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Capítulo 2 – Enquadramento teórico

2.2. Imagem e palavra: dois modos de comunicar

Os conceitos de imagem e palavra são, indiscutivelmente, indissociáveis. Trata-se de duas formas de comunicação, ainda que constituam duas linguagens diferenciadas: a primeira, visual e a segunda, verbal. Contudo, apesar de integrarem dois códigos distintos, de um modo geral, eles podem ser intercambiáveis, visto que as imagens são a representação visual de determinadas palavras e, por isso, podem ser transferidas para a linguagem verbal e os textos são uma espécie de sequência de imagens e, portanto, podem também ser representados através das mesmas. Embora ambas possam ser, geralmente, permutáveis, ao transferi-las de uma linguagem para a outra há sempre informação que se perde.

Ainda que a primeira forma de comunicação do Homem, como mencionado no subcapítulo anterior, tenha sido a comunicação visual, a humanidade sentiu a necessidade

de também dispor de uma linguagem verbal, possivelmente pelo facto de esta ser mais prática, direta e facilitar a comunicação cotidiana.

“É incontestável que a linguagem desempenha papel essencial na comunicação humana, enquanto sistema de símbolos cuja função é a de representarem os objectos e os acontecimentos do mundo à nossa volta.” (Marcelino, 2000, p. 17).

No entanto, é também necessário ter em consideração que há informações e modos de transmissão de conhecimento que funcionam melhor na comunicação visual e que têm de ser totalmente reconstituídos e reinventados quando passados para a linguagem verbal, uma vez que a imagem comunica com um sistema muito próprio e possui uma riqueza e um poder sem igual. Para demonstrar o efeito que as imagens provocam em relação às palavras, Marcelino (2000) oferece como exemplo uma situação do Sermão da

Sexagésima, de Padre António Vieira, na qual um pregador anuncia a morte sofrida de

Jesus Cristo e, através da fala, narra todas as atrocidades que lhe fizeram e todos permanecem em silêncio, sem se demonstrarem demasiado impressionados, até que este lhes mostra a imagem de Cristo tal e qual a havia descrito anteriormente e todos ficam aflitos, a chorar e a gritar. De facto, isto prova que a imagem nos comove mais do que a palavra, daí o ditado popular “Longe da vista, longe do coração”.

“[…] por mais belas ou encantatórias que sejam as palavras, qual canto de sereias, jamais alcançam a beleza e o poder sedutor das imagens, talvez porque aquelas são leves e leva-as o vento e estas, aparentemente transparentes, puras e inócuas tocam mais fundo, uma vez que as suas raízes se encontram presas ao nascimento da própria humanidade […]” (Marcelino, 2000, p. 7)

Segundo Marcelino (2000), a imagem como forma de comunicação captou a atenção e o interesse do público devido às seguintes caraterísticas: há uma crença de que a imagem representa a realidade de uma forma fidedigna, embora isto nem sempre seja verdadeiro; a sua leitura não exige demasiado tempo e esforço; não obriga a qualquer aprendizagem prévia; é necessário apenas abrir os olhos e de forma automática temos acesso ao mundo, através dela. Efetivamente, a linguagem verbal requer um longo processo de aprendizagem e um esforço bastante maior, ao contrário da comunicação visual. Nos primeiros anos de vida, o ser humano aprende a falar, muito lentamente,

iniciando com palavras mais simples, que representam objetos ou seres do seu cotidiano, e só mais tardiamente começa a construção de frases com sentido. Posteriormente, a criança vai à escola, para aprender a ler e a escrever, e a aprendizagem da sua língua materna prolonga-se por mais doze anos, a fim de aperfeiçoar cada vez mais a comunicação verbal e para o progressivo melhoramento interpretativo do texto. Contrariamente, na escola não se ensina a ler e interpretar imagens, porque o Homem está inatamente capacitado para o fazer e, a partir do momento em que é capaz de observar detidamente a realidade à sua volta, está perfeitamente habilitado a reconhecê-la em qualquer imagem. Isto não significa que a aprendizagem da leitura de imagens não seja igualmente útil e necessária, tal como o estudo da língua, até porque há imagens mais difíceis de decifrar. Contudo, o que ocorre é que, uma vez que se trata de algo inerente ao ser humano, a escola não lhe dá demasiada importância. Para além disso, é importante destacar também que as crianças, mesmo antes de irem à escola para aprender a linguagem escrita, começam, desde muito cedo, a adquirir o gosto pelo desenho, que é, de certo modo, a sua forma de representar visualmente a realidade que conhecem e que, muitas das vezes, revela o que a própria criança pretende comunicar.

Além disso, Marcelino (2000) destaca a imagem como uma forma mais democrática de comunicar, uma vez que se trata de uma linguagem que é acessível a todos, instruídos ou analfabetos, de todas as idades (como mencionado anteriormente, acessível mesmo a uma criança que ainda não aprendeu a ler e escrever) e alcançável por qualquer cultura e nacionalidade, já que se trata de uma linguagem universal, ao contrário da linguagem verbal que difere de país para país. Por outro lado, é exatamente pelo facto de a imagem mover multidões que os meios de comunicação de massa, que pretendem chegar ao maior número de pessoas possível, se aproveitam dela e a utilizam para persuadir e comover a população, por vezes até falaciosamente, pois, de facto, a imagem pode ser enganadora, visto que nem sempre representa a realidade tal como ela é e pode ser facilmente manipulada e adulterada, tal como sucede com outras formas de comunicação, como a linguagem verbal.

Por fim, é importante sublinhar que, uma vez que a imagem, tal como o discurso verbal, também é capaz de comunicar e de transmitir informações, como referido

anteriormente, é essencial a sua utilização no ensino e aprendizagem de línguas, além dos materiais linguísticos que são recorrentemente empregues. A imagem contém sempre várias palavras que estão visualmente camufladas, à espera de ser descobertas e interpretadas, e, neste estudo, procurou-se colocar os estudantes nessa mesma situação de observador. Apesar de a palavra ser o tipo de linguagem que mais é utilizado no dia-a-dia do Homem, esta não implica a anulação da linguagem visual, que é também imprescindível na sociedade, muito pelo contrário. Imagens e palavras podem completar- se e enriquecer-se reciprocamente, existindo um lugar para cada uma delas.