Somos Tantos numa só pessoa
2 MONOLOGANDO COM A MEMÓRIA: FLASHBACKS DO DIRETOR
4. IMAGENS DO SABER / SEQUÊNCIA 1: CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS ACERCA DAS ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO E SUAS IMPLICAÇÕES
4.1 IMAGENS DO SABER/ CENA 1: DIFERENTES LENTES SOBRE A INTELIGÊNCIA
4.1.1 Imagens do Saber/ Plano1: A Lente de Robert Sternberg
A Teoria Triárquica da Inteligência de Robert Sternberg, publicada em 1985, propõe que pensar bem qualitativamente e ser inteligente, de forma bem-sucedida, significa pensar efetivamente por meio de três diferentes maneiras: analítica, criativa e praticamente. Segundo Virgolim (2014), Sternberg define a inteligência, como
A capacidade mental de emitir comportamentos contextualmente apropriados naquelas regiões do continuum experimental que envolvem resposta à novidade ou automatização do processamento da informação como função de metacomponentes, componentes de desempenho e componentes de aquisição do conhecimento (VIRGOLIM, 2014, p.50).
Na teoria supracitada, Sternberg propõe que a inteligência se expressa e opera tendo em conta três dimensões, sendo elas: componencial, experiencial e contextual. Consoante ao exposto, Costa (2014) delineia as três dimensões,
desenvolvidas por Sternberg (1985), da seguinte forma:
1.Dimensão componencial: especifica a estrutura e mecanismos/processos mentais
internos que é utilizado para a adaptação do indivíduo ao meio e para a resolução de uma situação. Esta dimensão subdivide-se, pois Sternberg identifica três tipos de componentes de processamento da informação, que são: a) meta componentes – capacidade de monitorar e avaliar uma situação e de planear/orientar o que fazer, em suma, consiste em orientar o pensamento/atividade cognitiva; b) componentes de realização ou desempenho – estratégias cognitivas que se utiliza para executar as tarefas necessárias, em síntese, concerne ao que se concretiza e c) componentes de aquisição de conhecimentos – estratégias de organização e aquisição – formal ou informal - de conhecimentos para resolver uma situação, em resumo, diz respeito a como se aprende.
2. Dimensão experiencial – explica as relações entre a experiência do sujeito ao
longo da vida e a sua capacidade de adaptação a novas situações, ou seja, as relações entre o nível de experiência numa tarefa ou situação e o comportamento inteligente.
3. Dimensão contextual – esta dimensão reflete a influência do contexto no processo
de pensamento, identificando os processos de ajustamento do indivíduo ao meio. Assim sendo, a Teoria Triárquica, ao mesmo tempo em que engloba os componentes cognitivos internos associados ao processamento de informações e à aquisição de conhecimento, propõe que a inteligência resulta da interação dinâmica entre estes componentes e as diversas exigências do ambiente sobre o indivíduo.
Segundo a Teoria Triárquica “a inteligência não é uma construção unitária, simples, que vá além da noção tradicional de capacidade acadêmica, e indica que essas habilidades podem ser aprendidas, estimuladas e ensinadas, especialmente nos ambientes escolares” (VIRGOLIM, 2014, p.51).
Sternberg (2000), em seus estudos posteriores, ao introduzir o conceito de Inteligência de Sucesso, ou Inteligência Funcional, reforça o caráter cultural do comportamento inteligente, concebendo-o como a capacidade de adaptação ao meio, envolvendo uma resposta individual de compensação das limitações e ativação das potencialidades.
O modelo da Inteligência de Sucesso (STERNBERG, 2000), avançando em relação as contribuições de sua Teoria Triárquica da Inteligência, fornece uma diretriz para que se possa vislumbrar um conceito de inteligência multivariada e
adaptativa. Assim, ela combina, de forma dinâmica e integrada, a inteligência analítica, a inteligência criativa e a inteligência prática.
Nesta perspectiva Sternberg (2000) ressalta que:
A inteligência de sucesso é mais eficaz quando equilibra seus aspectos prático, analítico e de criatividade. É mais importante saber quando e como utilizar estes aspectos da inteligência de sucesso do que apenas possuí-los. As pessoas com inteligência de sucesso não apenas possuem as capacidades, mas refletem sobre quando e como utilizar essas capacidades com eficácia (STERNBERG, 2000, p. 107).
Sendo coerente com as premissas que Sternberg utiliza em sua teoria e demais concepções que fundamentam seus estudos, ele posiciona-se contrariamente à ideia de mensuração por testes tradicionais, criticando o conceito do fator g (inteligência geral) e os testes psicométricos associados a estes. O autor realiza a crítica devido, principalmente, a estes testes avaliarem apenas competências acadêmicas, tais como a memória, o pensamento lógico-matemático e pensamento analítico.
Assim, tantos outros aspectos de suma importância para a vida escolar, profissional e social do sujeito são excluídos do alcance desta tentativa de mensuração da inteligência. Por exemplo, a capacidade de lidar de forma eficaz com situações novas e/ou inesperadas, com atividades e ações de cunho práticos, assim como a capacidade de construção de relações e relacionamentos interpessoais saudáveis e satisfatórios, bem como capacidade de autoconhecimento necessária para o sucesso nas escolhas que implicam gerência de recursos pessoais na superação de problemas e adversidades.
Ademais, Sternberg destaca que o próprio teste e a forma como eles são aplicados já se constituem como uma situação impeditiva e sem êxito, pois ressalta que ocorrem em locais estritamente acadêmicos, e artificiais, sendo assim realizados em um “espaço controlado”. Do mesmo modo, são realizados unicamente pelo o uso de ferramentas como caneta, papel e símbolos gráficos, dificultando a “captura” e identificação das habilidades daqueles que não costumam expressar suas habilidades por esta via.
Sternberg (2000) descreve alguns obstáculos para o desenvolvimento do que ele denomina de Inteligência de Sucesso. Entre estes obstáculos estão as expectativas negativas por parte de figuras de autoridade, tais como pais,
professores, patrões etc. O autor ressalta a influência altamente nefasta que as expectativas podem fazer na vida de uma pessoa, podendo ser entendida como as profecias autorrealizáveis, ou seja, ao esperar-se nada de uma pessoa ou esperar- se o pior dela, esta por sua vez, tende a corroborar isso.
Entretanto, Sternberg (2000) ressalta que:
As pessoas de inteligência de sucesso desafiam as expectativas negativas, mesmo quando essas expectativas têm a origem em pontuação baixa em testes de QI ou semelhantes. Elas não permitem que a avaliação dos outros lhe impeçam de alcançar seus objetivos. Elas encontrão seu rumo e lutam por ele, percebendo que haverá obstáculos ao longo do caminho e que superar esses obstáculos faz parte do desafio (ibid., p. 15).
Outro obstáculo apontado pelo supracitado autor refere-se ao senso decrescente de eficácia pessoal. Desse modo, não somente as baixas expectativas alheias seriam prejudiciais como também a própria noção pejorativa de suas próprias potencialidades. Em relação a isso, contrapondo esta situação, Sternberg (2000) expõe que:
As pessoas de inteligência de sucesso são conscientes da própria eficácia. Elas possuem uma atitude de confiança em si. Elas percebem que os limites para o que podem realizar são com frequência o que elas dizem a si mesmas que não conseguirão fazer, e não o que realmente não conseguem fazer (ibid., p. 15-16).
Ao pensar-se sobre as problematizações, que o mencionado autor realiza, evidenciadas anteriormente, clarifica-se que a inteligência bem-sucedida envolve muito além dos aspectos propriamente cognitivos. Assim, a inteligência de sucesso, como chama o autor, envolve também aspectos de ordem subjetiva, sendo estes componentes afetivos, emocionais e psicológicos.
Nesta perspectiva, compreende-se porque o autor realiza uma crítica veemente aos testes de QI para “legitimar” a inteligência do indivíduo. No que tange este assunto Sternberg (2000) ressalta que
O QI diz respeito a pontuações em vários testes utilizados em escolas e empresas. A inteligência diz respeito ao que você realmente pode realizar. E a inteligência de sucesso diz respeito ao que você realmente pode realizar e que fará alguma diferença para você e os outros. É isso o que separa os que apenas realizam daqueles que superam a si mesmos. As pessoas com inteligência de sucesso que não se saem bem em testes reconhecem a confiança excessiva depositada pela sociedade nos testes, estudam para obter melhores resultados e assim aumentam as oportunidades que que
terão para chegar a seus objetivos. Se elas não podem aumentar seus resultados para níveis desejados, encontram caminhos alternativos para suas metas (STERNBERG, 2000, p.21).
Em consonância a citação anterior, acredita-se ser oportuno destacar um outro aspecto elencado por Sternberg (2000) como significativo para a inteligência de sucesso. Conforme já fora apresentado anteriormente, a inteligência prática é tão importante quanto a inteligência acadêmica, mesmo que a primeira não tenha o mesmo status social da segunda, em grande parte das sociedades ocidentais. Contudo, o autor faz um importante destaque quando apresenta a importância do conhecimento tácito60 na vida diária das pessoas, sendo este conhecimento
componente da inteligência prática.
Sternberg (2000) conceitua o conhecimento tácito apresentando que este “refere-se ao conhecimento orientado para a ação, que é normalmente adquirido sem ajuda direta de outras pessoas e que permite que as pessoas alcancem metas que valorizam” (ibid., 2000, p. 202).
Portanto, o conhecimento tácito (um dos aspectos que compõe a inteligência prática) é de extrema relevância para se atingir o sucesso pessoal. Mas ressalta-se que enquanto a inteligência acadêmica e os conhecimentos formais/acadêmicos podem ser ensinados e mensurados pelos testes de QI, o conhecimento tácito não pode ser ensinado nem mensurado por estes testes. Segundo o autor, este é mais um ponto crítico em relação a validade, alcance e utilidade dos referidos testes, embasados numa perspectiva psicométrica da inteligência.
Por fim, em relação aos avanços de Robert Sternberg para a compreensão da inteligência, Virgolim (2014) faz uma descrição acerca da mais recente contribuição do autor à teoria, expondo que ele incorporou a sabedoria sugerindo que esta talvez seja
[...] o traço mais valioso que a sociedade possa desenvolver nos indivíduos. A sabedoria requer equilíbrio entre a inteligência e a criatividade do indivíduo, por um lado, e seus próprios interesses (intrapessoais), os interesses dos outros (interpessoais) e os aspectos do ambiente onde ele
60 A palavra "tácito" tem sua origem no latim tacitus que significa "que cala, silencioso", referindo-se
a algo que não pode ou não precisa ser falado ou expresso por palavras. É subentendido ou implícito. Uma das referências teóricas para a noção de conhecimento tácito é Michael Polanyi (1891-1976). Este filósofo ajudou a aprofundar a contribuição do conhecimento tácito para a gênese de uma nova compreensão social e científica da pesquisa. Este autor também estudou sua relevância para os educadores.
vive (extrapessoais) no curto e no longo prazos, de outro, a fim de obter o bem geral. Assim, se o indivíduo quer realmente contribuir para a sociedade, a inteligência, a criatividade e a sabedoria devem ser sintetizadas para que possam trabalhar juntas de forma efetiva (VIRGOLIM, 2014, p. 52).
Conclui-se, portanto, que esta perspectiva vai ao encontro do que tanto se discute atualmente em relação ao perfil de homem que se quer (necessita) formar. Vive-se, na contemporaneidade, em um mundo permeado por incertezas, mudanças e crises de ordem político-econômica, ética e social. Experenciou-se, a partir da década de oitenta, até mesmo revoluções na forma de se informar, se comunicar e se relacionar com o outro, após o advento das tecnologias associadas à internet, telefonia móvel e, sobretudo, das redes sociais.
Portanto, é salutar que o comportamento de cada um seja orientado por uma forma mais altruísta e engajada com questões humanitárias, comunitárias, e de forma sustentável. Do contrário, se estará caminhando ao insucesso coletivo, pois o homem enquanto ser social, necessita do contato com o outro, ele só se constrói a partir do outro, ou seja, o eventual empobrecimento dos vínculos sociais, a desconstrução dos laços familiares e/ou apatia e inércia diante das necessidades alheias somente fará nos afastar do bem comum, da segurança e do progresso social.
Nesta perspectiva, desenvolver a capacidade de empatia e os potenciais para a resolução de problemas pensando no bem maior, isto é, o bem coletivo, pode ser uma excelente forma de vivenciar a autorrealização plena. Afirma-se isso, pois esta é um modo não limitado de desafiar-se, contribuir e agregar, fazendo verdadeiramente a diferença socialmente.
Assim, o desenvolvimento das habilidades inter e intrapessoais são determinantes para que se alcance a almejada sabedoria, imprescindível, por sua vez, para a realização do bem maior a que Sternberg destaca como sendo valiosa para a inteligência de sucesso.
4.1.2 Imagens do Saber/ Plano 2: A Lente de Howard Gardner
Howard Gardner, psicólogo cognitivo e educacional, integrou em 1979 uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da universidade de Harvard, com o objetivo de investigar a natureza e realização do “Potencial Humano”.