Neste ponto do capítulo irão ser abordadas as nuances das imagens de controle sobre a representação do negro na sociedade brasileira sob a perspectiva Patrícia Hill Collins (2019) e de Milton Ribeiro (2020). O autor e a autora pensam sobre essa representação e discorrem sobre os estereótipos do homem negro nas narrativas midiáticas, onde fica evidente a sua crítica a esse problema vivido.
Collins (2019, p. 136) trata o tema afirmando que “essas imagens de controle são traçadas para fazer com que o racismo, o sexismo e a pobreza e outras formas de
injustiça social pareçam naturais, normais e inevitáveis na vida cotidiana”, quando na verdade são problemas na sociedade alimentados pelos estereótipos das mulheres, pessoas negras e pobres.
Para essa “ditadura” da representação negativa de homens negros, o que há de ser feito é o reconhecimento da identidade negra por parte dos próprios negros, o que muitas vezes não acontece e já foi observado neste capítulo. “A identificação com a negritude é a chave para a emancipação da população negra, que teve sua imagem controlada pela branquitude” (RIBEIRO, 2020, p. 128). Enquanto isso não acontece de forma íntegra, vive-se lutando contra a estereotipagem do homem negro na publicidade.
Sobre um ser homem racializado e a figura do homem negro representado através de estereótipos e estigmas constituintes, Milton Ribeiro (2020) levanta seis tipos de homens pretos inseridos na sociedade que carregam preconceitos acerca do problema das masculinidades, no que tange questões como (hiper)sexualização e objetificação. São eles O pivete, O cafuçu, O pai João, o Mussum e A bicha preta. Já Patrícia Hill Collins (2004) traz duas classificações do homem negro, denominados de Black buddy e Black sidekick que serão abordados neste trabalho.
Baseando-se nos estudos de Collins (2019) sobre o papel da mulher negra na sociedade, Ribeiro (2020) sugere alguns exemplos para alimentar a discussão em torno das masculinidades negras, afirmando que:
As masculinidades negras, portanto, encontram suas bases em uma complexa retroalimentação das imagens negativas sobre a aparência, o corpo e a cor da pele, dos ideais de hipermasculinidade, força e poder e das crenças do apetite sexual excessivo, da genitália grande e da atividade sexual como penetrador. (RIBEIRO, 2020, p. 129).
Portanto, para tornar a discussão mais próxima do real, através de exemplos do cotidiano popular, a seguir irão ser apresentados as seis imagens de controle apontadas por Milton Ribeiro (2020) em seu estudo e Collins (2004).
2.5.1 O pivete
Esta primeira “versão” do que o autor aponta ser uma das masculinidades negras está figurada ao homem negro enquanto criança, normalmente morador de comunidades mais pobres. Mesmo com pouca idade já é visto com um olhar de potencial ameaça, pois representaria um “bandido em construção, o marginal ainda em fase inicial, como se o processo de constituição do homem negro se desse a partir desses momentos iniciais” (RIBEIRO, 2020, p. 129). Como se a criança negra pudesse “flertar com a criminalidade e assim vir a ser quem é: um negro perigoso”
(ibid). Tudo isso é uma realidade vivida por muitas crianças negras moradores dos bairros mais vulneráveis à violência e a criminalidade. Na literatura, Jorge Amado personificou de forma magistral essa imagem de controle, em sua obra Capitães de Areia (1937).
2.5.2 O cafuçu
Sobre o sujeito “cafuçu” a sugestão do autor perpassa por um conceito já mencionado neste trabalho, sobre a hipersexualização do homem negro – o negro superdotado, com alto apetite sexual, etc. Segundo Ribeiro (2020) o cafuçu seria o jovem que possui um corpo atlético e que carrega a “fama” de ter um pênis grande, satisfação sexual intensa e a violência também sexual. Além disso, o autor também apresenta “a situação de vulnerabilidade de classe e de lugar de origem desse homem preto e o flerte com o ilícito, ilegal e marginal” (ibid) como marcas da personificação desse homem. O autor, porém, afirma que esse homem também pode ser alguém que atue dentro da licitude e legalidade, no entanto, em profissões de menos prestígio social (porteiro, pedreiro, entregador ou vigilante). Se fosse personificado em uma música, o personagem estaria bem descrito na música “i love cafuçu” (2012), da Banda Uó.
2.5.3 O Mussum
O homem negro adulto (meia idade) alcoólatra e/ou que faz uso abusivo de drogas ilícitas. O malandro que acaba sendo enganado pela sua própria malandragem
e por consequência sendo um personagem da comicidade. Samba, cerveja e carnaval fazem parte da sua diversão e além disso, ele é o que leva a diversão para as rodas de samba. “Evidencia o lugar ocupado pelo homem negro na sociedade de classes quando adulto: visto como vagabundo, sem trabalho”. (RIBEIRO, 2020, p. 130).
Aquele que vive fazendo “bicos”, servindo na informalidade. Um outro ponto marcante é que sofre racismo cotidianamente de forma nada disfarçada. É o próprio personagem de Os trapalhões veiculado entre os anos de 1960 e 1990, pela TV Tupi.
2.5.4 O pai João
Destoante das outras imagens reveladas de forma negativa, a imagem de controle que forma O pai João é uma representação do homem negro apaziguador, bondoso, doméstico e domesticado. O negro do “sim, senhor! ” (CONRADO, 2017).
Uma imagem de controle de alguém que pode ser facilmente enganado por ser velho e tolo. Pode ser relacionado com o personagem Tio Barbané, do Sítio do Pica-pau amarelo (Monteiro Lobato, 1920-1947). Apesar de não ser uma figura totalmente negativa, como as anteriores, essa representação do homem negro possui um certo teor de racismo – o homem negro enquanto sujeito que aceita tudo e todas as condições que lhe é fornecida. Pode-se relembrar aqui a imagem do homem escravizado, que aceitava “tudo”.
2.5.5 A bicha preta
A última imagem de controle trazida por Ribeiro (2020) é formada por alguns problemas que não estão somente em torno do racismo, mas também é norteado por um outro preconceito – homofobia. “Articula vários eixos de diferenciação social como raça, sexualidade, gênero, classe, lugar de origem, idade/geração” (RIBEIRO, 2020, p. 131). Portanto, A bicha preta atravessa inúmeras questões juntas, sendo talvez a mais complexa de todas essas imagens de controle já mensuradas, pois desvia da masculinidade negra, que já é compreendida por um desvio da masculinidade
hegemônica, ou seja, é um “problema” em cima de outro. A imagem que personifica melhor essa representação seria A lacraia – a bicha da favela, jovem e escandalosa.
Em síntese, todas essas imagens de controle apresentadas por Milton Ribeiro e aqui referenciadas, esboçam algumas das representações das quais os homens negros são vítimas na sociedade. E dentre tantas representações diversas que objetificam e personificam o corpo do homem negro, não há razões para culpa-los por tal problema. É um fator cultural enraizado e que é ampliado pela mídia, pois faltam representações dessa classe de forma positiva na mídia brasileira, no lugar dos estereótipos veiculados e que reforçam ainda mais essas imagens de controle sobre o homem negro.
(RIBEIRO, 2020, p. 132, apud HOOKS, 2019, p. 118) “os homens não são explorados ou oprimidos pelo sexismo, mas também existem formas pelas quais eles acabam sofrendo em razão disso. ” Portanto, conectar conceitos e pensamentos sobre este tema é uma forma de tentar caminhar para um rumo onde os estereótipos deem lugar para a imagem do homem negro de forma positiva.
2.5.6 Black buddy
Conceito apresentado por Collins (2004), o Black buddy significa aquele homem negro que exerce o papel de “único”. A função dele é ser a cota negra presente no meio dos brancos para que haja a isenção de racismo no ambiente, seja na Publicidade ou em qualquer outra situação onde haja presentes pessoas brancas e negras. Enfim, esse personagem representa o homem negro que está presente simplesmente por estar, e nada mais.
2.5.7 Black sidekick
Também é um conceito extraído do texto de Collins (2004), que por sua vez caracteriza o homem negro que está coletivamente junto aos brancos. Ajuda a consoar a ideia de coletividade masculina, inserindo um homem negro em um papel socialmente branco como forma de ser “aceito” dentro das masculinidades
hegemônicas. Ele é utilizado para a realização da masculinidade do homem branco, no entanto, é colocado com certa frequência em um papel de marginalização para que haja a afirmação da hegemonia branca sobre as pessoas negras, sobretudo os homens.