Desde a abertura deste artigo, duas frases guiaram a nossa busca. A primeira delas, um depoimento de Roland Barthes, foi retirado do mesmo livro sobre fotografia que citamos em várias ocasiões ao longo destas páginas. Em busca do que é a fotografia em si, o autor “perambulou” entre fotos históricas, publicitárias e artísticas (todas imagens públicas) até a página 91 do seu livro, sem encontrar “[...] essa coisa que é vista por quem quer que olhe uma fotografia e que a distingue, a seus olhos, de qualquer outra imagem”. Foi só então que Barthes resolveu procurar esse “algo” da fotografia entre as imagens mais íntimas e especiais que ele possuía: as fotos de sua mãe, que havia falecido há pou- co tempo. Após olhar uma a uma essas imagens, o autor reco- nhece, enfim, ter se deparado com o que vinha buscando tão intensamente. Em uma única fotografia de família, uma foto de sua mãe ainda criança, com cerca de cinco anos de idade, Barthes afirma ter achado tanto “a verdade” do que fora aquela mulher, pois “essa fotografia reunia todos os predicados possíveis de que se constituía o ser de minha mãe”, quanto a própria essência da fotografia:
Algo como a essência da Fotografia flutuava nessa foto particular. Decidi ‘tirar’ toda Fotografia (sua ‘natureza’) da única foto que existiu para mim, e tomá-la de certo modo como guia de minha última busca. Todas as fotografias do mundo formavam um Labi- rinto. Eu sabia que no centro desse Labirinto não encontraria nada além dessa única foto. (BARTHES, 1984, p. 110)
O que mais chama a atenção nessa descoberta é que, ao encontrar em uma única imagem a resposta para todas as suas perguntas, num livro ilustrado com outras 25 fotografias, o au- tor opta por não exibi-la. Apesar de ser um objeto fundamental para sustentar a sua tese, ele justifica a sua decisão de não mos-
trar a ninguém a foto de sua mãe: “ela existe apenas para mim” e “para vocês não seria nada além de uma fotografia indiferente”. Assim como os álbuns antigos, essa imagem era tão íntima e reveladora da verdadeira personalidade de sua mãe (e também da personalidade do próprio autor), que precisava ser preserva- da, oculta aos olhos dos intrusos e mantida num refúgio seguro. Além disso, ele sabia que essa valiosa imagem não faria sentido para os outros, para todos aqueles não ligados afetivamente a essa pessoa.
Barthes reencontrara sua mãe naquela imagem, mesmo que na época em que ela fora fotografada ele ainda nem existia e, claro, ainda não a conhecia: como ele poderia encontrá-la tão verdadeira naquela fotografia e reconhecê-la? A explicação é sim- ples: aquilo que definia o que a mãe de Barthes tinha sido como pessoa era um “algo” pessoal, imutável, e que permanecera guar- dado “dentro” dela. Independentemente da idade daquela mulher, na época da sua morte ou quando ela tinha apenas cinco anos de idade, para registrar sua verdadeira personalidade, a fotografia precisava captar aquilo que vinha do “interior” de seu ser, não apenas o que podia ser facilmente enxergado na superfície de sua aparência física.
Sem dúvida, essa não era uma particularidade da família do autor, e nem de sua mãe, pois todos nós (e os nossos parentes e pessoas íntimas) também possuíamos uma existência interior, individual e fixa. Por muito tempo acreditamos na solidez das personalidades, em seu caráter denso, profundo e “interiorizado”. Ser alguém era algo tão permanente como aquilo que a imagem fotográfica preservava e, portanto, não é difícil supor que para Roland Barthes sua mãe tinha passado a vida inteira sendo uma mesma pessoa: essa pessoa única, singular e inconfundível. Por isso, uma fotografia de família, guardada por cerca de 100 anos, podia permitir que ela se mantivesse eternamente “viva” e reco-
nhecível, em toda a sua autenticidade. E, ainda, como o olho da câmera havia capturado e fixado no papel a verdade total e inte- rior daquela mulher, então era preciso preservar essa fotografia, esse objeto tão valioso, não só para resguardá-lo dos perigos do tempo, mas também do olhar alheio. Assim como para “ser al- guém” era preciso dispor de um refúgio protegido, para permane- cer sendo alguém era preciso também ser resguardado.
Hoje, porém, parece que aquela transformação apontada por David Riesman, há mais de 50 anos, com o deslocamento daquilo que edifica a identidade de um sujeito de “dentro de si” para “fora de si”, está alcançando o seu auge e sua plena consumação gra- ças à internet e à tecnologia da imagem digital. Vanessa, uma usuária típica do Orkut, tem 23 anos de idade e possui um perfil bastante visitado: 986 amigos, 7795 recados e 245 fãs. Vanessa disponibiliza 176 fotografias em sua página pessoal, dividas em nove álbuns, dos quais dois (intitulados “83 anos da vovó” e “Momentos: Pessoas: Histórias”) possuem imagens que, se fos- sem impressas em papel, estariam certamente nas prateleiras e baús da casa de sua família. A internauta tem o cuidado de colo- car uma legenda em cada uma das fotografias que fazem parte desses álbuns on-line. Já no caso dos álbuns de fotografias fami- liares tradicionais, que eram folheados apenas por quem estava registrado naquelas imagens ou por aqueles que conheciam as pessoas fotografadas, as legendas podiam ser algo supérfluo. Entretanto, nem todos os visitantes da página de Vanessa — ou mesmo seus próprios “amigos” do Orkut — sabem, por exemplo, quem é sua avó, como são os seus outros familiares, ou como foi a festa de 83 anos da matriarca. Por isso, torna-se necessário o esclarecimento.
Chama a atenção, especialmente, uma das fotografias do álbum Momentos: Pessoas: Histórias e a sua legenda. Na foto é possível ver Vanessa sozinha, com aproximadamente cinco anos
de idade – curiosamente, a mesma idade da mãe de Barthes na- quela fotografia essencial. Trata-se de uma foto que outrora já foi material e palpável, e certamente já esteve inserida em um álbum de fotografias de família na casa de Vanessa. Na legenda dessa imagem, encontra-se a segunda frase usada na abertura deste artigo: “onde você ainda se reconhece: na foto passada ou no espelho de agora?”.
Sendo o Orkut um espaço para se fazer conhecer, re-conhe- cer ou conhecer melhor determinadas pessoas, a pergunta sobre como, verdadeiramente, se fazer reconhecer, vinda de uma garota possuidora de um perfil bastante conhecido, é bastante intrigan- te. De um lado, Vanessa coloca a fotografia antiga de sua infân- cia, “foto passada”, de outro, a sua imagem atual e instantânea: “o espelho”. Diferente da mãe de Barthes, que se manteve sempre reconhecível, Vanessa sabe que em uma dessas duas imagens já não é mais possível reconhecê-la. Se ela mostra a qualquer mo- mento, para milhares de pessoas conhecidas e desconhecidas, a imagem do que ela é, o reflexo mais fiel da sua personalidade, através de sua página e de todas as ferramentas do Orkut, o que a torna alguém não é mais algo rígido e imutável, e não está mais guardado “dentro” de si.
O Orkut permite conhecer pessoas, e se fazer conhecer, mas também possibilita e estimula que seus usuários mudem, que deixem de ser aqueles que eram, que se reinventem o tempo todo. Ao atualizar o perfil, o usuário atualiza a sua própria personali- dade: muda e se re-faz. O site promove, assim, o encontro entre personalidades instantâneas e mutantes. Nesse contexto, torna-se mesmo difícil conseguir se reconhecer em alguma coisa fixa e estável como uma fotografia antiga de papel. Assim como não há estabilidade e durabilidade para as personalidades contemporâ- neas, também não faz sentido haver para a fotografia, mesmo para as fotografias de família.
Por tudo isso, não surpreende que os novos álbuns familia- res tenham deixado de ser objetos materiais duráveis, que eram guardados eternamente, e se tornaram uma espécie de vitrine. Agora são visíveis para o máximo de pessoas possíveis, e além disso se encontram em constante transformação. Vanessa, talvez como um exemplo do que estamos nos tornando, não seria mais um sujeito dotado de uma essência interior densa e dura, que a marcará e a individualizará ao longo de toda sua vida, mas al- guém que é o que aparenta ser “por fora”, uma silhueta ou um perfil definido pela sua imagem moldável.
Curiosamente, Vanessa é um dos usuários que optou por preencher o campo “quem sou eu” do seu perfil colocando um enigma como definição do que ela é. A jovem escolheu Bertold Brecht como seu porta-voz, e cita um parágrafo do autor. Para além das aspas da citação, porém, Vanessa dá uma importante pista a quem quiser conhecê-la. Ela enfatiza uma frase do trecho citado, repetindo-a: “Nada é impossível de mudar”. De fato, é pouco provável encontrar, nas imagens dessa usuária do Orkut, algo estável que a torne uma pessoa: nada disso emana das 176 fotografias disponíveis em sua pasta virtual, incluindo as diver- sas fotos de família de seus álbuns on-line. Talvez porque Vanessa é como aquilo que ela mostra ser: algo que pode e deve mudar, um ser instantâneo e fugaz como seu próprio reflexo no espelho.
Referências
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