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IMPEACHMENT NO BRASIL: CASO COLLOR E A ADPF

3. A ADPF 378 E A JUDICIALIZAÇÃO DA POLÍTICA

3.4 IMPEACHMENT NO BRASIL: CASO COLLOR E A ADPF

Após o período da ditadura militar, vivenciado entre 1964 á 1985, passando por um processo de redemocratização que mobilizou a população e culminou na promulgação da Constituição Federal de 1988, a jovem democracia Brasileira passou pelo seu primeiro desafio: o impeachment sofrido pelo primeiro presidente eleito por voto direto, após 30 anos de ditadura militar, Fernando Afonso Collor de Melo.

Collor foi eleito nas eleições de 1989, iniciando seu governo em março de 1990. Em maio de 1992, Pedro Collor, seu irmão, entrevista concedida a uma revista Veja, acusou o então Presidente de manter uma sociedade com empresário Paulo Cesar Farias, tesoureira da campanha Collor. Pedro apresentou documentos que comprovavam a existência de sete empresas irregulares de PC Farias no exterior, acusou o tesoureiro de tráfico de influência e afirmou que PC Farias seria a pessoa, ligada a Fernando Collor, responsável por negociações espúrias84.

Em junho de 1992, o congresso instaurou uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para averiguar as denúncias. Com o desenvolver dos trabalhos da comissão, as acusações realizadas pelo irmão do então Presidente foram ganhando substância, com muitas provas de transações ilícitas ligando PC Farias a Collor.

No dia 28 de julho, uma reportagem trazia entrevista com o motorista Eriberto França que denunciava um esquema integrado por PC Farias e a secretária de Collor, Ana Aciólli.

84 ESTADÃO. Impeachment de Collor. < http://acervo.estadao.com.br/noticias/topicos,impeachment-de-

Dias depois o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (Barbosa Lima Sobrinho) e da Ordem Dos Advogados do Brasil (Marcelo Lavenère) entregaram um pedido formal de impeachment a Câmara dos Deputados. O pedido foi aceito. Collor foi acusado de enriquecimento com o dinheiro obtido de forma ilícita por PC Farias, acusação também acatada pela CPMI, que o considerou culpado pelo recebimento de 6,5 milhões de dólares no esquema.

Os fatos indicados na denúncia tinham como base elementos apurados na CPMI. O Presidente da Câmara do Deputados naquela oportunidade definiu regras para o processo de impeachment, entre elas: que aquela Casa teria a competência para o juízo de admissibilidade e não de acusação, caso fosse aprovado, deveria encaminhar para o Senado Federal que processaria e julgaria; definiu que a Lei 1079/50 aplicar-se-ia com a exceção dos atos que traduzem tipicamente processo, posto que, em sua interpretação, o processo e o julgamento seria da competência privativa do Senado Federal; a comissão especial da Câmara dos Deputados teria sete seções para apresentar seu parecer, após a matéria seguiria ao plenário para admissão ou não da acusação em voto ostensivo e nominal, com o quórum de 2/3 para a aprovação; impossibilidade de votação secreta.

Discordando dos atos do Presidente da Câmara, Collor impetrou mandado de segurança n° 21.564 perante o STF, com a argumentação de que a decisão de admissibilidade do impeachment é de competência da Câmara dos Deputados e que deveria ser realizada por meio de voto secreto, devendo haver aplicação da defesa no prazo de 20 dias.

O Supremo Tribunal, fazendo jus ao papel de intérprete de guardião da Constituição, enfrentou a questão proposta definindo a competência da Câmara dos Deputados no processo de impeachment insculpido na Carta Magna. Assim definiu aquela Corte:

a) Compete ao Senado Federal o juízo de pronúncia e o julgamento e a Câmara dos Deputados admissibilidade da acusação, que mesmo sendo de juízo político deve ser abraçada pelo princípio da ampla defesa;

b) A defesa deveria correr no prazo de até 10 seções;

c) A votação em plenário deve ser nominal e em aberto conforma artigo 23 da Lei 1079/50

O processo de impeachment foi aprovado pela Câmara Federal, 441 votos a favor e 38 contra, afastando o Presidente Fernando Collor em 29 de setembro. Com a eminência do impedimento pelo Senado e temendo ficar inelegível por 8 anos, no dia 29 de dezembro de 1992, Collor renuncia ao cargo. Ainda com a renúncia, o Senado votou a favor da perda dos direitos políticos do ex-presidente, a decisão foi confirmada pelo STF em 1993.

Em 24 de abril de 2014, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, julgou improcedente a Ação Penal 465, proposta pelo Ministério Público Federal, ou seja, o ex-presidente foi absolvido pelos crimes de falsidade ideológica, corrupção passiva e peculato. Os ministros entenderam que não havia provas suficientes para comprovar o envolvimento de Fernando Collor nos crimes em que foi acusado.

Apesar do processo de impedimento do Presidente da República casou alguns traumas, rupturas e possuir muitas etapas deixando-o com certo grau de complexidade, podemos extrair lições que ajudam a compreender este mecanismo Constitucional. No caso Collor, o STF definiu algumas regras85, quais sejam:

1) MS 21.564 MC-QO / DF – O Poder Judiciário pode exercer controle em relação á regularidade do processo de impeachment, sendo impossibilitado a análise da decisão do mérito da Câmara sobre a autorização conferida ao Senado para instauração do processo por crime de responsabilidade.

2) MS 21.564/ DF – A Câmara dos Deputados exerce juízo político ao decidir sobre a admissibilidade da denúncia e a votação sobre a autorização para a instauração do processo deve ser nominal. Com a autorização da instauração do processo pela Câmara o Presidente da República será processado e julgado pelo Senado, este tem a competência de acusar e proferir o julgamento.

3) MS 21.623/DF – Conclui-se que diferente do sistema- norte americano o fato que da base para o processo de impedimento precisa estar tipificado especificadamente na lei. No caso do Brasil, crime de responsabilidade, presente no artigo 87 da CF/1988 e na Lei 1079/50.

No Senado poderá haver produção de provas, respeitado o devido processo legal. O impedimento ou suspeição de Senadores segue a regra do artigo 36 da Lei 1079/50 e não do Código de Processo Penal.

4) MS 21.689/ DF – O impeachment implica na perda do cargo e na inabilitação por 8 anos, para o exercício da função pública. A renúncia ao cargo de Presidente, apresentada após o início do julgamento do Crime de Responsabilidade no Senado, não afasta a decretação do impeachment com seu efeito em relação a inabilitação, o que prejudica é a decisão quanto a perda do cargo.

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ALBUQUERQUE,Thiago Luiz de Moura. Sobre o Impeachment II – lições do caso Fernando Affonso Collor de Melo. A Constituição, ago. 2015.

http://www.aconstituicao.com.br/2015/08/22/sobre-o-impeachment-ii-

Anos depois, encontramos o Brasil novamente diante de um processo de impeachment, dessa vez, contra a Presidente Dilma Roussef.

Dilma, foi reeleita em 26 de outubro de 2014, tendo como cenário um país envolvido em uma grave crise política, econômica e com escândalos de corrupção na Petrobrás. Em 7 de outubro de 2015, o Tribunal de Contas da União recomendou ao Congresso a rejeição das contas do governo de 2014 por conta das irregularidades, como as “Pedaladas fiscais”. Este aconselhamento do TCU ao Congresso, serviu de base para o pedido de impeachment, elaborado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Junior e Janaína Pascoal, entregue 86ao Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, em 21 de outubro de 2015.

No dia 8 de dezembro do mesmo ano, uma sessão secreta na Câmara dos Deputados elegeu uma chapa alternativa integrada por deputados de oposição e dissentes da base governista para a comissão especial do processo de impeachment. No mesmo dia o Ministro do STF, Luiz Edson Fachin, decidiu suspender através de decisão monocrática de liminar a formação e a instalação da comissão e determinou que os trabalhos fossem interrompidos até que o plenário do Supremo analisasse o caso.

Esta decisão teve raiz na renovação na medida cautelar proposta na ADPF 378, com o intuito de anular a decisão de recebimento da denúncia e garantir o voto aberto. No dia 16 de dezembro ocorreu o julgamento da ADPF 378.

Decidiu o plenário daquele Tribunal a forma constitucional de condução do processo de impeachment. Assim sendo:

1) Pode se aplicar subsidiariamente o Regimento Interno da Câmara dos deputados e do Senado Federal, sem ofensa a reserva legal do artigo 85, parágrafo único, da CF/1988, desde que a matéria esteja relacionada a auto- organização interna dos órgãos legislativos e sendo compatível com a Constituição.

2) Assim como no IMS 21623/DF, não se aplica aos casos de impedimento e suspeição o Código de Processo Penal. Pode-se exigir imparcialidade de um magistrado, porém o parlamentar além de estar sujeito a Constituição e as leis, também está submetido á vontade de seus representantes.

3) O Senado Federal pode assumir a função acusatória, pois não se aplica as garantias de processo criminal comum ao procedimento de índole política.

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G1. Da eleição á votação do impeachment. Disponível em:

http://especiais.g1.globo.com/politica/2016/processo-de-impeachment-de-dilma/da-eleicao-a-votacao-do- impeachment/ Acesso em : 21 de abril de 2016.

4) A defesa tem o direito de se manifestar após a acusação. 5) O interrogatório deve ser o ato final da instrução.

6) Recebida a denúncia da Câmara dos Deputados poderá o Senado utilizar-se do juízo de admissibilidade e uma vez aceito o pedido de impeachment ocorre o afastamento do Presidente da República.

7) O voto deve ser aberto, para que o procedimento tenha a maior transparência possível. O voto aberto foi a (Ratio) da decisão do caso Collor.

A decisão do STF manteve coerência com as decisões tomadas no caso Fernando Collor. Não quer dizer que o Tribunal está ligado ao passado ou desatualizado, mas caso tivesse a intenção de modificar as decisões tomadas em casos de impedimento semelhantes precisaria assumir o respectivo ônus argumentativo: teria que trazer decisão definida anteriormente e mostrar os acertos e desacertos ali tomada face a uma renovada compreensão da Constituição.

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