A PRÁTICA DOCENTE E O USO DA IMAGEM
1.3. IMAGEM E SALA DE AULA
1.3.1. Imagem Enquanto Objeto Social e Objeto Pedagógico
Uma mesma imagem fotográfica pode ser vista de formas muito diferentes, dependendo da intenção de sua produção e de sua interpretação. Assim como há a intenção da produção, há a intenção da interpretação. Uma imagem fotográfica vista em um museu, em um metrô ou em uma revista no supermercado, tem bases sensoriais diferentes de quando está na sala de aula.
Como já fora ressaltado, a imagem quando passa a integrar um livro didático, um filme e/ou documentário educativo, um mapa referencial, uma caderneta, uma propaganda dentro da escola, ao ser levada, projetada, inserida, pelo professor, dentro da sala de aula, ou ainda quando o professor leva seus alunos até ela, durante uma visita a uma galeria de arte; para além de um objeto social, essa imagem se transforma em um objeto pedagógico, cumprindo funções educativas e gerando prática pedagógica, além de continuar a carregar a representação plástica e/ou documental da realidade. Logo, a imagem se transforma em objeto de ensino e de aprendizagem, portanto, em objeto da prática docente.
Posto isso, construímos um exercício perceptivo sobre o que teorizamos acima. Para tanto, observemos a imagem fotográfica a seguir:
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Imagem 01
Caso peçamos para que um espectador descreva essa imagem, o que poderemos obter? Descrever os índices e ícones da imagem é realizar uma análise iconográfica. Noutras palavras, é dizer de alguns atributos específicos da imagem que serão comuns a todos que olharem para ela, pois são óbvios. Por exemplo: preto-e-branco; prédios acinzentados; luz intensa na região horizontal central; fios; homens; mulheres; um poste parecido com um semáforo, à direita, etc.
Se detalharmos mais o olhar, perceberemos várias pessoas com chapéu, fraque, vestidos, e outras roupas mais difíceis de identificar com um olhar aligeirado. Alguns estão parados, outros vão seguindo a profundidade de campo.
Atentando-nos mais, percebemos que pode não se tratar de uma fotografia nova. Logo, talvez o poste à direita não seja um semáforo, mas uma placa de indicação. Abaixo, no ainda no primeiro plano, identificamos um trilho, então essa placa pode ser de aviso sobre a passagem de um bonde, por exemplo. Dá para perceber que a luz não é a luz cotidiana da cidade, pois há uma concentração muito forte de luz para a época. Atentando mais ainda, entendemos que existem pessoas paradas na rua e na calçada, ou seja, não é um dia ou um momento comum, pois não há carros ou movimento diário, cotidiano. Logo, pode ser uma espécie de passeata, de passeio, de manifestação. Vejam como uma simples olhadela na imagem já se diferencia de uma olhada um pouco mais acurada, detalhada.
Vejamos agora outro ponto de vista da percepção imagética. Se pedirmos para o espectador dizer o que sente ao ver essa mesma imagem fotográfica, o que teríamos? Acredito que cada pessoa responda ao seu modo. Os sentimentos gerados variam de pessoa para pessoa, com respostas bem diferentes umas das outras. Nesse caso, vou expor meus sentimentos: curiosidade; cortesia; vontade de sair, de passear na rua; de conversar com os transeuntes e entender o que se passa ali.
Dessa maneira, essa leitura aligeirada e intermediária, assim como a exposição desses sentimentos podem nos dizer que essa imagem fotográfica, assim como a palavra, tem um significado intrínseco e extrínseco. Essa imagem assume algumas especificidades, dentro de uma regra, de uma ordem, sejam elas interiores ou exteriores à imagem21. Essa imagem fotográfica, exposta dessa maneira, supõe um objeto social.
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Por exemplo: ao ver a imagem da rua, senti vontade de sair porque estou trabalhando há horas, trancado em casa. Essa dupla percepção é chamada de duplo fotográfico, e é debatida por Philippe Dubois, em seu
42 Mudando o âmbito de visualidade da imagem fotográfica, consideremos agora que ela esteja em um livro didático de História para alunos do 2º ano do ensino médio, por exemplo. Imaginemos essa imagem fotográfica nesse livro didático, apresentada durante uma aula sobre o Regime do Estado Novo.
Imediatamente, é possível mudarmos alguns de seus significados, a partir do seu novo contexto, que empresta sentido à localização de sua produção. Desse novo contexto, podemos pensar em: Getúlio Vargas; ditadura do “pobre”; regime de trabalho rígido e populista; Leis Trabalhistas; acordos nazifascistas; acordo político com os a Alemanha e com os EUA; Rio Grande do Sul; coerção artística e social; entre outras lembranças. Esses exemplos nos mostram como uma mesma imagem fotográfica pode ser reinterpretada, a partir de seu contexto.
Agora coloquemos a legenda na imagem, abaixo, como geralmente se apresenta nos livros didáticos. Então, olhemos novamente:
Imagem 02: Carnaval paulistano, Avenida São João, São Paulo/SP, Brasil, 1940.
É possível percebermos que, após a leitura dessa legenda, a imagem fotográfica pode assumir mais uma significação somada às outras já citadas, que nem nega e nem se acopla diretamente às anteriores. Com a presença da legenda, atribuímos à imagem outros significantes. Entendemos o porquê das roupas (anos 40), o porquê do comportamento aprumado e da organização (regime ditatorial), e ainda é possível observar uma possibilidade a priori não considerada: uma festa de carnaval. A partir dessa acepção, é possível encontrarmos pessoas fantasiadas, assim como alguns carros grandes puxando várias pessoas. Entendemos o porquê da quantidade excessiva de luz,
trabalho O Ato Fotográfico (1989, 2008), assim como por Boris Kossoy, em seu trabalho Realidades e Ficções na Trama Fotográfica (2009), entre outros autores e trabalhos específicos.
43 e porque as pessoas estão em pé ou passeiam nas ruas. Sabemos o espaço, o tempo, e podemos agora entender o contexto político e cultural.
Nesse caso, essa mesma imagem observada em um livro escolar, a partir da ótica da área do conhecimento histórico, pode assumir outra significação, porque assume outro status. Agora, essa imagem fotográfica, além de um objeto social, de esboço artístico e/ou documental, retrata também questões específicas de um tema de uma determinada disciplina escolar, dentro de um determinado contexto sócio, político e cultural. Por esse viés, essa mesma imagem fotográfica torna-se um objeto pedagógico.
Mesmo alterando os significantes dessa imagem, mesmo alterando seus símbolos a partir de informações e contextos externos a ela, reparemos que seus ícones não se alteram. Pelo contrário: permanecem lá o preto-e-branco, as pessoas, os prédios, a luz e os tons de cinza.
Observemos então que essa imagem fotográfica traz, em si, pelo menos três diferentes possibilidades de significação. A primeira quando a olhamos de forma aligeirada, a partir de nossas referências, por nossos padrões culturais e experiências pessoais. A segunda, quando a olhamos a partir da ótica de uma aula, fixa no livro didático, carregando a marca do que seria uma imagem num livro escolar. E a terceira, quando fundimos as primeiras com as segundas percepções e, partir da legenda que localiza a imagem, observarmos e entendemos significações peculiares específicas e mais aprofundadas sobre ela. Essas três significações da imagem a constituem enquanto objeto pedagógico, e a insere no universo do ensino da História pelo uso que se faz dela na prática docente.