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Imperativos de Interoperabilidade e Integração

5. O GOVERNO ELECTRÓNICO EM PORTUGAL – A IMPLEMENTAÇÃO

5.3. Implementação do Governo Electrónico

5.3.2. Implicações e Mudanças no “Interior” do Sector Público

5.3.2.4. Imperativos de Interoperabilidade e Integração

A União Europeia foi uma das pioneiras no tratamento das questões de interoperabilidade, nomeadamente a Comissão Europeia no desenvolvimento do Guia de Interoperabilidade Europeu211, iniciativa do programa IDA212. O objectivo desta iniciativa foi o de responder às necessidades de administrações, empresas e indivíduos, de interagir com serviços públicos de múltiplos países213, garantindo a homogeneização entre sistemas, redução dos riscos e custos de “interoperação”. Com o mesmo objectivo e à imagem da União Europeia, começou a ser definido em 2004 em Portugal o e- [email protected]

209 Exemplos de standard proprietários ou fechados são os Graphic Interchange Format (GIF),

Ritch Text Format (RTF) ou Portable Document Format (PDF).

210 Exemplos de standard livres ou abertos são o Structured Query Language (SQL) ou o

eXtensible Markup Language (XML).

211 O EIF - European Interoperability Framework.

212 O IDA - Interchange of Data between Administration. A partir de 2005 iniciou-se o IDABC, seu “sucessor”.

213 Como por exemplo, o matrimónio entre cidadãos de países diferentes, a gestão de concursos públicos internacionais ou a necessidade da segurança social de um país aceder à

informação de outros países para o cálculo de pensões.

214 Guia de Interoperabilidade da Administração Pública Portuguesa. Resultante do

eGovernment Interoperability Framework (disponível em http://ec.europa.eu/idabc/en/document/3473/5585#finalEIF.

Quadro XIV - Benefícios da Existência do e-Gi@p em Portugal

Para a

Administração Pública

Facilita a disponibilização de serviços integrados, através da redução do esforço, dos custos e dos riscos;

Permite a homogeneização dos sistemas de informação;

Potencia a melhoria da qualidade e não duplicação da informação.

Para os Fornecedores

Permite a participação na definição das especificações;

Enquadra a oferta de produtos e serviços, através da clarificação das normas a adoptar na Administração Pública.

Para o Cidadão

Potencia o acesso normalizado à informação e aos serviços electrónicos; Imprime maior rapidez na disponibilidade de serviços em linha;

Permite o acesso a serviços integrados, disponibilizados numa óptica de “evento da vida” e não da estrutura interna da Administração Pública. Fonte: Guia de Interoperabilidade na Administração Pública e-GI@P, UMIC

Estas e outras iniciativas surgem, porque a interoperabilidade tornou-se numa necessidade premente. À medida que aumenta o impacto das tecnologias de informação e se vai caminhado nos graus de maturidade do governo electrónico, aumenta necessariamente a interactividade, inicialmente restrita ao acesso digital à informação, porém nos estádios de maior maturidade deve ser possível comunicar e trabalhar em conjunto, através de sistemas do “tipo” de gestão documental ou workflow, automatizando processos até aqui independentes. A comunicação, colaboração e cooperação entre as diferentes estruturas, e destas com os seus pares, são factores críticos de sucesso para a interacção plena e alcance da desejada lógica do ask once,

use many.

Define-se interoperabilidade “como a faculdade de múltiplos sistemas trocarem e reutilizarem informação sem custo de adaptação, preservando o seu significado”, a “interoperabilidade não é apenas uma conexão simples entre computadores em rede para transporte de dados digitais” (UMIC, 2004). A interoperabilidade em sentido abrangente pode ser definida “como a capacidade de múltiplos recursos (sistemas, dispositivos, pessoas e organizações), produzirem, em conjunto, trabalho ou informação de uma forma eficiente” (UMIC, 2004). A partilha de dados, informação e conhecimento entre as diferentes estruturas implica necessariamente o aparecimento de três tipos de relações, máquina/máquina, homem/máquina e homem/homem, implicando não só a compatibilização técnica das tecnologias e seus sistemas, como a reorganização dos processos organizacionais e a compatibilização semânticas da informação. Assim, a interoperabilidade pode ser classificada de acordo com três dimensões:

“Interoperabilidade Técnica - Capacidade de sistemas e dispositivos trocarem dados com fiabilidade e sem custo acrescido”;

“Interoperabilidade Organizacional – Capacidade de cooperação entre entidades, obtida pela compatibilização de processos, canais, motivações e outros elementos que facilitam a obtenção de fins comuns” e

“Interoperabilidade Semântica - Capacidade de manter o significado da informação em circulação, obtida pela utilização controlada de terminologias, taxionomias e esquemas de dados” (UMIC, 2004).

Figura 34 – Interoperabilidade Repositório de Metadados Repositório de Metadados Repositório de Metadados Guia de Interoperabilidade

Meta Dados ProcedimentosProcedimentosNormas e Normas e

Interoperabilidade semântica Interoperabilidade organizativa Interoperabilidade técnica

Fonte: Adaptado do Relatório do Planeamento Estratégico do Sistema Integrado dos Recursos da Administração Pública – SIGRAP (Deloitte, 2004)

Para pôr em prática o “modelo” em análise nesta dissertação, é fundamental criar condições de interoperabilidade nas diferentes estruturas orgânicas públicas, onde a presente desarticulação é resultado do desenvolvimento de arquétipos parcelares e sistemas legados, despreocupados com os requisitos de inter-operação. Ao longo do tempo o aparecimento de uma determinada necessidade incentivou respostas diferenciadas, normalmente apoiadas em múltiplas soluções tecnológicas. Contudo, este tipo de visão a curto/médio prazo tornou-se contraproducente do ponto de vista da interoperabilidade e integração. A interoperabilidade procura garantir que os dados e informação são compreensíveis por outros sistemas desenvolvidas separadamente, ou que não foram desenvolvidas desde o início com este propósito. Para alcançar a interoperabilidade deve ser feito um esforço de aproximação de normas e regras nas diferentes dimensões, técnica, organizacional e semântica.

Do ponto de vista da interoperabilidade técnica, existem alguns avanços relativamente às outras dimensões, cada vez mais são desenvolvidos e difundidos standards comuns,

interfaces de recepção, ferramentas que permitem o acesso aos dados ou informação

de outros sistemas, ou até a ligação a sistemas legados, por outro lado a introdução de

standards abertos e universais no sector público garante o acesso gratuito ao código,

coloca as organizações em “pé de igualdade” e facilita a cooperação e a generalização na utilização, sobretudo pelo maior conhecimento e domínio da “fonte”. Do ponto de vista organizacional e semântico, é necessário garantir que as diferentes estruturas orgânicas do sector público executem os seus processos de modo compatível, baseados em conceitos comuns. Para assegurar este nível de interoperabilidade, devem ser estabelecidos “pactos” na concepção, desenvolvimento e aplicação dos processos organizacionais, conceber e garantir arquitecturas, “mapas” que funcionem como guias de actuação e normalização, baseados em frameworks comuns. Reconhece-se a grande complexidade que este propósito incorpora, em parte, fundamentada nos valores, modelos de gestão, “linguagens”, culturas e regras organizacionais internas bastante heterogéneas no seio do sector público português.

Segundo o SIGRAP (Deloitte, 2004) a informação no sector público português encontra- se de modo geral descoordenada, dispersa, desactualizada e não é fiável, não permitindo uma gestão integrada dos recursos.215 Analisando o cenário traçado neste relatório, pode não só concluir-se que algumas das premissas estruturais à interoperabilidade e integração são uma miragem, como que em Portugal os decisores tomam muitas decisões sem informação de suporte, ou com informação não fidedigna, ou cujo período temporal está desadequado, em muitos domínios detendo ainda informação redundante, o que é sinónimo de erros, contradições e custos desnecessários. Sem uma verdadeira integração da informação, repositórios centralizados, bases de dados comuns, não é possível garantir representações únicas, actuais e consistentes e obter uma informação tão elementar, como o balanço, o balanço social ou o inventário dos bens patrimoniais do Estado. Sem uma estrutura “informacional interoperável”, coordenada e integrada não será possível obter as “fundações certas” para uma gestão consciente e coerente no sector público português.