SR GEORGE MOORE começou a carreira literária escrevendo confissões pessoais; não há nenhum
mal nisso, caso não tivesse continuado por toda a vida. Ele é um homem de idéias genuinamente vigorosas, com grande domínio de um tipo de persuasão retórica e fugaz que tanto provoca quanto agrada. Está num permanente estado de honestidade temporária. Reverenciou todos os maravilhosos excêntricos modernos até que não agüentassem mais. Tudo o que escreve, é realmente necessário
admitir, tem um autêntico vigor mental. O relato dos motivos que o levaram a deixar a Igreja Católica Romana talvez seja o mais admirável tributo a tal comunidade religiosa escrito nos últimos anos. Fato é que a fraqueza que tornou estéreis as muitas habilidades do Sr Moore, na verdade, é a mesma que o melhor da Igreja Católica Romana combate. O Sr Moore odeia o catolicismo por quebrar a casa de espelhos em que vive. Não desagrada muito ao Sr Moore ser levado a crer na existência espiritual dos milagres ou dos sacramentos; mas, em essência, desagrada-lhe ser levado a crer na existência real de outras pessoas. Como o mestre Pater e demais estetas,194 a verdadeira desavença com a vida é por ela não ser um sonho que possa ser moldado pelo sonhador. Não é o dogma da realidade do outro mundo que o aborrece, mas o dogma da realidade deste mundo.
A verdade é que a tradição do cristianismo (que ainda é a única ética coerente da Europa) se apóia em dois ou três paradoxos ou mistérios que podem ser facilmente refutados por argumentos e, com igual facilidade, podem ser justificados pela vida. Um deles, por exemplo, é o paradoxo da esperança ou fé: quanto mais desesperadora é a situação, mais esperançoso deve ser o homem. Stevenson195 entendeu isso e, conseqüentemente, o Sr Moore não consegue entender Stevenson. Outro é o paradoxo da caridade ou do cavalheirismo: quanto mais indefesa é determinada coisa, tanto mais deveria nos parecer merecedora de algum tipo de defesa. Thackeray196 entendeu isso e, portanto, o Sr Moore não entende Thackeray. Ora, um dos mistérios práticos e funcionais da tradição cristã, e que a Igreja
Católica Romana, como sempre digo, faz excelente trabalho ao recordar, é a idéia da pecaminosidade do orgulho. O orgulho é uma fraqueza de caráter. Seca a alegria, faz murchar a admiração, torna árido o cavalheirismo e a energia. A tradição cristã compreende isso e, portanto, o Sr Moore não entende a tradição cristã.
Pois a verdade é ainda muito mais estranha do que parece na doutrina formal do pecado do orgulho. Não só é verdade que a humildade é uma coisa muito mais sábia e potente que o orgulho, como
também é verdade que a vaidade é uma coisa muito mais sábia e potente que o orgulho. A vaidade é social: é quase uma espécie de companheirismo; o orgulho é solitário e incivilizado. A vaidade é ativa; deseja o aplauso das grandes massas. O orgulho é passivo, desejando apenas o aplauso de uma pessoa, e que já o possui. A vaidade é bem-humorada e consegue apreciar um chiste, ainda que tenha sido sobre ela mesma; o orgulho é tedioso, e não consegue nem mesmo sorrir. Esta é toda a diferença que existe entre Stevenson e o Sr George Moore, que, como informa, “varreu Stevenson do
cenário”.197 Não sei para onde ele foi varrido mas, para onde quer que tenha ido, creio que está se divertindo, porque teve a sabedoria de ser vaidoso, e não orgulhoso. Stevenson tinha uma vaidade pomposa; o Sr Moore tem um egoísmo pomposo. Por isso, Stevenson podia se divertir, bem como nos divertir, com sua vaidade; ao passo que os mais ricos efeitos do absurdo do Sr Moore são
desconhecidos aos próprios olhos.
Caso comparemos esta insensatez solene e os ditosos disparates com que Stevenson enaltecia os próprios livros e censurava os próprios críticos, não será difícil supor por que Stevenson, ao menos, encontrou um tipo de filosofia última para viver, enquanto o Sr Moore está sempre vagando pelo mundo à cata de uma. Stevenson descobrira que o segredo da vida repousa no riso e na humildade. O ego é uma górgona.198 A vaidade a vê pelo espelho de outros homens e continua viva. O orgulho a vê diretamente e se transforma em pedra.
É necessário discorrer um pouco mais a respeito do defeito do Sr Moore, porque é realmente uma fraqueza da obra que não deixa de ter força. O egoísmo do Sr Moore não é mera fraqueza moral, é igualmente uma fraqueza estética constante e influente. Por certo estaríamos muito mais interessados no Sr Moore se ele não estivesse tão interessado em si mesmo. Sentimo-nos como se, conduzidos a uma galeria de belas pinturas, em cada uma delas, por alguma convenção inútil e contraditória, o artista representara a mesma figura na mesma pose. “O Grande Canal com uma vista distante do Sr Moore”, “O Sr Moore em meio à bruma escocesa”, “O Sr Moore próximo ao pé da lareira”, “As ruínas do Sr Moore à luz do luar”, e assim por diante, no que pareceria ser uma seqüência intermi nável. Sem dúvida, retorquiria que num livro desse tipo ele planejara se revelar.199 Contudo, a resposta é que um livro como este não teria sucesso. Um dos milhares de óbices ao pecado do orgulho é precisamente o seguinte: a consciência da necessidade destrói a auto-revelação. Um homem que presume ser muito importante tentará ser multiforme, buscará uma excelência aparatosa em todos os pormenores, tentará ser uma enciclopédia de cultura, e sua verdadeira personalidade será perdida num falso universalismo. Pensar ser muito importante o levará a tentar ser o universo; a tentativa de ser o universo o levará a deixar de ser. Se, por outro lado, um homem for sensível o bastante para pensar sobre o universo, ele o pensará em termos individuais. Manterá intocado o segredo de Deus; verá a grama como nenhum
outro homem conseguirá vê-la, e olhará para o sol como nenhum homem jamais olhou. Tal fato é apresentado, de modo costumeiro, nas Confissões do Sr Moore. Ao lê-las não sentimos a presença de uma personalidade distintiva como a de Thackeray ou a de Matthew Arnold. Apenas lemos diversas opiniões muito perspicazes e conflitantes que poderiam ser apresentadas por qualquer pessoa
inteligente, mas que evocam a nossa admiração, especificamente, porque são proferidas pelo Sr
Moore. Ele é o único filamento que liga catolicismo e protestantismo, realismo e misticismo – ele, ou melhor, seu nome. Está profundamente entusiasmado até por opiniões que não mai s sustenta, e espera que estejamos. Introduz um “Eu” com maiúscula, mesmo onde não há necessidade – ainda em lugares onde esse “Eu” reduz a força da afirmação óbvia. Em vez de dizer: “Hoje o dia está belo”, o Sr Moore diz: “Visto pelo meu estado de espírito, o dia parece belo”. Em lugar de dizer, como qualquer pessoa: “Evidentemente, Milton tem um estilo elegante”, o Sr Moore diria: “Como cultor do estilo, Milton sempre me comoveu”. O merecido castigo desse espírito egocêntrico é ser totalmente ineficaz. O Sr Moore já deu início a muitas cruzadas interessantes, mas as abandonou antes que os discípulos
principiassem. Até quando está do lado da verdade, o Sr Moore é tão inconstante quanto os filhos da falsidade. Mesmo quando encontra a realidade, não consegue encontrar descanso. Há uma qualidade irlandesa que nunca poderia faltar a nenhum irlandês: a belicosidade. Por certo, é uma grande virtude, especialmente em nossos dias. Todavia, o Sr Moore não tem a tenacidade de convicção que
acompanha o espírito lutador de um homem como Bernard Shaw. A falta de introspecção e o egoísmo não conseguem fazer com que deixe de lutar; mas sempre o impedirão de triunfar.
194 Sobre Walter Pater (1839–1894), ver capítulo VII e sobre a crítica de Chesterton aos estetas, ver capítulo VI.
195 Chesterton admirava muito Robert Louis Stevenson (1850–1894), tanto que, posteriormente, na obraThe Victorian Age in Literature (1913), disse a s eu respeito: “[Stevenson] parecia escolher a palavra exata com a ponta da caneta, como quem joga ‘pega varetas’” e em 1927 escreveu-lhe a biografia.
196 William Makepeace Thackeray (1811–1863) foi um romancista e ensaísta inglês, famoso por obras comoVanity Fair (1848), em que retrata de forma satírica a sociedade vitoriana.
197 O trecho, na verdade, é uma pergunta e está no prefácio da obraConfessions of a Young Man (1888), e diz: “Os que varri do cenário, onde estão? Stevenson […] virou um nada”. Moore ainda critica Stevenson por desperdiçar o talento na “graça do estilo”, e diz: “Digo, francamente, que o Sr R.L. Stevenson nunca escreveu uma linha que deixasse de me agradar; mas ele nunca escreveu um livro”.
198 Na mitologia grega, as górgonas eram mulheres monstruosas, com dentes enormes, garras de bronze e cabelos de serpente. Eram três irmãs – Medusa, Euríale e Esteno – que tinham o poder de metamorfosear em pedra quem, diretamente, as olhasse. Medusa, a única das górgonas que era mortal, foi decapitada por Perseu que pôde vê-la pela imagem refletida no escudo espelhado.