2. INTERVENÇÃO PROFISSIONAL
2.2 IMPACTO PROFISSIONAL DO SUICÍDIO PARA O PSICÓLOGO
O profissional psicólogo é aquele que, pela sua formação, trabalha no estudo do ser, agir e sentir dos seres humanos buscando compreender o funcionamento psíquico humano. O psicólogo trabalha com o objetivo de promover a saúde e de melhorar a qualidade de vida da comunidade, observando e interpretando as diferentes manifestações da subjetividade humana de modo a identificar problemas que possam estar fazendo obstáculo ao pleno desenvolvimento das capacidades e potencialidades humanas nos aspectos individuais/ pessoais e relacionais (trabalho, lazer, interação social...).
O psicólogo por si só não consegue resolver as problemáticas daqueles que se propõe a auxiliar. Ele atua de modo a ser um mediador entre o sujeito e seus problemas, oferecendo seu conhecimento como suporte para que o sujeito elabore suas questões e consiga vislumbrar sua implicação nelas e suas possibilidades de enfrentamento.
Assim sendo, quando o psicólogo está intervindo com pacientes suicidas em potencial, ele não pode e nem deve supor que possui total controle sobre o paciente e sobre o resultado do tratamento. Não há onipotência sobre o paciente, é preciso
estar advertido dos perigos de um forte narcisismo e de se supor em uma posição de missionário capaz de impedir toda e qualquer atitude indesejada de seu paciente, inclusive o seu suicídio.
Se a onipotência deve ser abolida, a impotência jamais deve ser admitida. O profissional psicólogo precisa ter a consciência de que muito se espera do seu trabalho por parte da instituição na qual trabalha,por parte dos colegas, dos familiares e do próprio paciente, visto que tem formação profissional específica para atuar com pacientes que planejam suicidarem-se.
Mesmo que em muitos casos seja um psicólogo o profissional da área da saúde que conduza diretamente o tratamento do paciente, é importante que ele não assuma sozinho os riscos envolvidos em um tratamento de um suicida em potencial. Precisa haver a participação no tratamento dos demais profissionais da área e que estes dêem o suporte necessário ao psicólogo responsável pelo tratamento, tanto em termos de troca de saberes quanto em termos de apoio quando o tratamento fracassa.
Devido à seriedade e importância de seu trabalho, o psicólogo precisa ser além de humano, ser principalmente técnico porque ele pode ser o profissional responsável pelo efetivo tratamento do paciente. É ele que está incumbido de coordenar o tratamento e de orientar paciente e familiares. Desse modo, o psicólogo precisa intervir de acordo com os princípios técnicos e teóricos da ciência psicológica, desenvolvendo práticas condizentes a estes. Assim sendo, dar conselhos e tapinhas nas costas são atitudes condizentes aos amigos e familiares.
O papel do psicólogo no tratamento não é o de protagonista, mas também não é de mero espectador. Ele tem papel fundamental no tratamento, pois embora não decida seu final pode auxiliar na tentativa de torná-lo o melhor possível. Quando o roteiro tem final trágico, cabe ao psicólogo tomar consciência de que mesmo ajudando, trabalhando muito, às vezes quem quer se matar, infelizmente e efetivamente se mata.
No entanto, a perda de um paciente não é sem efeitos para o profissional psicólogo. O psicólogo precisa compreender no seu paciente suicida não a sua ineficácia ou ineficiência, mas a sua impotência diante do sofrimento humano quando este está inscrito de forma muito cristalizada no sujeito, perpassando a
trajetória de sua vida. Corrêa e Barrero (2006, p. 182-183), referindo-se à ressonância do suicídio de um paciente escreve:
O suicídio de um paciente representa para seu terapeuta um acontecimento doloroso, espantoso, horrível, que ocasiona um impacto similar ao que sofre os familiares mais próximos. Durante muito tempo, e ainda em nossos dias, tem-se a noção equivocada de que quando isso ocorre o tratamento foi um fracasso, sendo o suicídio a maior evidência disso. Para outros, o suicídio poderia ser resultado de, efetivamente, um fracasso terapêutico, mas também de outras contingências como pobre resposta terapêutica ou resistência terapêutica, assim como complicações e dificuldades no seguimento desse paciente. (...) Persistem, pois, duas tendências: aquela que ainda continua considerando o suicídio de um paciente como um fracasso do terapeuta e aquela que inclui o suicídio entre as situações que podem ocorrer aos terapeutas que tratam de pessoas, principalmente aquelas com risco suicida. Independentemente dessas considerações, os profissionais a cargo desses pacientes, seus terapeutas, apresentam comumente culpa, tristeza, sentimentos de inadequação pessoal e raiva muito similares aos que apresentam os familiares.
O ―insucesso‖ de sua intervenção diz respeito ao insucesso do vínculo (familiar, social) e não somente terapêutico. Prevenir crises de culpa, inércia, apatia, desolamento... são fundamentais, bem como compreender a liberdade de escolha , o não domínio sobre o outro, pois ―só o outro sabe do seu desejo‖. O sofrimento humano pode estar para além do tratável, remediável... A constituição psíquica está dada, a subjetividade influencia no tratamento e nas respostas do paciente que pode não reagir conforme o esperado, programado.
Na dinâmica do vínculo que estabeleceu com o paciente, o psicólogo não pode acreditar solidamente que será este vínculo que manterá seu paciente vivo, respeitando possíveis acordos estabelecidos com o terapeuta de não cometer o suicídio. A culpabilização por uma possível fragilidade do vínculo estabelecido com o paciente deve ser desconsiderada, pois se um bom vínculo afetivo fosse garantia de manutenção da vida do paciente em nome desta forte relação afetiva, provavelmente nenhuma mãe se suicidaria se supormos seu forte vínculo com o filho, por exemplo.
Nos casos em que o paciente não respondeu de forma satisfatória ao tratamento e veio a cometer suicídio, é comum que este ato do paciente tenha repercussão nas intervenções futuras do psicólogo/ terapeuta. Segundo Corrêa e Barrero (2006) é possível que, em alguns casos, o psicólogo tenha receio de
enfrentar novos casos similares podendo inclusive evitá-los. Temores de que a família do suicida faça represálias, ajuíze processos judiciais ou denigra sua imagem pessoal ou difame sua competência como profissional podem se desenvolver, justificadamente ou não. O psicólogo também pode, por vezes, apresentar temor diante dos seus colegas devido a opinião (julgamento) culposa que estes possam emitir.
No ato suicida ocorre a interação de fatores que se articulam na história do sujeito desde a sua infância: biológicos, psicológicos e sociais/culturais. O profissional psicólogo pode conseguir avaliar esta interação de fatores, as causas conscientes desencadeantes do ato e até mesmo as motivações inconscientes do mesmo, pois sua teoria e sua prática possibilitam que ele consiga compreender e intervir junto ao sujeito que tentou o suicídio ou que apresenta ideação suicida.
Quanto ao suicida, sobre o qual o psicólogo endereçou suas intervenções no sentido de auxiliá-lo na elaboração de seu sofrimento, mas não obteve êxito, cabe ao psicólogo usar de sua teoria e de sua prática para promover a compreensão da dinâmica do suicídio, fazendo se ouvir o discurso do suicida (o que, de que o seu último ato fala) já que ele pode não ter conseguido, no tempo hábil, exteriorizar o indizível de seu sofrimento, que por ser imensurável faltaram palavras para dizê-lo.
O psicólogo é um profissional no efetivo exercício de suas funções quando está intervindo com seus pacientes:
Porém, não deixa de ser uma pessoa, um ser humano vulnerável, sensível, vaidoso, ambicioso, invejoso, que ama e odeia, que ainda que capacitado para sua prática terapêutica, também sente, segundo as circunstâncias, carinho, afeto, rejeição, tédio, frente ao que seu "paciente" fala, relata, apresenta, projeta nele/nela (transferência), e se irrita, fica entediado, sente empatia e segundo o material da temática tratada, se angustia e sofre. (SANTOS)
Assim sendo, sob a interferência da contratransferência estabelecida com o paciente no processo terapêutico, o psicólogo reage ao ato suicida do até então paciente. O psicólogo, no lugar de profissional que se ocupou daquele paciente, nãose dissocia do ser humano que ele é: ele sofre também no aspecto pessoal a perda do seu paciente, com o qual estabeleceu um vínculo que por hora se rompeu.
Levando em consideração a relação que o paciente e o psicólogo estabelecem na relação terapêutica é importante pontuar alguns aspectos, especialmente quanto aos comportamentos e afetos do paciente que estão envolvidos no seu tratamento. No comportamento do paciente, a ação (ações) que ele realiza corresponde aos seus atos motores que tem um objetivo definido. Já o ato está vinculado e destinado ao outro, pois é para este outro que a ação é destinada e se transforma em ato. O ato não corresponde à ação em si mesma, pois o ato precisa ser interpretado e compreendido como uma manifestação subjetiva com objetivos que muitas vezes não estão explícitos.
No ato, o psicólogo precisa estar atento à relação do mesmo com o vínculo transferencial que estabeleceu com seu paciente, pois na transferência que o paciente estabelece com seu terapeuta, ocorre a reedição de papéis de pessoas significativas da história de vida do paciente. O terapeuta é colocado no lugar de alguém muito importante e representativo na vida de seu paciente, passando a ser alvo e a receber os afetos (positivos, negativos ou ambivalentes) correspondentes à pessoa da qual ocupa o lugar, na relação terapêutica. Assim sendo, pelo fenômeno da transferência, o psicólogo pode estar no psiquismo de seu paciente, em uma posição equivalente àquela ocupada pelo seu pai, sua mãe, seu (sua) irmão (irmã)...em uma relação onde estes afetos influenciam no processo terapêutico de forma positiva ou negativa.
A transferência é um fenômeno que ocorre na relação paciente/terapeuta, onde o desejo do paciente irá se apresentar atualizado, com uma repetição dos modelos infantis, as figuras parentais e seus substitutos serão transpostas para o analista, e assim sentimentos, desejos, impressões dos primeiros vínculos afetivos serão vivenciados e sentidos na atualidade(MOURA, 2009, P.01)
Assim sendo, é fundamental que o psicólogo consiga identificar a instalação da transferência com seu paciente e interpretar o lugar que passa a ocupar psiquicamente para seu paciente, de modo a poder conduzir satisfatoriamente o tratamento sem tomar para a sua pessoa os afetos destinados pela transferência a outros. Se a transferência pode vir a fazer obstáculo ao tratamento pelos afetos que desencadeia, sua inexistência não permite que o mesmo se sustente. Portanto, a
estabelecimento de uma relação transferencial é fundamental para que o tratamento seja possível, mas o psicólogo precisa saber conduzi-la de modo adequado.
A complexidade do trabalho de psicólogos com pacientes potencialmente suicidas não deve desencorajar os profissionais a atuarem nestes casos. É justamente por esta elevada complexidade que os sujeitos em sofrimento psíquico severo precisam de auxilio de profissionais muito capacitados e comprometidos com o trabalho que se propõem a realizar. Para o paciente e demais pessoas envolvidas a seriedade da problemática exige que um psicólogo intervenha, pois ele é o profissional com melhores possibilidades de auxiliar na compreensão, na elaboração e no enfrentamento do sofrimento psíquico humano.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A eminência da finitude da vida sempre angustiou o ser humano que tem buscado, através da ciência e da tecnologia, enganar a morte ou pelo menos deixá- la cada vez mais distante de seu objetivo: findar a vida. Na contramão destas tentativas de prolongar a vida estão os sujeitos que, ao invés de buscarem o distanciamento da morte fugindo dela, colocam-se diante dela convocando-a através do suicídio.
Um olhar superficial sobre a dinâmica do suicídio pode nos dizer que este ato tem como finalidade a morte. No entanto, um estudo mais profundo irá revelar que a morte é apenas ―a ponta do iceberg‖, pois a problemática envolvida nos casos de suicídio é bem maior e mais complexa do que se possa pensar e supor a priori.
No ato suicida o sujeito encontra-se confrontado com um sofrimento psíquico que o toma ao nível do insuportável, do imensurável, do indizível... A morte não é o objetivo em si; o que o suicida busca é o findar de seu sofrimento, mesmo que para isto ele precise padecer junto com ele.
No cerne do suicídio, encontram-se os fatores internos e externos, ou seja, fatores constitucionais psíquicos e fatores sociais.
Os fatores constitucionais psíquicos têm relação com os primeiros vínculos relacionais afetivos estabelecidos no decorrer do processo de desenvolvimento psíquico do sujeito. É importante que ao nascer o sujeito seja acolhido, recebendo o devido cuidado e suporte para que seu ego se estruture adequadamente. O ego, quando bem estruturado, tem condições de tolerar as frustrações, suporta lidar com a impotência e com os limites impostos pela vida cotidiana, tem capacidade de elaborar as perdas e os momentos de crise sem precisar recorrer ao suicídio.
Neste sentido, os primeiros vínculos afetivos servem de referência para as demais trocas que o sujeito irá estabelecer ao longo de sua vida com os outros e com a sociedade/cultura. Por isto, a psicanálise entende que o fator determinante envolvido no suicídio é o modo como ocorreu o processo de constituição psíquica, pois é a partir dele que o sujeito construirá seu modo particular de se relacionar e de ser influenciado pelo outro e pela sociedade. Assim sendo, os diferentes modos de
constituição do psiquismo, que resultam em egos mais ou menos fortalecidos, poderiam explicar o fato de que sujeitos (distintamente constituídos) reagem de maneiras distintas a problemáticas similares.
Já para a sociologia os fatores externos têm maior relevância, ou seja, a sociedade/cultura que já antecede e envolve o sujeito tem o poder e a capacidade de influenciar e modelar seu comportamento e suas reações, podendo inclusive apresentar ao sujeito situações intensamente problemáticas e desencadeadoras de grande sofrimento fazendo o sujeito chegar ao nível de esgotamento de suas capacidades de enfrentamento e assim cometendo o suicídio.
A morte de um paciente por suicídio é um dos temores revelados por profissionais formados, em formação e por mim mesma. Neste sentido, o estudo da dinâmica do suicídio é importante para a formação acadêmica na medida em que se revela uma problemática recorrente no trabalho do profissional psicólogo.
O grande destaque dado à problemática do suicídio tem relação com o aumento de sua ocorrência e, sobretudo por se tratar de uma das causas de morte passíveis de serem evitadas caso haja informações, estratégias e práticas de prevenção eficientes.
As perspectivas nada animadoras quanto ao aumento do mal-estar presente em nossa sociedade, que tem gerado sofrimento e consequentemente levado muitos seres humanos ao suicídio, podem parecer catastróficas se ainda considerarmos que a humanidade evolui na direção de uma perda cada vez maior das referências simbólicas e da fragilização dos vínculos relacionais. Se este cenário se concretizará, só o tempo dirá. No entanto, não podemos ficar indiferentes deixando o tempo se incumbir desta problemática, o tempo não consegue acabar com o sofrimento e impedir que vidas sejam ceifadas por ele.
Cabe a nós, seres humanos que somos, lembrarmo-nos de nossa condição de finitude sem esquecermos de que somos seres que necessitamos uns dos outros para viver, que é de nossa essência nos relacionarmos uns com os outros e portanto, é de nosso interesse a construção e manutenção de uma sociedade que possa responder as nossas necessidades e não do contrário, sendo as nossas necessidades estabelecidas por ela.
Apesar dos inúmeros estudos aqui apresentados e da vasta literatura consultada não se pode dizer que se possa apreender todo o conhecimento acerca desta problemática que se revela muito complexa. Neste momento em que os estudos deveriam se encerrar, na verdade, são suscitadas novas e complexas questões que podem servir de inspiração para trabalhos futuros.
O trabalho da equipe de saúde e do psicólogo é pautado na preservação, manutenção e promoção da vida. As intervenções do psicólogo são realizadas de modo a auxiliar o sujeito com ideação suicida a elaborar as problemáticas e os afetos (sofrimento) envolvidos para que possa voltar a viver satisfatoriamente, no sentido de poder amar e trabalhar.
No entanto, a realização deste trabalho desencadeou questões quanto às intervenções do profissional psicólogo e quando estas realmente se aplicam. Pela ética pessoal e profissional e pelo trabalho para o qual se formou academicamente e se dispôs a exercer, o psicólogo sempre deve pautar seu trabalho na promoção da vida, mas também no que é o desejo do outro.
Neste sentido, quando o paciente tem consciência de seus problemas e de seu sofrimento, quando não há possibilidades reais de sanar sua angústia, quando o paciente pensa sua morte efetivamente como uma possibilidade de findar seu sofrimento e quando ninguém, nem mesmo o psicólogo, pode oferecer algo em troca de seu padecer... será que o psicólogo tem alguma influência ou poder sobre o que seria o desejo de seu paciente e se o seu desejo final fosse a morte, o suicídio? Até que ponto o compromisso ético do psicólogo pode se sobrepor ao desejo do paciente, ao seu direito de escolha, relutando contra o mesmo? E, se esse compromisso ético assumido pelo psicólogo é para com a vida, de que vida estamos falando, o que é viver?
São muitas as interrogações que esta temática suscita, e que nos instigam a novos estudos...
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