2. A corrupção nos ordenamentos jurídicos do Brasil e de Portugal: análise comparada
2.6 Impedimentos dos titulares de cargos políticos
Algumas atividades são incompatíveis com o exercício de cargos políticos, pois é inegável os ocupantes desses cargos situam-se em uma posição de vantagem em relação aos demais cidadãos no que se refere a transações com a Administração Pública, como, por exemplo, o fornecimento de bens e serviços.
Essas incompatibilidades ou impedimentos servem para resguardar a Administração Pública em relação à preservação da supremacia do interesse público sobre o privado de forma específica e, de modo geral, também protegem o detentor do cargo político, evitando que a tensão que possa existir no exercício de duas ou mais atividades, quando há conflitos de interesses, o leve a optar pelos seus interesses, assim funcionando como importante mecanismo no combate à corrupção.
Nesse sentido, a lei portuguesa N.º 64/9390, de 26 de agosto, definiu o regime de incompatibilidades e impedimentos dos titulares de cargos políticos e altos cargos públicos.
Mencionado diploma legal determina de forma obrigatória na Assembleia da República um “registro de interesse”, sendo facultativo nas autarquias. Esse registro consiste na inscrição, em livro próprio, de todas as atividades susceptíveis de gerarem incompatibilidades ou impedimentos e quaisquer atos que possam proporcionar proveitos financeiros ou conflitos de interesses, nos termos do artigo 7.o-A, N.o 291.
Em referência ao “registro de interesses”, a Lei n.º 64/93 ainda prevê a publicidade e acesso para consulta por qualquer cidadão que solicitar, conforme o artigo 7.o-A, N.o 5, o que é deveras positivo como elemento facilitador do controle das atividades daqueles que são titulares de cargos políticos.
Há ainda previsão de impedimentos aplicáveis às sociedades que não podem ter participação societária de titular de órgão de soberania ou titular de cargo político, ou alto cargo público, cuja participação seja superior a 10%. Alcança o impedimento, ainda, o cônjuge, os
90 Lei n.º 64/93, de 26 de agosto que definiu o “regime de incompatibilidades e impedimentos dos titulares de cargos
políticos e altos cargos públicos” (com as alterações introduzidas pela Lei n.º 39-B/94, de 27 de dezembro, Lei n.º 28/95, de 18 de agosto, Lei n.º 12/96, de 18 de abril, Lei n.º 42/96, de 31 de agosto, Lei n.º 12/98, de 24 de fevereiro, Decreto-Lei n.º 71/2007, de 27 de março, Lei n.º 30/2008, de 10 de julho, e Lei Orgânica n.º 1/2011, de
30 de novembro). Disponível em: <http://www.igf.min-
financas.pt/inflegal/bd_igf/bd_legis_geral/leg_geral_docs/Lei_064_93.htm>. Acesso: 12/03/2013.
91 São inscritos os seguintes fatos: a) Actividades públicas ou privadas, nelas se incluindo actividades comerciais ou
empresariais e, bem assim, o exercício de profissão liberal; b) Desempenho de cargos sociais, ainda que a título gratuito; c) Apoios ou benefícios financeiros ou materiais recebidos para o exercício das actividades respectivas, designadamente de entidades estrangeiras; d) Entidades a quem sejam prestados serviços remunerados de qualquer natureza; e) Sociedades em cujo capital o titular, por si, pelo cônjuge ou pelos filhos, disponha de capital.
ascendentes e descendentes em qualquer grau e os colaterais até ao 2.º grau. Esse impedimento se refere à participação em concursos de fornecimento de bens ou serviços, no exercício de atividade de comércio ou indústria, em contratos com o Estado e demais pessoas coletivas públicas.
No caso do Brasil, os impedimentos92 impostos aos deputados e senadores, estão previstos na própria Constituição da República Federativa do Brasil, que em seu artigo 54 enumera os impedimentos considerando dois momentos distintos, sendo o primeiro desde a expedição do diploma e o segundo a posse.
É vedado aos Deputados e Senadores desde a expedição do diploma: a) firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público, salvo quando o contrato obedecer a cláusulas uniformes; b) aceitar ou exercer cargo, função ou emprego remunerado, inclusive os de que sejam demissíveis ad nutum, nas entidades constantes da alínea anterior, nos termos do artigo 54, Constituição Federal.
O mesmo dispositivo constitucional estabelece os impedimentos a partir da posse, são eles: a) ser proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada; b) ocupar cargo ou função de que sejam demissíveis “ad nutum”, nas entidades referidas no inciso I, a; c) patrocinar causa em que seja interessada qualquer das entidades a que se refere o inciso I, a; d) ser titulares de mais de um cargo ou mandato público eletivo”.
Ao que parece, a lei portuguesa andou bem, pois privilegia vários princípios da Administração Pública, dentre eles a publicidade, a transparência e o interesse público, enquanto a previsão do artigo 54 da Constituição da República Federativa Brasileira se limita a reunir um rol de vedações aos parlamentares da esfera federal.
Ademais, a Lei N.º 64/93, além das vedações impostas durante o exercício do cargo público, traz a previsão de um período de quarentena, tempo esse em que , hipoteticamente, o titular do cargo ainda exerceria influência no âmbito da Administração Pública. Outro aspecto que se mostra de forma bastante positiva é o alcance alargado da norma, que se estende até o cônjuge, os seus ascendentes e descendentes em qualquer grau e colaterais até ao 2.º grau, pois,
92 Tramita na Câmara dos Deputados o PLC - PROJETO DE Lei DA CÂMARA, Nº 26 de 2012, que Dispõe sobre o
conflito de interesses no exercício de cargo ou emprego do Poder Executivo federal e impedimentos posteriores ao exercício do cargo ou emprego; e revoga dispositivos da Lei nº 9.986, de 18 de julho de 2000, e das Medidas Provisórias nºs 2.216-37, de 31 de agosto de 2001, e 2.225-45, de 4 de setembro de 2001. aprovado, 27/03/2013, pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).
estando estes dentro do convívio íntimo familiar do titular de cargo político, podem gozar da influência dele.