• Nenhum resultado encontrado

3.3 A Lei de Cotas

3.3.1 Implementação da Lei de Cotas

O artigo 8º da Lei nº 12.711/2012 estipulou um prazo máximo de 4 anos (a contar da publicação da lei) para que as entidades pudessem adaptar sua estrutura e orçamento para a implementação do número mínimo para a reserva de vaga, ou seja, a destinação de 50% das vagas.

O processo de implementação das reservas de vagas nas instituições federais de ensino superior está estabelecido na Portaria Normativa nº 18, de 11 de outubro de 2012.

A Portaria Normativa nº 18/2012 define no Art. nº 2 os principais elementos para compreensão adequada do que está determinado na lei, a saber: concurso seletivo, escola pública, família, morador, renda familiar bruta mensal e renda familiar bruta mensal per capita.

Além disso, a redação da portaria apresenta algumas definições para compreensão e atendimento aos critérios de reserva de vagas.

I - concurso seletivo, o procedimento por meio do qual se selecionam os estudantes para ingresso no ensino médio ou superior, excluídas as transferências e os processos seletivos destinados a portadores de diploma de curso superior;

II - escola pública, a instituição de ensino criada ou incorporada, mantida e administrada pelo Poder Público, nos termos do inciso I, do art. 19, da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996;

III - família, a unidade nuclear composta por uma ou mais pessoas, eventualmente ampliada por outras pessoas que contribuam para o rendimento ou tenham suas despesas atendidas por aquela unidade familiar, todas moradoras em um mesmo domicílio;

IV - morador, a pessoa que tem o domicílio como local habitual de residência e nele reside na data de inscrição do estudante no concurso seletivo da instituição federal de ensino;

V - renda familiar bruta mensal, a soma dos rendimentos brutos auferidos por todas as pessoas da família, calculada na forma do disposto nesta Portaria.

VI - renda familiar bruta mensal per capita, a razão entre a renda familiar bruta mensal e o total de pessoas da família, calculada na forma do art. 7o desta Portaria.

(PORTARIA Nº18, 2012)

Na definição do conceito de família (Art. nº 2, III), a portaria traz a compreensão de família associada à sua composição econômica, ou seja, a unidade familiar é vista como unidade econômica, estendendo sua composição às “pessoas que contribuam para o rendimento ou tenham suas despesas atendidas por aquela unidade familiar”, além do núcleo familiar (uma ou mais pessoas).

Para a observância do critério de renda, a portaria define o cálculo adequado para a definição da renda familiar bruta mensal, bem como da renda familiar bruta mensal per capita.

Em seus anexos, estipula os documentos mínimos necessários à comprovação, além de detalhar os procedimentos para a apuração da renda do candidato (a):

I - calcula-se a soma dos rendimentos brutos auferidos por todas as pessoas da família a que pertence o estudante, levando-se em conta, no mínimo, os três meses anteriores à data de inscrição do estudante no concurso seletivo da instituição federal de ensino;

II - calcula-se a média mensal dos rendimentos brutos apurados após a aplicação do disposto no inciso I do caput; e III - divide-se o valor apurado após a aplicação do disposto no inciso II do caput pelo número de pessoas da família do estudante.

(PORTARIA Nº 18, 2012)

A observância dos critérios acima, referentes à renda e à composição familiar, é fundamental para aqueles que pretendem concorrer às vagas destinadas a estudantes com renda familiar bruta mensal igual ou inferior a 1,5 (um vírgula cinco) salário-mínimo per capita.

Abreu (2019) afirma que a Política de Cotas considera como “pobre” o (a) estudante com renda familiar per capita igual ou inferior a um salário mínimo e meio, mesmo critério utilizado para caracterizar a vulnerabilidade socioeconômica dos (as) estudantes a serem assistidos (as) pelas ações do Programa Nacional de Assistência Estudantil - PNAES.

Percebe-se, no critério de renda definido na política, uma compreensão da pobreza em sua perspectiva unidimensional, na qual se considera o indivíduo pobre a partir de determinado valor estabelecido pelo poder público, com o enfoque monetário, “centrado na renda e/ou no acesso ao consumo” (BEZERRA, 2015, p. 296). Essa interpretação de pobreza, concebida segundo a condição econômica do indivíduo, está presente “nas formas de regulação social estatal brasileira, em especial, materializadas na Política Nacional de Assistência Social (PNAS), nos anos 2000” (BEZERRA, 2015, p. 296).

A portaria estabelece ainda que fica facultada às IFES, por meio de edital próprio, a requisição de documentos comprobatórios adicionais, além dos presentes na portaria citada.

Nesse mesmo edital, conforme Art. 8º da Portaria Normativa nº 18/2012, caberá à instituição estabelecer:

I - os prazos e formulários próprios para a prestação e a comprovação dos dados socioeconômicos pelo estudante, após a confirmação de sua classificação dentro do número de vagas reservadas para o critério de renda; II - os documentos necessários à comprovação da renda familiar bruta mensal per capita, observado o rol mínimo de documentos recomendados que consta do Anexo II a esta Portaria. III - o prazo e a autoridade competente para interposição de recurso em face da decisão que reconhecer a inelegibilidade do estudante às vagas reservadas para o critério de renda;

e IV - o prazo de arquivamento dos documentos apresentados pelos estudantes, que será no mínimo de cinco anos (BRASIL, 2012).

A definição das vagas será definida no Edital de cada seleção, obedecendo à reserva do percentual de 50% (cinquenta por cento) do total das vagas, por curso e turno, para os estudantes que tenham cursado integralmente o ensino fundamental ou médio, conforme o caso, em escolas públicas (Art. 10, II). Dentro do percentual mencionado, deverá ser reservado o

percentual de 50% (cinquenta por cento) do total de vagas, por curso e turno, para os (as) estudantes com renda familiar bruta igual ou inferior a 1,5 (um vírgula cinco) salário-mínimo per capita (Art.10, III).

Em relação aos critérios de raça e de deficiência, o percentual de vagas correspondente deverá ser proporcional à soma de pretos, pardos, indígenas e deficientes na população da unidade da Federação do local de oferta de vagas da instituição, segundo o último Censo Demográfico divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, incluindo-se nos percentuais acima mencionados. (Art. 10, II e III)

Com a inclusão de pessoas com deficiência no rol de favorecidos pelas cotas, houve alteração na legislação para inclusão desses candidatos. Segundo o novo texto, disposto na Portaria Normativa nº 9, de 5 de maio de 201779, para garantir uma das vagas destinadas a candidatos com deficiência, deve-se comprovar a deficiência por meio da apresentação de laudo médico atestando a espécie e o grau da deficiência, com expressa referência ao código correspondente da Classificação Internacional de Doença – CID (Portaria Normativa nº 9/2017).

Quanto à classificação, a Portaria Normativa nº 9/2017 define que as vagas reservadas deverão ser preenchidas obedecendo a seguinte ordem:

Art. 14. As vagas reservadas serão preenchidas segundo a ordem de classificação, de acordo com as notas obtidas pelos estudantes, dentro de cada um dos seguintes grupos de inscritos:

I - estudantes egressos de escola pública, com renda familiar bruta igual ou inferior a 1,5 (um e meio) salário-mínimo per capita:

a) que se autodeclararam pretos, pardos e indígenas:

1. que sejam pessoas com deficiência;

2. que não sejam pessoas com deficiência.

b) que não se autodeclararam pretos, pardos e indígenas:

1. que sejam pessoas com deficiência;

2. que não sejam pessoas com deficiência.

II - estudantes egressos de escolas públicas, com renda familiar bruta superior a 1,5 (um e meio) salário-mínimo per capita:

a) que se autodeclararam pretos, pardos e indígenas:

1. que sejam pessoas com deficiência;

2. que não sejam pessoas com deficiência.

b) que não se autodeclararam pretos, pardos e indígenas;

1. que sejam pessoas com deficiência;

2. que não sejam pessoas com deficiência.

III - demais estudantes.

79 Altera a Portaria Normativa MEC nº 18, de 11 de outubro de 2012, incluindo as pessoas com deficiência no rol de beneficiados na Política de cotas, obedecendo aos preceitos de igualdade de oportunidades da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LEI Nº 13.146/2015).

O acompanhamento da política, segundo informações presentes no site do Ministério da Educação (MEC), deverá ser realizado por um comitê composto por representantes do Ministério da Educação, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e da Fundação Nacional do Índio (Funai), bem como com a participação de representantes de outros órgãos (não especificados) e entidades e da sociedade civil.

Quanto à vigência da Política de Cotas, o texto legal dispõe que deverá ser promovida a revisão do programa no prazo de dez anos, após sua publicação, o que deverá acontecer no ano de 2026, tendo em vista sua renovação em 2016, com a inclusão de pessoas com deficiência (Lei nº 13.409, de 28 de dezembro de 2016).

As palavras do Ministro da Educação da época, Aloizio Mercadante, durante evento no MEC, que apresentou os documentos da política à imprensa, justificam a temporalidade da referida ação afirmativa, segundo ele, “a política de ações afirmativas é sempre feita de forma temporária. O objetivo dela é corrigir uma desigualdade, uma distorção” (MEC, 2012).

A Política de Cotas teve sua regulamentação durante o primeiro governo de Dilma Roussef (2011–2014), no entanto, conforme exposto anteriormente, o debate a respeito da disposição de vagas em instituições públicas de ensino superior já estava presente no governo anterior.

Importante destacar que, ainda que o Projeto de Lei 73/1999 tenha sido o propulsor do texto legal regulamentado hoje, tal projeto não contemplava o critério de raça ou de renda para a distribuição de vagas nas IFES, limitava-se, apenas, a propor um sistema de seleção alternativo ao vestibular tradicional. Os critérios raciais e de origem escolar só foram incluídos no dispositivo legal a partir da proposta presente no Projeto de Lei nº 3.627/2004, encaminhado para apreciação durante o período presidencial de Lula (2003-2010).

Há que se destacar o pioneirismo de diversas universidades no tocante à adoção de reserva de vagas para inserção de grupos considerados minoria no acesso ao ensino superior, muito antes da exigência legal, posta pela Lei nº 12.711/2012. É o caso das instituições estaduais Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), que, em 2003, implementaram em seus cursos de graduação reserva de vagas para estudantes oriundos do sistema público de ensino, bem como de candidatos negros e pardos.80 A partir dessas experiências, outras universidades passaram a utilizar ações de caráter

80Atualmente, a reserva de vagas nas universidades públicas estaduais do Rio de Janeiro está disciplinada pela Lei nº 5.346, de 11 de dezembro de 2008 (prorrogada pela Lei nº 8.121, de 27 de setembro de 2018) a qual estabelece cotas para negros, indígenas; estudantes da rede pública de ensino; pessoas portadoras de deficiência, nos termos da legislação em vigor; filhos de policiais civis e militares, bombeiros militares e inspetores de segurança e administração penitenciária, mortos ou incapacitados em razão do serviço.

afirmativo para o preenchimento de suas vagas.

A luta do Movimento Negro nesse contexto de adoção de ações afirmativas foi significativa para o fortalecimento da noção compensatória e de igualdade presente no estabelecimento de reserva de vagas nas instituições públicas de ensino superior. (ESPÍRITO SANTO, 2013)

A postura favorável das universidades na implementação das referidas ações afirmativas, antes mesmo da obrigatoriedade prevista na lei de cotas (ao todo 180 instituições públicas de ensino superior ofereciam algum tipo de programa de reserva de vagas), representou uma significativa resposta às suposições levantadas pela parte da população que considerava tal medida inconstitucional e discriminatória, à medida que trouxe resultados reais aos questionamentos trazidos acerca da utilização das cotas, principalmente no que diz respeito às cotas raciais.