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Capítulo I – A linguagem catafática plotiniana

I.VI. Imagens, metáforas e analogias

A Presença diz do Um aquilo que nós ainda somos constrangidos a expressar por meio das imagens, metáforas e analogias.146 E se pensamos que as imagens correspondem a recursos “menores” utilizados pelos filósofos para aludir a algo de comum, no sentido de ordinário, e que pode ser compartilhado, convém re-lembrar que, em sua face interna, as imagens guardam o que há de mais misterioso, até mesmo para aqueles que as utilizam em seus escritos, já que tornam manifesta uma realidade “oculta”.

Por meio das imagens somos convidados a voltar à intuição primeira, pois as imagens retratam sempre uma experiência e, neste sentido, são testemunhos da vida interior. Enquanto recurso linguístico, as imagens comunicam uma intuição filosófica não formulável em conceitos. Em Plotino as imagens se sobrepõem umas às outras, e, na medida em que nos apropriamos de uma dada imagem, esta se torna inoperante necessitando de outra para representar a realidade que buscamos, pois esta realidade, como sabemos, é Inefável. Segundo Bréhier, a imagem só é uma ficção se resistimos a ela, do contrário ela é, sem dúvida, indispensável para alcançar o real.147 Não sendo a representação exata daquilo que buscamos

145 Tradução de HADOT. Plotin: Traité 9, p. 82.

146 Com relação às imagens e metáforas em Plotino ver os estudos de E. BRÉHIER. Images plotiniennes, images

bergsoniennes. Les études bergsoniennes. Volume II: 1949. Paris: Éditions Albin Michel, 1949; R. FERWERDA, La signification des images et des métaphores dans la pensée de Plotin. Amsterdam: Groningen Wolters, 1965; E. MOUTSOPOULOS, Le problème de l’imaginaire chez Plotin. Athènes: Éditions Grigoris, 1980.

alcançar, a imagem sempre evoca aquilo que a ultrapassa. As imagens estão, portanto, a serviço da intuição, e apontam para aquilo que justamente ultrapassa a condição humana.148

Ferwerda, em seu estudo La signification des images et des métaphores dans la pensée de Plotin elabora a intuição esboçada por Bréhier sem alterá-la essencialmente.149 A utilização de metáforas150 e imagens permite, por meio de aproximações sucessivas, o re-conhecimento daquilo que existe em comum, a semelhança, entre aquilo que conhecemos como “nosso” e o que não somos, mas que trazemos do Princípio, devido ao nosso “parentesco” (kinship) no sentido de dependência causal. Trata-se da comparação entre dois objetos distintos, como no paradigma platônico, e não da criação de um novo termo, enfatiza Ferwerda.151 As imagens guardam resquícios daquilo a que aludem embora não sirvam de ponte entre os diversos níveis de realidade e, assim não poderiam ser comparadas às Formas, que guardam uma imagem enfraquecida das realidades inteligíveis e do Um e de Sua unidade intrínseca como aquilo que as constitui e caracteriza.152 Ainda que possamos conhecer o Um indiretamente através das imagens e metáforas, convém lembrar que estas têm apenas uma função pedagógica, que se realiza através de uma dialética ascendente, na qual reconhecemos, por meio da Alteridade, a nós mesmos em cada etapa, de modo a alcançarmos níveis mais elevados de consciência e de unidade, respectivamente.

Para Plotino existem dois tipos de semelhança com relação ao Princípio.153 No primeiro caso, a emanação assemelha-se ao Princípio sem que haja um elemento de identificação entre estes, e a sua semelhança não é recíproca.154 Já entre os elementos cuja origem remontam a um mesmo Princípio, e que se encontram num mesmo nível de realidade,

148 Reflexões a partir do artigo de Bréhier, Images plotiniennes, images bergsoniennes.

149 FERWERDA afirma o mesmo que Bréhier no inicio de seu livro, La signification des images et des

métaphores dans la pensée de Plotin, p. 1.

150Sara RAPPE. Reading Neoplatonism – Non-Discursive Thinking in the Texts of Plotinus, Proclus, and

Damascius. Cambridge: Cambridge University Press, 2000, p. 93, trabalha o conceito de metáfora dizendo, no contexto da verdade: “A verdade não pode ser averiguada por representações linguísticas ou conceituais; ela pode ser tão somente apreendida quando há uma identidade entre o conhecedor e o conhecido. Claro, o grande problema com tal teoria é que ela parece necessariamente evadir-se tanto à verificação quanto à experiência. A metáfora [no entanto] entra [aqui] como um modo através do qual Plotino, assenhorando-se desta teoria da verdade, tenta trazer a possibilidade da identidade do conhecedor e do conhecido para dentro da esfera da experiência. Ele usa expressões metafóricas para mostrar características de experiências acessíveis que exibem, mais ou menos perfeitamente, algum grau de unidade entre o sujeito conhecedor e o objeto conhecido. Deste modo, ele recorre às metáforas para guiar o leitor a uma melhor compreensão do que é – e de como se parece - o conhecimento, propriamente dito”.Ver também os ítens “Metaphorical Deixis in the Enneads”, pp. 94-99 e “Conclusion: Metaphor and Metaphysics”, pp. 112-114.

151 FERWERDA. La signification des images et des métaphores dans la pensée de Plotin, p. 5. 152 Neste sentido podemos dizer que as imagens não são o correlato dos símbolos.

153 Cf. 19 [I 2], 2, 1-10.

prevalece um elemento de identidade e a sua semelhança é recíproca.155 A semelhança no nível horizontal é indício, portanto, de reciprocidade e identidade. E neste caso, faria sentido afirmarmos que as Formas expressam a semelhança com relação ao Princípio. No nível vertical prevalece, entretanto, um elemento de diferenciação – a Alteridade -, e a sua relação não é recíproca, mas simplesmente outra, diferente. 156 A não-reciprocidade entre o Princípio e o que dele emana é indício de um “outro tipo de relação”, por meio do qual se estabelece um contato e um conhecimento diretos, sem intermediários e que, não podendo mais ser definido nem expresso por meio de imagens, traz em si os índices da indefinição.

Mas no caso em que duas coisas das quais uma é como a outra, mas a outra é primária, não reciprocamente relacionada à coisa em sua semelhança, e não podendo ser tida como semelhante, a semelhança tem que ser compreendida de outra maneira.157 Tratado 19 [I 2], 2,

7-11.

Chegada a esta altura, a Alma simplificada, conhece o que não poderia conhecer de outra maneira, pois o que antes a alma conhecia por meio das formas, nas imagens, metáforas e analogias, como sendo à sua semelhança, agora conhecerá somente a partir da sua própria indeterminação. É neste sentido que Plotino afirma no tratado 12 [II 4] que, “[a]ssim como o semelhante é conhecido pelo semelhante, o indefinido é conhecido pelo indefinido”. 12 [II 4], 10, 4.158

Plotino nos convida a abandonar tudo, inclusive todos os recursos de linguagem utilizados até este ponto, pois estes podem tão somente conduzir a Alma ao Intelecto, mas não ao Princípio. Jean-Louis Chrétien em seu artigo L’analogie selon Plotin159 apresenta-nos uma síntese daquilo que a analogia, na obra de Plotino, realiza e conduz. Embora o termo analogia não apareça mais do que dezessete vezes nas Enéadas, isso não quer dizer que não seja um conceito central ou que esta questão não esteja presente em sua obra.160 Ao contrário, enquanto fundamento, a analogia permite o reconhecimento daquilo que Dele em nós se realiza quando re-conhecemos na parte o todo, Dele, no mundo e em nós, como a sua força (dynamis) a nos impulsionar, ao mesmo tempo fora do tempo, na Sua direção.161 Neste sentido, poderíamos, como Chrétien, lembrar que existe uma via analógica (via analogiae) e

155 Este tipo de semelhança corresponde à semelhança existente entre os Gêneros Primeiros. 156 Ver Gabriela BAL. Sympaphy and Likeness in Plotinus, p. 67.

157 Tradução de A. H. ARMSTRONG, Plotinus: Porphyry on Plotinus – Ennead I. Cambridge: Harvard

University Press, 1995.

158 Tradução de Richard DUFOUR. Plotin: Traités 7-21, p. 249.

159 Cf. CHRÉTIEN. Jean-Louis. L’analogie selon Plotin. Les études philosophiques, 3-41 (1989). 160 Ibid., p. 305.

uma via negativa (via negationis) mesmo que estes conceitos se refiram mais ao neoplatonismo tardio de Proclo do que ao de Plotino, pois em Plotino o conceito de analogia “brilha por sua ausência”.162

O que não é dito se esconde por trás das palavras que ainda tecem a trama invisível que mantém coesas as realidades. Para Plotino a analogia é solidária da simpatia (sympatheia).163 O filosofo alexandrino parte da concepção estóica de simpatia entre as partes do universo e nos presenteia com a ideia do mundo “como um ser amoroso único que inclui todos os seres vivos que estão em seu interior”,164 e explica que “o universo é um todo em simpatia consigo mesmo.165 A noção de simpatia não apenas explicita a relação entre o cosmo e a alma, mas a relação entre o todo e as partes, entre a realidade inteligível e a sensível. A noção de simpatia pressupõe a ideia de unidade enquanto o fundamento daquilo mesmo que ela expressa. Os conceitos mudam, mas a ideia por trás deles permanece a mesma. A nossa diferença, a Alteridade, denuncia a nossa ruptura com relação à unidade primordial, a nossa falta de unidade e, na falta, buscamos, ser “simpáticos”, solidários uns com os outros, sendo esta uma das vias utilizadas, no retorno, ao sentimento original que só a unidade desperta.

[A] imagem difere do padrão da fonte em sua Alteridade ou diferença. Esta diferença não consiste na posse de alguma qualidade positiva não existente no padrão, mas na deficiência, na não posse de algum atributo do original.166

A diferença não estaria, portanto, naquilo que agregamos na descida da alma, mas naquilo que “perdemos” ao nos distanciarmos do Princípio, a simplicidade. O acesso ao Um para Plotino se daria não apenas através da via positiva, por meio das imagens, metáforas e analogias, mas muito especialmente através de uma via negativa, ou afairética,167 ou ainda,

162 Cf. Jean-Louis CHRÉTIEN L’analogie selon Plotin, pp. 306-307.

163Cf. Jean-Louis CHRÉTIEN. L’analogie selon Plotin, p. 317. O conceito de simpatia foi abordado por

GURTLER, Gary M. Sympathy in Plotinus In: International Philosophical Quarterly, Vol. XXIV, Nr. 4 Issue Nr. 96, December 1984 e por F. M. SCHROEDER, Synousia, Synaistesis and Synesis: Presence and Dependence in

the Plotinian Philosophy of Cousciousness. Aufstieg und Niedergang der Romischen Welt, vol. 2, 1987. Não pretendemos aprofundar a reflexão sobre este tema aqui, pois este já foi tratado exaustivamente no artigo de minha autoria, Sympaphy and Likeness in Plotinus In: Perspectives sur le Néoplatonisme. International Society of Neoplatonic Studies. Actes du Colloque de 2006. Martin ACHARD et Jean-Marc NARBONNE (eds.). Quebec: Les Presses de L’Université Laval, 2009, pp. 63-72, no qual é apresentada uma reflexão a respeito da relação entre os conceitos de simpatia e semelhança na cosmologia de Plotino. Ver Plotino, Tratado 48 [III 3], 6, 23-27, para a relação entre analogia e adivinhação. Ver também nota de DUFOUR, Plotin: Traités 45-50, p. 298, n. 273. Ainda sobre a mântica, ver Jean-Louis CHRÉTIEN. L’analogie selon Plotin, p. 318.

164 28 [IV 4], 32, 5

165 28 [IV 4], 32, 13-14; 35, 9-10.

166 Frederic SCHROEDER. Synousia, Synaistesis and Synesis: Presence and Dependence in the Plotinian

Philosophy of Consciousness. Aufstieg und Niedergang der Romischen Welt, vol. 2, 1987, p. 680, n. 8.

167 Ver Reinholdo Aloysio ULLMANN. Plotino: Um estudo das Enéadas. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2002,

apofática, por meio da qual se afirma tudo o que Ele não é, quando se promove a retirada de tudo o que foi acrescentado à simplicidade original, na descida, até o limite onde a linguagem se esgota como uma ‘catarse da linguagem conceitual’.168

Plotino “cria” e “re-cria” recursos de linguagem capazes de demonstrar não apenas a falácia da mesma, mas a impossibilidade de concretização de nossa empreitada e, assim continua a nos guiar até o lugar onde habita Aquele que nos conduz, cada vez mais silenciosamente, ao Não-lugar. E, quando achamos que chegamos “lá”, sem saber de mais nada, ainda somos, como Plotino, constrangidos a voltar.169 Plotino começa o seu tratado Sobre a descida da alma nos corpos com as seguintes palavras:

Frequentemente quando desperto a mim mesmo, saindo do meu corpo, e quando afastado das outras coisas entro em meu interior, vejo uma beleza de uma força admirável, e tenho então a plena certeza que aí está um destino superior a qualquer outro: levo a melhor das vidas, tornado idêntico ao divino, instalado nele, tendo chegado a esta atividade superior, estabelecendo-me acima de todo o resto do inteligível. Após este repouso no divino, quando desço do Intelecto para o raciocínio fico perturbado para saber como esta descida aconteceu, tanto naquele momento, quanto agora, e como a minha alma pôde sempre encontrar-se no interior do meu corpo, se ela está realmente em si própria tal como ela pôde se manifestar, ainda que esteja num corpo. Pois Heráclito, que nos encorajou a fazer esta pesquisa, do momento em que colocou a necessidade de “trocas recíprocas” entre os contrários, fala do “caminho para o alto e para baixo”, ou afirma que “o cansaço consiste em se dedicar às mesmas tarefas e estar submetido a elas”, a dar estas imagens negligenciando explicá-las claramente, sem dúvida com a intenção de nos obrigar a buscar por nós mesmos, do mesmo modo como ele encontrou ao buscar. E, quando Empédocles diz que é uma lei para as almas que cometeram faltas, cair até aqui, e que ele, mesmo “exilado longe de deus” veio porque “obedeceu à Discórdia em fúria”, ele o diz, a meu ver, tanto quanto Pitágoras e os seus discípulos que falaram por enigmas, sobre este assunto como sobre muitos outros. Mas foi-lhe permitido não ser claro, pois ele se expressava através da poesia. Resta-nos, pois, o divino Platão que disse muitas coisas belas sobre a alma e que tratou frequentemente em sua obras de sua vinda a este mundo, de modo a que temos a esperança de extrair dele algo compreensível.170 Tratado 6 [IV 8], 1, 1-11.