2. Revisão Bibliográfica
2.1.2. Características do RB
2.1.2.4. Implicações ambientais
Segundo a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a indústria de alumínio está entre as atividades industriais mais poluentes do mundo (DONAIRE, 1995 apud SILVA FILHO; ALVES; DA MOTTA, 2007). Esta situação se deve em parte as enormes quantidades de RB geradas no Brasil e no mundo, que tendem somente a aumentar.
De maneira geral, os potenciais riscos do RB ao meio ambiente e as populações vizinhas às unidades fabris são devido à sua elevada alcalinidade e alta capacidade de troca iônica, o que segundo alguns autores, leva o RB a ser considerado tóxico (HIND et al., 1999; LI, 2001; COLLAZO et al., 2005 apud SILVA FILHO; ALVES; DA MOTTA, 2007). Entretanto, o RB não é considerado rejeito perigoso, ou tóxico, pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos EUA (ENVIRONMENTAL PROTECY AGENCY, 2011b). No Brasil, o RB é classificado pela NBR 10004/2004 como resíduo perigoso Classe I,
devido a sua alcalinidade (corrosividade) superior ao pH de 12,5, podendo atingir até 12,95 (RIBEIRO; MORELLI, 2008). Assim, internacionalmente não existe um consenso quanto à toxidade do RB, mesmo porque esta pode variar dependendo da localidade e/ou do processo.
Outro aspecto complicado de lidar é a presença, dependendo da região de extração da bauxita, de compostos tóxicos no RB. Estes podem ser provenientes de traços de elementos potencialmente perigosos como: arsênio (As), cádmio (Cd), cobre (Cu), cromo (Cr), chumbo (Pb), fósforo (P) e níquel (Ni) (BRUNORI et al., 2004). Segundo Bozkurt (2000) apud Chen et al. (2009), metais pesados que podem existir na forma de cloretos, sulfetos e fluoretos, em sua maior parte é tóxico, mutagênico e cancerígeno. Portanto, os resíduos que os contém devem ser tratados.
Eventualmente, outra inconveniência é a presença de traços de elementos radioativos, como rádio (Ra), tório (Th), urânio (U), e algumas terras raras, que dependendo da concentração podem emitir uma radiação considerável. Todavia, na maioria dos casos a radioatividade do RB é comparável aos solos mais radioativos, mas inferior a de cinzas volantes industriais, portanto,
encontrando-se dentro dos limites seguros (ENVIRONMENTAL PROTECY AGENCY, 2011a).
Outro fator ambientalmente relevante é o método utilizado para a disposição do RB, pois este determina a área de ocupação, e os riscos de infiltração e contaminação de corpos hídricos (lençóis freáticos e rios), assim como a segurança durante o manuseio do resíduo. Atualmente, existem diversos métodos de disposição do RB, porém os mais empregados consistem em acrescentar água ao RB para bombeá-lo por tubulações até o seu reservatório, onde o mesmo é secado, para diminuir o volume ocupado (SILVA FILHO; ALVES; DA MOTTA, 2007).
Contudo, caso a disposição de RB não seja adequada, isso poderá acarretar problemas, tais como (SILVA FILHO; ALVES; DA MOTTA, 2007): Contaminação das águas da superfície e subterrânea por NaOH, Fe, Al,
Contaminação de plantas, animais e seres humanos, caso haja contato direto com o resíduo.
Formação de nuvens de poeira alcalina, caso o vento carregue o pó de RB seco.
Impacto visual sobre uma extensa área.
Muito embora, os riscos relacionados à segura disposição do RB sejam conhecidos e, na maioria das vezes, prevenidos existem registros de acidentes envolvendo RB, que são sucintamente relatados:
Na antiga Iugoslávia, nas instalações em Kidricevo, foram utilizadas barragens como local de disposição do RB (SALOPEK; STRAZISAR, 1992 apud SILVA FILHO; ALVES; DA MOTTA, 2007). Logo, detectaram-se contaminações nas águas subterrâneas, atingindo valores de pH entre 8 e 11,5. Cidades próximas, também sofreram problemas como: contaminação do aqüífero, formação de nuvens de poeira e devastação da vegetação por chuvas alcalinas.
No Brasil, em 2003, houve um vazamento de RB na região de Barcarena - PA, que atingiu as nascentes do rio Murucupi. Em São Paulo - SP (2004) ocorreu um vazamento de cerca de 900 mil litros de RB, alcançando o córrego do Bugre e os rios Varzão e Pirajibu, na bacia do Rio Sorocaba. Este vazamento causou: o aumento nos teores de Al e Na; a água se tornou imprópria para consumo; e dano à fauna e flora (DE JESUS et al., 2004; CETESB, 2004; RONDON, 2004; apud SILVA FILHO; ALVES; DA MOTTA, 2007).
Na Jamaica, o depósito inadequado de RB causou uma contaminação de cerca de 2,0 x 108 m3 de águas subterrâneas. Águas superficiais afetadas, como o lago Moneague nas localidades de Mont Diablo, se tornaram impróprias, devido à elevada alcalinidade. Além disso, a população da Jamaica, que apresenta uma pré-disposição genética para a hipertensão, sofreu um agravamento destes casos pelo consumo de águas com altos níveis de Na (alcalina) (FERNANDEZ, 2005; JAMAICAN BAUXITE CASE, 2006 apud SILVA FILHO; ALVES; DA MOTTA, 2007).
Na Austrália, desde a década de 80 foram fabricados tijolos com o RB da refinaria de Kwinana. No entanto, em 2002 o Departamento de Saúde testou e rejeitou estes tijolos, pois estes eram feitos com RB contendo consideráveis quantidades de tório e urânio, de forma a emitir um nível de radioatividade acima do permitido para o ser humano (RED MUD PROJECT, 2011c).
Na Hungria, em outubro de 2010, houve o colapso da parede de uma represa utilizada como reservatório de RB, liberando 1,0 x 106 m3 de RB da refinaria de Ajka. Este vazamento se estendeu por uma vasta área inundando uma vila, onde causou a morte de 9 pessoas, feriu muitas outras e atingiu o rio Marcal, onde causou severos danos ecológicos, e posteriormente, mais diluído, o RB alcançou o rio Danúbio (RED MUD PROJECT, 2011d, BRITISH BROADCASTING CORPORATION, 2011).
Portanto, as implicações ambientais causadas pelo RB são decorrentes do seu grande volume de geração, alta alcalinidade e em casos específicos o teor de elementos potencialmente tóxicos. Apesar das medidas para remediar este problema serem excessivamente caras ou inviáveis, vêm se tornando crescente o número de trabalhos que investigam a uso de RB em aplicações sustentáveis. Enquanto que, outros estudos já bem desenvolvidos estão em prática, gerando produtos ambientalmente corretos.