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MULTIMODALIDADE NO TARÔ

2.1. Imagem e palavra no texto

A relação entre os recursos verbais e visuais utilizados na elaboração de textos sempre se deu de modo bastante dinâmico, apesar de só recentemente os estudos linguísticos estarem começando a observar esse fenômeno mais sistematicamente. De forma geral, até há pouco tempo, os estudos que se debruçavam sobre o texto tendiam a dar ênfase ora às estratégias verbais, ora às visuais, como se fossem elementos desconectados e independentes entre si.

Durante a pré-história, a imagem era a única maneira de registrar os acontecimentos sociais, como guerras, caçadas, cerimônias religiosas, etc. As atividades coletivas dos povos daquele período, seus costumes e crenças, foram pintados em paredes de cavernas (Figuras 2.1 e 2.2) e compõem o inventário da organização social humana até o surgimento da escrita.

Figura 2.1: pintura rupestre Figura 2.2: pintura rupestre

Fonte: http://clientespeedy.klickeducacao.com.br/ (acesso em 30/09/09)

Sobre o surgimento de a escrita estar ligado aos registros imagéticos pré- históricos, Kress e van Leeuwen (1996) afirmam que, num estágio particular da história de certas culturas, surgiu a necessidade de registrar transações de vários tipos, associadas normalmente ao comércio, religião ou poder. Esses registros eram inicialmente altamente icônicos, isto é, a relação entre o objeto a ser registrado e as formas e meios de registro eram próximas e transparentes. Segundo os autores,

o número de talhos num pedaço de madeira representaria o número de objetos armazenados, comercializados ou possuídos. A representação do objeto também seria normalmente transparente: uma linha ondulada se tornaria o ideograma chinês para “água”; a imagem hieroglífica da cabeça de um touro que inicialmente ‘significa’ ‘touro’ se torna a letra aleph, alpha, a. (Kress e van Leeuwen, 1996:18-19).

Foi no Oriente Médio que surgiram os rudimentos da linguagem verbal, por meio da escrita fonético-pictográfica – letras relacionadas ao som e à forma dos objetos que representam. Em outras palavras, a origem da escrita não pode ser dissociada nem da relação que o homem estabeleceu entre imagens e práticas sociais, nem das convenções criadas a partir dessa relação.

Esse tipo de escrita, embora facilmente compreendida pelos povos que a desenvolveram, não facilitava as atividades comerciais consolidadas entre egípcios, mesopotâmicos e comerciantes pertencentes a outras culturas não familiarizadas com os hieróglifos do Egito ou com o silabário cuneiforme dos assírios e babilônicos.

As necessidades relativas às atividades financeiras impulsionaram uma lenta, mas irreversível simplificação dos caracteres egípcios e cuneiformes indispensáveis para a escrita. Esse movimento, de acordo com Cagliari (2009:38), “foi muito além das

tentativas egípcias e cuneiformes, produzindo um modelo extremamente simplificado com as escritas chamadas de proto-sinaísticas”.

Juntamente com os egípcios e os babilônicos, os fenícios tiveram grande influência no processo de evolução da escrita que deu origem ao alfabeto tal como o conhecemos. Apesar de utilizarem o sistema egípcio e babilônico no campo econômico, a escrita fenícia já estava estabelecida no século XIII a.C. De acordo com Cagliari (2009), o sistema fenício de escrita passou por várias modificações até que, por volta do século XI a.C., contava apenas com 22 caracteres que contribuiriam para a formação de vários códigos escritos. A partir dessas transformações, o caráter pictórico do alfabeto foi dando lugar a uma escrita mais vinculada à representação dos fonemas por meio de letras cada vez menos relacionadas com a imagem dos objetos representados.

Até a Idade Média, imagem e elemento verbal se harmonizavam na composição de textos. Meses eram gastos na confecção das iluminuras que circundavam o texto escrito. A função das figuras presentes nos manuscritos medievais era não só enfeitar a página, mas também agir como mecanismo de memorização (cf. Wysocki, 2004). Esses textos eram verdadeiros artigos de luxo na medida em que custavam muito caro e sua produção durava meses. O alto custo e o longo tempo de produção desses manuscritos eram resultado do aparato tecnológico da época e tinham a ver também com uma estrutura social na qual só os ricos podiam pagar pelos livros manufaturados.

Além de estar associada à noção de riqueza, a quantidade de tempo gasto na produção dos manuscritos, segundo Wysocki (2004:125),

era um resultado da ideia de que as apresentações visuais das páginas serviam para criar um processo de leitura onde os leitores movessem lentamente as páginas, contemplando palavras e pinturas, e usando a apresentação visual das páginas como um auxílio à memória.

Com o surgimento da imprensa, por volta do século XIV, a produção e divulgação textuais ampliaram-se e tiveram seu custo reduzido. Isso gradualmente causou a supressão do elemento visual pela palavra escrita nos textos impressos, uma vez que o processo de confecção, a partir de então, demandava rapidez, bem como exigia do leitor uma leitura mais linear.

Conforme argumenta Wysocki (2004), durante o processo de leitura, as pessoas do nosso século privilegiam a transmissão rápida e eficiente de informação e esperam encontrar nos textos layouts que as ajudem a conseguir o que desejam sem distração ou lentidão.

O advento da publicidade e a criação de novas tecnologias deram origem a novas formas de comunicação, possibilitando, dessa maneira, o desenvolvimento de novos modos de leitura e produção textuais.

Além disso, também determinaram a necessidade de uma nova abordagem teórica que contemplasse as relações multissemióticas que se processam nos textos, e se distanciasse das noções imanentistas segundo as quais, de acordo com Mozdzenski (2008:21), “os modos de representação comunicacional dos textos verbais (fala e escrita) e não-verbais (imagens, sons, gestos, etc.) eram tratados de maneira isolada e estanque, consoante suas especificidades”.

Os Estudos Multimodais, dessa maneira, consistem numa proposta metodológica que permite a compreensão mais ampla dos processos multissemióticos de produção de texto e evidencia a gradual dissolução das fronteiras estabelecidas entre imagem e palavra na atribuição de papéis para a construção de sentido.