduzem que a imagem corporal pode ser definida como uma representação mental, ou auto-esquema da aparência física.

A formação da imagem corporal tem relação permanente com a história motora do indivíduo, que ocorre em três dimensões: fisiológica, libidinal e sociológica.

Neste caminho, Head (apud SHILDER, 1994, p.12) propõem o conceito de modelo postural do corpo:

Para este padrão combinado, que servirá de medida para todas as mudanças de postura subseqüentes antes de penetrarem na consciência, propomos a palavra esquema. Por meio de perpétuas alterações de posição, estamos sempre construindo um modelo postural de nós mesmos, que se modifica constantemente. Cada nova postura, ou movimento, é registrada neste esquema plástico, e a atividade cortical cria uma relação com cada novo grupo de relações evocadas pela postura alterada. O reconhecimento postural imediato acontece tão logo a relação esteja completa.

Deve-se à existência desse esquema a capacidade de projetar o reconhecimento da própria postura, do movimento e da localização além do limite do próprio corpo.

O quadro 10, baseado em Mendes & Fonseca (1982, p 122-125), apresenta um painel da gênese da imagem do corpo, no qual há a exposição de aspectos posturais, motores, de pressão, linguagem, e personalidade, bem como o desenho

do corpo correspondente ao que esperadamente é apresentado desde o nascimento até à idade de 13 anos.

Quadro 10 : Esquema Sinóptico da Gênese da Imagem do Corpo

Continua