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CAPÍTULO 1: CATEGORIA TRABALHO E AS

1.5 IMPLICAÇÕES DAS CRISES E DAS TRANSFORMAÇÕES DO

No decorrer deste capítulo, quando fizemos uma exposição sobre as transformações do mundo do trabalho ao longo do século XX já indicamos algumas mudanças que ocorreram na Educação neste período, agora entraremos de forma mais focalizada nesta questão, em especial no Brasil.

O início da Educação no Brasil é marcada pela influência da pedagogia católica, através dos “jesuítas, que, praticamente, exerceram monopólio da Educação até 1759, quando foram expulsos por Pombal” (SAVIANI, 1997b, p.102). A partir daí a educação brasileira começa a pautar-se no Iluminismo e à pedagogia inspirada no liberalismo clássico51, impulsionado pelos princípios da Revolução Francesa de “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”, constituindo-se no que atualmente se chama de “pedagogia Tradicional”.

A pedagogia Tradicional baseia-se na ideia de que a educação é direito de todos e dever do Estado. Surgiu no Séc. XIX com o objetivo de consolidar a burguesia que tinha acabado tomar o poder. Portanto, era necessário “transformar os súditos em cidadãos” para isso, era essencial superar a barreira da ignorância presente naquela época. Era primordial consolidar a ideia de que “todos são iguais perante a lei”, portanto, as antigas relações sociais entre servos e senhores feudais precisavam ser sepultadas. É importante ter a clareza que a burguesia foi durante muito tempo a classe revolucionária da sociedade. A educação chamada Tradicional, apesar de sua forma autoritária dentro da sala de aula, tinha a essência revolucionária ao buscar a educação para todos52 e ensinar os conhecimentos produzidos historicamente pela sociedade. Para esta concepção, os marginalizados da sociedade eram os ignorantes, os não instruídos. Estava aí o grande objetivo da educação, acabar com esta legião de “marginais” através do esclarecimento.

Esta pedagogia centrada no professor, que era o mestre detentor de todos os conhecimentos, organizou as escolas em formas de classes. A base da educação era o professor bem instruído, normalmente especializado em uma determinada área. A função dos alunos era

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As influências católicas não acabam nesse momento, pelo contrário, continuam influenciando a Educação nos dias atuais.

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Na sociedade anterior os conhecimentos mais elaborados ficavam essencialmente nas mãos da realeza e do clero.

reproduzir todos os ensinamentos do “instrutor” que estava a sua frente, a disciplina toma papel central na execução desta pedagogia, ao aluno cabe seguir as orientações do professor. A questão central aqui era Aprender.

Surge então outro problema, a sociedade instaurada está sustentada na ideia de igualdade e liberdade, no entanto a classe dominada começa a perceber através da educação que essa igualdade é apenas formal (só é encontrada na Lei) e começa a almejar uma igualdade real. Percebe também que a tal liberdade que dispõe, significa escolher para quem ela venderá a sua força de trabalho e qual produto irá consumir dentre os que cabem em seu orçamento. A classe que anteriormente era revolucionária e propagava que todos os Homens são iguais, acabou se consolidando no poder e foi mudando de discurso. Percebendo o rumo que as coisas estavam tomando, aumenta-se a crítica na pedagogia desenvolvida até então (SAVIANI, 1997a).

A escola no sistema capitalista de produção toma um rumo bem claro, a consolidação da “escola dualista”. De um lado temos a escola voltada para as classes dominantes, com aprofundamento dos conteúdos essenciais para gerir o sistema e ao mesmo tempo uma formação mais humanista, com línguas diversas, esportes, artes música, etc.; do outro lado temos a escola voltada para a classe trabalhadora, com o principal objetivo de instrumentalizar o futuro trabalhador para que este entre no mercado de trabalho minimamente qualificado53 (Saviani, 2004; Frigotto, 1996).

Vimos anteriormente que o trabalhador “ideal” durante o período taylorista/fordista de produção era um trabalhador fragmentado e especializado. Precisava ter um conhecimento satisfatório de parte do processo de produção e desempenhar bem a sua função, fazendo parte de um todo. Cada trabalhador se torna uma peça da engrenagem da fábrica muitas vezes efetuando movimentos repetitivos durante longos períodos. A escola precisa formar um trabalhador adequado às exigências do sistema, portanto, o paradigma taylorista/fordista entra com força nas escolas.

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A classe dominante busca Ensino Superior nas melhores Universidades que, no Brasil, são principalmente as públicas, enquanto que o estudante da classe trabalhadora é incentivado aos cursos técnicos de ensino médio ou profissionalizante. Ainda vemos atualmente um grande número de estudantes da classe trabalhadora recorrendo aos cursos superiores privados em uma das várias faculdades privadas (muitas vezes de qualidade duvidosa) que vem se proliferando no país.

Estas propostas eram adequadas para a educação de trabalhadores que executavam ao longo de sua vida social e produtiva, com pequenas variações, as mesmas tarefas e atribuições exigidas por processos técnicos de base rígida. Nesta perspectiva, era suficiente alguma escolaridade, curso de treinamento profissional e muita experiência, que combinavam o desenvolvimento de habilidades psicofísicas e condutas com algum conhecimento, apenas o necessário para o exercício da ocupação. Compreender os movimentos e os passos necessários a cada operação, memorizá-los e repeti-los em uma determinada sequência, demandava uma pedagogia que objetivasse a uniformidade de respostas para procedimentos padronizados, tanto no trabalho quanto na vida social, ambos regidos por padrões de desempenho que foram definidos como adequados ao longo do tempo (Kuenzer, 2005, p. 84).

Desta forma, a autora acima citada aponta que este paradigma fragmentou o trabalho pedagógico dentro da escola aflorando a dualidade da luta de classes no capitalismo. Ela destaca cinco fatores que aprofundam esta questão, são eles: a dualidade estrutural, uma escola para a classe trabalhadora e outra para a dominante; a

fragmentação curricular, dividindo o conhecimento em áreas e

disciplinas que trabalham de forma autônoma entre si e a teoria divorciada da prática; as estratégias tayloristas de formação de

professores, onde os professores passam por capacitações fragmentadas

por área de conhecimento sem que haja uma discussão da totalidade do trabalho pedagógico na escola; planos de cargos e salários, contratação de professores por jornadas de trabalho fazendo com que se dividam em diversos espaços e não criam um sentimento de pertencimento à escola;

a fragmentação dos pedagogos em distintas especialidades, criadas pelo

parecer 252/69 e reeditada pela LDB de 1996 (KUENZER, 2005). Encontramos na escola a mesma fragmentação que ocorria no processo de produção de mercadorias na indústria taylorista/fordista através das disciplinas específicas onde os professores trabalham, na maioria dos casos, de forma isolada sem conseguir articular com seus colegas a transmissão do conhecimento em sua totalidade, resultando

vários fragmentos que deveriam, no final, somarem-se na cabeça dos alunos para formar um todo. As políticas públicas reforçam cada vez mais esta fragmentação ao retirar os espaços de formação e debate pedagógico coletivos dos professores da escola, separando-os por disciplinas inclusive nos momentos de formação continuada. Resgataremos agora mais um dado da nossa pesquisa que evidencia esta questão.

Um dos campos de atuação do Sujeito 2 é uma creche da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis e identificamos que

a formação continuada proporcionada pela prefeitura acontece uma vez por mês entre os professores de Educação Física da rede. Nas creches também ocorrem paradas pedagógicas que, atualmente, são realizadas uma vez por mês. Em outro ano já foi uma a cada dois meses. No ensino fundamental essas “paradas pedagógicas” não são garantidas pela prefeitura, algumas escolas fazem mas os professores precisam “compensar” este dia em outro momento (sábados ou no período noturno) (Diário de Campo, 2012 p.16)

Destacamos que os professores de Educação Física da Rede Municipal de Florianópolis recebem formação continuada que é proporcionada pela Prefeitura, mas esta formação ainda é dividida por áreas de conhecimento, o que ratifica a afirmação de Kuenzer sobre as

estratégias tayloristas de formação de professores, onde os educadores

passam por capacitações fragmentadas por área de conhecimento sem que haja uma discussão da totalidade do trabalho pedagógico na escola. Isso ocorre principalmente no caso do ensino fundamental, onde os professores não tem uma garantia de paradas pedagógicas e, consequentemente, não existe um espaço institucionalizado para que os professores das várias disciplinas de uma escola debatam a práxis pedagógica e construam projetos interdisciplinares. Isso é no mínimo contraditório, já que os documentos54 de formação em voga

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Por exemplo podemos citar a Proposta Curricular da Prefeitura Municipal de Florianópolis de 2008. Para um aprofundamento do conteúdo da proposta indicamos o nosso Trabalho de Conclusão de Curso intitulado: PRESSUPOSTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS PRESENTES NA

invariavelmente defendem o trabalho interdisciplinar. Na educação infantil já ocorreu um avanço neste sentido já que os professores conseguiram, através da luta sindical, a garantia das paradas pedagógicas entre todos os profissionais da instituição. No caso da Educação Física ocorre ainda mais uma divisão dentro da formação continuada dentro da RME, existe uma formação para quem trabalha na educação infantil e outra para quem trabalha no ensino fundamental, inclusive o dia destinado à formação dos primeiros é diferente do dia da formação dos segundos, assim não ocorre relação entre os dois grupos.

Como vimos anteriormente o desenvolvimento da indústria taylorista/fordista chegou ao seu auge no período pós-segunda guerra mundial e a implementação do Estado de Bem Estar Social nos países centrais do capitalismo, mas chegou ao seu esgotamento com a crise de superprodução da década de 1970. Surge uma nova forma de organização do processo produtivo vindo do Japão e uma nova política macroeconômica se alastra pelo mundo, chegou a Era do toyotismo e do neoliberalismo. Com o desenvolvimento da microeletrônica e os avanços tecnológicos impulsionados pelo toyotismo, o que poderia ser uma grande oportunidade de liberação do Homem de grande parte do tempo necessário ao trabalho, no capitalismo toma a forma nefasta das demissões em massa. Ao invés de propiciar um maior tempo de “não trabalho” para os trabalhadores já empregados, ocorre à diminuição da quantidade de trabalhadores empregados e, concomitantemente, a intensificação da produtividade dos trabalhadores que continuaram empregados.

Faz-se necessário uma mudança nas propostas pedagógicas deste período para adequar o trabalhador para esta nova fase do desenvolvimento capitalista. O trabalhador agora precisa ser flexível para o trabalho em equipes dentro da indústria toyotista e precisa acessar uma gama maior de conhecimento para trabalhar em diferentes células da fábrica/empresa. Ao trabalhador exige-se uma formação inicial mais ampla em relação ao Fordismo e o constante aperfeiçoamento que vai ser prontamente atendido graças à ameaça constante do desemprego55.

PROPOSTA CURRICULAR DE 2008 DA SECRETARIA MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE FLORIANÓPOLIS: o caso da educação Física

55Aqui está o papel crucial que o chamado “exército de reserva” tem no processo de trabalho dos empregados. Fica o medo constante de ser demitido, já que existem muitos outros desempregados querendo uma vaga.

Surge então uma pedagogia que educa para a “empregabilidade56”, qual seja, a teoria do capital humano. A Educação passa a ser entendida como mais um elemento para valorização do capital e desempenho da economia dos países (Saviani, 2005).

Trata-se da formação de indivíduos cognitivamente adaptados à realidade social contemporânea: globalizada, tecnológica, informatizada, em constante transformação e determinada pelas necessidades imediatistas, pragmáticas e mutantes do mercado (ROSSLER, 2004, p.80).

Cada vez mais, a Educação volta-se para o mercado de trabalho, onde o trabalhador precisa ser criativo e “volátil” para poder sobreviver nesse mercado. Cada vez mais se edifica a figura do “profissional liberal” que sobrevive à base de trabalhos temporários e sem garantias de estabilidade e benefícios trabalhistas.

Na área da Educação Física, quando falamos de “profissional liberal que sobrevive à base de trabalhos temporários e sem garantias de estabilidade e benefícios trabalhistas”, logo pensamos no “Personal Trainer”. Este profissional costuma trabalhar por conta própria, atendendo “alunos/clientes” em diversos espaços, como academias, clubes, condomínios, espaços públicos, etc. Na maioria dos casos não possui um patrão e, portanto, ninguém assina sua carteira e muito menos paga direitos trabalhistas, como: férias, 13º salário, licença maternidade, licença para tratamento de doenças, etc. Se esse profissional sofrer algum acidente que o impossibilite de trabalhar, sua fonte de renda acaba. Este é o grande modelo do trabalhador liberal e empreendedor dentro da Educação Física que encontramos na nossa pesquisa, mas outro exemplo também nos chamou a atenção.

O Sujeito 1 também pode servir de exemplo para demonstrar este novo perfil do Profissional Liberal e Empreendedor dentro da área da Educação Física. Ele trabalha como professor e treinador de natação em clube de Florianópolis. Seu contrato com o clube é de “prestador de serviços” e tem a duração de 1 ano podendo ser renovado, sempre em períodos de 1 ano. “Todos os materiais utilizados para dar aulas o Sujeito 1 teve que comprar, gastou mais de R$600,00 antes de começar

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Já que não existe trabalho para todos, cabe ao trabalhador se qualificar para tornar-se “atraente” para o mercado de trabalho e ser contratado, ou seja, se o trabalhador não conseguir emprego a culpa é dele por não ter se qualificado.

a dar aulas. Os associados pagam R$22,00 e o Clube fica com 25% [desta taxa], fora a mensalidade [do clube]” (Diário de Campo, 2012 p. 03-04). Quando questionado sobre os direitos e benefícios pagos pelo clube o Sujeito 1 informou que “não recebe nada! Nem passe de ônibus! Não tem a carteira assinada. É uma prestação de serviço com contrato de 1 ano podendo ser renovado. Se houver quebra de contrato não tem nenhuma multa (ambas as partes)” (Diário de Campo, 2012 p. 06) Outra questão que chamou a atenção é que o Sujeito 1 afirmou que achava bom o fato de não haver multa caso houvesse quebra de contrato; assim, caso ele quisesse ir embora para outro emprego não seria obrigado a pagar multa, mas também entendia que o clube poderia manda-lo embora a qualquer momento e ele ficaria sem nenhuma renda. Um exemplo claro disso é um colega mais velho do Sujeito 1 “O João57 (outro professor) trabalha 9 anos aqui manhã, tarde e noite. Essas turmas da noite eram dele e tiraram de uma hora para outra. Parece que teve algum atrito com sócios [que também utilizam a piscina]" (Diário de Campo, 2012 p. 06).

Este exemplo nos mostra o perfil do “novo profissional” que o mercado de trabalho busca: um profissional “Empreendedor”, sem direitos trabalhistas, sem estabilidade garantida e que ainda tenha um capital inicial para investir. Este é o dito profissional com “Empregabilidade” no capitalismo de hoje.

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CAPÍTULO 2: AS REFORMAS DO ESTADO BRASILEIRO E AS