1. AS TESSITURAS DE UMA IDENTIDADE – DELINEANDO
1.2 Implicações da divisão sexual do trabalho para o
Seguindo a lógica do efeito discursivo enquanto coadjuvante de algumas
determinações e representações sociais, dediquemo-nos a refletir acerca da
divisão sexual que se destaca diante das atividades de trabalho socialmente
diferenciadas entre homens e mulheres. Perrot (2007, p.119) assim define a
organização do universo do trabalho para ambos os sexos: “O duro para os
homens; o mole para as mulheres”.
Hahner (2003) traça um perfil dessa divisão nas camadas populares
urbanas afirmando que a maioria dos campos de trabalho era claramente
dicotômico e excludente: ora só masculino, ora só feminino:
Artesãos especializados trabalhavam como carpinteiros,
caiadores, pedreiros, marceneiros, tipógrafos, sopradores de
vidro, toneleiros e alfaiates – ocupações interditas às mulheres.
Estes homens encontravam-se acima dos porteiros, lavadores
de pratos e dos diaristas, como condutores de bonde e
carroceiros, e mesmo da mão-de-obra semi-especializada.[...]
Mas o serviço doméstico, um campo exclusivamente feminino,
constituía a maior fonte de emprego para as mulheres nas
áreas urbanas. Ao contrário da carpintaria ou da construção,
que eram ocupações exclusivamente masculinas, uma ou outra
manufatura especializada permanecia tarefa exclusiva de
mulheres. Não apenas estavam presentes em fábricas,
produzindo tecidos, meias, gravatas, calças, roupa íntima, fios,
cordas e estopa, mas também em inúmeras lojas de costura e
de produção de bordados, botões, chapéus e luvas.
Trabalhavam, ainda, em lojas de consertos de roupas e
lavanderias.
Enquanto as mulheres geralmente se empregavam em
trabalhos que podiam ser vistos como uma extensão das
tradicionais tarefas domésticas ou familiares, como a
preparação de comida e roupa, os homens transitavam numa
variedade mais ampla de emprego. (p. 208)
Como se observa, os trabalhos femininos geralmente relacionam-se com
atividades que poderiam ser vistas como uma extensão das tarefas familiares,
já os homens possuíam maior variedade de emprego para circular.
A imprensa ressalta com freqüência essa ‘necessidade’ de manter em
separado aquilo que é próprio aos homens, bem como aquilo que é próprio as
mulheres, destacando que a natureza de cada um determina aquilo que lhes
cabe fazer com perfeição:
Todavia achamos que embora a mulher tenha em certos
pontos os mesmos direitos que do Homem, ela foi feita para
tarefas diversas. Há funções que o homem não poderia
executar nunca com a perfeição da mulher. Como há funções
que ela não exerceria com a mesma habilidade do sexo
masculino [...] (DIÁRIO DA TARDE, 24 ago. 1931).
Scott (1993) recupera o momento em que a institucionalização de uma
identidade para trabalho feminino foi traçada, posicionando-a como um produto
de imaginários que segregavam o lar e o trabalho, bem como os sexos na
divisão de funções:
A identificação do trabalho feminino com certos tipos de
empregos e como mão-de-obra barata foi formalizada e
institucionalizada de várias maneiras durante o século XIX, de
tal modo que se tornou axiomática, uma questão de senso
comum. Até aqueles que procuravam mudar o estatuto do
trabalho feminino se viram na situação de ter de argumentar
contra o que era tido como ‘factos’ observáveis. Estes ‘factos’
não existiam objetivamente, mas eram produzidos por histórias
que sublinhavam os efeitos causais da separação entre lar e
trabalho, por teorias de economistas políticos e por
preferências de contratação dos empregadores que criavam
uma força de trabalho claramente segregada pelo sexo [...].
(p.454)
Diante do movimento de urbanização crescente, o processo de
industrialização constituiu-se como aspecto determinante na segregação dos
sexos na ocupação de postos de trabalho, demarcando algumas peculiaridades
que condiziam à mulher por sua suposta natureza frágil.
Dessa forma, delinear as representações do gênero feminino acaba
perpassando por discussões em que se confundem o ideal de retraimento e a
ousadia de buscar conquistar maior espaço social, especialmente no que diz
respeito ao mercado de trabalho. Entre um e outro ideal há a constatação da
formatação de profissões designadas a atender um público que deveria
essencialmente manter em conservação seus traços femininos.
“Como pano de fundo dessa história, há, de fato, as próprias
mulheres, suas aspirações e suas representações,
particularmente difíceis de conhecer, pois o discurso ideológico
recobre suas palavras, formata seu ser social e até mesmo
suas memórias. À primeira vista, o consentimento parece
suplantar a revolta: consentimento às expectativas tradicionais
que recusam às mulheres a competência, a autoridade e o
direito a todos os níveis de emprego. Uma certa inibição leva
as mulheres a isolarem-se nas ‘profissões femininas’, como em
um apanágio que lhes é deixado e que é o único que elas
podem ocupar sem remorso e sem perder a famosa
‘feminilidade’ que as torna desejáveis” (PERROT, 2005, p. 257)
A diversificação de atividades crescia à medida que a população
aumentava, abrangendo a área de serviços e a indústria, setores que poderiam
oferecer às mulheres ‘profissões femininas’.
Dentre as profissões mais ou menos valorizadas, que lhe exigiam mais
ou menos saber de trabalhadora, que lhe atribuíam papéis e tarefas diversas,
as mulheres assumiram postos de trabalhos diversos. Ganz (1997) recupera,
depois de consultar uma coluna de anúncios que ofertava possibilidades de
trabalho em um jornal de grande circulação no Estado do Paraná, uma rede de
ocupações vivenciadas pelas mulheres curitibanas na primeira metade do
século XX em paralelo ao sistema fabril:
Elas foram descritas atuando nos empregos domésticos,
livrarias, confeitarias, bares, lojas, salões, ateliers e escritórios.
Atividades que exigiam andanças pela cidade também eram
realizadas pelas mulheres na posição de leiteiras, floristas,
vendedoras de verduras ou de bilhetes de loterias. Atuavam
também como enfermeiras, parteiras e professoras. Algumas
chegavam até as faculdades, recebendo diploma em medicina,
engenharia, direito etc. (p. 95)
A adequação do universo feminino a determinadas funções que se
encontravam em expansão, tinham suas explicações fortemente ligadas a
traços entendidos como naturais às mulheres:
No ensino e na enfermagem considerava-se que as mulheres
exprimiam a sua natureza carinhosa; a dactilografia era
comparada a tocar piano; as tarefas de escritório ajustavam-se
supostamente à sua natureza submissa, à sua capacidade
para tolerar tarefas repetitivas e ao seu gosto pelo pormenor.
(SCOTT, 1993, p. 462)
Alguns recursos em evidência na modernidade, como as máquinas de
costura, bem como as máquinas de escrever, constituíram-se como um
diferencial para a organização da mão-de-obra feminina.
Perrot (2005), baseando-se em seu contexto europeu de análise,
destaca:
elas conservaram sua primazia na indústria têxtil (51%) e
reinam em maioria na indústria do vestuário (87%). Têxtil e
vestuário concentram então 73% das trabalhadoras; como a
confecção é praticada ainda amplamente em domicílio, as
‘operárias da agulha’ encarnam, aos olhos da opinião pública, o
estereótipo da operária” (p.155).
Considerando essa segregação de funções, ligadas aos dons naturais
inerentes ao sexo feminino, é compreensível o fato de que a concentração das
mulheres no setor industrial localize-se predominante no ramo têxtil e do
vestuário. Associação direta com os trabalhos manuais de costura, os quais
facilmente poderiam ser desenvolvidos em suas rotinas, ensinados até mesmo
por suas mães e avós, assim como decorrência da difusão do uso das
máquinas de costuras recém-modeladas por Isaac Singer
23.
Segundo Perrot (2007, p. 121) “a costura foi um imenso viveiro de
empregos, de ofícios, de qualificações para as mulheres e isso durante
séculos. Está ligada à importância do vestuário e da roupa íntima à nossa
cultura”.
Como ressalta Perrot, estaria definido a ‘estereótipo da operária’, com
possibilidades de adentrar ao universo do trabalho, restrita a uma função que
lhe permitiria trabalhar em seu lar, perto de sua família.
O apelo pela sensibilidade feminina e sua destreza manual, dentre
outras características próprias desse sexo, construídas por representações
sociais, permitem destacar o predomínio do romantismo sobre a capacidade e
superioridade em torno do potencial de trabalho da mulher.
sua postura normal é a escuta, a espera, o guardar as palavras
no fundo de si mesmas. Aceitar, conformar-se, obedecer,
submeter-se e calar-se. Pois este silêncio, imposto pela ordem
simbólica, não é somente o silêncio da fala, mas também o da
expressão, gestual ou escrituraria [...] O pudor é sua virtude, o
silêncio, sua honra, a ponto de se tornar uma segunda
natureza (PERROT, 2005, p. 10).
Ainda que se oportunize à mulher dedicar-se a profissões que auxiliem
na construção dessa ´segunda natureza´, seu distanciamento da família não
ocorrera, como bem pudemos observar anteriormente. Assim, a circulação pelo
universo do trabalho não significaria sempre uma ruptura do modelo de mulher
ligada às prendas domésticas e ao cuidado do lar.
Constata-se que mesmo que o discurso veiculado esteja em favor do
alargamento do campo de atuação da mulher na sociedade, o que ocorreu, na
prática, foi uma tentativa de associar suas funções domésticas à trabalhos
23
Isaac Singer, em 1851, fundou sua fábrica de máquinas de costuras, as quais dispunham de caráter mais prático de uso, uma vez que tomou alguns dos princípios já inventados anteriormente. (Informações retiradas do site atual da própria fábrica, o qual contém um
histórico da invenção desse equipamento). Disponível em
<http://www.singer.com.br/institucional/historia/primeiros_inventores_maquina_costura.asp> Acesso em 27 out 2010.