PARA ALÉM DOS TERREIROS.
3.5. Outros tempos, (re)inventando as experiências e (re)vivendo a ancestralidade.
3.5.4. Império Serrano e Grande Rio: Batida para Ogum.
“Antes batia-se para os santos (saudava-se os compadres exus, se cantava
para os orixás), rodas de samba e depois jazz band”397
395REGO José Carlos. Batida, virada, paradinha: a marca de cada escola. Jornal O Globo segundo
caderno. Rio de Janeiro. 3 de Fevereiro de 1985, p. 1.
396Entrevista de Mestre Marcão ao pesquisador Julio Cesar Farias. FARIAS, Julio Cesar. Escola de
samba e cultura afro-brasileira. Disponível em www.papodesamba.com.br. Acesso em: 03. Set. 2011.
O GRES Império Serrano foi fundado em 1947 e da sua formação participaram nomes de peso da religiosidade negra em Madureira, entre eles Elói Antero Dias, Tia Martha do jongo, Vovó Maria Joana, entre outros. Entre seus componentes existiam trabalhadores da estiva e do santo, ligados ao sindicato de estivadores do porto que escolheram Ogum, o senhor dos caminhos, protetor do trabalho, da guerra e das armas como o patrono da escola. Martha Ferreira da Silva, mãe de santo residente na Rua Itaúba, numero 298, onde possuía o terreiro de Ogum398, lavadeira, participou de escolas de samba como Rainha das Pretas e
Unidos de Rocha Miranda, migrando para o Império em 1947. Muito popular no
bairro, no carnaval ela saia de índio pela comunidade e desfilava de baiana na escola.
Participantes de terreiros como o de Tia Martha e o de Vó Joana, os ogãs também faziam parte de escolas de samba e se inspiravam nos toques de santo para elaborar as batidas da escola. Segundo Alcides Gregório, diretor da bateria da escola da Serrinha em 1985, os sambistas freqüentavam bastante os terreiros:“Nós do Samba, vivíamos muito nesses terreiros. E foi o João Timbada quem definiu a marcação do nosso surdo de terceira, como ele era devoto de Ogum, ficou aquela batida, duas vezes repetida, da saudação a chegada do orixá. Nossa bateria bate
para Ogum399”
O então diretor de bateria, Alcides Gregório, explicou igualmente a Rego a natureza do ritmo do Império: no meio da marcação do surdo de primeira, que pergunta e o surdo de segunda que responde, aparece o surdo de terceira; a diferença entre a bateria do Império e as das escolas que batem para outros orixás é que nela esse terceiro surdo não exerce a função de marcação ou corte, ele floreia o ritmo. Esse toque para ogum é tão presente e marcante na memória e no presente da verde e branca que o atual presidente da escola, Mestre Átila, que esteve afastado da escola de 2009 a 2011, chegou a incorporar o toque para Ogum na
397Depoimento de Wilson das Neves. Concedida a: Délcio Carvalho, Beth Carvalho, Paulo Cesar
Pinheiro, Ernani Ferreira, Luiz Carlos Da Vila, Realizado em 11 de Julho de 2006. para o Museu da Imagem e do Som, série Depoimentos para a posteridade. Grifos meus. O artista explica que durante a infância, freqüentava as festas e antes de começar as rodas de samba, as lideranças faziam homenagens aos orixás e sobretudo aos exus, pedindo licença e proteção.
398VALENÇA, Rachel T, VALENÇA,, Suetônio. S. Serra, Serrinha, Serrano: O Império do Samba. Op.
Cit., p.13.
399Entrevista de Alcides Gregório, concedida a José Carlos Rego. In: REGO José Carlos. “Terreiros e
quadras. Orixás e padroeiros”. O Globo segundo caderno.Rio de Janeiro. 03 de Fevereiro de 1985. p.1 grifos meus
Unidos de Vila Isabel400, durante o período em que lá esteve. Gilmar, o substituto do mestre de bateria no Império, não abre mão da característica da bateria da escola que, em 2006, levou para o desfile o enredo que reverenciou o seu orixá.
Outra escola que bate para Ogum é a Grande Rio, fundada em 1988, a partir da fusão de antigas escolhas de Duque de Caxias, entre elas a Cartolinha de
Caxias. Não localizei referências sobre ligações diretas entre a escola e terreiros de
Umbanda, Omolocô ou Candomblé, mas, segundo o mestre de bateria Ciça, que migrou da Viradouro para a escola em 2009, existe na bateria da escola um grupo de componentes que tocam para o orixá Ogum. Segundo ele: “Não tenho muito isso comigo, não. Meu estilo é muita caixa. Mas tem um grupo que toca para Ogum, sim, no surdo da Grande Rio - confirma o mestre de bateria”401.
Ogum é o patrono da tricolor de Caxias, e foi tema de sua volta ao grupo especial em 1993402, com o enredo “No Mundo da Lua”, cuja letra homenageava seu orixá: “Salve Ogum de Ilê, na devoção o guardião, é lindo ver a sua imagem encantando a multidão.” 403
No ano seguinte, a escola foi a primeira a levar para a Sapucaí, um enredo cuja temática foi a Umbanda, “Os santos que a África não viu”, no qual contou a historia da constituição dos cultos que reverenciam exus, pretos velhos, caboclos e os orixás e mais uma vez, Ogum ganhou destaque nos versos: “Da terra negra, veio o meu negro Rei, Ogum de Fé que nesse solo se plantou, correu gira pelo norte, capoeira, azar ou sorte, o nordeste conheceu, quem viveu na boemia, malandragem e valentia até hoje não morreu”404
Deste modo, percebemos que também na escola de Caxias, apesar de seus poucos anos de existência, existe um conjunto de experiências partilhadas entre a escola e os terreiros, isto ocorre por conta da presença de ritmistas que são ogãs
400MARIA, Eliane. Ritmo acelerado de baterias esconde toque para orixás. Jornal Extra, Ed. de 06 de
Março de 2011. Disponível em: http://extra.globo.com/noticias/carnaval/ritmo-acelerado-de-baterias- esconde-toque-para-orixas 1222362.html. Acesso em: 21.Jun.2011.
401Idem.
402A escola subiu pela primeira vez em 1990, estreando no grupo especial em 1991, e foi rebaixada.
Em 1992 ganhou o desfile do grupo de Acesso com um enredo afro: Águas claras para um rei negro.
403Ala de Compositores do Acadêmicos do Grande Rio em 1993. Nesse ano ocorreram junções entre
quatro sambas e a assinatura foi compartilhada pela ala. Enredo: No mundo da Lua, do carnavalesco Alexandre Louzada.
404Helinho107, Rocco Filho, Roxidie e Mais Velho- Compositores do Samba: Os santos que a África
que tocam no ritmo da batida do santo, como forma de reverenciar e conseguir proteção para o desfile. Interessante também é que apesar de seu mestre de bateria não compartilhar essa pratica ele não a proíbe, o que demonstra que esses ritmistas e suas crenças possuem reconhecimento e legitimidade perante a escola. Assim, a Grande Rio pode ser incluída entre as escolas que mantém, reinventam ou ressignificam os saberes sócios religiosos oriundos das matrizes africanas.