Se as sociedades são conjuntos mal unificados de meios, podemos negar-lhes o direito de definir a normalidade pela atitude de subordinação que elas valorizam com o nome de adaptação.
Georges Canguilhem 53
O Ser se mede pela carência própria à norma. Há normas sociais por escassez de toda e qualquer norma sexual, eis o que diz Freud.
Jacques Lacan54
É preciso advertir a leitora e o leitor de que o capítulo que segue terá uma estrutura distinta daquela observada em nossa discussão anterior. Nosso caminho buscou, até o momento, apresentar uma possível aporia na aproximação entre as fórmulas da sexuação e a questão das identificações sexuadas, oferecendo a teoria da autorização por si e por alguns outros como alternativa. No entanto, a partir de agora será preciso retroceder a questões mais fundamentais do arcabouço lacaniano, antes que possamos avançar rumo à discussão do estatuto dos pequenos outros e da construção de uma matriz para se pensar a autorização.
É bem verdade que o núcleo duro de nossa tese estaria articulado entre o real (do sexual como diferença, da indecidibilidade do alguns) e o imaginário (a questão dos outros, do grupo e do si mesmo). Contudo, não podemos prescindir de uma discussão mais detida sobre as questões do simbólico, na medida em que é preciso dizer qual simbólico permite o tipo de articulação que gostaríamos de fazer. Ademais, como pretendemos mostrar nas próximas páginas, uma certa concepção de sexuação tem uma incidência central nas próprias bases do simbólico lacaniano, sendo preciso, então, revisitá-las, mas já amparados por uma racionalidade que pensa as identificações sexuadas diferentemente.
Por isso, este momento do texto terá a estrutura de uma cartografia celeste das relações entre a sexuação e pontos fundamentais da teoria lacaniana tradicionalmente ligados ao simbólico. Nossas discussões neste capítulo – que podem parecer, à primeira
53 Canguilhem (1966/2009, p. 129). 54 Lacan (1973, p. 6).
123 vista, desconexas ou esparsas – procurarão ser tecidas por meio de um exercício metodológico que, de partida, já se refere a uma teoria do simbólico por nós resgatada a partir da ideia de constelação. Cada subitem aqui, portanto, não deverá ser tomado como um planeta que orbita ao redor de um sol conceitual comum, conhecido e confiável. Proponho que a leitura deste capítulo possa vir a considerar as sínteses de nossas incursões na qualidade de estrelas que – se sozinhas tem um brilho fraco –, numa dada constelação, podem nos ajudar a encontrar um sul de navegação, permitindo abandonar a nostalgia do continente das fórmulas da sexuação, calcados na esperança de aportar num novo mundo.
Há entre os comentadores algumas diferenças no que diz respeito às divisões possíveis no ensino de Lacan. Para alguns, suas diferentes reformulações teóricas seriam, em realidade, laterais, posto que versam sempre sobre uma ou algumas poucas questões comuns, o que garantiria uma unidade na teoria lacaniana (Safatle, 2008). Nessa mesma toada, Roman Faria (2015) sublinha o fato de que os registros imaginário, simbólico e real estiveram desde o início presentes no horizonte lacaniano, sempre em relação e não submetidos a uma hierarquização. A interpretação mais amplamente aceita, contudo, defende que haveria relativa primazia de algum dos registros em determinado momento do ensino de Lacan. Fala-se, assim, de um primeiro ensino, ligado às questões do imaginário e da questão especular; um segundo, no qual haveria uma primazia do simbólico, a partir do significante; e um terceiro, no qual o real compareceria de maneira mais presente a partir da postulação da inexistência da relação sexual. Considerado por alguns uma espécie de “palavra final sobre o assunto”, o Seminário R.S.I. (Lacan, 1974-1975) é declaradamente dedicado ao registro do Real, por mais que ao longo de suas lições haja uma insistência em demonstrar a indissociabilidade dos três registros, cujo paradigma topológico é o nó borromeu.
Frente a tal quadro, nossa posição é a seguinte: pensar em uma datação, uma divisão ou uma hierarquia conceitual em Lacan não é uma postura frutífera, ou mesmo factível, se postulada de maneira generalista. Em outros termos, ela só é possível quando remetida a problemas específicos, e não à “obra”, já que há posturas que, de fato, parecem não se alterar ao longo do seu ensino, ao passo que alguns conceitos de fato têm seu ápice e declínio. Como nosso problema se constrói ao redor da problemática da identificação em suas intersecções com a questão da sexuação, é a
124 partir dela que se dará qualquer tipo de divisão e possível modificação do pensamento lacaniano.
2.1 A sexuação na base da identificação simbólica
Vejamos em que contexto se dá a emergência da noção de identificação simbólica. Observamos nos Seminários 1 e 2 uma sorte de continuidade e refinamento de algumas questões, que se desenvolviam desde os anos de 1940, relativas à constituição do eu enquanto instância imaginária aliada ao movimento de retorno a Freud, no sentido da reinterpretação da primeira tópica em função da crítica à psicologia do eu. Quanto à identificação, é curioso notar como Lacan sublinha, nesse período, que haveria uma espécie de mal-entendido em relação à identificação: “a palavra ‘identificação’, tomada indiferenciadamente, em bloco, é inutilizável” (Lacan, 1953- 1954/1986, p. 148); ou ainda: “aí se escalona uma zona em que vocês poderão distinguir os planos disso que chamamos, em nossa linguagem imprecisa, ‘identificações’, com toda uma gama de nuances, todo um leque de formas que agem entre o imaginário e o simbólico, é o plano no qual deslocamos toda nossa experiência” (Lacan, 1953- 1954/1986, p. 248, trad. modificada). Sublinhemos como – mesmo já nomeando o registro simbólico – Lacan ainda reconhece que há uma assimetria conceitual e clínica dessa noção-chave, por mais que ainda não ofereça um encaminhamento para o problema.
Contudo, a partir do seminário sobre as psicoses, o campo conceitual da identificação – e notadamente da identificação ligada à sexuação – perde seu caráter plural e assimétrico e passa a orbitar ao redor de um punhado de noções e referências bastante organizadas. Não esqueçamos que se trata do seminário no qual, com base em Saussure, o conceito de “significante” é densamente comentado e construído em sua diferenciação em relação ao significando; e, portanto, trata-se do momento em que o registro simbólico ganha seu operador teórico privilegiado. Assim, parece haver um esforço de Lacan para recolocar algumas questões centrais em novos termos, entre os quais aquele da identificação, que, a partir de agora, deixa de ser tratado no plural.
125 Homem e mulher são, assim, a partir desse momento conceitual, significantes e, portanto, definem-se por oposição. Não haveria, então, conteúdo ou essência que definisse nenhum dos dois. Trata-se de uma articulação extremamente interessante e potencialmente frutífera para os estudos de gênero, posto que colocaria a identificação sexuada tanto para além de uma pura determinação biológica quanto de um essencialismo volitivo identitarista. Contudo, examinemos mais de perto de que tipo de oposição se trata:
Eu falava agora há pouco do dia e da noite, do homem e da mulher, da paz e da guerra. Poderia ainda enumerar um certo número de coisas que são algo que não se isola do mundo real, mas que dá sua armação, seus eixos, sua estrutura... que o organiza; [coisas] que fazem com que o homem ali se encontre, que fazem com que haja para ele, efetivamente, uma realidade, tal como a fazemos intervir na análise... supõem, no interior dele próprio, essa trama, essas nervuras de significante como tal. (Lacan, 1955/1956-1985, p. 227, trad. modificada, grifos nossos)
Em outra passagem:
Se lhes falei do dia e da noite, é para lhes fazer sentir que, além de tudo que recobre o dia, a própria noção de “dia”, a palavra “dia”, a noção vinda do dia, é alguma coisa, propriamente falando, de inapreensível em alguma realidade. Não há nenhuma definição, nenhum limite se essa função da oposição do dia e da noite não for uma oposição significante, fundamental, que ultrapassa infinitamente qualquer espécie de significação que ela pode acabar por recobrir. E
se tomei como exemplo o dia e a noite, é naturalmente porque nosso tema é o homem e a mulher. E que o significante “homem”, bem como o significante “mulher”, são coisas diferentes de uma atitude passiva ou atitude ativa; de uma atitude agressiva ou atitude de ceder, ou de comportamentos. Há sem nenhuma dúvida
um significante escondido aí atrás que, é claro, não é absolutamente, em parte alguma, encarnável, mas que está assim mesmo encarnado o mais justo possível na existência da palavra homem e da palavra
mulher. (Lacan, 1956/1956-1985, p. 226, trad. modificada, negritos
nossos)
Em primeiro lugar, sublinhemos que estão em jogo aqui duas das primeiras e mais explícitas passagens de Lacan a respeito de sua apropriação da linguística estrutural. E é nesse registro que homem e mulher comparecem como exemplos privilegiados de significantes. Mais ainda, notemos que o caminho argumentativo de Lacan é utilizar-se da noção de “oposição significante” (de signos, em Saussure, mas
126 que é vertida em Lacan para oposição entre significantes) para pensar o que estaria em jogo na sexuação. Homens e mulheres são, aqui, opostos sem significado a priori. Mas o que implica pensá-los dessa forma?
Diferentemente da ideia – que surgirá no contexto das fórmulas da sexuação nos anos de 1970 – de que a mulher teria um gozo suplementar, e não complementar ao do homem, aqui temos uma oposição logicamente distinta, posto que o tipo de exemplos trazidos (guerra e paz, dia e noite) sublinha se tratar de oposições complementares. Mais ainda, trata-se – da maneira tal qual Lacan os apresenta – de pares fixos que se definem mutuamente, e não propriamente elementos contingentes dentro de um sistema. O problema de tal abordagem é que, mesmo sublinhando a ausência de significado em si, um dos elementos do par complementar passa a figurar de maneira fixa (ainda que negativamente) como definidor do outro. Assim, homem passa a ser o não-mulher e mulher passa a ser o não-homem, tirando do horizonte quaisquer outras oposições possíveis.
Percebamos que a oposição – que nos começa a parecer artificial – entre dia e noite, guerra e paz só se sustenta se, em algum lugar, ainda houver referência a um caractere sensível, fenomenológico ou de sentido que os diferencia. Na língua, os sentidos que emanam das oposições são contingentes e se pautam, sobretudo, pelo uso que se faz de determinado significante, em qual contexto ele se aplica. Assim, “dia da defesa”, “Dia D”, “Supermercados Dia”, “dia-a-dia” e “O dia da marmota”55 sublinham que as oposições são funções que dependem da lida com o significante em seu contexto e uso, a princípio contingentes. Os diferentes sentidos dos dias acima independem, portanto, da oposição artificial com a noite. Mas tal ideia estaria amparada por Saussure?
Como sabemos, Lacan opera uma modificação da ideia saussuriana referente à relação entre significante e significado, relegando o signo para um outro plano. Assim, conforme Mello:
[...] a noção saussuriana de “caráter diferencial” do signo linguístico, segundo a qual um signo somente adquire “valor” ou “unidade de sentido” através da relação com outros signos, é deslocada por Lacan
55 E, indo além, tanto no registro da letra quanto na própria sonoridade presente na fala em análise, o
127
para o plano do significante. Assim como para Saussure os signos são puras diferenças, para Lacan são os significantes que são concebidos como puras diferenças. (Mello, 2010, p. 126)
De toda forma, ainda assim os signos seriam definidos, em Saussure, por pares fixos de opostos?
No interior de uma mesma língua, todas as palavras que exprimem ideias vizinhas se limitam reciprocamente: sinônimos como recear,
temer, ter medo só têm valor próprio pela oposição [...] Assim, o
valor de qualquer termo que seja está determinado por aquilo que o rodeia. (Saussure, 1916, pp. 134-135; negrito nosso)
A passagem é cristalina: para Saussure, o valor do termo advém de sua posição, inclusive – e talvez principalmente – no caso de sinônimos, onde o apelo à diferença de significado perde força argumentativa. Vejamos uma outra passagem na qual o linguista utiliza a comparação ao jogo de xadrez para explicar a questão do valor dos elementos em uma língua:
Suponhamos que, no decorrer de uma partida, essa peça venha a ser destruída ou extraviada: pode-se substituí-la por outra equivalente? Decerto: não somente um cavalo, mas uma figura desprovida de qualquer parecença com ele será declarada idêntica, contanto que se lhe atribua o mesmo valor. Vê-se, pois, que nos sistemas semiológicos, como a língua, nos quais os elementos se mantêm reciprocamente em equilíbrio de acordo com regras determinadas, a noção de identidade se confunde com a de valor, e reciprocamente. (Saussure, 1916/1966, pp. 134-135)
A identidade é, portanto, uma característica que advém do valor que determinado elemento recebe dentro de um sistema de regras determinadas. Cavalo define-se, portanto, por seu uso em relação às outras peças, e não por uma oposição complementar com nenhuma peça específica. Cavalo – assim como homem ou mulher – não teria nenhuma propriedade a priori, mas seria medido exclusivamente por sua diferença em relação a outros signos (para Saussure) ou significantes (para Lacan).
“[...] antes de Saussure são as propriedades que fundam as diferenças (e as semelhanças); depois de Saussure é a diferença que funda as propriedades, e não há estatuto possível para a semelhança”, dirá Milner (2010). Fixar a oposição entre homem e mulher resultaria, portanto, numa tentativa de negar a infinidade de diferenças possíveis supostas pelo sistema, tomando a negação do outro significante como
128 propriedade que antecederia a diferença em si. É curioso notar como a oposição sexual possui um valor tão relevante e estanque para Lacan nesse momento de seu ensino, chegando a figurar como um dos exemplos do funcionamento do significante. Ainda que não exatamente amparado em Saussure, Lacan traz para o coração de sua formulação do simbólico a diferença sexual.
De toda forma, é mister sublinhar que a teoria do significante se refina muito em Lacan ao longo dos anos. A construção da formulação “o significante é o que representa um sujeito para outro significante” (Lacan, 1961-1962/2003) testemunha esse processo de formalização que se emancipa de uma oposição complementar simples em direção a um sistema que possibilita a existência de cadeias significantes, que, se pensadas a partir do sentido, seriam consideradas como puramente contingentes.
Tomemos um exemplo dado por Lacan justamente no seminário sobre a identificação. A afirmação “guerra é guerra” (Lacan, 1961-1962/2003, p. 55) demonstra que o sentido emana, sobretudo, da posição dos significantes, e não de seu pretenso significado, já que – sublinha ele – “guerra é guerra” não é uma tautologia. Fica claro aqui como a oposição é uma função contingente, e não um a priori do significante. Motivo pelo qual “homem masculino” e “mulher feminina” apontam igualmente para o fato de que nenhum significante garante o sentido, pois se trata sempre de saber a qual jogo de significantes ele se remete.56 Afinal, no xadrez, como dizia Freud, conhecemos um pouco as aberturas e os fechamentos, mas o que se desenrola entre os poucos elementos ali presentes é de uma possibilidade quase infinita:
A cada signo existente vem, então, se integrar, se pós-elaborar, um valor determinado [...], que só é determinado pelo conjunto de signos presentes ou ausentes no mesmo momento; e, como o número e o aspecto recíproco e relativo desses signos mudam a cada momento, de uma maneira infinita, o resultado dessa atividade, para cada signo, e para o conjunto, muda também a cada momento, numa medida não
calculável. (Saussure apud Basílio, 2010, p. 8, grifo nosso)
56 Por exemplo, a dita “verdadeira verdade” cantada pelo grupo Cidade Negra (Bernardo et al., 1991)
induz um sentido precisamente por esse diferencialismo radical do significante. Ao retomar um dito popular que tenta, justamente, apagar o caráter potencialmente arbitrário desses significantes, Jocenir (1998) subverte a aparente oposição pela introdução de um terceiro termo em sua clássica “Diário de um detento”, na voz de Mano Brown, que narra as últimas horas no Carandiru antes do massacre de 1992: “Homem é homem, mulher é mulher, estuprador é diferente, né?”.
129 Analogamente, a cadeia significante comportaria, portanto, regras de significação que vão muito além da oposição entre homem e mulher. Essa constatação é importante para que se possa ensaiar uma crítica a grande parte da comunidade lacaniana, que acusa os estudos de gênero – ou a pós-modernidade, ou os transexuais, ou a “sociologização do saber psicanalítico” – de promoverem um apagamento da diferença sexual tomada aqui quase como um sinônimo da diferença anatômica, ainda que travestida de simbólico57. Essa crítica entende que as novas políticas de gênero
ignoram o real de uma diferença (homem e mulher) e, portanto, operam para além ou para aquém do simbólico tal como o concebemos. Ora, mas tal racionalidade ignora que não existe a diferença sexual, mas antes diferenças puras no interior de sistemas significantes.
Dentro da apropriação estritamente lacaniana do simbólico, seria só a partir dos anos de 1970 que esse tipo de oposição significante complementar entre homem e mulher poderá ser mais radicalmente posto em questão:
Dizer, então, que “não há relação sexual” é também dizer que “homem” ou “mulher” não são tomados, um e outro, igualmente a título de significante quando acontece de um sujeito se determinar sexualmente, se acomodar mais num campo do que no outro; que, enquanto significantes, decerto eles diferem, contudo não se opõem. É preciso, portanto, chegar a dizer que o simbólico – o domínio do significante, lá onde não há nada além de relação – não conhece a oposição sexual; não é capaz, por si só, de sustentá-la. Igualmente se revela inapto para sustentar a oposição vida/morte, que não lhe fede nem cheira. De forma mais geral, aliás, onde só há diferença, não há oposição – a não ser construída, secundariamente, mediante a borda; mas essa oposição não será, em nada, uma propriedade desse simbólico: somente o resultado de seu trabalho. (Le Gaufey, 1991/2017, p. 299)
Assim, se para Saussure o paradigma da diferença seria os sinônimos, da mesma forma podemos propor que as “novas diferenças sexuais” são diferenças puras justamente por sublinhar a impossibilidade de apelo ao sentido. Qual é a diferença entre “female to male transgender man”, “female to male transsexual man”, “F2M”; ou entre “Cis female” e “cis woman”? Essas denominações, bem entendido, podem emaranhar-se numa gramática das chamadas políticas da identidade, que exploramos melhor em outro
57 Ou de real, para aqueles que defendem uma anterioridade ontológica da diferença de gozos frente aos
130 trabalho (Ambra & Silva Junior, 2016). No entanto, elas se proliferam segundo uma lógica pautada precisamente na diferença sexual, compreendida em um sentido ainda mais formal do que aquele defendido por Lacan no seminário sobre as psicoses. Jean Allouch chegará a definir queer, por exemplo, como um significante no sentido lacaniano do termo, ligado propriamente a um acontecimento sem sentido, mas que ajudaria a psicanálise a resistir a seu caráter pastoral (Barbero, 2005, p. 51). Contudo, trata-se de ensaiar pensar a partir de Lacan, e não propriamente com Lacan, posto que – voltando à vaca fria – nesse momento conceitual é de homi-macho e mulé-fêmea que se trata:
O complexo de Édipo quer dizer que a relação imaginária, conflituosa, incestuosa nela mesma, está destinada ao conflito e à ruína. Para que o ser humano possa estabelecer a relação mais natural, aquela do macho com a fêmea, é preciso que intervenha um terceiro, que seja a imagem de alguma coisa de bem-sucedido, o modelo de uma harmonia. Não é demais dizer – é preciso aí uma lei, uma cadeia, uma ordem simbólica, a intervenção da ordem da palavra, isto é, do pai. Não o pai natural, mas do que se chama “pai”. A ordem que impede a colisão e o rebentar da situação no conjunto está fundada na existência desse nome do pai. (Lacan, 1955/1956-1985, p. 114)
Ou seja, o simbólico parece intervir aqui não para dotar o humano de uma pluralidade possível no domínio da sexualidade, mas, antes, para que ele possa (r)estabelecer a “relação mais natural, aquela do macho com a fêmea” – o que, nos animais, seria garantido pelo imaginário. Contudo, como vai ficando cada vez mais claro, Lacan parece insistir de toda maneira em descrever a relação entre homens e mulheres a partir do simbólico; e, mais ainda, parece colocar a própria diferença sexual como base de uma oposição binária que marca o simbólico. Vejamos um último caso de tal argumento em “A instância da letra no inconsciente”, de 1957, na qual Lacan refina