3 IMAGEM E INVISUALIDADE
3.1 IMPLICAÇÕES DA INVISUALIDADE
Segundo conceito médico, a maioria das pessoas a quem denominamos cegas distingue luz e escuridão ou percebe vultos: não há escuridão completa. “O diagnóstico de cegueira é, desta forma, fundamentalmente médico, e centra-se na capacidade visual apresentada pelo sujeito após a oferta de todos os tratamentos medicamentosos e cirúrgicos necessários, e das correções ópticas possíveis” (AMIRALIAN, 1997, p. 30). Um conceito mais específico de deficiência visual, sob parâmetros legais8 para cegueira, é o de uma acuidade visual igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; para baixa visão a acuidade visual está entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica.
De acordo com o último censo demográfico desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2000), estima-se que no Brasil, 14,5% da população total, são pessoas portadoras de algum tipo de incapacidade ou deficiência; ou seja, um total de 24,6 milhões de pessoas com alguma dificuldade de enxergar, ouvir, locomover-se ou alguma deficiência física ou mental. Desse total, mais de cinqüenta por cento são deficientes visuais. Para estas 16,6 milhões de pessoas com algum grau de deficiência visual, existem quase 148 mil que se declararam cegos. Segundo estudos feitos pela OMS (Organização Mundial de Saúde), a principal causa de cegueira no Brasil é a catarata, com aproximadamente 40% dos casos. Em seguida vem o glaucoma, com 15%, a retinopatia diabética com 7%, e a cegueira congênita com 6,4%.
Foi a partir do século XIX, com a criação do Instituto de Cegos de Paris, que a situação sócio-cultural dos cegos ganhou espaço, inicialmente na Europa e logo em seguida no mundo inteiro. Charles Barbier e Valentin Hauÿ adaptaram métodos táteis utilizados em treinamentos militares noturnos, para que os alunos desta escola pudessem aprender a ler e escrever. Um destes alunos, Louis Braille, cego desde os três anos de idade, sistematizou a técnica de escrita
8 Para a Organização Mundial de Saúde, cegos são os indivíduos que apresentam acuidade visual de 0 a 20/200 (enxergam a 20 pés de distância o que alguém com visão normal enxerga a 200 pés), ou ainda que tenham um ângulo visual restrito a 20° de amplitude. (VEJAM, 2009).
em relevo, chegando ao que conhecemos hoje. A técnica parte do relevo de seis pontos, dos quais é possível fazer 63 combinações diferentes que podem representar letras simples ou acentuadas, pontuações, números, sinais algébricos e, ainda, notas musicais (BORGES, in SILVA e VIZIM, 2003).
Passando de aluno a professor, Braille enfrentou cerca de vinte anos de resistência para ver aceita e oficializada esta forma de escrita, mesmo dentro do próprio Instituto. Como a escola era um modelo, recebendo alunos do mundo todo, isto facilitou a disseminação da técnica a nível mundial9. Mesmo sendo um processo relativamente caro e complexo, a transcrição da escrita para o Braille foi o grande diferencial no que se refere à inclusão social do cego, possibilitando o estudo para milhões de pessoas em todo o mundo, até então mantidas à margem do sistema educacional.
Mais recentemente, na década de 1970, marcada pela Guerra do Vietnã, milhares de norte-americanos mutilados, de retorno a seu país, pressionavam o governo com ações indenizatórias - ações que provocaram também um maior incentivo e investimentos em pesquisas para minimizar os problemas das deficiências físicas provocadas em conseqüência da guerra. Estes fatos trouxeram o desenvolvimento da tecnologia eletrônica, aparecendo novas possibilidades que revolucionariam a tecnologia Braille. Surgem então os terminais de vídeos para computadores com síntese de voz, as impressoras Braille, as transcrições por computador, entre outras inovações. Este modelo americano é seguido por outros países da Europa, que intensificaram investimentos em pesquisas, criação e produção de artefatos dirigidos a pessoas com deficiências (BORGES, in SILVA e VIZIM, 2003).
Segundo Hatwell e Amiralian, na ausência da visão, a apreensão do mundo externo é fragmentada, interferindo no desenvolvimento do sujeito, fazendo com que ele passe a estabelecer suas relações com o mundo através de um conjunto sensorial específico e a estruturar-se cognitivamente por meio de um processo perceptivo diverso dos que enxergam. Porém, existem diferenças entre aqueles indivíduos que nasceram cegos - e que por isso constituíram-se e estruturaram seu desenvolvimento a partir do tato, da audição e dos outros sentidos - daqueles que perderam a visão após alguns anos, tendo alguma estrutura já formada através da visualidade (HATWELL, 2003; AMIRALIAN, 1997). Ainda segundo Hatwell (2003), indivíduos com cegueira congênita ou com perda de visão antes dos 5 anos de idade possuem pouca ou nenhuma memória visual. Quando a perda ocorre posteriormente, ainda
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O poeta brasileiro Álvares de Azevedo, cego, tendo estudado neste Instituto, trouxe-a para o Brasil. Com o apoio de D. Pedro II, foi criada então, em 1858, a primeira escola para cegos do Brasil – o Instituto Benjamin Constant.
existe a possibilidade de alguma referência visual e coordenação neural, o que é considerada uma diferença significativa.
Caminhar, subir e descer escadas, passar pasta na escova de dentes, por exemplo, são atividades que exercemos automaticamente e que normalmente não necessitam de atenção: podemos nos concentrar em outras coisas ao mesmo tempo em que subimos uma escada ou caminhamos. Na ausência da visão, algumas destas atividades naturalmente automáticas encontram-se prejudicadas, havendo, em contrapartida, o aumento da necessidade de atenção para algumas tarefas simples do dia-a-dia. Segundo Hatwell (2003), não há necessariamente uma modificação dos limites sensoriais de acuidade na cegueira, mas um aumento de atenção para o que não é visual, como para o tato e a audição.
Como compensação sensorial, conforme as teorias que já fazem parte do senso comum, a falta do sentido da visão provoca a exploração por um melhor desempenho da percepção tátil e auditiva. Não devemos concluir, porém, que nesta reorganização cognitiva a compensação acarretará para os cegos uma apreensão das coisas da mesma maneira como fazem os que enxergam, ainda que por vias diferentes. A potencialização dos outros sentidos não é propriamente decorrente da ausência da visão apenas, mas de um redirecionamento da atenção para estes outros sentidos. Ou seja, na ausência da visão é preciso prestar mais atenção aos ruídos externos, aprender a distinguir pessoas pelas vozes, utilizar as sensações táteis dos pés para saber por onde se está andando, ou até mesmo, em certas atividades, ter a atenção focada em vários sentidos ao mesmo tempo (HATWELL, 2003).
Por outro lado, a percepção de propriedades como redondo, quadrado ou retangular, é igualmente possível ao tato (MILLAR, 1994). Traçando um paralelo entre o reconhecimento de formas tridimensionais pelo tato e pela visão, a autora afirma, por exemplo, que as mesmas qualidades descritivas podem ser aplicadas aos objetos quer se os reconheça tátil ou visualmente. Assim, bordas, vértices e a suavidade dos objetos esféricos são igualmente reconhecidos pelo tato, embora de maneira diferente daquela pela qual o olho registra estas propriedades. A diferença entre os dois processos perceptivos é que o tato depende da informação complementar obtida a partir da agudeza tátil, do movimento ativo e de sinais espaciais. Estas informações complementares variam em função do tamanho do objeto, da continuidade de estimulação, do modo de exploração, das demandas da tarefa e do conhecimento prévio sobre o objeto em questão. Visualmente se diferencia facilmente um objeto de outro, presente no mesmo campo visual, mesmo que sejam de mesmo tamanho. Para o tato isto é muito mais difícil, pois a informação complementar necessária para o reconhecimento da forma de um objeto frequentemente é muito diferente e depende do
tamanho, da composição, do tipo de tarefa (ativa ou passiva), e do tipo de exploração necessária, segundo Millar (1994).