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Afirmações sobre a Aprendizagem da Matemática

Capítulo 8.- Implementação do Processo de Ensino e de Aprendizagem dos numerais decimais

Sabemos que os conhecimentos se formam, se forem construídos em interactividade com a interioridade de cada um com no confronto com os outros nas experiências e vivências proporcionadas no ambiente educativo, de maior ou menor formalidade. No que respeita ao tema dos numerais decimais, essas experiências terão que ter uma intencionalidade e uma formalidade identificadas previamente na planificação da acção, com preocupação explícita em seleccionar situações problema que façam surgir a necessidade da sua aprendizagem. No que respeita ao 1º CEB, há uma interligação entre as várias áreas, e dentro de cada área, e entre os vários temas de cada área, essa interligação é ainda mais forte que nos outros ciclos do sistema educativo. Os conhecimentos vão sendo construídos ao longo dos 4 anos, adaptando as suas características às diferentes fa ixas etárias, tornando-se subsidiárias as suas fases mais abstractas das mais concretas, sendo, aqui, bem aplicável a teoria Piagetiana, já atrás referida neste texto, segundo o qual as construções mais elaboradas mantêm vínculos parciais com as suas formas mais primitivas (cf. Piaget y Garcia, 1989), e que cada estádio é ao mesmo tempo um resultado das possibilidades abertas pelo anterior e uma

condição necessária para o seguinte. Aliás, cada estádio começa com uma reorganização, a outro nível, das principais aquisições que ocorreram nos estádios precedentes (cf. ibid). Assim sendo, e segundo Piaget, as construções mais primitivas estão integradas nas mais avançadas, mais no que respeita aos instrumentos e mecanismos de construção dos conhecimentos do que no que respeita a conteúdos e a estruturas

Como também refere Godino (1993), na sequência do seu discurso sobre a utilidade de uma teoria ecológica 74

“El locus o lugar de la realidad matemática es para White (1983) la tradición cultural, es decir, el continuum de conducta expresada por símbolos. Dentro del cuerpo de la cultura matemática ocurren acciones y reacciones entre los distintos elementos. e como refere White, (1983) "Un concepto reacciona sobre otros; las ideas se mezclan, se funden, forman nuevas síntesis" (Godino, 1993, http://www.ugr.es/local/jgodino)

8.1- Conexões evidenciadas

As actuais orientações para o currículo de da M (NCTM, 1991: 29-45) referem-se às conexões dizendo que o estudo da M deve proporcionar oportunidades para estabelecer conexões de tal forma que os alunos:

? estabeleçam conexões entre o conhecimento conceptual e o conhecimento processual;

? relacionem (umas com as outras) diferentes representações de conceitos ou de procedimentos;

? reconheçam relações entre diferentes tópicos da M;

? apliquem a M a outras áreas do currículo e;

? usem a M na vida quotidiana.

74

Conforme refere Godino (1993) “(...) pensamos que la metáfora ecológica, propuesta por Chevallard (1989) para el análisis didáctico y por Morin (1992) para las ideas en general, puede constituir un recurso de gran utilidad para comprender la génesis, el desarrollo y las funciones de los saberes matemáticos en las instituciones humanas. El análisis de la ecología institucional de un saber nos lleva a conocer sus habi- tats, o sea los "lugares" donde se encuentra, los objetos con los cuales entra en asociación, las estructuras de soporte y las funciones de estas interrelaciones, esto es, los nichos ecológicos de los saberes matemáti- cos (Godino 1993, http://www.ugr.es/local/jgodino)

Assim, a primeira questão desta parte do Inquérito aos professores, relativa à Implementação do Ensino e da Aprendizagem dos numerais decimais, aborda as “Conexões” que se podem evidenciar aquando da abordagem deste tópico.

Os resultados obtidos estão expressos no quadro 27 que se segue. Como pode ver-se pelo quadro, as três conexões mais pontuadas são, por ordem decrescente, “A abordagem dos conceitos matemáticos em causa tem necessariamente em conta outros conhecimentos previamente construídos pelos alunos”(74%), “Os conceitos matemáticos em causa surgem no seguimento da exploração de situações do dia a dia”(71%) e “A abordagem dos conceitos matemáticos em causa é feita com base nos pré-requisitos específicos necessários para a compreensão desses conceitos”(61%).

Sendo assim, pode-se concluir que estes professores parecem valorizar não só os conhecimentos que os alunos já têm como também a necessidade dos conhecimentos serem construídos em interligação com as vivências diárias, o que leva a crer que se preocupam com uma aprendizagem significativa.

Quadro 27- Respostas dos professores sobre as conexões que evidenciam no processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais

1 2 3 4

Conexões inerentes ao processo de ensino e de aprendizagem

dos numerais decimais fi Fri % fi Fri % fi Fri % fi Fri %

Total r a Os conceitos matemáticos em causa surgem no seguimento

da exploração doutras áreas disciplinares.

7 22 7 22 12 37 6 19 32

b Os conceitos matemáticos em causa surgem no seguimento da exploração de situações do dia a dia.

0 0 1 3 9 26 24 71 34

c Os conceitos matemáticos em causa surgem no seguimento da exploração doutros conceitos matemáticos.

2 6 4 12 13 39 14 42 33

d A abordagem dos conceitos matemáticos em causa é feita com base nos pré-requisitos específicos necessários para a compreensão desses conceitos.

2 6 3 9 8 24 20 61 33

e A abordagem dos conceitos matemáticos em causa tem necessariamente em conta outros conhecimentos previamente construídos pelos alunos.

0 0 2 6 6 19 23 74 31

Legenda: 1 – menos utilizada; 4 – mais utilizada; fi – frequência absoluta; Fri – frequência relativa; r – respostas.

8.2- Sequências Didácticas utilizadas

A segunda questão deste tema versa sobre as sequências que normalmente cada professor utiliza e tem como objectivo perceber que tipo de práticas são desenvolvidas na implementação do ensino e da aprendizagem dos Numerais Decimais.

Assim, conforme se pode observar no quadro 28, 19 destes professores (56%) dizem adoptar no processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais a sequência “O (A) Professor (a) propõe a resolução livre e efectiva de tarefas pelos alunos e aborda o respectivo conceito no seguimento dessa actividade”, enquanto 8 deles (24%) ainda optam pela proposta a) “ O (A) Professor (a) aborda, primeiro, determinado conceito, depois dá exemplos de aplicação desse conceito e, finalmente, propõe a resolução de tarefas pelos alunos”. As restantes respostas distribuem-se pelas propostas b) e c).

Quadro 28- Respostas dos professores sobre SEQUÊNCIAS DIDÁCTICAS utilizadas no

processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais

Sequências Didácticas utilizadas no processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais fi Fri %

a O (A) Professor (a) aborda, primeiro, determinado conceito, depois dá exemplos de aplicação desse conceito e, finalmente, propõe a resolução de tarefas pelos alunos.

8 24

b O (A) Professor (a), primeiro, dá exemplos de aplicação de determinado conceito, depois aborda-o nesse seguimento e, finalmente, propõe a resolução de tarefas pelos alunos.

4 12

c O (A) Professor (a) apresenta tarefas aos alunos, lidera a sua resolução e aborda o respectivo conceito nesse seguimento.

3 8

d O (A) Professor (a) propõe a resolução livre e efectiva de tarefas pelos alunos e aborda o respectivo conceito no seguimento dessa actividade.

19 56

Tal resultado, com o qual nos congratulamos, parece indiciar que os professores já começaram a estar conscientes da importância de que a abordagem dos assuntos não surja à parte da resolução efectiva de tarefas, preferencialmente problemas, pelos alunos.

No entanto, a complexidade do tema, quer no que diz respeito à epistemologia do objecto matemático, quer à construção dos significados pessoais (de alunos e professores) ligada à precária orientação dada pelos programas, à deficiente formação inicial e cont ínua dos professores nesta área, à superficialidade da abordagem levada a cabo pelos manuais, entre outros, que mais adiante veremos, levam- nos a recear que o tratamento deste tópico não esteja a ser devidamente valorizado pelos professores.

8.3- Tipos de Tarefas propostas

Com a questão 3 deste item (implementação) pretende-se recolher informação sobre as propostas de tarefas que os professores valorizam no processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais.

Assim, e pela análise do quadro 29 e gráfico 11, podemos concluir que as 3 tarefas mais valorizadas, segundo a opinião dos professores são “problemas/situações problemáticas (resolução de)” (27%), e ex aequo “problemas/situações problemáticas (formulação de)” (21%) e “tarefas com carácter exploratório/investigativo” (21%), o que pode levar a crer que, não fossem as questões que já atrás referimos relativas à não coincidência entre aquilo que os professores verbalizam fazer e o que realmente fazem, os professores pautam as suas práticas de construção da actividade matemática pela resolução e formulação de problemas e pelas actividades investigativas ou exploratórias.

Quadro 29- Respostas dos professores sobre o tipo de tarefas mais utilizadas no processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais

Tipos de Tarefas propostas no processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais

fi Fri

a exercícios 16 16

b questões 8 8

c problemas/situações problemáticas (resolução de) 27 27

d problemas/situações problemáticas (formulação de) 21 21

e composições matemáticas 7 7

f tarefas com carácter exploratório/investigativo 21 21

total 100 100%

Gráfico 11- Respostas dos professores sobre o tipo de tarefas mais utilizadas no ensino e na aprendizagem dos numerais decimais (%)

16 8 27 21 7 21 0 5 10 15 20 25 30 exercícios questões problemas/situações

problemáticas (resolução de)

problemas/situações

problemáticas (formulação de)

composições matemáticas

tarefas com carácter

exploratório/investigativ

o

Assim vistas as questões poderia pensar-se que, pelo menos no que se refere a considerações de carácter prescritivo, os professores estão dentro das orientações mais actuais para o ensino e aprendizagem da Matemática.

Atendendo ao quadro 30 e ao gráfico 12, nos quais se apresentam os resultados das respostas à questão sobre a forma como o professor organiza o trabalho dos alunos para a abordagem dos Numerais Decimais, pode-se observar que quase todas as formas de trabalho são valorizadas.

De facto, embora apareça em primeiro lugar o trabalho individual, referido por 32 professores (29%), seguido do “Trabalho cooperativo em pequeno grupo” (21%).As restantes formas de trabalho obtiveram pontuações muito próximas.

Quadro 30 - Respostas dos professores sobre a organização do trabalho dos alunos no processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais

Organização do trabalho dos alunos fi Fri %

a Trabalho individual 32 29

b Trabalho em pares 18 17

c Trabalho cooperativo em pequeno grupo 23 21

d Trabalho colaborativo em pequeno grupo 17 16

e Trabalho colectivo 18 17

total 108 100%

Gráfico 12- Respostas dos professores sobre a organização do trabalho dos alunos no processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais (%)

29 17 21 16 17 0 5 10 15 20 25 30 35 Trabalho individual Trabalho em pares Trabalho cooperativo em pequeno grupo Trabalho colaborativo em pequeno grupo Trabalho colectivo

8 5- Tipos de materiais utilizados

Sabemos, até por experiência própria, quão necessário é o uso e exploração de materiais manipuláveis na construção de conhecimentos, principalmente no que se refere à faixa etária sobre a qual recai o nosso estudo. Os programas actuais expressam- no desta

forma “as crianças são enormemente dependentes do ambiente e dos materiais à sua disposição” (ME, 1990: 127) já que os objectos da Matemática são entes abstractos, sendo “importante que os conceitos e relações a construir possam ter um suporte físico” (ibid). Assim, se a manipulação de materiais pode, por um lado, permitir a construção de conceitos, permite, por outro, a representação de modelos abstractos e uma melhor estruturação desses conceitos. No presente estudo, essa foi uma das grandes preocupações, conforme já expressámos atrás e voltaremos a fazê- lo através da apresentação e análise reflexiva da nossa proposta de co-construção de significados institucionais e pessoais relativos ao tema, explorando e manipulando materiais que criámos para esse efeito.

Sobre os materiais mais utilizados no processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais, foram as seguintes as respostas dos professores, conforme quadro 31 e gráfico abaixo 13.

Quadro 31 - Respostas dos professores sobre os tipos de materiais utilizados no processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais

Tipos de materiais utilizados fi Fri (%)

A Materiais não estruturados 31 12

B Papel e lápis 33 13

C Quadro e giz 36 15

D Fichas de trabalho 33 13

E Cartazes/ grelhas / tabelas 34 14

F Materiais didácticos manipuláveis 36 15

G Instrumentos de medida 28 11

H Modelos físicos 14 6

I Acetatos / transparências 2 1

J Diapositivos / diaporamas 1 0

K Filmes ( em cassettes vídeo) 1 0

l Programas / documentos informáticos 0 0

total 249 100%

Gráfico 13 –Respostas dos professores sobre os tipos de materiais utilizados no processo de ensino e de aprendizagem dos numerais decimais (%)

12 13 15 13 14 15 11 6 1 0 0 0 0 2 4 6 8 10 12 14 16

Mat não estruturados

Papel e lápis Quadro e giz

Fichas de trabalho

Cartazes/grelhas/tabelas Mat didáct manipuláveis

Instrumentos medida

Modelos físicos

Acetatos/transparências

Diapositivos/diaporamas

Filmes (casset vídeo)

Prog/docum informáticos

De entre os materiais mais utilizados pelos professores estão, principalmente, “Quadro e giz” (15%) e “Materiais didácticos manipuláveis”, em igualdade de pontuação, seguindo-se “cartazes/grelhas/tabelas” (14%), “ papel e lápis” e “fichas de trabalho”, ambos com 13%.

No entanto, sabemos que os materiais disponíveis para trabalhar este tema são diminutos e o seu acesso muito limitado. Por exemplo, o uso do material Cuisenaire, como já atrás referimos, poderia dar uma ajuda na construção das noções de décima e de centésima.

O material MAB (multibásico), partindo da unidade como sendo o cubo construído por 1000 cubos, que se pode decompor em 10, 100 e 1000 partes, representando cada uma, respectivamente a décima parte, a centésima e a milésima partes, é também um material adequado à exploração e construção desta ideia matemática. A sua manipulação e recurso, em atitude de maior autonomia, para “rechamar” as actividades com eles desenvo lvidas já se torna mais difícil, dado que a representação destes materiais não permite, pelo menos de forma intuitiva e rápida, a sua sobreposição de forma a concluir com evidência a relação entre a unidade e as ordens submúltiplas e as relações existentes entre estas.