3 A CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMPENHORABILIDADE SALARIAL
3.2 IMPENHORABILIDADE DE ACORDO COM O CÓDIGO DE PROCESSO
Em um primeiro momento, importante registrar que, ao serem analisadas as alterações que a Lei n.º 13.105/2015 trouxe, comparadas com a redação da Lei n.º 5.869/1973, no que toca à impenhorabilidade, é possível identificar o Código de Processo Civil de 1973 tratava a impenhorabilidade salarial da seguinte forma:
Art. 649. São absolutamente impenhoráveis: [...]
IV – os vencimentos, subsídios, soldos, salários, remunerações,
proventos de aposentadoria, pensões, pecúlios e montepios; as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, observado o disposto no § 3º deste artigo;
[...]
§ 2º O disposto no inciso IV do caput deste artigo não se aplica no caso de penhora para pagamento de prestação alimentícia.
§ 3º VETADO. (BRASIL, 1973).
Já o atual Diploma Processual Civil, disciplina a matéria em seu artigo 833, nos seguintes termos:
Art. 833. São impenhoráveis: [...]
IV – os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as
remunerações, os proventos de aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, ressalvado o § 2º;
[...]
§ 2º O disposto nos incisos IV e X do caput não se aplica à hipótese de
independentemente de sua origem, bem como às importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais, devendo a constrição observar o disposto no art. 528, § 8º, e no art. 529, § 3º. (BRASIL, 2015).
Percebe-se que a atual redação exprimiu o termo “absolutamente”, que se encontrava no caput do artigo 649 da Lei n.º 5.869/1973.
Sobre isso, alguns doutrinadores defendem que o atual texto legal relativizou a questão da impenhorabilidade no momento em que exprimiu esse termo.
Nesse sentido, alega Serrano:
A nova lei retirou do caput o advérbio “absolutamente”, aumentou as hipóteses de impenhorabilidade, porque acrescentou espécies assemelhadas aos salários, manteve a ressalva para o pagamento de prestação alimentícia, agregando a expressão “independentemente de sua origem”, e facultou a penhora das importâncias salariais e assemelhadas superiores a 50 salários mínimos mensais. (2016, p. 5).
Aliás, de acordo com Neves (2018, p.1134), “a humanização da penhora vem ao encontro com os princípios da dignidade da pessoa humana e o mínimo existencial”.
Esse é o entendimento que se tem pois, conforme vislumbrado anteriormente, o princípio da dignidade da pessoa humana tem um caráter social. A legislação infraconstitucional deverá buscar a eficácia na expropriação dos bens de maneira digna ao devedor, garantindo que ele tenha um tratamento igualitário no processo.
No mesmo sentido, deverá ser respeitado o mínimo existencial, de modo que no momento da expropriação dos bens do devedor, não poderá o juízo reduzir a zero os bens do devedor para garantir o cumprimento da obrigação. Sem o respeito desses limites, o devedor poderia ser tratado como parte espectadora do processo, esperando que tudo fosse retirado de si, ao ponto de que não teria nem ao menos a sua subsistência garantida.
Destarte, a impenhorabilidade pode ser entendida como sendo o rol de objetos previsto na legislação, que não poderão ser incluídos no montante considerado passível de exaurimento para que sirva na satisfação da dívida junto ao credor. (Serrano, 2016).
Quanto à impenhorabilidade, de acordo com o atual Código de Processo Civil, tem-se os bens que não podem ser alvos da penhora, sendo previsto no artigo 833 da seguinte maneira:
Art. 833. São impenhoráveis:
I - os bens inalienáveis e os declarados, por ato voluntário, não sujeitos à execução;
II - os móveis, os pertences e as utilidades domésticas que guarnecem a residência do executado, salvo os de elevado valor ou os que ultrapassem as necessidades comuns correspondentes a um médio padrão de vida;
III - os vestuários, bem como os pertences de uso pessoal do executado, salvo se de elevado valor;
IV - os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as remunerações, os proventos de aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, ressalvado o § 2º;
V - os livros, as máquinas, as ferramentas, os utensílios, os instrumentos ou outros bens móveis necessários ou úteis ao exercício da profissão do executado;
VI - o seguro de vida;
VII - os materiais necessários para obras em andamento, salvo se essas forem penhoradas;
VIII - a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada pela família;
IX - os recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação compulsória em educação, saúde ou assistência social; X - a quantia depositada em caderneta de poupança, até o limite de 40 (quarenta) salários-mínimos;
XI - os recursos públicos do fundo partidário recebidos por partido político, nos termos da lei;
XII - os créditos oriundos de alienação de unidades imobiliárias, sob regime de incorporação imobiliária, vinculados à execução da obra. § 1º A impenhorabilidade não é oponível à execução de dívida relativa ao próprio bem, inclusive àquela contraída para sua aquisição. § 2º O disposto nos incisos IV e X do caput não se aplica à hipótese de
penhora para pagamento de prestação alimentícia,
independentemente de sua origem, bem como às importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais, devendo a constrição observar o disposto no art. 528, § 8º, e no art. 529, § 3º. § 3º Incluem-se na impenhorabilidade prevista no inciso V do caput os equipamentos, os implementos e as máquinas agrícolas pertencentes a pessoa física ou a empresa individual produtora rural, exceto quando tais bens tenham sido objeto de financiamento e estejam vinculados em garantia a negócio jurídico ou quando respondam por dívida de natureza alimentar, trabalhista ou previdenciária. (BRASIL,2015).
Observa-se que o artigo legal acima mencionado traz os bens que não podem ser objeto da penhora, contudo, o mesmo dispositivo prevê exceções. (BRASIL, 2015).
Com isso, nota-se que o legislador ordinário permitiu a penhora dos bens arrolados no artigo 833 do Diploma Processual Civil, em casos de prestação alimentícia ou, ainda, no caso em que o devedor tenha renda mensal superior ao montante de cinquenta salários mínimos. (BRASIL, 2015).
Entende-se que o rol dos bens impenhoráveis é taxativo, bem como que para ser classificado como impenhorável o objeto deverá ser exatamente o que se encontra positivado na legislação.
Nesse sentido, Marcus Vinicius salienta que “Somente são sujeitos à execução os bens que podem ser penhorados, isto é, aqueles corpóreos ou incorpóreos, que tenham valor econômico, e que a lei não tenha tornado impenhoráveis.”. (GONÇALVES, 2017, p. 944).
A legislação também prevê que em casos em que não é possível penhorar outros bens para a satisfação da obrigação, poderá ser realizada a penhora dos frutos e rendimentos dos itens previstos no artigo 833 do Código de Processo Civil (2015), cuja previsão se encontra no artigo 834 da seguinte forma: “Podem ser penhorados, à falta de outros bens, os frutos e os rendimentos dos bens inalienáveis.”. (BRASIL, 2015).
No que se refere à penhora salarial, a mesma será abordada no tópico que segue.