2 ANÁLISE DA IMPLEMENTAÇÃO DO COMPONENTE CURRICULAR DE
2.3 Análise dos Resultados das Entrevistas
2.3.1 Implementação da proposta estadual de educação integral e do componente
estudantes para a política de educação integral e (iii) Metodologia do Estudo e o currículo de educação integral. Além disso, há uma seção específica de análise com os dados obtidos no questionário para os docentes.
2.3.1 Implementação da proposta estadual de educação integral e do componente curricular Metodologia do Estudo
Esta seção está organizada com o intuito de evidenciar como os elementos de organização do tempo e espaço se relacionam, nas escolas de educação integral, com a proposta de criação do componente Metodologia do Estudo. Essa relação já é estabelecida na própria implementação da política estadual de
educação integral. Iniciamos o estudo com o relato e a experiência dos entrevistados, relacionado com a implementação da política na rede estadual de ensino.
Retomamos a informação que os entrevistados, direta ou indiretamente, participaram da implantação em algum período do Programa, e estiveram mais próximos das ações do macrossistema, que delinearam o desenho da mesma. Assim, acredita-se que a percepção da implantação dessa política a partir dos atores responsáveis pela sua efetivação seja importante para traçar um entendimento mais coerente da participação dos mesmos em tal processo.
O ex-diretor do DEPPE começou a sua fala apontando a existência de entraves no período de implementação da educação integral no Amazonas que impactaram diretamente na organização dos tempos e espaços da proposta. Segundo o entrevistado, inicialmente, não havia projeto estabelecido pela Secretária Estadual de Educação. Para o ex-diretor, “havia escolas que estavam funcionando sem nenhuma legislação específica que respaldasse o seu processo, e nós fizemos na época um documento que foi a proposta pedagógica das escolas de educação integral” (EX-DIRETOR DO DEPPE, 2017).
A Escola Estadual Senador Petrônio Portela e a Escola Estadual Marcantonio Vilaça, ambas atendendo a alunos do ensino médio, foram as primeiras escolas a funcionarem com a jornada ampliada. Essas desenvolveram as suas atividades pedagógicas sem nenhuma orientação estadual específica, que direcionasse às ações administrativas e pedagógicas da escola, desde 2002, ano de implantação do projeto, até 2008, período que o CEE-AM regulamentou o Projeto das Escolas de Educação Integral.
Seguindo essa linha, a assessora pedagógica B também comentou sobre a ausência de orientação normativa no início da implementação das escolas em educação integral, bem como a necessidade de uma diretriz para essas escolas e da importância de sua implementação:
Inicialmente, o que eu percebi foi essa necessidade [referindo-se à proposta], além da questão de uma proposta que foi construída dentro desse processo de implantação, porque a proposta pedagógica foi feita junto com o processo de expansão das escolas
(ASSESSORA PEDAGÓGICA B, 2017)13.
13
Optamos por destacar em itálico o discurso dos entrevistados com o objetivo de diferenciá-los das demais citações utilizadas nesta dissertação.
Diante dessa necessidade, entendemos que ao pensar no desenho de uma política pública é importante que sejam considerados os momentos de decisões, o que Condé (2012) chama de “ciclo de políticas”, e dar voz a todos os atores envolvidos no processo. A respeito disso assinala o autor:
Um dos modelos de formulação de políticas públicas muito comum e originário da burocracia estatal é do tipo top/down ou “por cima”. Nesse caso, o principal problema envolve o que é esperado por que determina e a realidade local: o choque entre o centro e o local (CONDÉ, 2012, p. 92).
Ao associarmos os argumentos do autor às colocações dos entrevistados que, anteriormente, pontuaram que a implementação da política e sua expansão ocorreu a priori sem nenhum respaldo legal, diríamos que a implantação da política de educação integral e a elaboração do documento orientador ocorreram de forma concomitante, não contando com a participação ou consulta de todos os atores envolvidos no processo. O relato da assessora A evidenciou esse ponto:
o professor já trabalhava a metodologia com sugestão de atividades em Metodologia do Estudo, e após isso foi que a secretária veio a construir a proposta de Metodologia do Estudo, então, eu vejo isso assim, como um ponto negativo na rede estadual de ensino nas escolas educação integral, a proposta vir após a execução do trabalho do professor (ASSESSORA A, 2017).
Essa mesma situação é reforçada no posicionamento da assessora B ao afirmar que os professores não participaram efetivamente da formulação da proposta e sim do momento de sua validação. Ao se referir à proposta, ela enfatizou que:
o meu trabalho foi coordenando esse estudo, esse desenho dessas propostas, com a validação, dos professores e encaminhamento para o conselho [...] o processo de implantação aconteceu quando nós tivemos a devolutiva com a resolução do Conselho, aprovando a proposta, né? Reconhecendo e aprovando a proposta, nós convocamos todos os professores de anos iniciais e anos finais de metodologia para apresentação (ASSESSORA PEDAGÓGICA B, 2017).
Fica evidente nessa passagem que a participação dos professores não se deu no decurso de sua elaboração, mas tão somente no momento de validação da proposta, conforme apontam as frequências (Anexos A e B).
Os dados de pesquisa obtidos por meio dos questionários respondidos pelos professores reforçam essa ponderação. O gráfico abaixo evidencia um resultado expressivo: 72,9% dos entrevistados assinalaram que não participaram das decisões que envolveram a elaboração da proposta pedagógica de Metodologia do Estudo.
Gráfico 2 - Participação do docente na elaboração da Proposta Pedagógica de Metodologia do Estudo
Fonte: Gráfico elaborado pela autora (2017).
Evidenciamos a ausência da participação dos professores ou da esfera escolar na formulação do Programa como elemento importante de análise, na medida em que essas orientações são normativas, dando contorno efetivo às ações posteriores da educação integral.
A respeito disso, Condé (2012) afirma que cada ator opera com determinado recurso de poder, ou seja, em todas as etapas da formulação política, a participação ativa de cada sujeito deve ser considerada, a fim de que seus interesses, preferências e suas vozes sejam evidenciadas:
É visível a complexidade do processo de formulação. Um bom estudo preliminar facilita em muito a futura implementação, mas nem sempre ele é realizado. [...] Por isso, decidir reflete a capacidade dos formuladores em compreender o processo, suas restrições e os mecanismos de produção de alternativas. Sendo assim, como já deve ter ficado claro, o processo de formulação/desenho de políticas públicas nunca é meramente técnico: é também político, refletindo valores e estratégias de quem dele participa (CONDÉ, 2012, p.87).
13,5% 10,8% 0% 2,7% 72,9% Concordo totalmente Concordo parcialmente Não concordo, nem discordo Discordo parcialmente Discordo totalmente
Concordamos com o autor quanto à ideia de que a formulação da política é o momento em que ficam mais claras as preferências e os interesses dos atores no processo, ou seja, é preciso estabelecer momentos de discussão durante o desenho da política, ouvindo, sugerindo, debatendo, e tentando transformar um problema em alternativas de solução conduzidas por diferentes estratégias, tal como comentou a assessora pedagógica A:
Olha, é como eu te falei, esse componente ele já foi estendido pros anos iniciais e finais, ele já veio numa proposta que já tinha lá no ensino médio e já foi compulsoriamente trazido pro ensino fundamental. A gente deveria fazer uma discussão sobre a escola de educação integral para o ensino fundamental, esse componente, ele tem relevância? ouvir os professores, isso num debate que eu acho que os atores do processo são fundamentais para indicar. Olha, na época a gente não teve isso (ASSESSORA PEDAGÓGICA A, 2017).
Além dos desafios apresentados acima, outro elemento de análise, evidenciado no discurso dos entrevistados, diz respeito à relação direta do componente Metodologia de Ensino com o nível de ensino médio.
Nós tínhamos duas escolas de ensino médio, na época, que já foi no final do governo do Amazonino (Amazonino Mendes ex-governador) que foi implantado duas escolas de integral, exatamente o Petrônio Portela e o Marcoantônio Vilaça. Em vez de começar pela base, nós começamos pelo topo, começamos por cima [...] Nesse caso primeiro para o ensino médio depois é que veio para o fundamental, porque no caso as escolas que existiam eram a do ensino médio, e hoje em dia essas duas escolas ainda continuam exclusivamente com o ensino médio. Evidentemente, as outras escolas que foram aderindo ao programa da escola de educação integral, tinham que adquirir o material, ai sim, dependia de cada gerente. Cada gerência de ensino fundamental, de ensino médio tinha que solicitar a aquisição do material para atender as escolas (EX-DIRETOR DO DEPPE, 2017).
Esse é, portanto, um dado para pensar a implementação do componente curricular de Metodologia do Estudo no Ensino Fundamental. Inicialmente, vinculado ao ensino médio, o componente foi se fortalecendo na prática de educação integral do estado. À medida que a expansão dessa política foi consolidando, a oferta do ensino fundamental na modalidade integral aumentou, o caminho adotado foi implementar, também para esse nível de ensino, o componente que era o diferencial no currículo do estado.
2.3.2 Metodologia do Estudo e seleção dos estudantes para a política de educação