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Impactos Ambientais das Guerras

No documento 05-LivroEstadoMundo2005 (páginas 181-184)

Conflitos militares sempre causam sofrimento humano. Trazem também ameaças de mais longo prazo à segurança, como degradação ambiental e novos riscos à saúde humana. Já há sete anos o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) vem trabalhando em áreas do mundo onde o meio ambiente natural e humano foi comprometido, como conseqüência de conflitos. Em 1999, enquanto as instalações industriais alvejadas de Kosovo, Sérvia e Montenegro ainda ardiam, as equipes do PNUMA realizaram a primeira “avaliação ambiental pós-

conflito”.1

O trabalho nos Bálcãs concluiu que havia vários hotspots ambientais onde uma ação imediata de limpeza se fazia necessária, para evitar ameaças adicionais à saúde humana, tais como as refinarias de petróleo em Pancevo e Novi Sad atingidas, e as

instalações industriais em Kragujevac e Bor. O rio Danúbio estava ameaçado, devido ao vazamento de Pancebo de mais de 60 produtos químicos diferentes, incluindo mercúrio. Estas descobertas levaram, pela primeira vez, a comunidade internacional a incluir a limpeza do meio ambiente na sua ajuda humanitária pós-conflito. 2

Depois dos Bálcãs, este novo instrumento ambiental foi usado na Libéria, em

territórios palestinos ocupados, no

Afeganistão e mais recente no Iraque. Cada

situação é única, devido à natureza particular do conflito, a sociedade e a ecologia.

No Afeganistão, duas décadas de conflito armado degradaram o meio ambiente a tal ponto que isso agora representa uma barreira aos esforços de reconstrução do país. A guerra paralisou a gestão ambiental e as estratégias de conservação anteriores, causou um colapso da governabilidade local e nacional, destruiu infra-estruturas,

prejudicou a atividade agrícola e levou as pessoas para as cidades já carentes das mais básicas amenidades públicas. 3

Mais de 80% dos afegãos vivem em áreas rurais, onde viram muito de seus recursos básicos – água para irrigação, árvores para alimento e energia – desaparecerem em apenas uma geração. Nas áreas urbanas, a água potável – a maior das necessidades básicas para o bem-estar humano – pode estar disponível para apenas 12% da população. Lixões mal-administrados contaminaram a água subterrânea e

disseminaram a poluição aérea, e a atividade madeireira ilegal causou perda generalizada da cobertura florestal.4

No Iraque, um quadro similar pode ser desenhado. Lá, a avaliação do PNUMA concluiu que o conflito de 2003 e a pilhagem pós-guerra concorreram para o estresse ambiental crônico, já presente desde a guerra Irã-Iraque, de 1980, a guerra do Golfo, em 1991, a má administração

ambiental do regime iraquiano anterior e os efeitos involuntários das sanções. 5

A maior ameaça para o povo do Iraque é o acúmulo da destruição física da infra-estrutura ambiental do país. Particularmente, a destruição e a falta de investimento dos

sistemas hídricos e sanitários aumentaram os níveis de risco de poluição e da saúde. Quando os cortes de energia pararam as usinas geradoras, tanto o suprimento de água potável quanto o tratamento de água servida foram ameaçados. 6

A destruição da infra-estrutura militar e industrial, durante os vários conflitos no Iraque, liberou metais pesados e outras substâncias perigosas no ar, solo e água. A fumaça dos incêndios dos poços de petróleo, a queima das valas de petróleo durante a guerra, a pilhagem e a sabotagem causaram poluição e contaminação do ar e solo locais. A falta de investimento na indústria de petróleo reduziu a manutenção, aumentando o risco de vazamentos. 7

Um dos principais projetos do regime de Saddam Hussein – drenagem dos Pântanos da Mesopotâmia e a construção de canais artificiais – arruinaram algumas das mais ricas áreas de biodiversidade do Iraque. A poluição hídrica está afetando não somente

os rios Eufrates e Tigre, mas também a região do Golfo Pérsico no todo. 8

No Iraque, como em muitas situações pós- conflito, as questões ambientais estão intimamente ligadas às necessidades humanitárias e de reconstrução. As prioridades incluem a recuperação do fornecimento de água e sistemas sanitários, limpeza de hotspots poluídos e limpeza de lixões, para reduzir o risco de doenças causadas pelo lixo

municipal e hospitalar. Durante a Guerra do Golfo, em 1991, e a Guerra do Iraque, em 2003, armas de urânio enfraquecido foram utilizadas em vários locais do Iraque. Para proteção da população local, os locais com estes resíduos de guerra precisam ser avaliados e limpos. 9

Em todas as áreas de conflito existem problemas ambientais de longo prazo e problemas diretamente relacionados com a ação militar. Além disso, as avaliações ambientais pós-conflito do PNUMA demonstram claramente que as crises militares são quase sempre acompanhadas por crise ambiental.

Conseqüentemente, uma lição-chave é a necessidade de minimizar os riscos para a saúde humana ambiental durante o conflito, através de prontidão e proteção civil. Imediatamente após o fim do conflito, deve

acontecer uma avaliação e uma limpeza adequadas. Apoio e fortalecimento da capacidade administrativa ambiental existente ou recém-estabelecida é crucial para a sustentabilidade de longo prazo. Na análise de como restaurar o meio ambiente, após o silenciar dos canhões, toda a história ambiental da região deve ser levada em consideração.

Mais ainda, após o término do conflito, esforços devem ser feitos para reengajar o país na cooperação ambientação regional e internacional – especialmente quando estão em pauta recursos compartilhados, como a água. Na primavera de 2004, pela primeira vez em 29 anos, autoridades ambientais e hídricas discutiram conjuntamente o compartilhamento dos pântanos da Mesopotâmia. Velhos inimigos negociando mais uma vez assuntos ambientais.

Juntamente com a melhoria do estado destes recursos, a gestão de recursos partilhados pode servir como uma maneira

válida de desenvolver confiança entre países anteriormente hostis. 10

Um modo importante de se minimizar os riscos ao meio ambiente e à saúde é através de regulamentos de guerra que limitem alvos possíveis e armas. Um bom exemplo dos instrumentos legais que podem ser usados é a convenção ENMOD [Técnicas de Modificação Ambiental], que evita o uso de mudanças artificiais no meio ambiente – como enchentes causadas pelo homem – como uma arma de guerra. Uma vez que os impactos negativos dos

diferentes tipos de armas são conhecidos, e desde que exista bastante evidência dos riscos para a população, uma nova legislação se faz necessária. 11

O adicionamento dos custos ambientais à longa lista de conseqüências negativas do conflito – perda humana, refugiados, perdas econômicas – deve fazer as soluções não- violentas ainda mais atraentes.

- Pekka Haavisto, UNEP Post-Conflict Asssessment Unit

Estabelecendo os Fundamentos

No documento 05-LivroEstadoMundo2005 (páginas 181-184)