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1 CONTEXTUALIZANDO A REALIDADE E A ATUALIDADE

1.1 IMPERIALISMO, CAPITALISMO DEPENDENTE E SISTEMA-

HETEROSSEXISTA...)

O eurocentrismo típico das teorias científicas, que encobrem a diferença colonial e apresentam a cegueira etnocêntrica daquele que se julga a si mesmo como portador da maior objetividade e imparcialidade possível, ao passo que o Outro sempre como detentor da maior subjetividade e parcialidade de análise, pode ser desvelado na constatação de que os grandes projetos de expansão de um modo de vida específico e contextualizado – ocidental -, pretendeu-se universal e legitimamente representativo dos anseios de evolução humana. A colonialidade enquanto exercício de poder e classificação racial do mundo igualmente naturalizou as experiências de exclusão em razão da construção da raça como diferença política. Diferenças estas que aproximamos em termos de construção de alteridades subalternas: associadas ao classismo intrínseco da sociedade organizada pela privatização das relações sociais de produção; à divisão sexual naturalizada de papéis de gênero; e também à reprodução social da heteronormatividade (ou heterossexualidade compulsória) como forma “natural” de externalização dos afetos, indicando o modelo padronizado de sociabilidade que indica a colonização do dever-ser do exercício de sexualidade. A matriz descolonial de pensamento latino-americano cobra a explicitação e a desconstrução destas categorias socialmente produzidas, apontando a necessidade de fazer-se o resgate histórico da colonialidade como esquema mental da modernidade (o outro lado de sua moeda).

Através do desenvolvimento da racionalidade iluminista, outras epistemes, matrizes culturais não-européias, foram negadas, silenciadas, aniquiladas, subalternizadas – configurando um perfeito epistemicídio (SANTOS, 2008) e genocídio cultural, de difícil reparação. As interações com o ambiente produzidas por outros povos revelam cosmogonias distintas, e, tanto as análises das relações de exclusão e dominação de gênero quanto de classe – já bem desenvolvidas pelo centro do sistema através da teoria marxista, e teorias feministas a ela conjugadas – possuem suas simetrias em comparação às relações de dominação colonial com base na diferenciação/inferiorização racial para a legitimação imperialista.

Daí se falar na base geopolítica do conhecimento, em que, dependendo de onde se produzam os discursos científicos – avalizados pela objetividade científica e pela superioridade técnica –, diferentes saberes serão classificados e hierarquizados através do mesmo critério: o lugar de onde se fala, a autoridade da fala e sua imperatividade. Edgardo Lander, na linha da crítica às matrizes dos saberes modernos/coloniais e sua “eficácia neutralizadora” (pois naturalizam, absolutizam e universalizam as relações que constituem), dimensiona nas “sucessivas separações ou partições do mundo ‘real’ que se dão historicamente na sociedade ocidental e as formas como se vai construindo o conhecimento sobre as bases desse processo de sucessivas separações” uma das fontes constitutivas da scientia moderna (LANDER, 2005, p. 22-23):

Uma primeira separação da tradição ocidental é de origem religiosa. Um substrato fundamental das formas particulares do conhecer e do fazer tecnológico da sociedade ocidental é associado por Jan Berting à separação judaico-cristã entre Deus (o sagrado), o homem (o humano) e a natureza. De acordo com Berting (1993), nesta tradição (citando Berting) “Deus criou o mundo, de maneira que o mundo mesmo não é Deus, e não se considera sagrado. Isto está associado à idéia de que Deus criou o homem à sua própria imagem e elevou-o acima de todas as outras criaturas da terra, dando- lhe o direito […] a intervir no curso dos acontecimentos na terra. Diferentemente da maior parte dos outros sistemas religiosos, as crenças judaico-cristãs não estabeleceram limites ao controle da natureza pelo homem.[…] De acordo com Max Weber, o cristianismo herdou do judaísmo a hostilidade ao pensamento mágico. Isto abriu o caminho para importantes conquistas econômicas, já que as idéias mágicas impõem severas limitações à racionalização da vida econômica. Com a chegada do ascetismo protestante, esta desmitificação do mundo se completou” (BERTING apud LANDER; LANDER, 2005, p. 23-24).

De modo que não figurem mais os modelos paradigmáticos e limitados de compreensão da modernização, que balizaram por tanto tempo os marcos político-econômicos e almejaram modelar as relações

societais dentro de um padrão civilizatório próximo ao ideal europeu de Estado-nação (e, assim, excluindo a possibilidade da plurinacionalidade em jogo nos contextos étnicos tão diversos, como recentemente se propõe o reconhecimento dos Estados plurinacionais da América Latina) e que, além disso, forjou uma consciência científica padronizada em termos geopolíticos e em relação ao conhecimento acadêmico (o saber tecnocientífico válido e sua episteme hierarquizante e classificatória que desqualificam saberes outros – gnosiologias liminares/fronteiriças [MIGNOLO, 2003]), é o grande desafio para os projetos que estão em jogo dentro dos novos desenlaces políticos dos países latino-americanos e a reconstrução social de suas identidades políticas.

Como afirmou Florestan Fernandes, “(e)m certa medida, o estilo de pensar a realidade social pode ser um modo de iniciar a sua transformação” (IANNI, 2008, p. 7). Nesta esteira, o desenvolvimento dos processos de produção intercultural e trocas translocais em nossa região estão profundamente relacionadas com a importância da especificidade histórica da colonização latino-americana por parte das metrópoles europeias. Neste passado comum, nestes “males de origem”, situamos conceitos-chave para a interpretação da realidade contemporânea de dependência epistêmica (relativa a uma economia política e divisão internacional do trabalho científico – e de seu saber autorizativo), coadunado com a marginalização econômica. A localização periférica no sistema-mundo moderno capitalista revela, como brilhantemente exposto por Ruy Mauro Marini, uma dependência econômica com funcionalidade às relações subimperialistas por parte do colonialismo interno e das alianças das burguesias nacionais latino- americanas com o capitalismo internacional:

Para lutar contra o imperialismo é indispensável entender que não se trata de um fator externo à sociedade nacional latino-americana, mas, pelo contrário, forma o terreno no qual esta sociedade finca suas raízes e constitui um elemento que a permeia em todos os seus aspectos (MARINI, 2013, p. 27-28).

Com a infestação de regimes militares no século XX, mas principalmente a partir da segunda metade, relações “informais” de autoritarismo propicia uma lógica de industrialização modernizante com profundos traços entreguistas e de submissão ao alinhamento ao capital internacional monopolista. Como o estímulo ao crescimento industrial é

articulado com a permanência de formas tradicionais de produção e exportação de bens primários (idem, p.29), esta industrialização, num contexto de dependência, é desigual e “dá lugar a diferentes graus de desenvolvimento industrial (e, portanto, de composição orgânica do capital) nos países dependentes” (idem, p.39).

A dinâmica colombiana insere-se neste contexto de militarização (tendo em vista principalmente o conflito armado prolongado) e de industrialização dependente. A geopolítica do imperialismo na América Latina opera de formas sutis em todo o continente – e desigualmente, dadas as relações desiguais e a existência do subimperialismo intra- regional, como explicitado por Marini, paralelo ao colonialismo interno.

Paralelamente, as políticas de militarização apontam para um reforço desta ordem imposta pelo desenvolvimento da hegemonização, realização e acumulação de capital – a capitalização das relações sociais, das formas jurídicas e políticas dos Estados nacionais latino-americanos. O autor nos dá uma dimensão bastante sofisticada da dinâmica interna de desenvolvimento da hegemonia burguesa das elites econômicas latino- americanas, porquanto operadoras de uma concretização (o que Florestan, em sua obra-prima “A Revolução Burguesa no Brasil”, esclareceria de forma singular). Diz Marini, referindo-se à expressão - ou vocação – subimperialista do Brasil, observável principalmente a partir do golpe militar de 1964. (p.41):

A conversão de um país em um centro subimperialista (…) corresponde, por um lado, ao surgimento de pontos intermediários na composição orgânica do capital em escala mundial – na medida em que aumenta a integração dos sistemas de produção – e, por outro, à chegada de uma economia dependente à fase do monopólio e do capital financeiro (idem, p.41).

Estes pontos intermediários são responsáveis pela coexistência de formações ambíguas internamente aos Estados latino-americanos, pela ação conservadora de seus representantes em relação ao conjunto da nação. Historicamente vinculados às elites no poder, o aburguesamento de nossas sociedades se prestou unicamente a promover benefícios particulares às custas de uma aliança com o capital internacional:

[…] para conter as forças revolucionárias, o setor dominante da classe burguesa fez uso de sua hegemonia política, sempre ligada ao Estado, utilizando tanto da propaganda, forjada especificamente para pregar sua ideologia, e assim legitimar sua dominação, quanto do aparato opressivo e repressivo. (FERNANDES, 2000, p.125 apud CORREA, 2010, p.102).

A experiência do conflito armado e social na história política recente e no presente colombiano, seus elementos (como o paramilitarismo, a “guerra suja”; “guerra de baixa intensidade, etc.) e seu desfecho podem muito bem apontar para uma tendência recorrente na nossa região. As imposições de que nossos problemas sejam de alguma forma impossivelmente solucionados dentro da ordem deixa entrever o que Florestan dizia: “na América Latina, não são só as revoluções que são interrompidas. As contra-revoluções também” (1986, p.9).

1.2 AUTORITARISMOS, POLÍTICAS SEXUAIS DO TERROR E

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