PARTE 3: EFEITOS DOS DISCURSOS DO ENEM
5.1 Implicações no modo de condução do ser estudante
Então por vários motivos, tanto por um motivo ligado ao fato do Brasil por ser um país
extremamente desigual ao entrar ao século XXI, teve que se preocupar com uma questão que é a questão da igualdade de oportunidades, da garantia de acesso da nossa população às riquezas, tem também de, ao mesmo tempo, de se preocupar com fato que nós vivemos em uma época em que a economia está baseada no conhecimento. O conhecimento talvez seja o maior instrumento de agregação de valor, sempre foi de uma certa forma, mas na nossa época ele ainda é mais forte, porque
ele tem um conteúdo de exigências que faz parte de toda a revolução que a internet produz, principalmente isso que nos espera que é o reino da internet das coisas, e daí porque, para nós, a gente ter no Brasil esse caminho de oportunidades com esse portal e agora com isso que se coloca para os estudantes do nosso país, nós temos certeza que isso significa uma mudança e uma mudança que vai ter efeitos a curto prazo, mas cujo (sic) os principais efeitos, aqueles que a gente vai ter quando perceber que não mais que 35% dos alunos que se formaram são os primeiros da sua família que cursaram ensino superior. Mas, quando nós percebemos são 50% e depois 75% e depois 100% de todos os alunos são os primeiros ou segundos ou terceiros, ou os quartos ou os quintos e é isso que nós queremos para o nosso país. Essa é a linha do caminho, do percurso que nós vamos ter de caminhar em direção a esse país Pátria Educadora. (Presidenta Dilma Rousseff, Edição 2016)
Sinto que precisamos de oportunidades, mas não quer dizer esperar elas, mas sim correr atrás e acreditar que podemos ter um futuro melhor. (Vieira, Escola 1, 2016)
Com os fragmentos ora destacados, retoma-se a discussão que os discursos do Enem estão imersos em relações que têm, como máxima, capturar o sujeito com apelo da oportunidade, da escolha. Os excertos denotam o quanto as relações na sociedade estão marcadas pela dinâmica que envolve os discursos da livre escolha, do empresariamento de si e da retórica da educação como salvação. A educação escolarizada subjetiva os sujeitos desse tempo por atender a resolução dos problemas sociais do país produzindo aprendizes, autogestores de suas próprias vidas, aprendentes ao longo da vida, como já discutido no capítulo anterior, pela identificação do fenômeno da educacionalização do social.
Esse discurso empreendedor e salvacionista da educação está inserido em uma racionalidade neoliberal de governo, afirma-se práticas e estratégias de governamentalidade neoliberal a partir da era da sociedade da aprendizagem. Viver nesse tempo, nessa era, demanda novas relações com os conhecimentos, o que se faz perceber a partir da centralidade da aprendizagem na contemporaneidade. A ênfase não está em aprender e produzir conhecimentos duráveis, mas o mais importante é estar em um constante processo de aprendizagem de conhecimentos úteis para vida, estimular os sujeitos a incorporar capacidades de aprender para governar a si mesmos. Essa nova relação, que está presente nos discursos do Enem, incita cada sujeito a se tornar o empresário de si mesmo, o parceiro do neoliberalismo – o Homo Oeconomicus, o aprendiz permanente – o Homo discentis. A máxima investir em si mesmo estabelece uma relação com a noção de aprendizagem – aprender a aprender, que atribui para cada um a preparação, o sucesso, o insucesso, a disciplina, a responsabilidade e a construção do conhecimento. Isso é o que se pretende discutir nessa parte do texto.
A sociedade da aprendizagem implica no modo de condução do ser estudante, e o discurso do Enem como estratégia interpela os sujeitos a esse novo perfil de eterno aprendente. O estudante aprendente permanente investe em si, nas suas habilidades e competências por atribuir para si a preparação para o certame como uma habilidade a ser desenvolvida. A captura pela oportunidade nos discursos do Enem mobiliza o estudante a um permanente processo de preparação. A oportunidade parece também estar relacionada com algo que em determinados momentos são criadas e precisam ser aproveitadas, por isso necessita estar apto. Vislumbra-se alguns fragmentos:
Percebe-se a ênfase no processo contínuo de aprendizagem, salienta-se sempre que a escola não é o único espaço de aprender e que o indivíduo é sujeito, é o promotor principal da própria aprendizagem. Ainda como argumentam “para o empresário de si mesmo, a decisão de aprender é semelhante à de um investidor, mais precisamente, um investimento em capital humano a partir do qual se espera obter um rendimento ou retorno” (SIMONS; MASSCHELEIN, 2008, p.98). É reconhecida a experiência da prática de investir: todo investimento pressupõe um retorno. Na direção do discurso do Enem, quem estiver preparado pode despreocupar-se, pode ter expectativas de benefício futuro, no caso o ingresso na universidade. Segundo Bauman (2007, p. 167) “precisamos da educação ao longo da vida para termos escolha. Mas precisamos dela ainda mais para preservar as condições que tornam essa escolha possível e a colocam a nosso alcance”. Seguem alguns excertos:
Só consegue entrar na universidade quem estuda, se esforça, se empenha de verdade e o vídeo deixa isso bem claro. (Jennifer, Escola 1, 2016)
Lutar, acho que cada pessoa tem que lutar por si, como se diz temos que aprender, infelizmente eu não nasci de família rica, mas enfim nunca vou ser rica do nada. Tenho que lutar por mim, tenho que aprender a pular obstáculos e seguir em frente. Acho que o ENEM é bem legal, mas poderia ser mais demonstrativo com as oportunidades, mas mesmo assim deixa claro que precisa de estudo. (Bruna, Escola 1, 2016) Todos que se esforçam, se dedicam, dão duro por algo, merecem uma oportunidade, pois se fizerem isso tudo, todo esse trabalho suado em vão, que motivação para continuar se esforçando eles vão ter? (Nanda, Escola 2, 2016)
Entrar para a universidade era o meu sonho, sim. Eu sabia que, para conseguir um bom resultado no Enem, eu precisava estar atualizada. Fiz o Enem e me inscrevi no Sisu e consegui me matricular no curso de Pedagogia. (Ana Paula Conceição Costa, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Edição 1 de 2013)
Aluno dedicado tá despreocupado. Tem vaga no SISU, Sistema unificado. (Manu Gavassi, Edição 3 de 2013)
Sinto um pouco de receio porque está chegando, mas é importante sabermos para
nos prepararmos. Estar bem preparado na hora e atingir o que quer. (Luiza,
Escola 1, 2016)
O Enem 2010 vem aí. Prepare-se. Inscrições apenas pela internet do dia 21 de junho a 9 de julho. (Edição 2010)
Eu pretendo, porque quero fazer medicina. Eu acho que como é um curso bem puxado, tenho que me dedicar a estudar mais em ciências da natureza, mesmo não tendo visto muita coisa. (Nanda, Escola 2, 2016)
Oportunidade está relacionada com o investimento, existe oportunidade para um modo de ser estudante, para aquele que se dedica, se esforça e se prepara, investe no seu capital humano. A oportunidade é essencial, mas parece ser uma relação de recompensa, para aquele estudante investidor e escolhedor. O estudante deve desenvolver habilidades e competências, estudar, se preparar.
Conforme os fragmentos destacados, percebe-se que o preparo não é restrito à realização da prova, é preciso estar sempre em processo de aprendizagem, viver e aprender e aprender a viver. Viver e aprender e aprender a viver, nesta sociedade, o aprender é estar vivo, ser e estar no mundo. O sujeito que não se disponibiliza à aprendizagem, descarta a possibilidade de uma experiência existencial, tamanha a força do discurso de estar no mundo preparado para ser parte dele e para fazer a diferença.
O discurso do Enem sustenta o perfil do estudante escolhedor e investidor, os investimentos educacionais produzem o sujeito aprendiz por toda vida, é o sujeito capaz de aproveitar as oportunidades oferecidas. Essa se apresenta como uma capacidade de escolha do sujeito, em que o eterno aprendiz possui o maior número de opções de escolhas de como investir, entre elas: no ingresso no ensino superior público, na educação profissional, no ensino superior privado, por meio de bolsa ou financiamento.
A aprendizagem ao longo da vida se constitui como um mecanismo de comercialização de mercadorias com ofertas de propostas educacionais, ao mesmo tempo em que a aprendizagem ao longo da vida também vem sendo uma mercadoria, instituindo o processo de privatização da aprendizagem (BALL, 2013). O papel do processo educativo na formação cultural do trabalhador é substituído pela competência em tomar decisões, ter iniciativa, premissa de disponibilidade.
O caminho existe, basta ter vontade. É só querer, se dedicar e estudar. Muitas portas abertas para você. Em todas as etapas da sua vida escolar. Vivendo e aprendendo, aprendendo a viver, com SISU, Sistema Unificado. Você escolhe o curso bem descansado. Conhecer o mundo e estudar de montão, O Ciência Sem Fronteiras é o futuro na mão. Falta grana para estudar e a vida mudar. O FIES chegou para facilitar. Cada porta que se abre é o futuro que nasce. Outra porta que se abre. É um jovem que cresce com o MEC e o Enem. Esse futuro já é seu também. (Edição 2014) Existem muitos programas que nos facilitam entrar na faculdade, basta se esforçar e ter força de vontade. (Ana, Escola 1, 2016)
O Enem, como política educacional reforça o discurso da meritocracia, da busca pelo investimento próprio, da privatização do sujeito na constituição do cidadão aprendente. Biesta (2013, p.37), argumenta que a principal problemática da nova linguagem da aprendizagem facilita “uma nova descrição do processo da educação em termos de uma transação econômica”, na qual o aprendente se transforma em um consumidor, “aquele que tem certas necessidades”, os docentes, os professores ou as instituições educacionais “são vistos como o provedor, isto é, aquele que existe para satisfazer as necessidades do aprendente” e ao mesmo tempo “a própria educação se torna uma mercadoria – uma coisa a ser fornecida ou entregue pelo professor ou pela instituição educação, e a ser consumida pelo aprendente”. No campo dos conhecimentos a serem desenvolvidos pela educação escolarizada há a primazia de subjetivar os sujeitos como empreendedores de si, em que a mercadoria é esse discurso.
O cidadão aprendente, nos discursos do Enem, passa a ser um consumidor dessas políticas educacionais, a decisão de escolha está no imaginário e na relação de mercado, os sujeitos são cooptados para o discurso das oportunidades. O investimento em capital humano passa a ser o que possibilita aproveitar as oportunidades, como uma capacidade de escolha de todas as classes e de todos. O direcionamento da racionalidade neoliberal, com base na livre escolha e empreendedorismo têm sustentado o discurso do Enem e os processos educacionais como mais uma opção de consumo.
O espaço de entrada na universidade é uma opção de consumo, de escolha. O discurso do Enem está mesmo mais centrado na perspectiva de que fazer um curso superior é uma necessidade para fazer parte desse novo mundo. Um mundo de quem pode escolher, de quem tem e sabe reconhecer uma oportunidade.
O discurso do Enem implica em um processo de flexibilização do conhecimento, como é apresentada nas enunciações como sendo a vantagem em realizar a avaliação internacional e como consequência o ingresso na universidade. A
A vantagem que deixa mais fácil que o vestibular, que tu podes te inscrever depois que sai o resultado. (Ryan, Escola 1, 2016)
E tem muita gente que não tira uma nota muito boa, e se inscreve para um curso qualquer e aí no meio do ano já que cursou algumas cadeiras, pode trocar para o curso que queria, essa é uma vantagem. (Bruna, Escola 1, 2016)
cultura da sociedade nos dias de hoje parece, precisamente, mais um ambiente para o processo de consumo constante de aprendizagem, do que aprendizagem em si, ‘um produto’ dessa aprendizagem de determinados conhecimentos.
O eterno aprendente está nessa busca que nunca cessa por aprender. Esse consumir aprendizagem sem parar atinge o indivíduo que não consegue conviver mais com a possibilidade de não aprender. Há uma demanda interna produzida subjetivamente para que o sujeito se alimente desse movimento de consumo de aprendizagem, pois a sensação de estar saciável não ocorre nunca. Uma lógica propícia em tempos de fluidez, na qual a durabilidade, a tradição, a conservação, a perpetuidade e o comprometimento são incompatíveis com uma sociedade que pretende estar sempre à frente do seu tempo.
O discurso do Enem que mobiliza o discurso do aprender ao longo da vida, também reconfigura o papel de destaque que o Ensino Superior teve até então. No processo de aprender ao longo da vida o mais importante é aprender como se aprende, como se pode aprender, onde se pode aprender. Logo essa agência formativa que é a universidade ganha outros contornos, disputa com outras agências o espaço-tempo de aprender, sofre um abalo em termos de legitimidade como um lugar sagrado da aprendizagem. O Ensino Superior não é também mais significado de um saber “superior” de destaque, mas sim mais um espaço de oportunidade.
O discurso do aprender permanente mobilizado pelo discurso do Enem produz novos sentidos e significados sobre a concepção de conhecimento, como aponta Silva (2002), ao se referir a esse momento como uma revolução, que está para além de um expressivo número de informações, de comunicações e de tecnologias. A revolução técnico-cultural se refere a uma revolução epistemológica, sobretudo a uma revolução cultural. As mudanças vivenciadas na sociedade têm profundos e radicais impactos nas percepções, nas maneiras de conceber e tratar as informações e nas formas de organizar, de produzir e de adquirir o conhecimento. Também são transformadas as noções de tempo e de espaço diante das diversas possibilidades proporcionadas pelas tecnologias da informação em procurar, tratar e armazenar informações para a constituição das aprendizagens. Assim, constitui-se uma revolução, mudança cultural nas concepções sobre o conhecimento (SILVA, 2002). O conhecimento se torna volátil, descartável, flexível, um consumo necessário, não somente pela questão da formação para o trabalho, mas como um modo de vida do cidadão em uma sociedade marcada pelos mecanismos de concorrência, o aprendente por toda vida.
Os sujeitos da sociedade contemporânea, o Homo Oeconomicus – empresário de si (FOUCAULT, 2008b) e o Cidadão Cosmopolita (POPKEWITZ, 2011), Homo discentis – aprendiz permanente (NOGUERA-RAMIREZ, 2009) funcionam como referência para os processos de subjetivação, produções necessárias nessa nova relação cultural do capitalismo com a competitividade, na contemporaneidade. A constituição desses tipos de sujeitos emerge da reorganização dos arranjos sociais, pelas mudanças nas relações de troca de mercadorias para as relações de concorrência. Essa nova relação cultural é baseada em ofertas que despertem no consumidor as necessidades, os desejos e as vontades humanas, pelo reforço da perspectiva da livre escolha do indivíduo.
Diante dessa incessante competitividade, as ofertas de serviços e bens devem constituir estratégias de sedução para os bons consumidores que vivem em constante desejo e permanente insatisfação na relação de consumo para competir. Em uma sociedade marcada pelos mecanismos de concorrência, o consumo é entendido como uma “função da concorrência e quem consome e dá a consumir mais e melhor mostra os sinais de poder competir mais e melhor, com os outros e até consigo mesmo” (VEIGA-NETO; 2013, p.4). O que se coloca em jogo nessa nova cultura de consumo é o desejo pela insatisfação para descartar e substituir, imposto pela instantaneidade, pela impermanência e pelo imediatismo, pela flexibilidade e pela performatividade. O indivíduo é impulsionado pela máxima da aprendizagem, em que cada relação com alguma coisa ou com alguém significa uma “oportunidade” de aprender e, assim, capacitar-se para algo ou para alguém.
O consumo como função da concorrência para competir produz uma cultura de ofertas educacionais, “como parte da busca por novos ‘mercados’ e da reorientação para os consumidores, estão sendo criadas novas formas de ‘entrega’ e consumo de educação” (BALL, 2013; p.152). Essa forma de consumo da educação inscreve estudantes-consumidores-investidores de processos educativos, reforça a ideia de que o conhecimento é uma mercadoria que pode ser convertida em credenciais que possibilitam colocar os sujeitos em condições de concorrência e competitividade. Esse entendimento parece ser reforçado no excerto a seguir:
E também outra coisa, na “Hora do Enem” nós vamos mostrar os melhores Campi
Universitários, os melhores cursos, os casos de sucesso dos estudantes que entraram, para vocês ficarem com água na boca e quererem estudar, estudar e estudar, pode até namorar, mas só depois que estudou muito, para a gente ter realmente um salto
A competição por meio dos estímulos ao sucesso fomenta a necessidade de um sistema de classificação constante dos indivíduos, tomando como ponto de referência seu desenvolvimento comparado com o dos demais estudantes. Por meio da comparação dos casos de sucesso, estimula-se a concorrência e a competição em caráter individual e no âmbito social, que possibilita melhorar a qualidade da aprendizagem no país. Os investimentos educacionais e a relação com os conhecimentos para sua máxima utilização produzem efeitos de responsabilização nos sujeitos. Os estudantes são responsáveis pelo sucesso individual e do país, definido como capacidade de competir para ocupar as melhores posições. Esses efeitos de responsabilização produzido pelo discurso do Enem sustenta o movimento “educação baseada em evidências” que vem influenciando a produção de políticas educacionais desde os anos de 1990, conforme já discutido no capítulo 3 desta tese.
Os discursos do Enem funcionam como estratégia ao estímulo à cultura do desempenho e do empreendedorismo. “O esforço está agora nas mãos dos aprendentes autônomos, que são continuamente envolvidos no autoaperfeiçoamento e prontos para as incertezas que operam durante o trabalho nas comunidades de aprendizagem” (POPKEWITZ; OLSSON; PETERSSON, 2009, p.82). A aquisição do conhecimento com ênfase na aprendizagem passa a determinar o sucesso e o fracasso dos sujeitos, sendo que a escolarização implica em uma posição social de consumidor-investidor de novas oportunidades de satisfação. De tal forma que o sujeito atribui para si o sucesso, e sente a necessidade de ser considerado o caso de sucesso, como aquele que alcança seus objetivos, se destaca, é o exemplo a ser seguido, tem futuro melhor, orgulho da família, tem a capacidade de escolher. Segue algumas enunciações:
No vídeo fala que é só querer, se dedicar e estudar, e eu concordo com isso, pois se você tiver determinação, um sonho, você alcança seus objetivos. (Alastair, Escola 1, 2016)
Sim, devemos estudar bastante para se destacar. (Jeje, Escola 2, 2016)
Estou estudando mais por mim para ter um futuro melhor, ser alguém na vida. Quero ter uma vida boa, então eu acho que é esse meu objetivo. Então acho que temos que ingressar numa faculdade, para ter mais oportunidades. (Nanda, Escola 2, 2016) Eu nasci sabendo que tinha que fazer uma faculdade, a família sempre disse que tinha que fazer. As vezes tenho dúvida sobre o curso, e aí eu lembrava que minha família quer que eu faça, então eu tenho que fazer. (Hellen, Escola 2, 2016)
Ao problematizar os fragmentos destacados é possível identificar nas falas dos estudantes os processos de subjetivação que instituem um perfil empreendedor aos sujeitos indivíduos-microempresas-empreendedores. É “um tipo de governamentalidade que busca programá-los e controlá-los em suas formas de agir, de sentir, de pensar e de situar-se diante de si mesmos, da vida que levam e do mundo em que vivem” (GADELHA, 2009, p. 151). A partir de um conjunto de tecnologias estratégicas produzidos nas mídias, nas redes sociais, campanhas publicitárias e etc., essa governamentabilidade conduz “os indivíduos a modificarem a percepção que têm de suas escolhas e atitudes referentes às suas próprias vidas e às de seus pares, de modo a que estabeleçam cada vez mais entre si relações de concorrência” (GADELHA, 2009, p. 151).
Como coloca Popkewitz, Olsson e Petersson (2009), a razão governamental neoliberal assume a responsabilidade de aprendizagem por toda vida com o objetivo de destituir as fronteiras existentes em todas as áreas políticas de governo e constituir uma educação democrática e solidária. O pensamento dos autores também aponta que na “razão pedagógica espera-se o alargamento e o reforço da solidariedade na sociedade. A governamentalidade ordena e controla o futuro no presente, ao qualificar e preparar o cidadão individual, dispondo-o para novos compromissos cosmopolitas” (p.82).
Ainda segundo os autores Popkewitz, Olsson e Petersson (2009), “o futuro funciona como uma prática de governamento” (p.80). O futuro, na sociedade atual, não é pensado como um tempo a ser esperado. O futuro aparece como um devir, vive- se em um constante presente. “Esse futuro não é algo decretado pelo destino e alheio às nossas próprias atividades. Tampouco é um futuro de espaços estranhos ou inesperados contra os quais deveríamos lutar. É um futuro mobilizado para a formatação das pessoas no presente” (POPKEWITZ; OLSSON; PETERSSON, 2009; p.80). A formação dos sujeitos em aprendiz por toda vida configura retornos futuros, uma forma de garantir o futuro, não como longo prazo e atendendo às expectativas profissionais constituídas durante a vida ou a realização de um “sonho profissional”.