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6 DISCUSSÃO

6.3 TEMA 3: BEM-ESTAR PSICOLÓGICO

6.3.3 Imagem de si

―Pode anotar aí na tua pesquisa para as pessoas saberem, aqui a gente faz papel de pai, mãe, tio, avô. Faz parte né, a gente tenta ajudar, as vezes eles não entendem que o medicamento é bom (...) eles têm que sair daqui, melhorar e sair logo. Ali não é bom‖ (P7). Para Lopes (2002), quando há um atendimento humanizado, tem-se uma realidade mais observável, atenta e digna perante as necessidades e os conflitos humanos.

Dentre as diferentes funções exercidas no cotidiano de trabalho, também se destacam as ações de sensibilidade e, por outro lado, de truculência dos funcionários para com os pacientes. Com o Diário foi possível observar que, devido à dualidade do lugar, muitos funcionários têm dificuldade em executar o melhor manejo com os internos, na dúvida sobre como se portar e quanto afeto ―é permitido sentir‖. Para P2, ―a maioria dos profissionais aqui trata muito bem os pacientes‖, assim como P11, que aproveitou a entrevista para dizer que também poderia ser pensado em: ―um lugar para eles guardarem as roupinhas, as sandálias, um lugar que ele pudesse dizer ‗esse espaço é meu‘. Mesmo que seja naqueles leitos que eu não gosto, mas é bom ter um espaço que pertence a eles! Um lugar mais humano!‖. Em oposição a tais pensamentos, os discursos voltados a uma perspectiva mais ríspida, apesar de serem manifestações percebidas em uma frequência significativamente menor, também existem: ―imagina o louco gritando e chutando o dia todo. A gente tenta conter. Se tivesse um sedativo seria melhor. Sendo preso tutelado do Estado tem que tomar essa medicação (sedativo)‖ (P9).

Talvez um dos grandes desafios do profissional de um hospital de custódia seja transcender toda a simbologia do sistema de segurança, dos muros altos, portas grossas e cadeados (Goffman, 2005). Para, assim, vencer o preconceito, o julgamento, a aversão e o medo, desenvolvendo sua função de forma ética, com respeito à vida e aos direitos da pessoa sem discriminação (Santos, Souza & Santos, 2006).

Ao descrever sua experiência de atuação no hospital de custódia, P1 destaca altos e baixos, diz que: ―já tive tantos sentimentos... já gostei muito de vir trabalhar aqui, para mim era uma terapia. Depois passei por um momento de estresse, de depressão e não conseguia colocar os pés aqui dentro. Até hoje com psiquiatra e psicólogo‖. Para P12, trata-se,

também, de se acostumar com o fazer: ―não é o que eu escolhi pra mim. Mas eu me adaptei, a gente se adapta às coisas‖. Contudo, ele ressalta outras variáveis de suma importância, o quadro de profissionais e o suporte social externo:

―O nosso fazer é muito estressante e estamos sempre defasados de agentes. Passa uns vinte para a academia3, eles vêm para cá e se ficar um já estamos no lucro. Lá fora tu tem que estar bem respaldado, por família, amigos, grupos. Eu não consigo me desligar sempre. Mas quando eu venho para cá eu tento viver inteiramente aqui. Porque se não, se tu vive somente isso aqui tu entra em paranoia! É difícil. Então tens que se agarrar em alguma coisa. Aí tu tem que trabalhar com o material que tu tem (aponta para a sua cabeça) tu tenta fazer o melhor de ti. A gente nem sempre gosta de tudo que faz, mas o jeito é tentar fazer bem feito‖.

Por trás do trabalho específico que fazem os profissionais do hospital de custódia permeia um universo de tensão, P1 define como um ambiente em que ―rola muita ansiedade, muita angústia, muito estresse‖. Segundo P10: ―tem dias, como hoje, que está tranquilo, mas a semana não foi assim. A gente fica estressado, tem pacientes que tu não conhece então tu não sabe a atitude que ele vai ter‖.

Como foi mencionado anteriormente, o hospital desenvolve atendimento a toda comunidade estadual que necessite de atendimento psiquiátrico e de exame toxicológico. Para os profissionais entrevistados, principalmente para os agentes que imergem 24 horas em regime de plantão, ter a oportunidade de interagir com pessoas diferentes é um motivo de alegria destacado por P10:

―Eu gosto de tratar bem as pessoas fico feliz com isso, porque as pessoas chegam aqui e não perguntam, maioria é do interior, tímido, não sabem e ficam aí perdidos. Uns dizem ‗ah eu vim fazer um exame‘ e acham que exame é tirar sangue. Ali eu posso conviver com pessoas. Pessoas de todo tipo. E isso faz diferença no trabalho da gente. Atender a pessoa bem é

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Academia de Justiça e Cidadania, onde são treinados os agentes aprovados em concurso público.

gostoso. Quando você é bem atendido você é bem recebido, isso que é bacana. Não custa ser gentil né?! Isso que eu acho que as pessoas fazem comigo e eu gosto. Então o que eu gosto que façam comigo eu gosto de dividir com as pessoas também né?!‖.

A maioria das famílias que adentra o hospital com a intenção de receber o atendimento médico vem conduzido por veículos e equipe de suas respectivas prefeituras: ―eles vêm de longe, não têm condição de comer. A gente oferece marmita, temos a cozinha da penitenciária, eles almoçam aqui. Só que não tem um lugar adequado para eles comerem né, e a gente fica meio constrangido por isso‖ (P5). Nesse sentido, P5 também lamenta que o acesso para o hospital é o mesmo, tanto para os visitantes quanto para os agentes prisionais que conduzem presos para realização de consultas médicas e/ou internação provisória: ―o estressante para a maioria é ver os presos tratados não como humano por alguns agentes, às vezes vem acorrentado com três, quatro correntes. Mas eu sempre explico: das grades para dentro nós não lidamos assim, não somos assim‖. A sociedade, de modo geral, possui apenas um imaginário de como é uma real situação de confinamento, de restrição de liberdade e de exclusão social dentro de um ambiente carcerário. As reflexões sobre tal, contrastadas com a realidade, tendem a explanação de discursos com ‗senso de justiça‘, bem como expressões de sensibilidade e comoção com sofrimento humano (Dantas & Chaves, 2007; Diuana et al., 2008).

6.4 TEMA 4: IDENTIDADE DE UM AMBIENTE RESTAURADOR

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