Estas palavras casuais foram-me ditadas pela grande extensão da cidade, vista à luz universal do sol, desde o alto de S. Pedro de Alcântara. Cada vez que assim contemplo uma extensão larga, e me abandono do metro e setenta de altura, e sessenta e um quilos de peso, em que fisicamente consisto, tenho um sorriso grandemente metafísico para os que sonham que o sonho é sonho, e amo a verdade do exterior absoluto com uma virtude nobre do entendimento (Livro 94).
I
Os comentadores das obras de Jean-Jacques Rousseau são unânimes em atribuir-lhe um papel decisivo no desenvolvimento da linguagem literária do século XVIII. Num ensaio dedicado ao filósofo, Augustin de Sainte-Beuve defende que a prosa daquele revolucionara a literatura do seu século, conferindo-lhe um sentimento de natureza, de vida doméstica76, até aí desconhecido mas,
também, do pitoresco77 (Essais I 52):
As primeiras páginas das Confissões são demasiado acentuadas e muito dolorosas. Encontro nelas, no início, 'um vazio ocasional pela falta de memória'; Rousseau fala ali dos autores do seu tempo; faz originar uma inconveniência que os anos acentuaram, diz, e 'que apenas agora lhe traz algum descanso' etc. etc. Tudo isto é desagradável... E, no entanto, com as asperezas de expressão e cruezas do terreno, deparamo-nos, por estranho que pareça, com um romance, familiar, e de impressionante simplicidade! (Essais I 51).
Para o crítico francês, a grande inovação de Rousseau é precisamente a brusquidão com que este se exprime, o que concede à sua prosa laboriosa um falso ar de espontaneidade: mesmo quando o autor parece ameaçar destruir a linguagem, fá-lo para a semear e fertilizar (Essais I 53). É com Jean-Jacques, argumenta Raymond, e com o seu clima moral e místico particular, que se reúnem as condições para o espírito romper as suas amarras e para se destruírem as fronteiras entre o sentimento subjectivo e objectivo (De Baudelaire 13). Jules Lemaître descreve o estilo de Rousseau como harmonioso, complexo e periódico, semelhante ao dos escritores do século XVII, com excepção da prosa das Confissões, cujo estilo é mais simples, variado, livre, saboroso e sensual, com um vocabulário composto por palavras mais familiares e rurais. Segundo Mme Staël, Jean-
76 Data dessa época uma “preocupação crescente com o actual, com a substância da vida em todas as suas vulgaridades e falta de elevação”, explica Lionel Trilling, a propósito da prosa de Diderot, contemporâneo de Rousseau (89). A utilização de um estilo não-elevado vem adequar a literatura à vida real e dar lugar ao protagonismo de anti-heróis, como se verá adiante.
77 Segundo Babbit, “O culto do pitoresco está intimamente associado ao culto da cor local … Ele está pronto para utilizar não apenas palavras caseiras e familiares, a que os pseudo-classicistas chamam 'baixas', mas também
Jacques não se coibira de utilizar expressões de mau gosto para defender a igualdade hierárquica das palavras (12). O seu estilo, explica a escritora, podia não ser continuamente harmonioso mas, nos excertos compostos com inspiração, encontrava-se “não aquela harmonia que os poetas utilizam, não aquela sequência de palavras sonoras que agradaria mesmo aos que não as compreendem; mas … um género de harmonia natural, acento de paixão…” (11). Por outro lado, para Charles Maurras, Rousseau fora um dos que ajudara a corromper a linguagem e a degradar o estilo poético.
A maior fonte de inspiração de Jean-Jacques, afirmam os seus comentadores, foram imagens naturais, e é, em parte, pela originalidade das suas descrições que o filósofo será imortalizado. Atente-se na passagem seguinte, na qual se descreve o início da primavera e da vegetação dos campos, anteriormente nus:
Quoiqu’il fît froid et qu’il y eût même encore de la neige, la terre commençait à végéter ; on voyait des violettes et des primevères, les bourgeons des arbres commençaient à poindre, et la nuit même de mon arrivée fut marquée par le premier chant du rossignol, qui se fit entendre presque à ma fenêtre, dans un bois qui touchait la maison (Confessions II 120).
Para Lemaître, o escritor fora o primeiro a distinguir-se pela forma de tocar e de pintar a natureza, não por ser o primeiro a descrevê-la na sua simplicidade, mas por tê-lo sido na capacidade de sentir e de transmitir o sentimento que o envolvia: apesar de não esquecer os escritores franceses mais antigos, como Theóphile, Tristan, madame de Sévigné ou La Fontaine, o crítico defende ter sido Rousseau o primeiro a desfrutar das sensações que as visões lhe proporcionavam: “Arriscaria dizer que o homem civilizado se emociona mais com a terra, após Rousseau, do que durante milhares de anos”.
Rousseau sente-se confortável nos ambientes simples que apenas as pequenas vilas lhe podem proporcionar e é esse sentimento que o impulsiona a concentrar as suas descrições nos lagos, nas montanhas e nos campos das zonas rurais que habita ou que deseja habitar, revolucionando,
desta forma, o estilo descritivo da literatura francesa da época. No seguinte excerto, o autor descreve as suas alegres actividades de jardinagem infantis:
Nous plantâmes à l’entrée de petits bouts de bois minces et à claire-voie, qui, faisant une espèce de grillage ou de crapaudine, retenaient le limon et les pierres sans boucher le passage à l’eau. Nous recouvrîmes soigneusement notre ouvrage de terre bien foulée; et le jour où tout fut fait, nous attendîmes dans des transes d’espérance et de crainte l’heure de l’arrosement. Après des siècles d’attente, cette heure vint enfin: M. Lambercier vint aussi à son ordinaire assister à l’opération, durant laquelle nous nous tenions tous deux derrière lui pour cacher notre arbre, auquel très heureusement il tournait le dos (Confessions I 60).
Descrever a natureza, explica Jean-Louis Lecercle, em L'art du roman, consiste em transmitir por palavras a superioridade dos sentimentos que esta desperta no autor (216). Para isso, poderia ter dito Jean-Jacques, é necessário errar pelos campos e bosques, prestar atenção a todos os pormenores, capacidade que não é pertença de todos os homens:
Errer nonchalamment dans les bois et dans la campagne, prendre machinalement çà et là, tantôt une fleur, tantôt un rameau, brouter mon foin presque au hasard, observer mille et mille fois les mêmes choses, et toujours avec le même intérêt, parce que je les oubliais toujours, était de quoi passer l’éternité sans pouvoir m’ennuyer un moment… Les autres n’ont, à l’aspect de tous ces trésors de la nature, qu’une admiration stupide et monotone. Ils ne voient rien en détail, parce qu’ils ne savent pas même ce qu’il faut regarder; et ils ne voient plus l’ensemble, parce qu’ils n’ont aucune idée de cette chaîne de rapports et de combinaisons qui accable de ses merveilles l’esprit de l’observateur (Confessions II 455).
As cidades civilizadas têm um papel importante na teorização do homem natural, que por elas é corrompido; existe, portanto, a necessidade de marcar de forma positiva, na composição destas obras literárias, a clivagem entre as zonas rurais e as urbanas, clivagem essa por diversas vezes focada por Jean-Jacques, que se diz aborrecido e assediado por todas as classes de homens nos salões de convívio citadino:
J’étais si ennuyé de salons, de jets d’eau, de bosquets, de parterres, et des plus ennuyeux montreurs de tout cela; j’étais si excédé de brochures, de clavecin, de tri, de nœuds, de sots bons mots, de fades minauderies, de petits conteurs et de grands soupers, que quand je lorgnais du coin de l’œil un simple pauvre buisson d’épines, une haie, une grange, un pré; quand je humais, en traversant un hameau, la vapeur d’une bonne omelette au cerfeuil; quand j’entendais de loin le rustique refrain de la chanson des bisquières, je donnais au diable et le rouge, et les falbalas, et l’ambre; et, regrettant le dîner de la ménagère et le vin du cru, j’aurais de bon cœur paumé la gueule à monsieur le chef et à monsieur le maître, qui me faisaient dîner à l’heure où je soupe, souper à l’heure où je dors; mais surtout à messieurs les laquais, qui dévoraient des yeux mes morceaux, et, sous peine de mourir de soif, me vendaient le vin drogué de leur maître dix fois plus cher que je n’en aurais payé de meilleur au cabaret (Confessions II 133).
Por detrás da história do homem, defende Lecercle, gera-se, necessariamente, a descrição de toda a sociedade de uma época. As Confissões transformam-se, por isso, em crónicas (400): crónicas dos locais e das personagens que perpassam pelos seus olhos e das experiências que diversas vivências lhe trazem. Para produzir esse efeito são, também, indispensáveis os retratos que o escritor elabora das personagens que descreve. A técnica do retrato, continua o crítico, tornara-se frequente no século precedente, mas Rousseau executa-a de forma única, com virtuosismo e evitando a monotonia. Repare-se no exemplo da descrição física e psíquica de Mme de Houdetot:
Madame la comtesse d’Houdetot approchait de la trentaine, et n’était point belle; son visage était marqué de petite vérole; son teint manquait de finesse; elle avait la vue basse
et les yeux un peu ronds, mais elle avait l’air jeune avec tout cela; et sa physionome, à la
fois vive et douce, était caressante; elle avait une forêt de grands cheveux noirs, naturellement bouclés, qui lui tombaient au jarret; sa taille était mignonne, et elle mettait dans tous ses mouvements de la gaucherie et de la grâce tout à la fois. Elle avait l’esprit très naturel et très agréable; la gaieté, l’étourderie et la naïveté s’y mariaient heureusement… Pour son caractère, il était angélique; la douceur d’âme en faisait le fond; mais hors la prudence et la force, il rassemblait toutes les vertus… (Confessions II 171).
“Tanto o personagem é pintado de modo extra-temporal [declara Lecercle], tanto aparece numa cena… O retrato não tem um local fixo…” (433). No entanto, na última fase da vida, o gosto pela
solidão afasta o filósofo dos restantes homens, obrigando as suas descrições a incidir cada vez mais nas paisagens naturais e no retrato do próprio autor:
A cinq ou six cents pas de l’île, est, du côté du sud, une autre île beaucoup plus petite, inculte et déserte, qui paraît avoir été détachée autrefois de la grande par les orages, et ne produit parmi ses graviers que des saules et des persicaires, mais où est cependant un tertre élevé, bien gazonné et très agréable. La forme de ce lac est un ovale presque régulier. Ses rives, moins riches que celles des lacs de Genève et de Neuchâtel, ne laissent pas de former une assez belle décoration partie occidentale, qui est très peuplée, et bordée de vignes au pied d’une chaîne de montagnes, à peu près comme à Côte-Rôtie, mais qui ne donnent pas d’aussi bons vins… Tel était l’asile que je m’étais ménagé, et où je résolus d’aller m’établir en quittant le Val-de-Travers. Ce choix était si conforme à mon goût pacifique, à mon humeur solitaire et paresseuse, que je le compte parmi les douces rêveries dont je me suis le plus vivement passionné. Il me semblait que dans cette île je serais plus séparé des hommes, plus à l’abri de leurs outrages, plus oublié d’eux, plus livré, en un mot, aux douceurs du désœuvrement et de la vie contemplative (Confessions II 450).
No trecho acima, Jean-Jacques descreve a vista da ilha de Saint Pierre78, de modo a justificar o seu
gosto pacífico e solitário por uma vida contemplativa. Nesta obra, falar sobre a natureza está associado aos sentimentos de serenidade e de felicidade, ao invés de falar da cidade, de pessoas e de relações sociais, que se conota com sentimentos de opressão e de tristeza79:
Je me levais avec le soleil, et j’étais heureux; je me promenais, et j’étais heureux; je voyais maman, et j’étais heureux; je la quittais, et j’étais heureux; je parcourais les bois, les coteaux, j’errais dans les vallons, je lisais, j’étais oisif, je travaillais au jardin, je cueillais les fruits, j’aidais au ménage, et le bonheur me suivait partout: il n’était dans aucune chose assignable, il était tout en moi-même, il ne pouvait me quitter un seul instant (Confessions I 265).
Jean-Jacques sente-se feliz com pequenas coisas como acordar cedo, passear nos bosques ou fazer
78 Rousseau exila-se na ilha de Saint Pierre em 1765, mas é rapidamente expulso pelo governo de Genebra.
79 Segundo Babbit, “Aliado à ironia da desilusão emocional está um certo tipo de misantropia … Tendo falhado em encontrar companhia entre os homens, ele foge para a natureza... Poucos aspectos do romantismo são tão
jardinagem. Gera-se naturalmente uma ligação intrínseca entre os objectos descritos e as sensações que a percepção dos objectos produzem no autor. Repare-se como, no exemplo abaixo, a visão da água é conotada com o sonho, com a contemplação e com a meditação:
J’ai toujours aimé l’eau passionnément, et sa vue me jette dans une rêverie délicieuse, quoique souvent sans objet déterminé. Je ne manquais point à mon lever, lorsqu’il faisait beau, de courir sur la terrasse humer l’air salubre et frais du matin, et planer des yeux sur l’horizon de ce beau lac, dont les rives et les montagnes qui le bordent enchantaient ma vue. Je ne trouve point de plus digne hommage à la Divinité que cette admiration muette qu’excite la contemplation de ses œuvres, et qui ne s’exprime point par des actes développés… Dans ma chambre, je prie plus rarement et plus sèchement: mais à l’aspect d’un beau paysage, je me sens ému sans pouvoir dire de quoi (Confessions II 456).
Não existe maior homenagem à Providência do que admirar a sua obra, demonstrando a emoção que as belas paisagens podem suscitar. Criada a conotação, passa a existir de forma inequívoca uma equivalência entre sentimento e os elementos que o despertam: o coração une-se, portanto, com a natureza que o alumia. A visão de paisagens agradáveis desperta, no poeta, vontade de pensar e de criar com vigorosas pinceladas:
La vue de la campagne, la succession des aspects agréables, le grand air, le grand appétit, la bonne santé… tout cela dégage mon âme, me donne une plus grande audace de penser, me jette en quelque sorte dans l’immensité des êtres pour les combiner, les choisir, me les approprier à mon gré, sans gêne et sans crainte. Je dispose en maître de la nature entière; mon cœur, errant d’objet en objet, s’unit, s’identifie à ceux qui le flattent, s’entoure d’images charmantes, s’enivre de sentiments délicieux. Si pour les fixer je m’amuse à les décrire en moi-même, quelle vigueur de pinceau, quelle fraîcheur de coloris, quelle énergie d’expression je leur donne! (Confessions I 199).
Lemaître defende que as pinceladas com que o autor cria as suas obras parecem ser impulsionadas, indiferentemente, pelas paisagens e pelos estados de alma que o inspiram: “As suas paisagens são sempre penetradas pela alma, traduzindo sempre um sentimento em simultâneo com uma visão”. Não obstante, como visto anteriormente, Rousseau não mantivera, ao longo da vida, um diário ou
um registo dos seus pensamentos; as reflexões e as descrições que compõem as suas Confissões são, geralmente, compostas com auxílio à memória do autor: os mecanismos que operam a recordação e o registo de descrições de paisagens, de objectos, de relações humanas ou de sentimentos são, portanto, da mesma espécie. O uso do pincel para aludir ao acto da escrita ajuda a perpetuar a ideia segundo a qual descrever algo ou alguém é semelhante ao acto de pintar uma paisagem ou uma silhueta. Desde a Grécia de Simónides de Ceo (século V a.C.) até ao século XVIII, a crítica de arte tende a caracterizar de igual modo todos os meios artísticos, não distinguindo claramente, por exemplo, a poesia da pintura80. Até ao século XVIII, artes visuais e literatura demonstram o
propósito de fazerem uma transcrição cada vez mais fiel da realidade: o escritor deseja, por isso, desenhar um retrato o mais exacto possível do objecto retratado. No caso de Les Confessions, esse objecto é o próprio Jean-Jacques. Leia-se, como exemplo, o preâmbulo escrito para o primeiro tomo, no qual é reafirmado o seu desejo de realizar um retrato fiel de si próprio:
Voici le seul portrait d'homme, peint exactement d'après nature et dans toute sa vérité, qui existe et qui probablement existera jamais. Qui que vous soyez, que ma destinée ou ma confiance ont fait l'arbitre du sort de ce cahier, je vous conjure par mes malheurs … et de ne pas ôter à l'honneur de ma mémoire le seul monument sûr de mon caractère qui n'ait pas été défiguré par mes ennemis (Confessions I 39).
O objectivo primário do autor está perfeitamente determinado – e o sucesso da sua empresa dependerá do destino. No “preâmbulo de Neuchâtel”, constante do manuscrito de 176481, Jean-
Jacques vem reafirmar o seu propósito – independente do sucesso futuro do livro – e também demonstrar a sua intenção de revolucionar a utilização da linguagem, tornando-a interior ao sujeito poético:
80 A confrontação entre poesia e pintura foi sempre um tema revisitado pela crítica de arte. A ideia da sua similitude foi transmitida ao longo de gerações e é frequentemente denotada por ut pictura poesis, frase latina utilizada por Horácio no verso 361 da Ars Poetica (c. 20 a. C.). Esta significa literalmente “como é a pintura, é a poesia”. G. E. Lessing indica, em Laocoon, que Simónides terá sido o primeiro a comparar a pintura com a poesia, caracterizando a primeira como poesia muda e a segunda como pintura com voz (9).
81 Os manuscritos de Les Confessions dividem-se em três partes: o Manuscrito de Neuchâtel foi confiado a Du Peyrou, em 1767, e inclui um preâmbulo, os três primeiros livros e o início do quarto; o Manuscrito de Paris foi legado pela viúva de Rousseau (Thérese Levasseur) à Convention Nationale, em 1794, e inclui todos os livros; o Manuscrito de
Genève é uma réplica do de Paris e foi entregue a Moulton em 1778. As Confissões, divididas em duas partes, foram
Si je veux faire un ouvrage écrit avec soin comme les autres, je ne me peindrai pas, je me farderai. C'est ici de mon portrait qu'il s'agit et non pas d'un livre. Je vais travailler pour ainsi dire dans la chambre obscure ; il n'y faut point d'autre an que de suivre exactement les traits que je vois marqués. Je prends donc mon parti sur le style comme sur les choses. Je ne m'attacherai point à le rendre uniforme ; j'aurai toujours celui qui me viendra, j'en changerai selon mon humeur sans scrupule, je dirai chaque chose comme je la sens, comme je la vois, sans recherche, sans gêne, sans m'embarrasser de la bigarrure. En me livrant à la fois au souvenir de 1'impression reçue et au sentiment présent je peindrai doublement l'état de mon âme, savoir au moment où l'événement m'est arrivé et au moment où je l'ai décrit ; mon style inégal et naturel, tantôt rapide et tantôt diffus, tantôt sage et tantôt fou, tantôt grave et tantôt gai fera lui-même partie de mon histoire (“Préambule du Manuscrit de Neufchâtel”).
Ao dizer cada coisa como a sente, como a vê, segundo o seu humor momentâneo, o seu estilo, profetiza o autor, fará parte da sua história, precisamente por ter incluídas as características do sujeito no momento narrado e no momento de escrita: “… sujeito, linguagem, emoção não se deixam distinguir”, defende Jean Starobinski, em Transparence et Obstacle (234). Para o crítico, apesar de Rousseau encarar a linguagem como um instrumento e uma ferramenta que pode controlar, o autor é um dos primeiros a compreender o facto de a linguagem ser, para além de um