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IMAGEM REFLEXIVA DE SI QUANTO AO APRENDER PARA O TRABALHO

4.3 DISTANCIAÇÃO-REGULAÇÃO

4.3.2 IMAGEM REFLEXIVA DE SI QUANTO AO APRENDER PARA O TRABALHO

O segundo tópico inspirado na forma distanciação-regulação refere-se à relação dos alunos com o aprender em que constitui uma imagem reflexiva de si quanto ao aprender para o trabalho. Essa relação foi estabelecida por quase todos os alunos. A seguir, os fragmentos da transcrição da entrevista dos alunos referentes a esse tópico.

QUADRO 09: Imagem reflexiva de si quanto ao aprender para o trabalho

ALUNOS FORMA: DISTANCIAÇÃO-REGULAÇÃO

TÓPICO: Imagem reflexiva de si quanto ao aprender para o trabalho A5 “Não tem como a escola adivinhar o que você vai fazer no futuro. Então a escola

tem que dar um geral em tudo pra base pra qualquer área que você for seguir. Só que hoje pra mim acho que ela não serve de nada. Esse trem que eu tô

aprendendo agora não vai adiantar de nada, só vou usar no vestibular. A área que eu for seguir não vai usar... Entende?”

A6 “Na minha opinião é cumprir currículo. Essa de Biologia, nessa área eu não vou seguir nessa área de Biologia. Então pra mim é cumprir currículo do Ensino Médio.”

“O meu objetivo no terceiro ano é passar no vestibular aqui na escola Pasteur é passar no vestibular. Então acaba que fica pra esse lado fica meio defasado. Esse tipo de aula. Apesar de eu achar bem interessante.”

Esse é o problema, a importância é que você fica sabendo mais sobre esse tema... Só que pro vestibular pra mim não tem... Porque eles não cobram isso pro aluno passar. Talvez pra segunda etapa, mas não é o caso.”

A7 “Não pode ser todo mundo tão ceguinho não, né. Tem que ter uma idéia de como funciona as coisas... É uma noção do... De como funciona o meio vivo... Enfim, é isso. Estuda como vou cuidar de mim mesmo, saúde... Educação sexual, muita coisa a gente pode extrair da Biologia tem utilidade prática. Outras, eu não me vejo estudando a fundo... O sistema de uma planta... Que nem eu vejo o pessoal dos outros professores estão fazendo pode dar alguma coisa. Tá certo que uma idéia geral é sempre bom ter que ter, mas tem coisa que realmente... Eu acho bem inútil estudar, se você não planeja seguir na área.”

A8 “Importância... Cara... Deixa eu pensar... Bem a... A vermiculi... O material assim... Olha acho que... Pode ver o que... Se um dia eu quiser fazer alguma coisa do tipo. Ou então trabalho a gente já tem... Tipo, nessa área de Biologia, se a gente precisar de fazer isso, cuidar de canteiro, a gente sabe cuidar, sabe onde procurar. Cuidar de pragas essas coisas, ciência.”

“Ah... Assim, as aulas que a gente está tendo eu acho... A gente tá visando sempre apenas uma matéria assim. Eu tava achando isso ruim, vamos supor porque eu vou tentar vestibular no final do ano. E eu tava achando que isso não era bem legal. Que nem no cursinho? No cursinho você vê todas as áreas da Biologia e tal. A gente tá vendo muito genética, fica meio naquilo. A gente aprende bem, mas minha prova hoje né... Mas é isso aí.”

grado entendeu... Eu gosto sempre de ver coisa nova, gosto dos textos que ela passa. Mas assim... Finalidade mesmo... Não. Mais por interesse.”

A9 “A importância... Eu não sei se vou trabalhar com fungos, pra alguém pode ser importante. Mas do tema reprodução eu acho que é importante sim, reprodução animal, reprodução humana. Dos fungos eu não sei, pra mim não sei muito bem. Mas plantas pelo menos eu acho que tem alguma utilidade aí. Mas os fungos em si eu já não sei. Mas, talvez se eu passar o conhecimento pra alguém ali dentro de sala talvez alguém chegue a utilizar algum dia na vida.”

Nesse tópico, os alunos referem-se à possibilidade ou não de utilizar os conhecimentos biológicos aprendidos nas atividades investigativas para a realização de algum trabalho. O trabalho que me refiro nesse tópico está relacionado a três aspectos levantados pelos alunos: (a) perspectiva de qual profissão os alunos querem exercer; (b) área de conhecimento que os alunos querem prosseguir em seus estudos e serão privilegiadas no processo seletivo para o Ensino Superior; e (c) algum trabalho que pode ser ou não profissional, mas que proporcione alguma utilidade na vida dos alunos.

A questão da profissionalização é recorrente em suas falas. Ressalto que os alunos estão cursando o último ano de escolarização básica e também o último ano da parte teórica do curso técnico. Por isso, muitos alunos fariam seleção para o ingresso no Ensino Superior no fim de 2008 e, no ano seguinte, trabalhariam em alguma instituição realizando o estágio obrigatório do curso técnico. Ressalto também que a proposta pedagógica do Ensino Médio da escola Pasteur, por ser uma escola com ensino profissionalizante, pressupõe a preparação dos estudantes para o trabalho. Essa preparação, segundo a proposta pedagógica, deve-se voltar para ações na vida produtiva e comprometimento com ações sociais. Assim, os alunos são influenciados pelo contexto escolar em suas relações com o aprender.

No capítulo 3, ao escrever o contexto de produção da pesquisa, descrevi que os alunos não possuíam afinidades com a disciplina Biologia. Essa característica dos alunos é evidenciada nas falas quando se referem à área de conhecimento que pretendem cursar no Ensino Superior: “Esse trem que eu tô aprendendo agora não vai adiantar de nada, só vou usar no vestibular. A área que eu for seguir não vai usar... Entende?” (A5), “Na minha opinião é cumprir currículo. Essa de Biologia, nessa área eu não vou seguir nessa área de Biologia” (A6), “Eu acho bem inútil estudar, se você não planeja seguir na área” (A7) e “Ah cara... [Aprendo Biologia] principalmente porque cai no vestibular. Não grado entendeu...” (A8).

Assim, os alunos assumem que aprender Biologia no contexto em que estão inseridos ou não tem valor ou é apenas um cumprimento curricular, justificando essa relação por acreditarem na não utilização dos conhecimentos biológicos aprendidos na área em que vão seguir.

Alguns alunos estabelecem relações em que aprender Biologia se constitui para uma finalidade própria: o vestibular. Discutem que as aulas de Biologia por atividades investigativas não contemplam todos os conteúdos exigidos na prova de Biologia do vestibular e que aborda alguns aspectos que não serão exigidos nessa seleção. No entanto, no período em que observei as aulas de Biologia, os alunos não faziam essas considerações à professora Natália. Na entrevista com a professora, ela fala que os alunos não exigem dela conteúdos relacionados com o vestibular: “Hoje eu não tenho esse questionamento, quer dizer, eu estou com uma turma de terceiro ano hoje que não me questiona questão de vestibular, entendeu. Em tempo nenhum ela tá me pedindo conteúdo de vestibular nem nada. Então a gente tem feito umas discussões bem amplas”.

Apresento dois aspectos que podem elucidar as relações evidenciadas acima. No primeiro, os alunos não concebem que aprender Biologia é compreender o mundo em que vivem, sendo que essa relação está além do aprender para a vida produtiva ou seleção de vestibular. Nesse ponto, retomo a importância de se fundamentar a prática de Ensino de Biologia por atividades investigativas a partir das relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade. Essa perspectiva possibilitaria estabelecer relações com o aprender para a profissionalização, mas principalmente aprender para uma compreensão de si e da sociedade que o cerca. O segundo aspecto que levanto como possibilidade de entender as falas dos alunos é sobre uma linha dos estudos da Relação com o Saber que não foi utilizada nesta dissertação. É a questão do desejo de saber ou de aprender a partir de uma abordagem psicanalítica52. Assim, compreender quando o aluno fala que aprender Biologia é inútil porque não vai utilizá-la na área ou que não gosta da disciplina Biologia (alguns recorrem a esse termo durante a entrevista), está relacionado ao desejo ou não de aprender essa disciplina. A abordagem psicanalítica situa como uma possibilidade de interpretação desse processo do desejo: “A questão é compreender, portanto, como se passa do desejo de saber (como se busca o gozo) à vontade de saber, ao desejo de aprender, e, além disso, ao desejo de aprender e saber isso ou aquilo” (CHARLOT, 2005, p.37).

Outra relação em que os alunos estabelecem uma imagem de si sobre o aprender para o trabalho refere-se à utilidade dos conhecimentos aprendidos em situações que possam

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vivenciar. Essas situações são projeções futuras que os alunos expõem. A relação é evidenciada na fala de A8 que discute se precisa realizar as atividades relacionadas ao que investiga na aula de Biologia, dando o exemplo de “cuidar de canteiro” e “cuidar de pragas”, já que o grupo investigava sobre a reprodução da couve. A9 também relata a questão da utilidade do conhecimento aprendido, mas de forma diferente. Esse aluno diz que não sabe muito bem a importância ou que utilidade poderia haver em aprender sobre os fungos ― o grupo do aluno investigava sobre a reprodução dos fungos. Então, ele se situa como um divulgador do que aprendeu na sala com a possibilidade de que alguém da sala possa utilizar aqueles conhecimentos “algum dia na vida”.