A multinacional Monsanto, que patenteou a soja transgênica, afirmou que a transgenia superaria o elevado uso de produtos químicos na agricultura, levando, paulatinamente, ao manejo sustentável dos recursos naturais. Não se trata de uma ação isolada da Monsanto: de forma surpreendente e paradoxal, muitas indústrias de produtos químicos questionam elevado uso de agrotóxicos, expressando preo- cupação com os seus efeitos sobre a natureza. Isso parece estar relacionado com a existência dos movimentos ecológicos e de consumidores, que nas últimas décadas, têm sensibilizado a população no que diz respeito aos efeitos dos agrotóxicos.
Já em 1979, Pat Mooney constatava em seu famoso livro O escândalo das se-
mentes, que a indústria química, desde os fins dos anos de 1960, foi muitas vezes
atacada em função de crescentes problemas de saúde e da falta de segurança na produção de alimentos. Diferente teria sido a situação do comércio de sementes. Mooney cita o relato O Estudo Global de Sementes, organizado por Teweles et al.: “contrastando com outras instituições produtoras de insumos para a agricultura, a indústria de sementes sempre tentava evitar os ataques de organizações ecológicas, de consumidores e de instituições de regulamentação” (Mooney, 1987: 63). Confor- me Mooney, o estudo sugere que as pesquisas em busca de melhores sementes acal- mariam os ecologistas, pois variedades resistentes a enfermidades proporcionariam a redução do uso de “defensivos agrícolas”, e haveria uma alternativa: “O estudo demonstra que a ‘peletização’ da semente possibilita usar sementes como meio de aplicação de produtos químicos e biológicos na agricultura” (Idem: 64).
É exatamente o que, já em 1986, aspirava a Ciba-Geigy, como a primeira em- presa a desenvolver uma espécie de “proteção química” para as sementes, a fim de proteger as plantas dos agrotóxicos utilizados em sua própria produção. A multina- cional constatara que os agrotóxicos podem prejudicar as culturas, razão pela qual alguns agricultores mantinham maior cuidado no manejo de produtos químicos
(Hobbelink, 1990). O objetivo da tentativa de desenvolver plantas resistentes a agro- tóxicos era, portanto, a redução dos efeitos de produtos químicos sobre as culturas. Isso expôs também o Dr. Kraus, Diretor do Centro de Biotecnologia da Bayer, em Colônia-Mannheim: “para um produtor de defensivos agrícolas como a Bayer, não se pode tratar de construir plantas com maior produtividade ou uma alternativa para que batata e tomate cresçam simultaneamente (...). As plantas devem ficar re- sistentes contra substâncias que lhes causariam danos. Isso seria um importante avanço na proteção da planta –um passo em direção ao uso mais inteligente da química (...). O problema: um herbicida apresenta um efeito nefasto não apenas na planta daninha, mas também na cultura. O herbicida seletivo, que possa distinguir entre uma planta daninha e não-daninha, entretanto, não pode ser criado pelos cientistas para servir em todos os casos” (citado por Bartsch, 1989: 95–96).
Conforme Bartsch et al., as multinacionais da indústria química desenvol- veram uma nova estratégia. O discurso da qualidade ecológica da transgenia se- ria agora o princípio estratégico das multinacionais da química para superar seus problemas de aceitabilidade: “Os efeitos ecológicos e toxicológicos dos agrotóxicos convencionais (intensivos) causam crescentes problemas de aceitação às multi- nacionais. (...) A indústria química tenta responder aos problemas de aceitação e concorrência com estratégias de inovação. A utilização da transgenia oferece tais abordagens. (...) Através da transgenia, variedades de alta produtividade deveriam ser tornadas resistentes contra pragas, a seca e a salinização dos solos” (Idem).
Pouco restou das perspectivas que as multinacionais prometiam para aumen- tar a aceitabilidade dos seus produtos (Idem: 102, 95). Além disso, as multinacio- nais priorizam o desenvolvimento de produtos de amplo espectro em conexão com a produção de sementes, para assim poderem garantir suas vendas:
O setor químico assegura seu acesso à produção de sementes. (...) Afinal, o mercado da semente teve vendas de mais de 30 bilhões de dólares. (...) Herbicidas de amplo espectro ajudam a ampliar o mercado. Defensivos seletivos representam, no máximo, a segunda melhor opção de vendas para as multinacionais. A médio prazo, as multinacionais vêem a chan- ce de se transformar, mais do que atualmente, em ganhadores duplos na agricultura: ganham com herbicidas e com as culturas resistentes à quí- mica. Assim, só nos EUA, mais de 100 pesquisadores trabalham, exclusi- vamente, de forma individual ou em grupos, na área do desenvolvimento de resistência transgênica a herbicidas (Ibidem: 97, 96).
Trata-se, portanto, da estabilidade e do crescimento contínuo do mercado de agrotóxicos. Uma vez possuindo as sementes, a multinacional quer também con- trolar os demais insumos demandados pelo agricultor. Bartsch et al. afirmam que os mercados dos agrotóxicos e de sementes se unificarão nos próximos anos, como resultado de uma dupla estratégia para estabilizar, em longo prazo, grandes vendas de agrotóxicos. Eles citam Hansgeorg Gareis, então membro da diretoria da Hoechst
AG, que enfatizou a estratégia da multinacional neste sentido: “Queremos oferecer
tudo o que o agricultor necessita. Achamos que a semente é um componente inte- grante do nosso perfil de ser fornecedor de serviços para o agricultor” (Idem: 97).
O argumento em relação ao meio ambiente está relacionado a uma suposta diminuição do volume de herbicidas através do cultivo de plantas resistentes a her- bicida. No entanto, somente a quantidade de uma substância química pouco signi- fica com relação ao seu efeito tóxico sobre o meio ambiente, pois volumes menores com efeitos toxicológicos e ecológicos elevados podem ser ainda mais perigosos do que o contrário. Mas, como anteriormente descrito, nem mesmo o argumento de volumes menores de herbicidas procede, pois, em longo prazo, aplicam-se mais herbicidas nas variedades de soja resistentes a herbicidas do que no plantio con- vencional. As razões para isso são as seguintes: 1) a facilidade no combate às ervas daninhas com glifosato, pois o uso de grandes quantidades, aparentemente, não afeta as culturas; 2) o combate das ervas daninhas em grandes proporções e com o mesmo produto cria resistência nas ervas daninhas, que, gradativamente, exigirão maiores quantidades do produto (Holt et al., 1993).
A pressão das multinacionais do setor químico para vender mais herbicidas e a expansão da monocultura podem agravar ainda mais a situação, por ser usado um único produto (glifosato) para o combate das ervas daninhas. Apesar de o gli- fosato ser classificado entre as substâncias que representam uma tendência baixa de desenvolvimento de resistências, nos EUA já foi comprovado há mais tempo que muitas ervas daninhas, tais como Ryegrass, Quackgrass, Birdsfoot e variedades de
Cirsium, já não morrem mais com esse princípio ativo, tornando, portanto, as ervas
daninhas mais resistentes (Alstad, 1995). Esse fenômeno também foi constatado com o herbicida atrazina quando, no início dos anos de 1980, uma série de ervas daninhas tornaram-se resistentes ao produto por meio de mutações:
Particularmente, nos herbicidas de ação total até agora usados, a constru- ção transgênica de culturas resistentes representa apenas um lado da mo- eda. Com a mesma facilidade, podem aparecer espontaneamente plantas
mutantes resistentes, principalmente quando a mutação de um único áci- do nucléico (mutação pontual) for suficiente. Assim, como exemplo, já no início dos anos de 1980, 37 ervas daninhas ficaram resistentes ao her- bicida atrazina. A resistência pode desenvolver-se, no entanto, também por meio de transferência sexuada e assexuada de genes com as culturas. Com isso, prossegue a corrida fatal por produtos mais efetivos (Bartsch, 1989: 99).
O perigo da transferência de genes de plantas transgênicas para outras varie- dades de plantas, que podem ser ervas daninhas resistentes a herbicidas, foi cons- tatado por Darmency (1994). Tais problemas podem surgir tanto entre plantas de parentesco muito próximo, quanto entre todas as plantas sexualmente compatíveis, como o sorgo e o sorgo selvagem (Sorghum bicolor), ou o nabo (Raphanus sativus) e a nabiçaa (Raphanus raphanistrum) (Radosevich et al., 1996). Esse fenômeno é, portanto, bem real e não deveria ser subestimado, pois estudos disponíveis com- provam que tais problemas já aconteceram. Como isso seguirá, ainda não está claro. Contudo, os perigos da invasão de genes exóticos são previsíveis:
Os genes implantados por meio da tecnologia transgênica podem ser transmitidos a outras plantas através de polens ou de animais (pulgões, por exemplo). (...) Ainda que não se deva esquecer as diferenças princi- pais entre o transporte de genes de variedade a variedade e o cruzamento entre blocos de genes, a chance para a introdução de uma série de ervas daninhas invasivas é bem real (Ammann, 1995: 179, 181).
A própria soja pode converter-se em erva daninha quando crescer entre ou- tras culturas, afetando o desenvolvimento delas. Se a soja tornar-se mais resistente a herbicidas, será mais difícil combatê-la, e a possibilidade do desenvolvimento de uma variedade incombatível de plantas daninhas remanescentes de um ciclo para o outro é cada vez mais provável. Sobre esse perigo alertava Roberto Kishinami, di- retor do Greenpeace no Brasil. Ele pressupõe que a soja RR poderá misturar-se com as demais variedades da soja, produzindo plantas modificadas. A soja, como planta autogâmica, de polinização fechada, estaria numa situação incomum, mas o perigo existiria, de modo que, neste caso, uma variedade da soja poderia ficar fora de con- trole (citado por Negromonte, 1997). Mas o contrário também pode acontecer, por meio de processos de retrocruzamento. Ammann demonstra, no exemplo da colza transgênica, que genes de uma planta podem perder-se gradativamente: “Os genes, uma vez inseridos, podem se perder em processos de retrocruzamento ou outros,
desaparecendo gradativamente. Não se pode garantir que eles continuarão existin- do para sempre na variedade obtida por cruzamento. (...) As primeiras indicações nos mostram que, no caso da colza transgênica, as variedades selvagens apresen- tam uma vantagem competitiva que evita uma propagação das plantas transgênicas” (Ammann, 1995: 181).
Precaução deveria ser a palavra-chave nessa perspectiva; porém, não é isso que parece estar acontecendo, pois a maioria dos experimentos até então realizados, foi efetuada com pouca cautela. “Portanto, é preciso ter cautela. Quem hoje ainda afirma não haver possibilidades concretas, sérias, de efeitos negativos, já está equi- vocado. Resistências a herbicidas são, em muitos casos, pouco sensatas, particular- mente lá onde se pode contar de antemão com problemas de resistência em paren- tes próximos: assim, por exemplo, no caso da aveia, cujo parente mais selvagem, a aveia selvagem, já representa uma planta daninha a ser levada a sério. Ainda que os pesquisadores tenham alertado, explicitamente, para os riscos, esses experimentos foram executados sem maiores precauções nos EUA” (Idem: 183, 184).
Em função do crescente uso de herbicidas no plantio da soja transgênica, constatou-se também efeitos do glifosato sobre a diversidade biológica do solo. Al- guns invertebrados, inclusive aranhas, besouros e as minhocas, responsáveis pela boa qualidade do solo, são eliminados pela aplicação de herbicidas. Também peixes e organismos aquáticos podem morrer devido ao glifosato, o que conduz a questio- namentos sobre resíduos deste produto nas águas (Pimentel et al., 1989). Portanto, o glifosato afeta todo o ecossistema, no qual a diversidade biológica provavelmente pode ser destruída. A eliminação de ervas daninhas com a aplicação de herbicidas de amplo espectro pode gerar efeitos ecológicos indesejáveis, pois, segundo estudos de Altieri (1994), a diversidade das chamadas ervas daninhas tem um importante papel tanto para a proteção das plantas quanto como camada protetora contra a erosão do solo.
O cultivo da soja transgênica tem ainda, como consequência, a intensificação da monocultura, pois haverá crescentes problemas não apenas com plantas dani- nhas, mas também com pragas e doenças, o que novamente causará um círculo vicioso do uso da química (Radosevich et al., 1996). Conforme Robinson (1996), a história da agricultura registra que a uniformidade vegetal é muito suscetível a novas pragas e, ainda, que o uso continuado do solo por uma única planta provoca, em longo prazo, perdas da diversidade genética. Esses mesmos perigos são previs- tos por Gnekow-Metz em relação ao cultivo da soja, alertando para o cenário da uniformidade genética da soja, ou seja, por causa da preferência da soja transgênica:
O cultivo transgênico leva a uma nova concentração em poucas varieda- des de culturas. Esse processo, denominado de “erosão genética” é ainda mais agravado porque no cultivo se usa, preferencialmente, as variedades predominantes. Outro fator de fomento à uniformidade genética é que as poucas plantas transgênicas de sucesso ficam sujeitas a uma rápida mul- tiplicação via clonagem. A uniformidade genética deixa as plantas mais suscetíveis a enfermidades e a pragas e menos apropriadas para o cultivo em condições variadas de clima e solo (Gnekow-Metz, 1999: 59).
Guerra e Nodari (2003) citam um estudo de Wolfenbarger e Phifer, de 2000, o qual comprova que, em dois terços dos experimentos até agora realizados com plantas transgênicas, foram constatados danos a componentes do ecossistema. Im- pressionantes são os resultados na colza RR, em que se observou uma alteração na estrutura do sistema radicular e na diversidade das bactérias do solo. Na Escó- cia, houve problemas com a colza RR porque os polens das plantas transgênicas contaminaram todas as plantações num raio de 2,5 Km (Scottish Crop Research Institute, 1996). Esse problema também apareceu no Canadá, onde as plantações de colza do produtor Percy Schmeiser foram contaminados pela colza dos vizinhos. Esse caso tornou-se mundialmente notório, por ter sido o produtor condenado por um Tribunal em função do plantio involuntário da colza RR, sendo forçado a pa- gar royalties à Monsanto. Esse agricultor relatou, em Porto Alegre, por ocasião do
Fórum Social Mundial, em 2003, que os agricultores canadenses, após três anos de
plantio de colza transgênica, aplicam atualmente três a quatro vezes mais agrotóxi- cos (Deak, 2003).
Referente ao algodão RR, Guerra e Nodari (2003) citam um estudo de Colyer et al. (2000), no qual se registrou a maior suscetibilidade a nematóides (Meloidogy-
ne incognita) nas raízes, comparado com as variedades convencionais de algodão. A
colheita de algodão RR no Mississipi foi comprometida pela deformação das cáp- sulas de algodão (Lappe; Bayley, 1997; Myerson, 1997). O problema da crescente suscetibilidade a nematóides foi constatado também na soja RR. No mesmo sentido, apontam os resultados de um estudo de Kremer et al. (2000) sobre a soja RR, em que, uma semana após a aplicação de glifosato, foi verificada uma doença nas raízes causada pelo fungo Fusarium spp. (provocando o apodrecimento das raízes e cau- les), o que não ocorreu em variedades de soja convencional. Como explicação para tais fenômenos, Benbrook constata a produção reduzida de aminoácidos essen- ciais na soja RR, que contribuiria para um enfraquecimento temporário do sistema
imunológico, ficando assim mais suscetível ao ataque de parasitas (citado por John, 2003). Resultados similares encontram-se também em Sanogo (2000).
Também foi constatada uma alteração na fixação de nitrogênio nas raízes da soja transgênica. Um estudo da EMBRAPA já demonstrava, há mais tempo, que o uso de 1,1 Kg a 5,6 Kg de Roundup por hectare reduz a ação da bactéria Rhizobium
spp., responsável pela fixação de nitrogênio do ar (EMBRAPA, 1986). Esse problema
foi constatado, particularmente, durante estiagens e em solos fracos, o que pode indicar que a soja RR seja menos resistente a situações de estresse do que a soja convencional (King, 2001). O impedimento da fixação de nitrogênio nas raízes da soja deve conduzir a maiores custos na aplicação de nitrogênio na produção de soja, o que, certamente, também terá efeitos sobre o ecossistema, pois as consequências dos nitratos pelo uso de nitrogênio químico já são conhecidas há mais tempo.
Para Nodari e Guerra (2000), o maior perigo representa a contaminação ge- nética que ameaça a diversidade biológica, devido à destruição de plantas e da ca- deia alimentar no ecossistema, ao desenvolvimento de novas pragas e enfermidades, bem como pelo surgimento de plantas daninhas resistentes. O mais alarmante é que a introdução da transgenia causa problemas que podem se tornar incontroláveis. “O problema reside no fato da transgenia dispor de um início tangível, mas não de
um fim claro” (Rifkin, 1998: 259). No plantio convencional, que também já causa grandes danos à natureza, é possível suspender, por um período, o uso de produtos químicos, a fim de possibilitar, por exemplo, um equilíbrio entre as pragas e seus inimigos naturais. Na transgenia, isso é diferente: uma vez que uma planta transgê- nica passa a ser liberada na natureza, os efeitos sobre o ecossistema são inevitáveis, pois os processos espontâneos dos transgênicos não podem ser controlados.