É inegável que no mundo moderno a mineração assume contornos de importância decisiva para o desenvolvimento, pois se observa que o minério extraído da natureza está em muitos produtos utilizados. Entretanto, esta dependência gera um ônus para a sociedade, com o surgimento de áreas degradadas que ao final da exploração, na maioria das vezes, não podem mais ser ocupadas racionalmente (Kopezinski, 2000).
O custo dessa degradação ambiental nada mais é do que uma externalidade sócio-ambiental da atividade, ou seja, efeito negativo resultante da produção mineral que não foi arcado pelas entidades geradoras, mas que foi imposto a terceiros.
A não incorporação das externalidades negativas ao processo de produção e desenvolvimento mineral gera passivos ambientais, que, no futuro, podem ser imputados aos empreendedores por possuírem legalmente o dever de recuperar o meio ambiente degradado.
O conceito de passivo ambiental ainda é controverso, não havendo consenso quanto à definição do termo. Segundo Milaré (2001), é um valor monetário decorrente de inobservância a requisitos legais, custos de adequações operacionais e de recuperação ambiental. Já Trigueiro (2003) define passivo como o “conjunto de obrigações,
contraídas de forma voluntária ou involuntária, que exigem a adoção de ações de controle, preservação e recuperação ambiental”. Entretanto, para a realização do
presente trabalho foi adotado o conceito de passivo ambiental costumeiramente utilizado no âmbito de sistema de gestão ambiental, o qual define como “um dano ambiental
Nesse contexto, um dano ou passivo ambiental pode ser evitado pela aplicação de alguns princípios do direito ambiental, como os princípios da precaução e da prevenção, descritos por Machado (2003), em relação aos impactos ambientais negativos, durante a fase de planejamento do empreendimento.
O CONAMA define impacto ambiental, na sua Resolução 01/86, como “...qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas do meio
ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas, que, direta ou indiretamente, afetam:
I – a saúde, a segurança e o bem estar da população; II – as atividades sociais e econômicas;
III – a biota;
IV – as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V – a qualidade dos recursos ambientais”.
A extração de minerais, como qualquer outra atividade humana, interfere no meio ambiente, inclusive alterando outros recursos naturais, o que justifica a necessidade de uma avaliação prévia da compatibilidade do seu desenvolvimento com a preservação ambiental.
Os danos ambientais da atividade de mineração, quando comparados aos danos de demais agentes degradadores, como as atividades agrosilvopastoris, podem ser considerados locais e de grande intensidade (Kobiyama et al., 2001), e na sua maioria das vezes quando previstos e avaliados, podem ser reversíveis.
A proximidade entre as áreas de extração de areia e os centros urbanos tem trazido uma série de conflitos de uso do solo e da água (Almeida, 2002). Essa proximidade pode ser explicada pelo fato da areia ser um bem mineral de uso in natura pela construção civil e do preço dos produtos minerais ser bastante influenciado pela distância entre a mina e o local de consumo (Bitar, 1997). Essa relação de proximidade tem como conseqüências a desvalorização imobiliária das propriedades vizinhas às minerações e os transtornos que o transporte de produção mineral promove no tráfego urbano. O estabelecimento de relações entre a atividade mineral e outras formas de uso do solo tem ocorrido de maneira conflituosa e a ausência de soluções negociadas,
mediadas e institucionalizadas, tem levado ao fechamento das minerações ou à manutenção de riscos às populações das áreas circunvizinhas (Bitar et al., 1990).
As minerações de areia têm sido grandes causadoras de impactos ambientais negativos para o meio físico, como o assoreamento e a mudança do percurso dos rios, mudanças dos sistemas de drenagens, erosão, movimentos de massa (Kopezinski, 2000), alteração da superfície topográfica e da paisagem e, com o transporte dos materiais extraídos, problemas como o excesso de poeira e de vibrações e a compactação do solo (Bitar et al., 1990). Outros impactos ao meio físico de menor intensidade são os resíduos sólidos resultantes do processo de peneiramento e os ruídos provocados principalmente pelos equipamentos de extração, carregamento e transporte (Godoy, 2002).
Os principais impactos dessa atividade no meio biológico são a supressão da vegetação, a perda e destruição de solos superficiais férteis (Bitar et al., 1990) e conseqüente perda de hábitat e de biodiversidade.
O desmatamento de áreas para a implantação do porto e de outras instalações como bacias de decantação, pátios de manobra e vias de circulação, resulta não só na perda direta de espécies da flora, como também na perda indireta de espécies da fauna e flora afetadas pela perda de condições e recursos outrora disponíveis no hábitat, além da inestimável perda de diversidade genética.
Além disso, a atividade é potencialmente causadora de poluição atmosférica por queima de combustível, de contaminação de água e solo por óleos e graxas utilizados nos motores dos equipamentos e de alterações na qualidade da água.
O tipo de lavra utilizado na exploração mineral é um dos principais determinantes do nível de impacto acarretado ao ecossistema (Silva, 1997). Existem dois métodos principais de extração de areia, a dragagem em leito de rio e a cava a céu aberto.
A lavra a céu aberto permite um maior aproveitamento do corpo mineral, mas produz uma maior quantidade de estéril, de poeira, de vibrações, de poluições da água, no caso de não serem adotadas técnicas de controle de poluição (Silva, 1997).
Embora a extração de areia pelo método de cava tenha pouca interferência direta no meio hídrico, é considerada pela legislação uma atividade predatória, já que instala-se
nas margens do rio com freqüente retirada da vegetação ciliar nativa. O desmatamento em grandes dimensões, somado ao desmonte de encostas por jateamento hidráulico ou escavadeiras e a deposição de grandes quantidades de material estéril (bota-fora) tem como conseqüência o aumento do potencial de erosão da área (Bacci, 1994).
A extração em leito de rio consiste na dragagem de material das camadas de sedimentos arenosos no fundo dos rios através de um sistema de bombeamento (draga). Bombas de sucção, instaladas sobre flutuadores, são acopladas às tubulações que efetuam o transporte da areia na forma de polpa (mistura de material arenoso e água) até as peneiras de separação do minério dos outros materiais. No processo de lavagem e peneiramento das areias são liberadas, como rejeito, as frações finas (argilosa) que costumam ser dispostas em tanques de decantação, nos quais sofrem um processo de clarificação natural e retornam ao corpo d’água.
A exploração de areia em leito de rio afeta principalmente as margens desse corpo d’água. Com a retirada da mata ciliar para implantação dos portos de areia, os taludes muitas vezes se desestabilizam e geram um maior aporte de sedimentos, aumentando assim as chances de erosão ao redor do estabelecimento (Bacci, 1994). Essa atividade pode provocar ainda o desbarrancamento das margens, alargamento e aprofundamento da calha do rio, e, em caso de cursos fluviais de pequeno porte, é relativamente comum o desvio do curso mediante diques de contenção (Martos, 1992).
De modo geral, as alterações na calha do rio são resultado da má operação das dragas. Os operadores das máquinas não possuem a formação necessária para o conhecimento das conseqüências do aprofundamento das dragas nas margens e no fundo do corpo d’água.
Se existirem focos de erosão ou má drenagem também haverá aumento na carga de sedimentos nos cursos de água, causando o seu assoreamento e favorecendo a ocorrência de inundações. Isto pode acontecer quando rejeitos são depositados em pilhas de bota-fora e ficam expostos principalmente ao efeito da chuva (Almeida, 2002).
Outro possível impacto causado pela extração em leito de rio é a contaminação das águas superficiais e subterrâneas pelos efluentes líquidos e pelos produtos químicos
utilizados no processo de lavagem do material (Oliveira, 2000), além da possibilidade de vazamento de óleo das dragas.
Segundo Espíndola et al. (2003), a extração de areia em leito de rio não é considerada poluidora, mas sim degradadora do meio ambiente. Apesar de não ser geradora direta de metais além das concentrações naturais presentes no solo local, essa atividade pode contribuir indiretamente para a introdução de metais nas águas intersticiais e no hipolíminio da coluna d’água, uma vez que, promovendo a ressuspensão de sedimentos, ocorre a reoxidação dos mesmos, podendo ocasionar a mobilização de metais para a fase aquosa, ou seja, ocorre redisponibilização dessas substâncias em níveis potencialmente tóxicos (Christensen, 1998 citado por Espíndola et al., 2003).
Silvério (1999), trabalhando com microcosmos de sedimentos submetidos à aeração natural dos ventos, bioturbação e condições artificiais de dragagem e aeração, observou que a aeração artificial dos sedimentos promove aumento na mobilização de metais potencialmente biodisponíveis e conseqüente aumento nas respostas de toxicidade.
Outra conseqüência da aeração e oxidação dos sedimentos durante as operações de dragagem é a possibilidade de redução do pH em níveis letais para a vida aquática, diretamente, ou pela liberação de metais (Christensen, 1998, citado por Espíndola et al., 2003).
O principal e mais visível efeito impactante da dragagem sobre a água é o aumento da turbidez decorrente do aumento dos sólidos totais suspensos. A turbidez, quando é alta, afeta a qualidade da água, reduzindo a transparência e diminuindo a capacidade das plantas aquáticas de realizar a fotossíntese, além de provocar a obstrução das guelras dos peixes, danificar os ovos e afetar a população de macroinvertebrados (Brigante et al., 2003b)
Brigante et al. (2003a) afirmam que a atividade de extração de areia em leito de rio causa desequilíbrios nos sistemas aquáticos. Em um trecho do Rio Mogi-Guaçu, considerado crítico pela intensidade da atividade de mineração, as análises químicas e toxicológicas da água e do sedimento revelaram condições de distúrbios e contaminação
desses compartimentos por metais e efeitos tóxicos agudos provocados especialmente pelo sedimento.