IMPACTOS DA VOLATILIDADE CAMBIAL SOBRE O SETOR NO CURTO PRAZO
Consideramos aqui curto prazo o panorama de 18 meses da duração dos contratos no setor estudado. Vemos abaixo os principais pontos de impacto da volatilidade cambial no curto prazo nesta indústria:
- Fixação de preços com prêmio de risco: Os contratos carregam a previsão futura do câmbio no momento de seu fechamento, ou seja para os 18 meses seguintes. Com a tendência de valorização do Real, o câmbio futuro é estimado visando a proteção das operadoras de receptivo no momento da realização destes contratos na moeda nacional. Com isso, no instante da conversão dos preços de Reais para dólares, tanto da parte dos fornecedores quanto das operadoras de receptivo, este preço carrega um ágio de proteção do risco da taxa de câmbio futura, que é normalmente calculada em cima de uma média do valor esperado da taxa futura para os próximos 18 meses. Com isso observa-se um aumento no preço do produto Brasil não em função do seu custo real, mas em função do risco atrelado à variação da moeda internacional que os contratos carregam.
Como vimos no capítulo 2, no exemplo da Welcome to Brazil, para os serviços contratados em reais (transporte e guia, por exemplo), esta empresa teria que escolher um câmbio para converter os preços em dólares e fixá-los para a Best Vacations ao longo dos próximos 18 meses. Este câmbio carrega o prêmio do risco da variação cambial, mas se este prêmio for muito alto a Welcome to Brazil corre o risco de ficar fora do mercado internacional, pois os preços de seus produtos já chegariam mais altos do que os da concorrência. Vamos supor que ela contrate o carro que será utilizado pelo Sr Bray, alguns meses mais tarde, por R$ 80,00 a diária de 8 horas, com validade para os próximos 18 meses, e o câmbio dólar x real esteja 2,16 na data do fechamento do contrato
entre a Welcome to Brazil e seu fornecedor de veículos, e que, no próximo mês a Welcome to Brazil tenha que enviar o contrato final para a Best Vacation publicar em seu mercado local, com este preço convertido em dólares e fixo para os próximos 18 meses. Se a Welcome to Brazil fechar o contrato em dólares com a Best Vacations ao câmbio de R$ 2,16, ou seja, a Usd 37,00, e o real apreciar pressionando o câmbio para R$ 2,00 daqui a 9 meses, digamos, no momento do pagamento do serviço contratado para o Sr Bray, esses Usd 37,00 valerão R$ 74,00. Se assumirmos que a Welcome to Brazil tenha acrescentado 15% ao seu preço de custo no momento do fechamento do contrato com a Best Vacations, vendendo assim este serviço por usd 42,55, e se na data do recebimento deste valor o real estiver apreciado em relação ao período do fechamento do contrato como dito acima - R$ 2,00 reais para cada dólar - quando da conversão deste recebimento para reais, a Welcome to Brazil estaria recebendo R$ 85,10 pelo serviço, e teria que pagar a seu fornecedor de carros R$ 80,00, sobrando somente R$ 5,10 de margem para esta. Portanto, no lugar de sobrar uma margem de aproximadamente 15% para a operadora de receptivo, a margem com a apreciação do real, neste exemplo, ficaria em torno dos 6%, o que, na maior parte das empresas operadoras de receptivo, não é suficiente para cobrir os custos fixos e impostos e ainda auferir lucro. Quanto mais o real apreciar menor será a margem da Welcome to Brazil, podendo inclusive chegar à uma margem negativa. Por este motivo, no momento da fixação dos contratos em dólares, as operadoras locais precisam levar em consideração uma estimativa do patamar do dólar nos próximos 18 meses, e escolher entre tomar uma posição mais arriscada, câmbio real x dolar mais alto, digamos R$ 2,16, lançando preços mais baratos no mercado internacional, ou em serem mais conservadoras, adotando um câmbio real x dólar mais baixo, por exemplo R$ 2,00, se protegendo mais das oscilações, mas aumentando o preço dos serviços para o mercado internacional, ou seja, aumentando o prêmio de risco pago pela incerteza da oscilação cambial.
- Volatilidade cambial x Risco de processo inflacionário da moeda nacional: Um dos motivos do fechamento dos contratos internacionais serem atrelados ao dólar dá- se pelo histórico inflacionário da moeda nacional. O panorama atual é de inflação controlada pela política monetária do banco central, e operações em moeda nacional
enfrentam hoje previsões de oscilação muito menores do que aquelas atreladas à taxa de câmbio. Hoje envolve menor incerteza a previsão inflacionária no país do que a previsão das taxas de câmbio. Entretanto este é um quadro bastante recente na Economia Brasileira e uma discussão da adoção de contratos internacionais em Reais deve levar em conta a possível acentuação da inflação, e a condição de manutenção destes contratos dentro do seu prazo de maturidade, caso isto venha a ocorrer.
Neste caso se a Welcome to Brazil decide lançar seus preços em reais no mercado internacional, e há uma súbita volta da inflação dentro do período de vigência do contrato, digamos com um novo plano de política econômica do governo, os preços fixados em reais em meados do ano anterior, podem não refletir mais a realidade dos preços nacionais, e o montante recebido por um serviço prestado à Best Vacation, pode não ser suficiente para cobrir os custos da Welcome to Brazil, agora inserida numa realidade inflacionária. Neste caso, os contratos em reais também teriam que carregar a incerteza da volatilidade desta moeda em forma de prêmio de risco, e um exemplo parecido ao que vimos no item acima poderia ocorrer.
- Problemas de fluxo de caixa e rigidez de preços: como já discutido, uma vez definidos os preços dos produtos a serem vendidos no mercado internacional, há rigidez destes até o estabelecimento de novos contratos para a temporada seguinte. Dado este fato, quanto maior a volatilidade cambial dentro dos 18 meses do contrato, maior exposição do operador de receptivo brasileiro ao risco de câmbio. Um câmbio valorizado acima da média prevista no contrato leva a uma perda da margem do operador, podendo resultar mesmo em prejuízo em certas operações. Mais ainda, a volatilidade em si pode ser bastante prejudicial para este agente, visto que os contratos com fornecedores são fechados na cotação de 15 dias antes da data do pagamento, se houver desvalorização do Real na data da realização da taxa de câmbio deste contrato, frente a uma valorização nos próximos 15 dias, serão necessários mais dólares para cobrir o mesmo contrato em reais, e a desvalorização momentânea, que parecia ser benéfica ao operador de receptivo, passa a ser mais um ponto de preocupação tanto em seu fluxo de caixa, quanto na sua rentabilidade geral.
Por exemplo, após a chegada do Sr Bray e a prestação dos serviços, dá-se o fechamento das faturas com as quais os fornecedores irão cobrar a Welcome to Brazil. Digamos que o real tenha se desvalorizado neste período e o câmbio esteja em torno de R$ 2,20. Supomos ainda que o hotel de natureza no Pantanal tivesse um contrato estabelecido com a Welcome to Brazil de Usd 3.500,00 pelo pacote de 4 noites que a família do Sr Bray utilizou. Convertidos em reais ao câmbio de R$ 2,20, a fatura enviada à Welcome to Brazil por seu fornecedor hotel de natureza do Pantanal, seria no valor de R$ 7.700,00. Esta fatura será paga pela Welcome to Brazil 15 dias mais tarde11, mas, se no decorrer desses 15 dias o real houver sofrido uma apreciação alcançando o patamar de R$ 2,00, a Welcome to Brazil irá precisar converter Usd 3.850,00 da sua conta em Moedas Estrangeiras, para pagar os mesmos R$ 7.700,00 do valor da fatura. Ou seja, os Usd 3.500,00 contratados com o hotel de natureza no Pantanal, passam custar, em dólares, Usd 350,00 mais caro para a Welcome to Brazil, em função da valorização da moeda nacional. Isso se dá pois, como vimos no capítulo 2, os contratos fechados em dólares com os fornecedores são convertidos em moeda nacional na data da prestação do serviço e fixados para pagamento neste câmbio, 15 dias mais tarde. Vemos aqui, que mesmo os preços contratados em dólares com os fornecedores locais, estão expostos à volatilidade do câmbio, caracterizando, este tipo de contrato, também um risco para as operadoras de turismo receptivo no Brasil.
- Expertise sobre movimentos de câmbio no Brasil para operadoras de receptivo: A alta volatilidade da moeda em termos internacionais torna necessário um maior conhecimento dos movimentos desta para estabelecimento dos contratos. Visto que tratamos de um setor de empresas pequenas, caracterizadas, em sua maioria, por firmas de estrutura social limitada e sem acesso ao mercado de ações, a complexidade da análise e previsão de taxas de câmbio no presente cenário brasileiro, soma-se aos problemas enfrentados pelo setor nos tempos atuais. As maiores empresas do setor tem um gasto adicional com contratação de pareceres de especialistas na área, enquanto as que dispõem de menor lucratividade, tem hoje um grande tempo de seus altos executivos
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ocupado somente com o aumento de conhecimento na área, a fim de lidarem melhor com os impactos de variação da moeda frente ao dólar.
No caso da Welcome to Brazil, haveria uma necessidade maior do conhecimento dos mercados de câmbio no Brasil por parte dos executivos da empresa, o que envolve custos em treinamento (cursos, por exemplo) ou a contratação de funcionários com maior expertise na área, que exigem também salários mais altos. Com o panorama estudado até aqui, de achatamento de margens em função da variação cambial, este é um investimento custoso no cenário atual.
- Expertise sobre movimentos de câmbio no Brasil para clientes atacadistas internacionais: outro fator a ser levado em consideração, ainda ligado a este ponto, é o fato de que, se para as firmas estabelecidas no Brasil, o acompanhamento e previsão do movimento cambial no mercado é bastante complexo, caso seja necessária uma maior compreensão do funcionamento do mercado cambial no Brasil por parte dos clientes internacionais do setor, no caso dos contratos repassados em reais para estes clientes, isto pode acarretar um processo de não incentivo da promoção e venda do produto brasileiro por parte destes, sobretudo no caso das pequenas agências.
Se, por exemplo, a Best Vacations, se visse obrigada a investir em treinamento ou contratação de executivos com domínio do funcionamento do mercado de câmbio internacional suficientes para evitar qualquer perda ligada à volatilidade cambial dos produtos brasileiros vendidos, o custo deste esforço poderia ser maior do que o retorno, e a motivação da Best Vacations em divulgar e vender o destino Brasil poderia não se justificar, deixando este produto de fazer parte das ofertas desta empresa. A Best Vacations pode se especializar em vender qualquer destino (país) no mundo que seja do interesse do seu mercado local (mercado consumidor inglês) em visitar, podendo facilmente decidir pela não venda do produto Brasil, substituindo-o por outro produto/destino, sem afetar muito sua receita. Enquanto para a Weldome to Brazil, isso significaria uma menor procura por seus produtos e afetaria diretamente sua receita.