2 GRAVIDEZ E MATERNIDADE ADOLESCENTE
2.3 IMPACTOS BIOLÓGICOS, MENTAIS E SOCIAIS SOBRE A
A gravidez na adolescência é associada a uma série de intercorrências clínicas e obstétricas, especialmente quando a idade materna é menor que 17 anos, como baixo peso do recém-nascido, mortalidade materna, ganho de peso inadequado na gestação relacionado à restrição de crescimento intraútero (RCIU) do RN ou a ganho excessivo de massa corpórea materna, prematuridade, anemia, doença hipertensiva específica da gestação (DHEG) com possível evolução para pré-eclampsia, eclampsia e síndrome HELLP, e doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) (OLIVEIRA JUNIOR, 2009). No período puerperal (entre o 1o e o 45o dias após o parto), outras complicações são referidas como comuns em adolescentes, dentre as quais estão as síndromes hemorrágicas causadas por hipotonia uterina, as lacerações do trajeto pélvico em função de desproporção céfalopélvica e de hematomas perineais, os fenômenos convulsivos decorrentes de toxemias, e as lipotimias (ARAÚJO; OLIVEIRA; ARAÚJO, 2009). Atualmente, considera-se que os aspectos relacionados com as complicações obstétricas podem ser minimizados se a adolescente for assistida adequadamente durante todo o ciclo gravídico- puerperal (YAZLLE, 2006). Além da assistência durante o ciclo gravídico-puerperal, os riscos atribuídos à gravidez na adolescência estão muito mais associados ao início tardio do acompanhamento obstétrico do que à condição física da jovem por si só. A gravidez não planejada para a maioria das jovens pode ser socialmente condenada e, por isso, elas esperam o máximo possível para comunicar aos pais e ao parceiro, retardando o início do pré-natal (COLL, 2001). Assim, o comprometimento da assistência pré-natal estaria ligado ao comportamento materno adolescente (COLL, 2001). Nessa perspectiva, as principais repercussões da maternidade na adolescência estão concentradas nos âmbitos psicoafetivo e socioeconômico.
O ciclo gravídico-puerperal é um processo que exige constantes adaptações à condição materna e gera conflitos, sendo emocionalmente difícil para a mulher (SABROZA; LEAL; SOUZA JR.; GAMA, 2004; VIDO, 2006; AMORIM DA SILVA et al., 2009). Ocorrem
transformações intensas e muito particulares, vivenciadas pela mulher de forma bastante individualizada com reajustes interpessoais e intrapsíquicos, mudança na identidade e no papel social (VIDO, 2006; AMORIM DA SILVA et al., 2009). São transformações influenciadas por diversos fatores, como a história de vida, o planejamento familiar, o contexto socioeconômico, entre outros. Mudanças que ocorrem no corpo, no comportamento, na sexualidade e que acabam interferindo nas atividades diárias e nos planos de vida (VIDO, 2006; BRASIL, 2001). A maternidade impõe um processo de amadurecimento, com novas responsabilidades (psicológicas, sociais e econômicas), para o qual a adolescente pode estar mal preparada, o que pode levar ao salto de uma etapa do desenvolvimento, possibilitando déficits cognitivo-comportamentais (SABROZA; LEAL; SOUZA JR; GAMA, 2004; PROVETTI JUNIOR, 2009). Especialmente no que diz respeito aos aspectos emocionais, podem ocorrer prejuízos e transtornos de ordem afetiva que comprometem a saúde mental da adolescente, com destaque para alterações na autoestima, vivência de um nível elevado de estresse e poucas expectativas em relação ao futuro, impactando diretamente a qualidade de vida da mãe adolescente (SABROZA; LEAL; SOUZA JR; GAMA, 2004).
Embora os impactos psicológicos negativos para a adolescente ganhem destaque, principalmente no discurso das instituições governamentais que veem como meta instituir programas de proteção ao jovem através da redução significativa do evento, vários autores realçam aspectos positivos da maternidade adolescente. Mais do que um problema, compreendem a questão em função dos processos aos quais está associada, inclusive do significado que “ser mãe” teve para a jovem (GUZMÁN; CONTRERAS; HAKKERT, 2001). A maternidade é motivo de orgulho e realização pessoal para jovens que antes não viam alternativas para sua vida (FOLLE; GEIB, 2004; GONTIJO; MEDEIROS, 2008). Pelo senso comum, ser mãe confere à jovem respeito, consideração social e o desejado status de adulto, que é valorado para o grupo de adolescentes, já que se trata da realidade em que estão inseridas (MARGULIS, 2001; FOLLE; GEIB, 2004).
No que concerne aos aspectos sociais envolvidos na maternidade adolescente, é real que as adolescentes que engravidam compartilham algumas características socioeconômicas, culturais e políticas. Mas, nesse caso, a relação de causa e efeito não tem um sentido único entre os fatores (FOLLE; GEIB, 2004). O fator cultural é marcante na vivência da maternidade na adolescência, estando intimamente relacionado com o que Burak (2001) denomina “desafio no âmbito dos
valores”, um conceito que engloba aspectos como a cultura de consumo, competitividade e confusão de limites, relação de gêneros, manejo da sexualidade, a cultura do corpo, família, entre outros valores humanos morais transmitidos e assimilados pelo grupo. Segundo a OMS (2006), as mães adolescentes abandonam a escola, apresentam baixo nível socioeconômico e não têm acesso facilitado aos serviços de saúde. Isso promove um ciclo de desvantagens que leva a problemas sociais. A adolescente que abandona os estudos terá menos oportunidades de emprego e, assim, perpetuam-se as condições de desvantagens socioeconômicas (OMS, 2006; UNICEF, 2000). Em função do ciclo de desvantagens, Margulis (2001) afirma que a maternidade incide sobre a mulher aumentando suas responsabilidades e limitando suas ações individuais. Mas para algumas adolescentes, ao contrário, a maternidade significa a solução de problemas sociais e familiares em uma estrutura social com oportunidades restritas (COLL, 2001).
A maternidade adolescente não deve ser estimulada, mas, uma vez que aconteça, deve-se ter uma visão ampliada sobre a questão que extrapole aspectos biológicos e o rótulo de “problema social” (GONTIJO; MEDEIROS, 2008). Nesse sentido, alguns fatores potencialmente interferentes na avaliação da qualidade de vida de uma adolescente mãe são apontados por Folle e Geib (2004), como aqueles que impulsionam a forma de cuidar do RN ou a relação estabelecida entre mãe e filho com a vivência da maternidade. Esses fatores são representados por: estabelecimento de novas responsabilidades, amadurecimento pessoal, maturação (ou imaturidade) emocional, falta de contracepção ou uso de métodos contraceptivos inadequados e/ou utilizados de forma indevida, baixa autoestima, entre outros.
2.4 ATUAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE
Como vimos, a gravidez/maternidade na adolescência traz consequências de âmbito social, cultural, legal, psicoemocional e corporal, mas não é, necessariamente, um problema. Fato é que a jovem mãe demanda atenção especializada com abordagem interdisciplinar e intersetorial para vivenciar o acontecimento, além de investimentos sociais e em saúde, minimizando os possíveis impactos negativos (COLL, 2001; MANDÚ, 2007; ROSA; REIS; TANAKA, 2007). A OMS (2008) prioriza como cuidado básico de saúde a promoção da maternidade segura para adolescentes, o que inclui informação para a gestante, para os familiares e para a comunidade, de forma que seja garantido o suporte necessário à jovem.
A despeito de existir um arcabouço teórico e legal, inclusive com incentivos financeiros governamentais para que as instituições de saúde assistam o adolescente na perspectiva da educação e promoção da saúde e prevenção de agravos e minimização do caráter de vulnerabilidade social, de modo geral, e independentemente dos principais aspectos sobre os quais a maternidade repercute na adolescente e na sua família, os serviços de saúde, entre outras instituições sociais, encontram-se despreparados para lidar com famílias, crianças e adolescentes em questões relacionadas à sexualidade (MANDÚ, 2007). O despreparo das instituições de saúde no atendimento de jovens mães está relacionado à visão reducionista e negativa que se tem da saúde do adolescente, que requer menos serviços curativistas e prevencionistas e mais ações na dimensão de promoção da saúde (ROSA; REIS; TANAKA, 2007).
O profissional de saúde é peça fundamental para a estruturação e/ou para o fortalecimento de redes de apoio e suporte social e, nesse sentido, a equipe de enfermagem merece destaque, pois atua promovendo a interface entre a comunidade e o serviço de saúde, tanto na saúde individual quanto na coletiva (GONÇALVES; PEDROSA, 2009). Esses profissionais têm, portanto, um papel importante na assistência a grupos vulneráveis e devem estar aptos a assistir a adolescente que vivencia a maternidade em todas as dimensões do cuidado. A atuação profissional não pode ser restrita e deve enfatizar a importância da abordagem integral à saúde, da promoção da saúde e da articulação dos setores sociais para o cuidado do adolescente (MANDÚ, 2007), visando à promoção da qualidade de vida e ao desenvolvimento de ações educativas sobre saúde, direitos individuais e sociais garantidos a todos (UNICEF, 1989). Faz-se necessária uma abordagem multidisciplinar da maternidade na adolescência, por profissionais habilitados para o manejo de todos os aspectos envolvidos na maternidade (SABROZA; LEAL; SOUZA JR; GAMA, 2004).