PARTE IV. MEGAPROJETOS
1.1 Impactos ambientais das autoestradas: o caso da A2
Resumo
Contestação, por parte das associações ambientalistas, da decisão do governo português de construir parte do traçado da autoestrada A2 na Zona de Proteção Especial de Castro Verde. O Tribunal de Justiça Europeu condenou, em 2012, o Estado português.
ou o sisão na ZPE de Castro Verde. Enfatizaram ainda que estas espécies possuíam um nível elevado de suscetibilidade à fragmentação dos habitats. Acresce que haviam sido estudados traçados alternativos que não afetariam a ZPE ou o fariam de forma marginal (LUSA, 2006c). O assessor de imprensa da Brisa refutou as críticas dos ambientalistas e explicou que a questão da ZPE seria resolvida pelas medidas de minimização. Apesar das conclusões negativas da AIA e de existirem soluções alternativas para o traçado do sublanço da autoestrada A2, Portugal optou pelo traçado com mais impactes negativos na ZPE e Sítio de Importância Comunitária (ARAGÃO, 2014).
A A2 abriu, deste modo, à circulação em julho de 2001, já estando em curso um processo de infração aberto pela Comissão Europeia após queixa das associações ambientalistas. O Ministério do Ambiente reiterou que a solução adotada teve em conta razões imperativas, de reconhecido interesse público para os acessos a toda a região do Algarve e à região do Alentejo, e que o projeto foi desenvolvido numa área de menor sensibilidade da ZPE de Castro Verde (FULGÊNCIO, 2001).
Em 2004, a Comissão Europeia instaurou no Tribunal de Justiça Europeu uma ação de incumprimento contra o Estado português. Segundo as normas europeias, os Estados que pretendam desenvolver projetos em áreas prioritárias para a conservação da natureza a nível europeu deverão realizar estudos identificando os impactes ambientais prováveis de serem causados pelos projetos em causa, assim como as medidas de extinção ou minimização destes riscos. Devem procurar formas alternativas à execução do projeto que apenas pode ser realizado caso não existam alternativas viáveis, e se estiverem em causa razões imperativas com reconhecido interesse público (ARAGÃO, 2014). No ano de 2005, um estudo analisou a influência da proximidade da A2 na distribuição e na abundância do sisão na área da ZPE de Castro Verde. Discutiu- se a possibilidade do sisão ser vulnerável ao ruído proveniente da circulação do tráfego rodoviário, definindo-se possíveis medidas de minimização do seu impacte (GARCIA, 2005).
Em outubro de 2006, o Tribunal de Justiça da Comunidade Europeia-TJCE condenou Portugal por violação das diretivas “Aves” e “Habitats” (Diretivas 79/409/CEE e 92/43/CEE). Na tomada desta decisão, o TJCE considerou que o Estado português, ao executar as obras da A2 de modo a atravessar a ZPE de Castro Verde mesmo perante um EIA negativo, incumpriu obrigações referentes autoestrada do Sul-A2 em relação ao sublanço Aljustrel/Castro Verde que
atravessa a Zona de Proteção Especial-ZPE de Castro Verde (LUSA, 2006a). A A2, que liga Lisboa a Albufeira, atravessa os distritos de Setúbal, Évora, Beja e Faro, e é a segunda maior autoestrada portuguesa em extensão. Com um comprimento de 240,2 km, a conclusão desta autoestrada ocorreu no ano de 2002. O projeto de construção foi adjudicado em 1997 à sociedade Brisa, empresa de infraestruturas que opera desde 1972 em Portugal.
Um parecer do então Instituto de Conservação da Natureza-ICN, em 2002, relativamente a anteriores traçados provisórios, concluíra quanto à ZPE de Castro Verde que não se afigurava “tecnicamente satisfatório, nem sequer viável, pretender garantir a conservação daquela avifauna apenas mediante uma eventual aplicação de medidas minimizadoras” (SEBASTIÃO e REVEZ, 2000). Realizou-se, entretanto, uma Avaliação de Impacte Ambiental-AIA e a comissão de avaliação dos impactes ambientais condicionou a aprovação do traçado Aljustrel/Castro Verde a uma nova localização. A principal razão prendia-se com o fato da área prevista se encontrar dentro da ZPE de Castro Verde numa zona de aproximadamente 10 km. O alargamento da ZPE, a sul de Castro Verde, deveria ser precedido do estudo da ocorrência de espécies prioritárias.
A 19 de janeiro de 2000, com as obras atrasadas e sob a pressão dos autarcas da Associação de Municípios do Algarve-AMAL, o secretário do Estado de Ambiente emitiu um despacho com um parecer favorável à construção do sublanço Aljustrel/Castro Verde, condicionando-o ao estrito cumprimento das medidas de minimização e de compensação mencionadas no parecer da Comissão da AIA. Em fevereiro de 2000, realizou-se consulta pública dos EIA referentes aos dois últimos troços da A2. Para as associações ambientalistas envolvidas, as medidas de compensação propostas para este trecho não ofereciam garantias suficientes (SEBASTIÃO, 2000).
Perante a previsão desta construção e a divulgação da aprovação do seu traçado, o Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente-GEOTA, a Associação Nacional de Conservação da Natureza-Quercus e a Liga para a Proteção da Natureza-LPN requereram à União Europeia-UE a suspensão da decisão favorável.
O principal argumento alegava a existência de populações importantes de espécies protegidas de aves selvagens, como o peneireiro-das-torres, a abertarda
LUSA. Tribunal da UE condena estado português pelo traçado da A2. Diário Digital, 26 out. de 2006a.
LUSA. ICN projeta alargamento da ZPE de Castro Verde. Semanário Regional do Algarve Barlavento on line, 21 out. 2006b.
LUSA. Ambientalistas saúdam condenação do Estado pelo traçado da A2. Jornal Público, 26 out. 2006c.
MADALENO, Marta; MELO, João Joanaz. Can EIA improve energy performance of Transportation? 32nd Annual Conference of the International Association for Impact Assessment Energy Future -The Role of Impact Assessment Porto, Portugal, 27 mai.-1 jun. 2012.
SAPO. Ambiente: Governo alarga duas Zonas de Proteção Especial no Alentejo. Notícias Sapo, 8 fev. 2008.
SEBASTIÃO, Luis Filipe; REVEZ. A2 na mira dos ambientalistas. Jornal Público,13 jan. 2000.
SEBASTIÃO, Luís Filipe. Ambientalistas preparam queixa à Europa. Jornal Público, 11 fev. 2000.
à preservação dos habitats naturais, da fauna e da flora selvagens. O tribunal considerou provado que não só o traçado da A2 implicava impactes ambientais significativos, como não teriam sido estudadas todas as alternativas possíveis. Ficou determinado também que para compensar a construção da via rodoviária, Portugal deveria ampliar a ZPE de Castro Verde (GARCIA, 2006). O Projeto de Alargamento da ZPE de Castro Verde foi desenvolvido pelo ICN (LUSA, 2006b).
Apesar de estarem satisfeitos pela condenação referente ao incumprimento de diretivas ambientais, um representante da Quercus do núcleo de Beja e Évora e uma representante da LPN destacaram a demora da decisão, proferida seis anos após ter sido feita a queixa ao Tribunal Europeu. Na ocasião, os ambientalistas contextualizaram a problemática referente à A2 na frequente prática que envolve projetos geradores de impactes ambientais, em que as medidas de minimização não são levadas a cabo, acrescentando que bastaria um desvio de cinco quilómetros para que a autoestrada ficasse fora da ZPE (LUSA, 2006c). No início de 2008, a Comissão Europeia anunciou uma “advertência final” para que Portugal tomasse medidas de modo a alterar os impactes negativos gerados sobre duas ZPE na região do Alentejo: a de Mourão/Moura/Barrancos e a de Castro Verde. O executivo comunitário preparava-se para pedir a aplicação de uma sanção pecuniária ao governo português se este não desse cumprimento, no prazo de dois meses, às sentenças proferidas no ano de 2006 quanto às ZPE. Em fevereiro, foi aprovado em Conselho de Ministros o diploma que alargava estas zonas. O alargamento da ZPE de Castro Verde comportou 6.420 novos hectares, distribuídos pelas zonas de Almeirim (2.034 ha) e de Lombador/Figueirinha (4.386 ha) (SAPO, 2008).
Referências bibliográficas
ARAGÃO, Alexandra. Ultrapassar o défice ecológico em tempo de crise (económica). Breves reflexões sobre o dever de restauração de habitats. In: Peralta, Carlos E.; Alvarenga, Luciano; Augustin, Sérgio (orgs.). Direito e Justiça Ambiental: diálogos interdisciplinares sobre a crise ecológica. Brasil. Educs, 2014.
FULGÊNCIO, Cláudia. A2 Leva Portugal a Tribunal. Portal Naturlink, 2001.
GARCIA, Graça Maria Dias. Impacte da Autoestrada A2 na Zona de Proteção Especial de Castro Verde: Efeitos na Distribuição e Densidade de Sisão. Resumo. Dissertação de mestrado em Gestão de Recursos Naturais. Instituto Superior de Agronomia, Universidade Técnica de Lisboa, 2005.
GARCIA, Ricardo. Tribunal europeu condena Portugal pelo traçado da Autoestrada do Algarve. Jornal Público, 27 out. de 2006.
A primeira travessia construída sobre o rio Tejo, em Lisboa, foi a Ponte 25 de Abril, inaugurada em 1966, com o nome de Ponte Salazar. A nova estrutura veio assim unir as duas margens do Tejo que nos anos que se seguiram apresentou um volume de tráfego crescente, razão que levou, em 1990, à construção de uma quinta via na ponte, já que o tráfego atingia 37,5 milhões de veículos/ano, ultrapassando largamente a sua capacidade.
Iniciou-se o estudo para uma nova travessia, tendo-se então constituído o Gabinete da Travessia do Tejo em Lisboa-GATTEL. Este apresentou três hipóteses de construção, mas o ministro das Obras Públicas de então optou pela solução mais polémica, o que suscitou um conflito que mobilizou a intervenção de elites científicas, nacionais e internacionais, assim como a queixa de associações ambientalistas a Bruxelas (SCHMIDT, 2008).
Basicamente, o conflito desenvolveu-se em torno da escolha da localização da nova ponte, hoje designada por Ponte Vasco da Gama – a maior obra pública realizada em Portugal, e que, pelo fato de ir desembocar a uma área protegida, necessariamente, geraria fortes impactos ambientais, incluindo nas salinas do Samouco e sua avifauna, numa área situada fora da Reserva Natural do Estuário do Tejo, mas incluída na Zona de Proteção Especial-ZPE do Estuário do Tejo (GARCIA e SUBTIL, 1998).
Um resumo da descrição cronológica dos eventos que envolveram a construção da Ponte Vasco da Gama, entre 1991 e 1998, permite compreender os contornos deste conflito sobre um dos projetos mais polémicos já construídos em Portugal (MELO, 2000; SCHMIDT, 1999).