1 INTRODUÇÃO
4.2 FILOSOFIA DO OLFATO
4.2.1 Representações do olfato: uma questão polêmica
4.2.1.3 Imoralidade
4.2.1.3 Imoralidade e amoralidade
A animalidade a que se costuma associar o olfato está diretamente relacionada com a imoralidade nas sociedades ocidentais, pois os odores escapam pelo suor da pele, espalham-se pelo ar e invadem a privacidade das pessoas que estão ao redor. No romance O Perfume, o personagem padre
Terrier se mostra incomodado com o modo como Grenouille age enquanto criança:
parecia cheirar até mesmo através de sua pele, dentro dele. Os sentimentos mais delicados, os pensamentos mais sujos ficavam desnudos diante daquele narizinho ansioso, que nem nariz era ainda, só um toquinho, um ínfimo órgão, esburacado, que se franzia, inchava, e estremecia e vibrava sem parar. (SÜSKIND, 1985, p. 21)
Era como se Grenouille fosse capaz de descobrir a essência das pessoas apenas pelos odores que elas exalam. No capítulo 15 do romance, o narrador destaca o potencial invasivo dos perfumes, utilizando-se inclusive da 1ª pessoa do plural em determinado momento:
Há um poder de convicção no perfume que é mais forte do que palavras, do que olhar, sentimento e vontade. O poder de convicção do aroma não pode ser descartado, entra dentro de nós como o ar em nossos pulmões, nos ocupa completamente, não há antídoto contra ele. (SÜSKIND, 1985, p. 88)
Nessa citação, nota-se como os aromas interagem entre os corpos sem uma barreira que possa contê-los, fazendo com que as pessoas temam pela própria privacidade e associem o olfato com imoralidade. Retomando o conceito de Classen, Howes e Synnott (1996), no Ocidente pré-moderno, antes da hipervalorização da visão, os odores eram revelações íntimas da verdade de cada um, ou seja, eram concebidos como essências intrínsecas. Pode- se concluir que, através do cheiro, “a pessoa interatua com interiores e não com superfícies, como ocorre através da visão” (CLASSEN; HOWES; SYNNOTT, 1996, p. 14).
Já que não é possível controlar o poder invasivo da olfação, os odores podem causar medo e repulsa. Dessa forma, adquirem forte conotação sexual e um sentimento indesejável de ser violado: “um forte odor corporal aparece como uma forma intolerável de intrusão e controle sobre o mundo, como uma forma de impor o seu corpo sobre o outro de forma abusiva”43 (JAQUET, 2010, p. 75). No romance O Perfume, lê-se em um dos trechos: “O odor humano é
43 No original, em francês: “une forte odeur corporelle apparaîtrait comme une forme intolerable d’intrusion et de mainmise sur le monde, comme une manière d’imposer abusivement son corps à autrui”.
sempre um odor carnal – portanto um odor pecaminoso” (SÜSKIND, 1985, p.
20). Sem dúvida, esse pensamento tornou-se um desafio para o comportamento moral instituído pelos que buscam manter a ordem social por meio de uma educação baseada na virtude e na vergonha como pretextos para esconder a sexualidade e o corpo em sua naturalidade. Pode-se chamar essa tentativa de dissimular os odores corporais de “assepsia da sociedade”. Em busca de equilíbrio moral, os nobres encobriram seus odores fazendo um uso dispendioso de perfumes como forma de vaidade. Existem muitos exemplos históricos que foram citados no capítulo anterior desta pesquisa: Cleópatra, Alexandre o Grande, Rainha Margot e Rei Luís XV.
O pensamento burguês sobre a moralidade redefiniu a sexualidade em termos de moderação, certamente agravada pelo discurso de protestantes puritanos como Henry Ward Beecher, que circundaram o sexo de normas e dogmas religiosos (HOBSBAWM, 2012). De acordo com a jornalista e pesquisadora Patrícia Mariuzzo (2007), a burguesia fez “com que o que era natural se tornasse repugnante. O que é de dentro não é para ser visto ou tocado, deve ser retirado do campo visual e olfativo”. As famílias se tornaram obcecadas pela limpeza do corpo, como sinal de virtude, evitando até mesmo comentários que evidenciassem os aspectos que são naturais nos homens;
suas secreções e seus excrementos foram apagados da sua vida. Os pais ensinam as crianças a rejeitarem seus odores corporais e seus excrementos, como flatulências e arrotos, sendo que elas possuem uma relação natural com seus próprios cheiros. As meninas aprendem desde cedo a mascarar o odor da menstruação, mesmo que o ciclo feminino de reprodução seja o processo mais natural e saudável de uma mulher. Alguns adultos que sentem atração pelo cheiro de suor e de sangue ou demonstram comportamentos de coprofilia e urofilia, seja na satisfação como indivíduo, seja em relações sexuais, são vistos como pessoas mentalmente desequilibradas e de vida desregrada. Enfim, os cheiros são escondidos ao máximo, mesmo se sabendo que “Cada pessoa possui um odor tão característico quanto as impressões digitais” (ACKERMAN, 1992, p. 46).
Com o capitalismo e a comercialização de produtos industrializados em série, a dissimulação se transformou em algo ilusório por meio do marketing
comercial. Algumas propagandas de desodorantes, sabonetes, perfumes e outros produtos de higiene e limpeza funcionam como um reflexo do comportamento mais bem-visto na sociedade ocidental: a idealização do corpo.
Por exemplo, no comercial do perfume La Vie est Belle da marca francesa Lancôme, lançado em 2012, a atriz Julia Roberts surge em um salão com um vestido branco esvoaçante e, em seguida, vários fios de diamante desprendem brilho ao seu redor. No final, ela sobe os degraus do salão de costas, enquanto os cabelos se espalham ao vento e uma luz forte recai sobre ela. Essas duas cenas descritas podem ser vistas nas imagens a seguir:
FIGURA 10 – CENA DO COMERCIAL LA VIE EST BELLE, 42’’
FONTE: www.lancome-usa.com/La-vie-est-belle-Commercial/la-vie-est-belle-commercial,default,pg.html?folder=commercials&subfolder=tv-commercials.
FIGURA 11 – CENA DO COMERCIAL LA VIE EST BELLE, 47’’
FONTE: www.lancome-usa.com/La-vie-est-belle-Commercial/la-vie-est-belle-commercial,default,pg.html?folder=commercials&subfolder=tv-commercials.
Outro comercial que pode exemplificar essa idealização do corpo é o mais recente do perfume J’Adore, da marca francesa Dior. No início do comercial, a atriz Charlize Theron caminha dentro de um antigo palácio com roupa de gala dourada e brilhante. Como narração, ouve-se que “o passado pode ser lindo, mas não é um lugar para se viver”. Em seguida, movimentando-se com elegância, a atriz começa a escalar um tecido em direção à luz do sol no teto, por onde sai e enxerga uma cidade futurística ao seu redor, “um novo mundo” de acordo com a narração. Na cena da FIGURA 12, a atriz aparece iluminada como uma criatura divina:
FIGURA 12 – CENA DO COMERCIAL THE FUTURE IS GOLD, 40’’
FONTE:
www.dior.com/beauty/en_int/minisite/th/jadore.html#/page/home/home/video/video-4
Enfim, o perfume “bom” aparece associado a uma aura ou um sopro imaterial, que transforma o corpo (carnal, imoral e sujo) em criatura etérea (pura e limpa), geralmente pessoas que se assemelham a anjos, espíritos ou deuses.
Esse tipo de caracterização também foi colocado em evidência no romance O Perfume, quando se descreve o povo como absolutamente encantado por Grenouille: “A um aceno seu, todos iriam abjurar o seu Deus e rezar a ele, o Grande Grenouille” (SÜSKIND, 1985, p. 248). Pessoas que tinham horror e ojeriza ao assassino passaram a fazer reverência a ele, como se fosse a aparição do próprio Deus na terra. A multidão que estava presente foi tocada por “um poderoso sentimento de simpatia, delicadeza, de fantástica amorosidade infantil [...], de amor por esse pequeno assassino, e não queriam, e não podiam fazer nada contra isso” (SÜSKIND, 1985, p. 245), ainda que ele tivesse cometido dezenas de crimes hediondos. Nesse caso, o perfume apresenta a mesma função da máscara, como uma maneira de encobrir quem ele é de verdade, para se esconder e também se proteger dos outros.
No filme O Perfume, quando as pessoas estavam na praça pública prestes a presenciar a execução, deixaram-se afetar pelo perfume maravilhoso
que Grenouille espalhou pelo ar com seu lenço. Todos passaram a gritar que Grenouille era um anjo, uma criatura perfeita, que jamais poderia ter sequer machucado alguém. De repente, Grenouille torna-se inocente, puro e amado44. Para substituir a imoralidade do cheiro do homem, os anjos, os espíritos elevados e os deuses são representações da moralidade porque não possuem qualquer associação com sexo e depravação. Esse intenso perfume é sinal de graça e pertence aos sacerdotes religiosos e santos. Alguns textos descrevem o odor da santidade como divino, especialmente após a morte de uma pessoa santa: a morte de Teresa d’Ávila teria sido acompanhada de uma forte emanação, percebida em todo o mosteiro. Santa Teresa de Lisieux teria emanado, após a sua morte, um forte aroma de rosas que persistiu por vários dias no local. O sangue vertido dos estigmas de Padre Pio teria também um odor floral que permanecia forte mesmo em curativos (DE LISO, 1960).
Georges Duby (1990, p. 603) relata que a freira Margaretha Ebner (1291–
1351), enquanto descrevia experiências de transporte espiritual, sentia que “a presença divina no coro de sua igreja se manifestava por suaves sopros de ar e por um maravilhoso aroma”. De acordo com o texto bíblico, Jesus, o símbolo maior da bondade e da virtude para os cristãos, possuía um perfume agradável que representava a vida eterna: “Deus, que, em Cristo, sempre nos conduz em triunfo e, por meio de nós, manifesta em todo o lugar a fragrância do seu conhecimento. Porque nós somos para com Deus o bom perfume de Cristo, [...]
aroma de vida para vida” (2Co 2.14-16). Segundo estudos de Classen, Howes e Synnot (1996, p. 63), em muitas sociedades, os aromas doces e florais significam pureza de espírito e são opostos “ao fedor da corrupção moral” dos pecados cometidos, demonstrando que o cheiro da putrefação dos cadáveres é maligno. A nobreza, em sua antiga aliança com a Igreja, costumava fazer
44 Após a veneração de Grenouille em praça pública, seguem cenas de sexo entre as pessoas que faziam parte da multidão. Entretanto não se deve considerar essa sexualidade compartilhada um sinal de depravação, porque ela é, na verdade, uma demonstração de amor que representa a libertação dos desejos íntimos de cada um dos presentes, um efeito causado pela combinação aromática do perfume. O perfume causou essa reação nas pessoas porque as vítimas de Grenouille foram escolhidas pelo poder que suas emanações olfativas tinham de inspirar o amor nos outros, sentimento este que Grenouille buscou durante toda a sua vida sem obter sucesso.
unção com óleos santos para purificar-se e manter a autoridade de “eleitos por Deus” como era a crença.
Portanto, muito do que se acredita em relação à imoralidade do olfato surgiu apenas por razões religiosas e políticas, isto é, o desejo de as pessoas serem vistas como boas cristãs e manterem a aparência de boa conduta, longe da reprovação a ser feita pelo outro e dentro de um código social de convivência.